Notas iniciais
Sei que o drama tá foda, mas faz parte da história e uma hora há de acabar. Boa leitura e obrigada pelos comentários e favoritos.

Com o choque estampado no rosto, Regina parecia petrificada dentro do veículo, os nós dos dedos brancos em torno do volante que ela segurava com tanta força como se sua vida dependesse daquilo. Ela olhava para Emma de braços cruzados, diante do seu carro, sem se importar com a chuva fina que caía. Ciente de que não havia mais como evitar aquele encontro, ela reuniu coragem, se recompôs e desceu do automóvel.

— Você está louca? Eu poderia ter matado você — disse Regina, trêmula não apenas pelo quase acidente que Emma poderia ter provocado com aquela atitude, mas também por causa do encontro que ela lutou tanto para evitar.

— Você não precisa me atropelar para me matar, Regina — Emma falou, dando um passo à frente. — Você já está me matando com as suas mentiras.

Emma observou Regina olhar em volta da estrada, olhando para tudo quanto é lugar, menos para ela. Embora Regina lhe tivesse arrancado a alma do corpo, não tocá-la não era uma opção e aproximando-se com a rapidez de uma fera atacando sua presa, Emma lhe prendeu o corpo entre os braços.

— Diga que nada do que aconteceu entre nós foi mentira — Emma sussurrou, agarrando-a pela cintura antes que Regina pudesse recuar. — Diga que eu não fui apenas um passatempo pra você enquanto meu pai esteve fora — acrescentou, roçando seus lábios contra os dela.

— Emma, por favor…me solte — murmurou Regina, tentando se afastar, mas Emma a segurou com firmeza.

— Eu não vou te soltar enquanto você não me disser porque aceitou se casar com ele! Não foi nada disso que você me prometeu, Regina! — exclamou ela, mal conseguindo controlar a voz exaltada.

— Eu pensei bem e cheguei a conclusão de que não posso ter um futuro com você — disse Regina, mentindo descaradamente.

Fuzilando-a com os olhos, Emma não podia acreditar no que estava ouvindo. Regina notou a mágoa e a perplexidade nos olhos dela, mas, ainda assim, continuou.

— Eu quero me casar. Quero ter filhos, quero andar de mãos dadas na rua sem medo do julgamento de terceiros. Eu quero uma vida normal, Emma…e essa vida não é possível com você — outra mentira, e isso a destruía. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas ela usou o que ainda restava de suas forças para impedi-las de escapar.

Regina assistiu a expressão no rosto dela se transformar em inquietação, e a ausência de uma resposta pareceu confirmar o que ela já previa: Emma havia acreditado no que ela dissera.

Foi então que Emma a soltou, recuando como se aquelas palavras tivessem criado uma barreira entre ela e Regina. Balançando a cabeça, ela deu vários passos para trás enquanto seus olhos verdes, agora gélidos de dor e raiva, a encarava com desprezo.

— Se o seu objetivo era partir meu coração, meus parabéns. Você conseguiu o que queria — Emma sussurrou, quase sem fala.

Sem dizer mais nada, ela apanhou o capacete e a moto do chão, e então partiu.

Regina cambaleou para trás, derrotada. Apoiando-se no próprio carro para não cair, ela cobriu a boca com a mão, mas mesmo assim um grito de dor escapou de seus lábios enquanto a motocicleta desaparecia rua afora.

[…]

— Emma, sua amiga está lá na sala te esperando — disse Victor, tão logo a porta do quarto se abrira.

— Eu já vou descer — ela falou, e quando Victor fez menção de se retirar, Emma o deteve. — Como foi o jantar ontem, papai?

— Não teve jantar. Regina se sentiu indisposta de última hora e me ligou cancelando.

— Sinto muito — Emma disse, embora não fosse verdade.

— Acontece — ele falou. — Ah, já ia esquecendo…no próximo sábado daremos um jantar para celebrar nosso noivado, então se precisar de companhia pra comprar um vestido, posso pedir a Regina para que…

— Não precisa, papai — ela o interrompeu. — Sei comprar minhas roupas sozinha.

— Bom, tudo bem. Estou de saída. Nos falamos mais tarde, querida.

Assentindo, Emma esperou que ele saísse e em seguida foi ao encontro de Ruby sem acreditar que Regina iria em frente com aquela história. Afundando no sofá, ela sabia exatamente o que Ruby ia dizer, e apesar de serem boas amigas, ela não queria ouvi-la.

— Caramba, Emma! Você ainda está de pijama?

— Ah, dá um tempo, porra! — sibilou ela.

