A Madrasta
11 Capitulo 11
Notas iniciais
Com os ombros caídos e o ânimo abatido, Regina se levantou da cama e sem vontade, caminhou lentamente até o banheiro. Quanto mais repassava a conversa que tivera com Victor na noite anterior, maior era a sensação de que sua sanidade estava por um fio. Ascendeu a luz e encarou o próprio reflexo no espelho, e agradeceu ao fato de que nenhum dos seus alunos ficara em recuperação, exceto Emma, portanto, só precisaria ir à universidade na sexta-feira quando aplicaria um teste para que ela pudesse recuperar a nota.
Depois de lavar o rosto com água fria, ela caminhou de volta até o quarto na esperança de conseguir algumas horas de sono, embora soubesse que isso não aconteceria. Deitada, encarando o teto enquanto ondas de dor penetravam seu coração, ela buscou o celular e ligou para sua melhor amiga. Uma hora depois, Mary finalmente apareceu. Assim que Regina abriu a porta, ela fez menção de se desculpar pela demora, mas não dissera uma palavra porque Regina a abraçou e caiu em prantos.
Alguns minutos se passaram e finalmente Regina se desvencilhou. Embora estivesse seriamente preocupada, Mary se manteve em silêncio, esperando que ela dissesse alguma coisa. Apesar do estado deprimente em que Regina se encontrava, Mary imaginou que se tratasse de mais um desentendimento entre ela e Emma. No entanto, quase perdeu a fala quando a amiga explicou a razão de sua desventura.
— Minha nossa, Regina… — ela murmurou, claramente chocada. — Sinto muito, amiga… — acrescentou, se colocando de joelhos e agarrando a mão dela.
— Queria que tudo não passasse de um pesadelo… — disse ela, tentando controlar a respiração, o tremor do corpo, e as lágrimas que teimavam em descer.
Levantando-se e sentando ao lado da amiga, Mary passou um dos braços em volta da cintura dela enquanto uma das mãos lhe enxugava as lágrimas.
— Regina…eu sinto muito pelo pai da Emma, mas você não pode se casar com ele por causa disso.
— Pelo amor de Deus, Mary! — exclamou Regina, levantando-se bruscamente com uma clara reprovação no olhar. — Enquanto ele consultava um médico e outro em busca de uma esperança, eu estava transando com a filha dele! Como você acha que eu estou me sentindo?
— Imagino que se sinta culpada por se envolver com Emma mesmo ainda estando com ele. Mas você não tem culpa dele estar doente. E sinceramente, se casar por pena não vai devolver a saúde dele.
— Mas lhe renderá alguns dias felizes…é o mínimo que posso fazer.
Ainda chorando, Regina respirou fundo e tentou se recompor, mas seu coração despencou quando a imagem de Emma surgiu em sua mente. Imagens do rosto dela no segundo em que soubesse tudo invadiram sua cabeça. Um rosto que talvez em breve, não fosse mais do que uma lembrança que tocara sua vida no instante em que a vira.
— Emma está de acordo com a sua decisão? — Mary lhe interrompeu os pensamentos.
— Ela ainda não sabe — fez uma pausa, o corpo trêmulo, e então fitou os olhos dela. — Ela não sabe que o pai está doente e talvez ainda não saiba que eu vou me casar com ele.
— Você vai contar para ela, não vai?
Regina sentiu o toque carinhoso da amiga em seus ombros, e com os olhos marejados, ela cobriu a boca e balançou a cabeça, negando.
— Victor não quer que ela saiba de sua doença…
— Mas então o que é que você vai dizer a ela? Que depois de tudo o que aconteceu entre vocês duas, você se decidiu por ele?
E lá estava a pergunta que conduziria as duas por um caminho que poderia despedaçá-las, que mudaria suas vidas para sempre.
— Eu não sei, Mary…eu não sei…
[…]
Atirando o telefone celular em cima da cama, Emma se recostou na poltrona se perguntando onde estaria Regina que não atendia suas chamadas. Embora soubesse que ninguém além dela havia ficado em recuperação, Emma chegou a conclusão de que talvez Regina estivesse na universidade, afinal, muitas turmas a tinham como professora. Enfiando o celular no bolso, ela vasculhou uma gaveta à procura da chave da moto, e quando a encontrou, caminhou apressadamente em direção à garagem, mas antes que pudesse chegar ao cômodo desejado, a voz de Victor soou bem atrás dela.
Virando-se, Emma olhou bem no fundo dos seus olhos. Embora um fluxo constante de adrenalina corresse dentro do seu corpo, ela não demonstrou nada além de calma.
— Emma, precisamos conversar — disse ele.
