Notas iniciais
Agradeço aos comentários e favoritos. Boa leitura!

— Que verdade é essa que você quer nos contar, filha? — questionou Victor, sorridente e curioso.

Regina a encarava, o coração quase saindo pela boca e os olhos suplicando para que Emma não fizesse o que ela estava imaginando. Com o olhar concentrado em Regina, Emma respirou fundo e fez menção de falar, mas antes que o fizesse, Ruby derrubou sua taça de vinho propositalmente em cima da mesa, atraindo a atenção de todos para ela.

— Oh, céus! Desculpem! — disse ela, inclinando o corpo enquanto tentava limpar a toalha com um guardanapo.

— Não se preocupe, Ruby, derramar uma taça de vinho em um jantar é sinal de sorte — Victor explicou de forma divertida. — Não sei o que minha filha pretendia falar, mas seja lá o que for, certamente é coisa boa — acrescentou, e todos os convidados sorriram, exceto Regina.

— Eu só queria dizer que… — começou ela, um nó se formando na garganta. — Meu pai é um homem de sorte por ter alguém como a senhorita Mills ao seu lado — Emma engoliu em seco, respirando fundo, mas de maneira irregular enquanto olhava nos olhos dela.

À beira das lágrimas, Regina testemunhou os lindos lábios dela formarem um dos sorrisos mais tristes que ela já tinha visto. Ela se contraiu, abalada, sentindo um lampejo de dor atravessar o seu peito enquanto usava o que ainda restava de suas forças para não desabar.

Poucos minutos após o jantar ser servido, Emma pediu licença e se levantou.

— Nós vamos lá fora conversar um pouco — disse Ruby, na tentativa de mascarar a tensão.

Embora estranhasse o comportamento da filha, Victor não deu muita importância e continuou a falar sobre os preparativos do casamento.

— Você tá indo embora? — Ruby perguntou, alcançando-a rapidamente.

— Sim…essa festa está uma merda mesmo e eu não suporto ficar aqui nenhum minuto mais. Na verdade, foi um erro ter vindo.

— Realmente…você estava prestes a dizer na frente de todo mundo o que aconteceu entre você e a senhorita Mills.

— Eu não ia dizer isso.

— Tem certeza?

— Esse casamento é uma mentira.

— Isso não é da sua conta, Emma. Se ela está decidida a se casar com ele, você não pode fazer absolutamente nada. Gritar aos quatro cantos do mundo que você e ela tiveram um caso só vai fazê-la te odiar.

— Eu vou para casa. Preciso ficar sozinha.

— Tudo bem…direi ao seu pai que você não estava se sentindo bem e foi embora.

— Obrigada, Ruby.

Como um fantasma evaporando no ar, Emma desapareceu em cima de sua moto. Quando Ruby avisou que Emma havia ido embora, Regina sentiu um alívio em seu peito, mas, ao mesmo tempo, um vazio indescritível.

— Por um momento eu pensei que ela fosse revelar o que havia acontecido entre vocês — comentou Mary, aproveitando que Victor se encontrava distraído.

— Eu também pensei — murmurou Regina, suspirando em seguida.

— Amiga…você está apaixonada por Emma mas vai se casar com o pai dela. Não faz sentido isso, Regina. Sério, pare e pense no que está prestes a fazer.

— Você sabe perfeitamente a razão pela qual me casarei com ele.

— Sim, eu sei. Mas você está sacrificando duas felicidades por causa de uma.

— Eu não suportaria o remorso, Mary. Abandoná-lo num momento difícil para ficar com a filha dele…meu Deus, não sou capaz.

O silêncio pairou sobre elas quando Victor se aproximou. Regina tolerou alguns minutos mais de trocas de amenidades com os amigos do futuro marido que ela sequer conhecia, e que nem tinha interesse em conhecer. Em seguida, os convidados foram se despedindo e apesar de Victor insistir para ir deixá-la em casa, ela recusou a gentileza e tomou um táxi.

Com os olhos cheios de lágrimas, Regina apoiou a cabeça na janela do táxi e fechou os olhos enquanto a expressão magoada de Emma passava por sua mente. Ela só percebeu que havia chegado quando o taxista lhe chamou. Depois de pagar a corrida, ela desceu, atravessou a portaria e pegou o elevador. Quando finalmente entrou em seu apartamento, ela atirou a bolsa em um canto qualquer e se jogou no sofá. Com a vista turva e a mente girando sem controle, ela tentava convencer a si mesma de que se casar com Victor seria a coisa certa a se fazer.