Sentando-se de frente para ela, Ruby ignorou o tom grosseiro, afinal, tinha plena consciência do que estava acontecendo.

— Você conseguiu falar com ela?

— Consegui, embora ela tenha feito de tudo para se esconder de mim.

— Desembucha. O que foi que ela disse?

Emma deu uma risada forçada e se levantou. Caminhando de um lado para o outro, ela precisou de todo o seu autocontrole para não golpear tudo o que encontrava pela frente.

— Ela disse que o futuro que terá com o meu pai é impossível ter comigo.

— Bom, faz sentido, não?

— Ah, Ruby! Pelo amor de Deus, caralho! Ela tá com medo do julgamento dos outros e veio com esse papo furado de futuro!

— É normal, Emma. Ela é professora de uma das melhores universidades de Boston. O que você acha que aconteceria se esse lance entre vocês duas viesse à tona?

— Qual é, Ruby! Não foi lance porra nenhuma! Além disso, ela deveria ter pensado nisso antes de me iludir!

— Lembre-se que você parecia um stalker atrás dela.

— E daí? Quando um não quer, dois não brigam. Ela disse várias vezes que era apaixonada por mim.

— Talvez ainda seja. Mas achou melhor percorrer uma estrada mais fácil.

— Vou fazê-la enxergar que essa estrada que ela escolheu não lhe dará a menor felicidade…

[…]

Uma semana havia se passado desde que Emma vira o lindo rosto de Regina pela última vez. Infelizmente, o sábado havia chegado e seu pai se mostrara muito empolgado com o noivado. A felicidade estampada no sorriso dele lhe arrancava a própria felicidade e a esperança que ela manteve acesa. Embora tivesse tentando tirá-la da cabeça, Emma não conseguia fazer outra coisa que não fosse fechar os olhos e pensar nela. Seus pensamentos foram interrompidos quando o som da campainha ecoou na sala.

— Amiga, você está um lixo — comentou Ruby, entrando e se atirando no sofá.

— Não enche, caralho.

— O jantar será daqui a uma hora e você está desse jeito?

— Não vou a lugar nenhum — disse Emma, batendo a porta com força.

— Qual é, Emma. Você não estará presente no jantar de noivado do seu pai? Ele não tem culpa se ela o escolheu.

— Não aguento mais fingir que estou feliz pelos dois.

— O que aconteceu com aquela história de fazer a senhorita Mills enxergar que a estrada mais simples não traz felicidade? Vai tomar um banho e se arrumar que eu te espero. Mostre a ela o que está prestes a perder!

Soltando um suspiro derrotado, Emma voltou a se sentar no sofá com os cotovelos apoiados nos joelhos, e a cabeça apoiada nas mãos. Depois de passar alguns segundos tentando absorver tudo o que Ruby tinha dito, Emma ergueu a cabeça e a encarou.

— Eu já disse que não vou a lugar nenhum, Ruby. Além disso, você sempre fez questão de dizer que me envolver com Regina seria uma loucura, então porque está me empurrando para ela agora, hein? — indagou Emma, balançando a cabeça enquanto um sorriso sarcástico se formava em seus lábios.

Ruby se levantou em silêncio. Pegou sua bolsa e caminhou lentamente até a porta. Girando-se, ela olhou para Emma por longos segundos antes de girar a maçaneta.

— Porque eu não imaginava que você ficaria com essa aparência tão…torturada.

Emma engoliu em seco e o sorriso sarcástico abandonou seu rosto. Ela não disse nada, apenas ficou olhando enquanto Ruby fechava a porta atrás de si.

De repente, seu olhar se desviou da porta e pousou sobre o relógio. Faltavam aproximadamente quarenta minutos para o horário em que o jantar seria iniciado, mas ela permaneceu ali sentada, enquanto a mente continuava buscando algum sentido para tudo isso.

[…]

— Tudo bem, Regina? — questionou Mary, aproximando-se da amiga.

— Sim — limitou-se a dizer.

— Vi o pai da Emma cumprimentando os convidados, mas não a vi. Ela não vem?

— Não sei, Mary. E seria bem melhor se ela não viesse.

Regina mal tivera tempo de fechar a boca e seus olhos foram capturados por um verde glacial analisando-a de cima a baixo. Com seus jeans rasgados, nada apropriados para aquela ocasião, Emma começou a caminhar na direção de Regina e imediatamente o coração dela acelerou.

— Você está maravilhosa — disse Emma, sem se importar com a presença de Mary.

— Emma… — Regina murmurou, engolindo em seco. — Eu espero que você tenha consciência do lugar em que estamos e o que viemos fazer aqui.