— Eu sei — ela respondeu. — Te esperei ontem mas você chegou muito tarde e eu acabei dormindo. Como foi a viagem, papai?
— Foi tranquila.
— Bom, o que quer conversar comigo?
Depois de alguns minutos de tensão crescente, Victor quebrou o silêncio. O tom de voz saiu baixo, mas a expressão se manteve dura.
— O que você fez foi muito errado, Emma. Você não tinha o direito de fazer isso com Regina, muito menos comigo.
Cruzando os braços, Emma olhou para o lado enquanto buscava as palavras apropriadas para aquele momento.
— Aconteceu, papai. Não foi planejado. Simplesmente aconteceu. — disse ela, imóvel como uma pedra.
— Não foi planejado? Você tem certeza disso?
— É claro que eu tenho certeza! Ninguém manda nos sentimentos!
— Meu Deus, Emma! Sentimentos? Você envolve Regina numa aposta e vem falar de sentimentos?
Emma abriu a boca e fez menção de dizer alguma coisa, mas então recuou. Por um momento, ela chegou a pensar que Regina tivesse falado a verdade sobre elas. Sem saber exatamente o que dizer, ela decidiu se esquivar da pergunta com outra pergunta.
— Se ela te falou sobre a aposta, falou também sobre o meu pedido de desculpas, não falou?
— Não, Emma. Não foi ela quem me falou sobre a aposta.
— E quem foi?
— Não importa. Só te peço que não volte a fazer esse tipo de brincadeira com a minha noiva.
— Noiva? — ela perguntou, sem se importar em esconder a surpresa e a súbita alteração no seu tom de voz.
— Sim, filha… — disse ele, a expressão dura se suavizando enquanto um sorriso se abria em seus lábios. — Dentro de alguns dias Regina e eu vamos nos casar.
Perplexa, Emma olhou para ele por um longo tempo enquanto os momentos compartilhados com Regina passavam em sua cabeça. Regina mentira sobre o desejo de ter um futuro com ela e a descartou assim que Victor voltou.
— Quando foi que você a pediu em casamento?
— Ontem. Você sabia que nos encontraríamos — disse ele, parecendo desconfiado. — Não está feliz pelo meu casamento, filha?
Tentando se recompor, Emma forçou um sorriso embora tremesse enquanto tentava respirar.
— É claro que estou, papai — disse ela, a voz baixa e perplexa, lutando contra a raiva, a mágoa e a dor que comprimiam seu peito. — Meus parabéns.
Depois de cumprimentar o pai pelo casamento que ela jamais imaginou que se realizaria, Emma subiu em sua motocicleta e disparou em alta velocidade até a universidade. Em questão de minutos ela chegou ao destino desejado, e largou a moto no estacionamento sem sequer se dar ao trabalho de levar o capacete. Atirou o objeto no chão, junto ao pneu, e caminhou em passos largos até a coordenação em busca de informações sobre Regina.
— A professora Mills só virá à universidade sexta-feira — informou a coordenadora.
Assentindo, Emma deu meia volta e retornou ao estacionamento. Da mesma forma que acontecera no início, ela lhe faria uma visita inesperada em seu apartamento.
Com a velocidade de um tornado, Emma chegou ao prédio onde Regina residia. Aproveitou a entrada de alguns moradores e atravessou a portaria. Com a mão trêmula, apertou o botão do elevador, e enquanto a máquina subia, seu nervosismo aumentava alimentado pela expectativa.
Quando as portas se abriram, ela deus alguns passos, mas parou a centímetros da entrada. Respirando fundo, ela apertou a campainha e o som do dispositivo pareceu ecoar o pulsar feroz do seu coração.
Alguns minutos se passaram sem que houvesse uma resposta, e então ela apertou de novo, e de novo, e de novo.
— Eu sei que você está aí, Regina — disse ela.
Com lágrimas se formando em seus olhos, ela se aproximou do olho mágico, imaginando-a do outro lado da porta. A ideia de que Regina pudesse estar observando-a, sem dizer uma palavra, sem abrir a porta para responder suas perguntas, era dolorosa demais e estava destroçando seu coração.
— Não seja covarde, Regina…tenha ao menos a decência de dizer olhando nos meus olhos porque decidiu se casar com ele — ela murmurou.
Com as costas apoiadas na madeira lisa da porta, Regina deslizou devagar e se sentou no chão encolhida, abraçou os próprios joelhos e se pôs a chorar. O coração quase parando enquanto ouvia a voz dela. Tentando abafar os soluços, ela levou uma das mãos à boca ao se dar conta de que talvez Emma nunca a perdoasse. Embora não pudesse vê-la, Regina sentia os olhos dela fixos na porta. Por dolorosos minutos, ela se manteve em silêncio. Mas então a dor explodiu no seu peito quando os passos de Emma se afastando ecoaram em seus ouvidos.
