Quando raiava a aurora, Regina despertou sentindo o cheiro de bacon e ovos mexidos. Virando-se para o lado, ela percebeu que Emma não estava mais na cama, e deixara a porta do quarto aberta. Vestindo uma camisa branca de botões e mangas longas, ela se dirigiu até a cozinha e sorriu quando viu a mesa do café da manhã impecavelmente arrumada.

— Por que acordou tão cedo? E por que não me acordou? — indagou Regina, surgindo por trás.

Não houve nenhuma reação por parte de Emma que não fosse puro prazer diante dos braços da mulher que amava a envolvendo.

— Bom dia pra você também, meu amor. Imagino que esse interrogatório se deva ao fato de você estar faminta — disse Emma, sem se virar.

— Confesso que estou com muita fome. Mas não gostei de acordar sem você ao meu lado.

Girando o corpo lentamente para ficar de frente para ela, Emma pressionou as mãos espalmadas contra as faces dela, de modo que sua boca se abriu como a de um peixe.

— Que coisa mais linda — disse Emma, fazendo biquinho a fim de imitá-la, e em seguida a beijou com delicadeza. — Me acordei cedo porque tenho planos para o nosso domingo, e não te acordei porque você estava linda dormindo. Ih, até rimou!

— Quanto mais o tempo passa, mais boba você fica.

— Considere-se única e exclusivamente responsável por isso.

Era um belo domingo frio, sem vento e claro pelos raios de sol. Após o café da manhã, elas se vestiram, entraram no carro e partiram rumo à cidade vizinha onde as festas continuariam por mais alguns dias.

— Achei que iríamos a um lugar diferente. Já estivemos aqui ontem — disse Regina.

— Viemos ao mesmo lugar, porém, faremos coisas diferentes — Emma falou.

— Por exemplo?

— Está vendo aquele parque de diversões?

— Nem pensar, Emma!

— Não vai me dizer que você tem medo da roda gigante — Emma disse, num tom zombeteiro.

— E se eu tiver?

— Prometo que não contarei a ninguém e garanto que nada vai te acontecer.

— Claro, porque você seria capaz de evitar um desastre caso a roda gigante quebrasse — murmurou Regina, ironicamente.

— É isso mesmo, amor. Sou a super-Emma!

Depois de muita insistência por parte de Emma, Regina finalmente cedeu. Apesar do frio, ela adorou a aventura embora não estivesse disposta a confessar. Nas horas que se seguiram, elas compartilharam sorrisos e momentos que Regina nunca imaginou viver. Emma era diferente de qualquer pessoa que passara em sua vida. Seu lado infantil aparecia e desaparecia na hora certa, na medida certa, assim como a maturidade e a sensualidade que ela exalava na intimidade delas. Passava das quatorze horas quando retornaram ao chalé. As dezessete deveriam ir embora sem nenhuma garantia ou certeza do que estava por vir.

— Eu te amo, Emma — ela disse, os olhos brilhando de felicidade.

Fechando a porta atrás de si, Emma se aproximou e tomou o rosto dela entre as mãos. Com os olhos fechados, o corpo de Regina tremeu ao sentir o roçar dos lábios dela contra os seus, atormentando-a. Os nervos de Regina se inflamaram, elétricos e selvagens, ansiando por um contato mais profundo.

— Faça amor comigo — Regina sussurrou.

Emma não disse nada, mas continuou brincando com os lábios dela, como se quisesse enlouquecê-la. E então cobriu a boca dela com sua, enfiou a língua lenta e profundamente, tomando o controle do beijo. Regina quase perdeu o ar enquanto era conduzida até a cama entre beijos e carícias. O amor e a devoção de Emma a cercaram com uma paixão que ia além das palavras.

— Eu também amo você, Regina — Emma sussurrou, interrompendo o beijo aos poucos, ao mesmo tempo em que a deitava na cama. — Você me enche de vida — acrescentou, beijando-a novamente e arrancando-lhe as roupas.

A sensação da língua de Emma deslizando pelo seu pescoço lhe provocava ondas de prazer. Calafrios a arrepiavam todas as vezes em que as mãos de Emma, leves como uma pluma, acariciavam suas pernas.

Emma soltou um suave gemido quando Regina puxou a camiseta dela pela cabeça, e em seguida varreu suas costas com as unhas.