[…]

— Como assim você não estará presente no meu casamento, Emma? — indagou Victor, num misto de choque e surpresa.

— Estou com problemas pessoais e preciso ficar um tempo sozinha, papai.

— Porque não se abre comigo e me diz o que está acontecendo?

— Estou apaixonada por alguém e não sou correspondida.

— Está falando de Ruby?

— Sim — disse ela, embora um outro nome estivesse na ponta da sua língua.

— Achei que vocês estivessem bem…

— Eu também achei isso. Mas de repente ela me largou e voltou para o namorado — ela revelou, balançando a cabeça enquanto sorria da situação.

— Eu sinto muito, querida. Mas não acho que deixar a cidade é a solução. Além disso, você vai perder o último ano na universidade — disse ele, com a preocupação estampada no rosto.

Naquele momento, Emma não se importava com aquelas verdades, afinal, ela sabia perfeitamente que deixar a cidade não tiraria Regina da sua cabeça. No entanto, precisava dar o fora e se afastar da presença dela o mais rápido possível, caso contrário, cometeria uma loucura.

— Preciso de um tempo longe daqui, papai. Sinto muito não poder ficar para o seu casamento.

— Não se preocupe…o importante é que você fique bem. Além disso, será uma cerimônia bem íntima.

Naquela mesma manhã, Emma arrumou suas malas porque no final da tarde pegaria um voo direto para o Havaí. Não pretendia deixar o país, mas necessitava se afastar daquele frio que só aumentava seu desejo de estar perto de Regina.

— Caramba, Emma…não acredito que você vai mesmo embora — dizia Ruby, após se desvencilhar do abraço dela.

— Relaxa que eu não estou indo para a guerra.

— Você sabe que isso não vai adiantar, não sabe?

— Sim, eu sei. Mas eu preciso sumir do mapa por um tempo ou serei capaz de arruinar o casamento do meu pai.

— É. Talvez se afastar por um tempo seja melhor.

— Bom, nos vemos daqui a alguns meses. Ah, e eu disse ao meu pai que a causadora de tudo isso era você.

— Claro, e quem mais seria?!

Sorrindo, Emma se despediu da amiga com um abraço e voltou para casa. Victor já a esperava para acompanhá-la até o aeroporto. Assim que fez o checking, ela deu um abraço no pai e se dirigiu à sala de embarque, os olhos cheios de lágrimas.

Alguns dias depois…

O vestido era simples, e ao mesmo tempo elegante e discreto. Ao lado de sua melhor amiga, Regina dava uma última olhadela diante do espelho antes de descer ao jardim onde seria realizada a cerimônia de seu casamento com Victor.

— Você está linda, amiga — disse Mary, segurando-lhe as mãos.

— Obrigada — murmurou Regina, deixando escapar um longo suspiro.

— Vai dar tudo certo, amiga. Sei que está nervosa por causa de Emma…

— Ela não virá — Regina a interrompeu.

Mary não pareceu surpresa. E a ausência de Emma no casamento do próprio pai era mais uma prova de que aquela decisão tomada por Regina só traria infelicidade aos três.

— Talvez seja melhor assim…uma preocupação a menos, não?

— Tem razão — disse ela, e em seguida, se dirigiu ao jardim onde Victor e os convidados já a esperavam.

Finalmente Victor pôde conhecer pessoalmente sua sogra, Cora Mills. Embora estivesse muito interessado na conversa que ela conduzia, Victor subitamente a interrompeu quando Regina surgiu de repente, tão bonita quanto àquela manhã de sol da qual se iniciava a primavera. Depois de pedir licença, ele caminhou ao encontro dela e lhe ofereceu o braço, conduzindo-a até o altar onde o reverendo esperava. Entre aplausos e sorrisos, Regina estava prestes a formar o laço que mudaria a sua vida para sempre.

[…]

— Sim. Essa foi a resposta dela.

Emma estava tão concentrada no que Ruby acabara de dizer que quase não notou quando o garçom colocou em cima da mesa, o suco e a água que ela havia pedido.

— Emma? Alô? — murmurou Ruby, quando o silêncio pairou na linha entre elas.

— Tenho que desligar, Ruby. Obrigada.

— Fica bem, Emma…e saiba que pode contar comigo em qualquer momento.

— Sim, eu sei e te agradeço por isso. Adeus, Ruby — dito isso, ela encerrou a ligação.