[…]
— Emma, fiquei preocupada quando você me ligou. O que aconteceu? — indagou Ruby, abrindo a porta para que ela entrasse. — Vem, vamos conversar mais à vontade em meu quarto — acrescentou, conduzindo-a pela mão escada à cima.
Quando a porta do quarto foi fechada, Emma afundou na cama e fechou os olhos que já ardiam devido ao choro. Sentando-se ao lado dela, Ruby deslizou a mão por suas costas e preocupada, perguntou mais uma vez o que havia acontecido.
— Eles vão se casar — disse Emma, num tom quase inaudível.
— Como é que é? — O choque no rosto de Ruby foi visível e as sobrancelhas se arquearam sobre os olhos azuis. — Mas…como é possível?
— Ela mentiu pra mim — ela murmurou, levantando-se e caminhando pelo quarto como um animal acoado. — Ela me disse que romperia com ele e que ficaríamos juntas, mas fez tudo ao contrário — acrescentou e sorriu, embora não houvesse graça em nada daquilo.
— Nada disso faz sentido…
— Espere — Emma a interrompeu. — Deixe eu contar a melhor parte: eles vão se casar dentro de alguns dias.
— Mas ela não te disse o porquê de tudo isso?
— Não consegui falar com ela. Fui a universidade e ela não estava. Fui até o apartamento dela, mas não abriu a porta.
— Essa mulher só pode ser louca.
— Não. Algo aconteceu e eu vou descobrir. Regina não poderá se esconder de mim para sempre.
Após a conversa com Ruby, Emma retornou para casa. Assim que entrou em seu quarto e se atirou em cima da cama, seus olhos pousaram sobre o celular. Empalideceu ao constatar que não havia nenhuma chamada de Regina, nenhuma resposta às suas mensagens.
— Mais cedo ou mais tarde nós vamos nos encontrar, Regina… — ela sussurrou, fitando o teto e pressionando o telefone contra o peito.
Nos dias que se seguiram, Emma continuou ligando e mandando mensagens de texto, mas ao que parecia, Regina mudara de número, afinal, não era possível que ela mantivesse o celular todo o tempo desligado. Ela ainda se arriscou a procurá-la outras vezes em seu apartamento, mas devido a algumas mudanças por medidas de segurança, o porteiro informou que nenhum estranho poderia entrar sem que um residente interfonasse dando autorização. Sendo assim, Emma esperou pacientemente que chegasse sexta-feira onde Regina aplicaria o teste de recuperação, entretanto, para sua tristeza e desilusão, ela não apareceu. Naquela manhã fria e chuvosa, Mary Margareth a substituiria.
— Diga a sua amiga que ela não conseguirá se esconder de mim para sempre — disse Emma, apoiando o papel na mesa onde Mary estava. — Eu vou encontrá-la e ela vai ter que me explicar essa merda nem que seja a última coisa que eu faça.
— Emma, eu entendo a sua ira. Mas pelo amor de Deus, não complique mais as coisas — Mary falou, nitidamente preocupada.
— Você sabe de alguma coisa, não sabe?
— Não, Emma…mas mesmo que eu soubesse, não te diria.
— Então não me peça para não complicar mais as coisas, caralho!
Os olhos de Mary se arregalaram e ela fez menção de dizer alguma coisa, porém, não disse. Em silêncio, ela observou Emma se retirar da sala e bater a porta com força.
[…]
De pé, diante da janela do seu quarto observando o sol que estava prestes a se pôr, Emma vasculhou os bolsos da calça jeans e encontrou o celular. O aparelho marcava dezessete horas e quarenta minutos, e conforme seu pai havia dito, ele e Regina se encontrariam num restaurante essa noite, e quando ela saísse de sua “toca”, Emma estaria à sua espera.
…
Passava das dezenove horas quando o Mercedes preto de Regina atravessou o portão do edifício. Emma reconheceria aquele carro até no inferno. No mesmo instante, ela acelerou mas se manteve distante. Esperou que o carro de Regina se afastasse, e mais adiante, longe do trânsito caótico naquele momento, ela a abordaria.
E foi exatamente o que Emma fez. Quando o veículo em que Regina estava entrou em uma via pouco movimentada, ela acelerou, ultrapassou, e em seguida, parou bem na frente dela. O pneu do carro de Regina cantou no asfalto devido a freada brusca. O cheiro de borracha queimada pairou no ambiente, e atirando o capacete no chão, Emma cruzou os braços esperando que ela descesse.
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