— É impressão minha ou você quer levar um pedaço de mim para casa? — Emma indagou, e embora estivesse muito excitada, Regina não conteve uma gargalhada.

— Só estou marcando território — disse ela, segurando-lhe o rosto e puxando-a para sua boca.

O beijo que se iniciara lento, se tornou agora desesperado, fazendo ambos os corações acelerarem como nunca. Regina se contorcia em baixo do corpo de Emma. O cheiro, o sabor, o toque dela provocavam sensações que nunca experimentara. Bastava um olhar dela para que seu âmago se contraísse, latejasse, implorasse para ter qualquer parte dela dentro de si.

Emma, por outro lado, não podia deixar de sentir prazer com os gemidos de Regina antes mesmo de tocá-la intimamente.

— Me toque, Emma… — murmurou Regina, como quem acabara de ler seus pensamentos. No mesmo instante, sem esperar uma iniciativa, Regina lhe agarrou o pulso e conduziu a mão dela para o meio de suas pernas. — Enlouqueça-me de prazer.

Com todo cuidado, Emma colocou dois dedos dentro dela, movimentando-os ora lentamente, ora com força e sem qualquer inibição. Percorrendo os seios dela com os lábios, ela investiu ainda mais fundo naquele calor úmido. A tensão aumentou e explodiu entre suas coxas, avançando em forma de espasmos pelo corpo. Ainda que tivesse tentado prolongar o máximo daquele prazer, Regina não conseguiu se segurar e gozou ao toque habilidoso dos dedos de Emma.

Ofegante, Regina fechou os olhos totalmente tomada pelas sensações que aquele orgasmo rápido havia provocado.

— Não acredito que o fim de semana já acabou. Porque as horas passam voando quando estamos juntas? — dizia Emma, enquanto colocava a mochila no porta-malas.

— Outros finais se semana virão, não se preocupe — disse Regina, beijando os lábios dela suavemente antes de entrar no carro e partir.

Durante toda a viagem de volta para a cidade, Regina demonstrou grande orgulho em recordar sua vitória na partida de videogame disputada com Emma. O jogo terminou com a seleção brasileira, escolhida por Regina, derrotando a seleção americana escolhida por Emma num placar de três a zero. Embora afirmasse ter facilitado aquela vitória, Emma se perguntava onde e com quem Regina aprendera a jogar daquela forma.

Assim como fizera na outra vez, Regina estacionou a duas quadras de onde Emma residia, e então a abraçou forte e depois a beijou.

— Foi maravilhoso…do início ao fim. Obrigada, Emma — ela murmurou, tocando-lhe o rosto gentilmente.

— Eu quem agradeço. Nunca me senti tão feliz em toda minha vida.

Regina fez menção de dizer alguma coisa, mas o som do celular tocando dentro da bolsa lhe interrompeu a fala. Buscando o aparelho, ela viu que o nome de Victor piscava insistentemente no visor, no entanto, optou por não atender a ligação. Dentro de poucas horas se encontraria com ele em seu apartamento e para o bem de todos, colocaria um fim naquele relacionamento.

Respirando fundo, Emma a abraçou, se despediu, e em seguida desceu do carro.

Assim que chegou em casa, Regina seguiu direto para o banheiro. A culpa que sentia por se envolver com Emma ainda estando com Victor era infernal, mas estava segura de que a libertação seria doce. Apesar da pouca idade, Emma se mostrara madura e decidida. Havia aprendido coisas a respeito dela que jamais imaginara serem possíveis. Ligando o chuveiro, ela esperou que a água morna relaxasse os seus músculos, pois sabia que quando Victor chegasse, a tensão voltaria com ainda mais força.

[…]

Sentada no sofá de couro preto bem colocado no meio da sala, Regina se levantou sobressaltada e caminhou até o bar onde se serviu de uma generosa dose de uísque. A ansiedade começava a tomar conta dela, mas, antes que pudesse avaliar o tamanho do problema que estava prestes a enfrentar, a campainha tocou. Esvaziando o copo com apenas um gole, ela suspirou enquanto o álcool lhe queimava a garganta ao mesmo tempo em que uma onda de insegurança a invadia. Mas, ainda assim, sabia que tinha de enfrentá-lo.