Depois de abrir a carteira e deixar uma nota de 20 dólares sobre a mesa sem ao menos tocar no que lhe fora trazido, Emma desceu as escadas que conduzia até a praia e sem pensar duas vezes, atirou o telefone celular no mar. O aparelho desapareceu sob as águas azuis cristalinas enquanto ela tentava conter as lágrimas. Não queria mais nenhuma notícia relacionada a Regina, muito menos os conselhos de Ruby sobre os seus atos destrutivos. Seu único desejo consistia em se isolar de tudo e de todos por um longo tempo. Uma dor quase insuportável se alojava em seu coração enquanto as imagens do belo rosto de Regina passavam por sua cabeça. E ainda que tentasse, Emma não conseguia odiá-la, nem pretendia, embora a dor parecesse querer se converter em raiva. Perdendo-se na imensidão azul do mar à sua frente, Emma prometeu a si mesma que de Regina esqueceria.

[…]

Dois meses depois…

— Talvez seja uma pergunta idiota, mas como é que vai a sua vida de casada? — indagou Mary, dando uma olhada rápida no cardápio.

— Victor é um homem paciente e compreensivo.

— Não foi isso que eu perguntei, Regina.

— O que você quer que eu diga, Mary? Que eu sou a mulher mais feliz do mundo? Não, eu não sou e você sabe disso.

— Desculpa, amiga. Eu…

— Tudo bem, Mary — disse ela, suspirando em seguida.

— Bom…e como ele está?

— Está bem. As vezes nem parece que está doente.

Estreitando os olhos como os de uma cobra, Mary fez menção de dizer alguma coisa, mas a chegada do garçom afastou as palavras de sua boca. Depois de fazer o pedido, ela pensou em retomar a conversa, no entanto, decidiu esquecê-la e focar somente no motivo pelo qual se encontrava naquele restaurante com sua melhor amiga.

— Estou muito feliz por você ter aceitado o cargo de reitora na universidade. Você merece, Regina!

— Obrigada, Mary. Não sei o que seria de mim sem você — ela falou, estendendo a mão para a amiga, grata por ela estar ali.

O sorriso de Regina foi correspondente ao de Mary. Suas emoções continuavam divididas entre as circunstâncias que a levaram a se casar com Victor, e a felicidade pelo grande avanço na sua carreira como educadora e agora, reitora de uma das mais renomadas universidades privadas de Boston. Sentia-se abençoada por tê-la como amiga, como a irmã que nunca tivera. Embora seu relacionamento com sua mãe fosse bastante saudável, a distância entre elas acabou criando uma barreira que Regina não conseguia derrubar. Assim que ingressou na universidade, Regina recebeu a notícia de que sua mãe viajaria para a Inglaterra com o propósito de concluir sua tese de doutorado, mas nunca imaginou que uma viagem de poucas semanas se converteria em meses, e posteriormente em anos. Anos de ausência, de ligações rápidas, de minúsculas mensagens de texto. Como se estivesse lendo a mente dela, Mary segurou a sua mão com delicadeza e ao mesmo tempo firme, os olhos se abrandando com compaixão.

— Você é como uma irmã para mim, e eu sou muito grata por ter você em minha vida.

Dessa vez, Regina não conteve a emoção. A tristeza tomou os olhos de Mary quando viu a amiga chorar. Ignorando os olhares curiosos, Mary se levantou e puxou uma cadeira sentando-se ao lado dela. Por alguns minutos elas ficaram em silêncio, sabendo que não havia nada mais a ser dito. Antes de voltar para o seu lugar, Mary secou as lágrimas, tanto as suas quanto as de Regina, e para o alívio de ambas, o garçom chegou trazendo consigo os pedidos.

— Quero fazer um brinde — disse Regina, após saborear a deliciosa lagosta ao champanhe com arroz pilaf. — Um brinde a nossa amizade — acrescentou, erguendo sua taça.

— À nossa amizade, e ao seu novo cargo de reitora — Mary falou, encostando sua taça na dela.

Foi então que o barulho de algo se espatifando no chão atraiu a atenção de todos os clientes até a mesa onde elas estavam. Para Regina, o mundo pareceu parar quando seu olhar encontrou o de Emma. Mais uma vez, a atração inegável entre elas se fez evidente, embora passasse despercebida por qualquer outra pessoa que não as conhecesse. Seus olhos a percorreram dos pés à cabeça. Ela usava um terno feminino preto que delineava o corpo malhado, e os longos cabelos dourados estavam presos em um rabo de cavalo. Ainda que de longe, Regina notou que Emma estava diferente. Parecia mais madura, mais séria. A ausência dos jeans rasgados que ela costumava usar lhe chamou a atenção, mas não tanto quanto a linda mulher com quem ela estava acompanhada.