— Eu também espero isso de você, Regina. Então seja uma boa menina e venha conversar comigo longe de toda essa gente.

— Emma, por favor…não é o momento.

— Tudo bem, não tem problema. Podemos conversar aqui mesmo na frente de todo mundo.

Mordendo o lábio e visivelmente desconfortável, Mary interveio. Como já conhecia aquele restaurante, ela indicou uma sala destinada às crianças que certamente estaria vazia, já que nenhuma criança fazia parte dos convidados daquele jantar.

Já dentro da sala, os braços cruzados de Regina deixavam claro o seu aborrecimento. Aproximando-se dela, Emma só parou quando ficou a poucos centímetros do seu corpo.

— Você me ama. Acredita mesmo que vai conseguir me esquecer se casando com ele? — indagou Emma, esperando pacientemente que a palavra surgida do nada, mentirosa, culpada, movimentasse os lábios de Regina.

Regina não tinha a menor dúvida de que não conseguiria esquecer Emma. Cada olhar roubado que tinham compartilhado, cada beijo, cada carícia, tudo ficaria para sempre gravado em sua memória e sobretudo em seu coração. No entanto, ela sabia que o remorso a perseguiria em qualquer lugar que ela fosse, caso abandonasse Victor em um momento delicado como aquele. Ele precisava dela, e ela precisava se apaixonar por ele como havia se apaixonado por Emma.

— Eu sinto muito, Emma. Mas nada do que você disser mudará a minha decisão.

— Você não pode simplesmente me dar ordens de sair da sua vida! — disse ela, estendendo seus longos braços, um tom de solidão em sua voz porque ela sabia que Regina já havia começado a traçar um caminho para longe dela.

— Emma, eu imploro…não torne as coisas mais difíceis.

— O que me magoa de verdade é que você está agindo como se eu não significasse nada, como se eu fosse totalmente inútil.

Segurando as lágrimas, Regina desviou seu olhar dos olhos dela, o coração se rasgando em pedaços enquanto se dirigia até a porta. Tentando se acalmar, respirando fundo, ela fez menção de abrir a porta, mas foi impedida quando Emma a puxou e sem aviso prévio, lhe roubou um beijo.

Regina não conseguiu evitar um gemido de encontro a boca de Emma. O doce e familiar sabor da língua dela causando-lhe arrepios. Embalada pelo beijo selvagem e devastador, Regina quase se esqueceu de onde estava. Quase.

De repente, Regina agarrou os ombros de Emma e a empurrou para longe, quebrando o contato entre elas. Girando-se, ela nem olhou para trás porque sabia que a tristeza nos olhos verdes dela era chocante.

Poucos minutos após Regina se juntar aos convidados, Emma apareceu, mas se manteve distante. Ela estava prestes a levar uma garrafa de cerveja à boca quando Victor a deteve.

— Você está bem, filha? — ele perguntou, tomando a garrafa da mão dela e colocando-a em cima de uma mesa.

— Sim, papai. Pode me devolver a cerveja?

— Porque está vestida como se estivesse indo para a escola?

— Gosto de me vestir assim.

— Eu sei. Mas a ocasião requer algo mais elegante, não acha?

— Se a minha roupa está incomodando, eu vou embora agora mesmo.

— Não é pra tanto, Emma. Só espero que pelo menos no dia do casamento, você esqueça os jeans rasgados. Venha, vamos nos sentar porque o jantar será servido.

Sentando-se ao lado de Ruby, Emma iniciou uma leve conversa com ela, mas seus olhos permaneciam cravados no rosto de Regina.

Regina, por outro lado, tentava deixar a culpa de lado e forçou um sorriso enquanto conversava com alguns amigos de Victor que ela mal conhecia. Embora estivesse sentada, as pernas dela estavam bambas, o coração em disparada e a respiração irregular porque ela sentia o olhar de Emma o tempo inteiro sobre si.

De repente, Victor se inclinou e a beijou nos lábios, mas logo se afastou quando os garçons se aproximaram para servir. Nesse momento, Regina permitiu que seus olhos vagassem até Emma, e quase derrubou o copo com água quando notou a fúria com que ela a observava.

— Gostaria de fazer um brinde — disse Victor, segurando uma taça de champanhe. — Um brinde ao amor, e a futura senhora Swan — acrescentou, e todos ergueram suas taças, exceto Emma.

— Eu também gostaria de fazer um brinde — Emma falou, cravando os olhos verdes frios em Regina. — Mas antes de fazer esse brinde, eu gostaria de falar uma verdade…