Ao abrir a porta, Victor entrou em seu campo de visão e o nervosismo aumentava na medida em que ele se aproximava. Assim que fechou a porta, seus pensamentos rodopiaram sem controle. Engolindo em seco, tentou pensar no que diria e como diria, mas, à medida em que os segundos se passavam, ela se dava conta de que nenhuma palavra tornaria qualquer parte daquilo simples.

— Tudo bem? — ele indagou, esboçando um curto sorriso.

— Sim, Victor. Sente-se, por favor — disse ela, indicando o sofá.

Ambos se acomodaram no estofado, um de frente para o outro. Victor recusou uma bebida oferecida por Regina enquanto a tensão pairava sobre eles. Passando as mãos pelos cabelos, Victor mirou o chão por alguns segundos, e só então levantou a cabeça, capturando os olhos castanhos dela com os seus. As palavras, certas ou erradas, ficaram presas na garganta enquanto ela tentava puxar o ar para dentro. Tentava fazê-las sair porque havia chegado o momento, porém, Victor se mostrou mais rápido que ela e tomou a frente.

— Antes de tudo, quero me desculpar pelos dias ausentes — disse ele, quebrando o silêncio entre os dois.

— Não se preocupe com isso. O que eu tenho a dizer será breve, e quero que saiba que não tem nada a ver com sua ausência e…

— Espere, Regina — ele a interrompeu. — Deixe-me explicar algumas coisas antes.

— Victor, não precisa…

— Por favor, apenas me escute — ele insistiu, e em seguida, ergueu a mão e lhe entregou um papel.

— O que é isso? — indagou Regina, deixando transparecer seu desconforto enquanto a mente tentava compreender cada palavra ali escrita.

— Isso é o motivo pelo qual me ausentei — Victor falou, engolindo em seco antes de retomar sua fala. — Eu tenho pouco tempo de vida, Regina.

Cobrindo a boca com a mão, quase sem fôlego e com a mente num turbilhão, ela se levantou e caminhou atordoada pela sala, sentindo-se totalmente perdida.

— Não estou entendendo, Victor… — ela murmurou, os olhos cheios de preocupação.

— Eu tenho câncer, Regina. Infelizmente não descobri a tempo e já não há mais nada que se possa fazer para reverter isso — ele explicou, a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas.

Uma secura espessa se apossou de sua língua, e por um instante ela pensou que perderia a própria fala. Ouviu-o engolir em seco, ouviu sua respiração se acelerar e o choro silencioso dele transbordar pelos olhos azuis.

— Victor…eu sinto muito — disse ela, finalmente. Com a respiração acelerada, ela tentava processar da melhor maneira possível tudo o que ele dissera. — Você precisa procurar outras opiniões, outros médicos…talvez as coisas…

— Foi exatamente o que fiz esses dias — ele a interrompeu. — Nunca foram viagens de trabalho…— confessou, cobrindo o rosto com as mãos.

Sem suportar aquilo, Regina o fitou em silêncio. Sua mente agora era um emaranhado de emoções com as quais não conseguiria lidar naquele momento. Seus músculos enrijeceram imediatamente enquanto a adrenalina corria sem freios pelas suas veias. Com o corpo todo em estado de alerta, Regina tensionou o maxilar e fez menção de dizer alguma coisa, no entanto, Victor ficou de pé e atravessou a sala. Chegando bem perto dela, uma de suas mãos deslizou não tão elegantemente para dentro do bolso da calça, e quase em câmera lenta, ele se abaixou sobre um dos joelhos.

— Apesar do que o destino me reservou, saber que tenho uma mulher como você ao meu lado me deu forças para não desabar. Talvez eu esteja sendo egoísta, mas gostaria de passar os últimos dias da minha vida ao lado da mulher por quem me apaixonei…

Fitando-o ajoelhado à sua frente, Regina permanecia em choque diante de tanta informação. Seu olhar foi atraído pelo anel com um diamante de lapidação quadrada, e em seguida, se fixou nos olhos dele que brilhavam com o que parecia ser lágrimas. Sentindo-se sufocada, Regina esperou que Victor finalizasse o seu discurso, mas, rezava mentalmente para que não fosse o que ela imaginava.

— Você me daria a honra de se tornar minha esposa?

E diante daquele pedido, Regina teve a sensação de que estavam apagando cada momento que ela e Emma tinham passado juntas.