A Lâmina de Ferro
1 Prólogo
Notas iniciais
Com grande honra, apresento a primeira parte do "Livro 2" da série Shadows, que sucederá Marcas da Morte. Se você é um leitor antigo, bem vindo de volta à ação! Se é um leitor novo, dou imensas boas vindas!
Sugiro para os novatos que se aventurem a ler minha produção anterior à esta (Marcas da Morte), que precede os acontecimentos dessa história. Quem não ler correrá sérios riscos de Falta de Entendimento.
Bom... sem mais delongas...
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Fim de Novembro
Mesmo abafados pelas folhas e pela terra... o som de passos rasgava a noite.
Irrompendo na escuridão noturna... a lua brilhava, bela e gloriosa, inspiradora de poetas. Pelo céu... as estrelas se aninhavam ao astro, formando uma espécie de balé cósmico. Lançavam suas luzes pela terra abaixo... suficiente para inspirar até mesmo as mais pobres mentes. As nuvens eram raras... e nem mesmo a luz das distantes cidades parecia atrapalhar a beleza do Universo.
Mas... nem mesmo essa beleza luminosa conseguia adentrar-se na escuridão da densa floresta.
Os galhos compridos estendiam-se até as alturas, de onde cresciam folhas de um intenso verde. Apenas essas folhas já estavam bloqueando boa parte da luminosidade noturna... mas não estavam sozinhas. Folhas maiores cresciam nos galhos... acompanhados por alguns poucos cipós. Isso fechava cada vez mais a floresta... deixando-a sombria, obscura...
Apesar de tudo... escuridão não era a única coisa medonha que havia no lugar...
Os passos estavam cada vez mais rápidos... mais tensos, mais pesados. Apesar do peso que carregava e de suas vestes, a criatura parecia se esquivar de cada galho, cada raiz, cada pedra no chão com enorme agilidade. As botas negras estavam sujas e molhadas... mas não paravam por um segundo. As raríssimas luzes que conseguiam passar pela densa vegetação fazia sua pele brilhar, refletido pelo suor. Apesar de tudo... nada parecia a incomodar. Continuava avançando ferozmente.
Claro... já sabia que não podia deixa-lo esperando.
O som constante de grama e folhas sendo esmagadas foi diminuindo... conforte a encapuzada avançava, em direção à uma área aberta. A luz lunar enfim lança seu brilho sobre a criatura, revelando um manto totalmente negro, trabalhado de um modo diferentemente belo. As mangas não existiam, e braceletes prateados cobriam sua pele escura, brilhante por causa do suor. O manto descia até um pouco abaixo dos joelhos, se repartindo em dois na frente e atrás do corpo. Uma faixa, tingida de um vermelho vivo, estava amarrada à sua cintura. Adornado junto à faixa e ao tronco, estavam diversas tiras de couro, que sustentavam adagas, bolsas de equipamentos, munição... o suficiente para produzir um certo barulho fraco. Botas de couro negro e salto alto completavam o visual, de uma maneira bela e assustadora. O rosto, oculto pelas sombras de um capuz negro, pareciam não demonstrar nenhuma emoção... mesmo se uma luz pudesse ser jogada na direção da face. Os braços pareciam fazer certo esforço... ao ajudar a equilibrar o que carregava nos ombros.
Após curtos segundos, nosso elemento agarra o fardo, e o joga violentamente na grama da clareira. Um abafado urro de dor saí dos lábios do vulto, quando esse atinge o chão. A luz fraca ilumina seu manto branco, agora sujo de terra e sangue. Suas tiras de couro estavam soltas, gastas, armas e afins haviam sido tirados de seus locais... que mostravam rasgo no couro, ou uma articulação levemente quebrada, como se os objetos tivessem sido tirados dali à força. O capuz estava jogado para trás, e a lua lançava sua luz sobre um rosto jovem. O homem aparentava ter em torno de 20 anos de idade. O cabelo preto estava grudado ao rosto pelo suor... e pelo sangue. Olhos igualmente negros pareciam afundar mais na pele terrivelmente pálida. Uma antiga cicatriz pendia na testa... agora totalmente oculta por cabelos e pelo sangue.
O Branco tenta se levantar, apoiando suas mãos nas folhas e na grama. Mas o esforço pareceu exigir muito de suas escassas forças, fazendo-o desabar no chão, tossindo sangue. Mal conseguia levantar o olhar... quando forçou a voz a sair.
-P-Por... que... não... me matou lá mesmo?
Houve um breve momento de silêncio... mas que pareceu durar horas. A falta de vento naquela noite fazia o calor ser algo constante entre eles. O máximo que ouviam era o som das criaturas, que se adentravam na floresta em que viviam, procurando a próxima presa.
-Já deveria saber disso... – a voz era feminina, um tom calmo, tranquilo – ele gosta de fazer isso pessoalmente.
O Branco havia sido arrastado até ali daquele modo... já havia passado por inúmeros perigos antes... mas só a menção dessa frase o fez engolir em seco.
Desesperado, tenta fazer um esforço para se levantar. Queria sair dali o mais rápido que podia... o mais rápido que a razão poderia permitir. Ao levantar o joelho, a dor volta a atingi-lo, fazendo o Branco desabar violentamente no chão. Olhava aos arredores, temendo que ele aparecesse. Temia ele mais do que a própria morte agora...
Isso se os dois não eram a mesma coisa.
-Para um Branco... até que você luta bem
O Branco fica estático, os olhos arregalados. Cada vez mais suor e sangue surgiam e se misturavam em sua testa, conforme o medo e a tensão subiam dentro dele. Força a cabeça para frente, tentando observa-lo com mais atenção. Se arrependeu imediatamente de ter feito isso.
Lá estava... à beira da clareira, caminhando a passos lentos até o Branco. O manto negro que trajava estava trabalhado de modo muito semelhante ao de sua lacaia. O tecido negro tremulava com o caminhar lento, e a faixa vermelha acompanhava o ritmo. As folhas se partiam com as botas de couro negro, que as esmagavam com facilidade e força colossais.No tronco, duas grossas tiras de couro formavam um X em seu peito. Porém... não era isso o que mais assustava. As tiras estavam quase completamente forradas com lâminas, adagas, dois revólveres. A lua fazia o metal reluzir, e alguns ainda continham manchas secas de sangue. Uma cruz de prata balançava no tecido negro, sustentado por uma corrente do mesmo material, brilhante e bem cuidado. Um capuz negro encobria seu rosto parcialmente... a única parte de sua face que o Branco podia ver era sua boca pálida.
E ela estava sorrindo.
O Branco tenta novamente se levantar, com mais velocidade e desespero do que antes. Mas parecia que seu corpo não estava em sintonia com a necessidade urgente, que sua mente gritava para ele. Ao desabar no chão, uma gargalhada irrompe o local. E vinha do Negro.
-Brancos... se acham tão poderosos... porém são fracos como ratos, nojentos como baratas – cita as últimas palavras com tanto desgosto e nojo que o Branco até esperou que o inimigo cuspisse nele.
-O que... o que quer de mim?
Mais uma vez, a gargalhada irrompe o local.
-E ainda perguntam? – a voz parecia um pouco rouca – não sei se percebeu... mas estamos em guerra. Brancos... contra Negros... uma matança, que se espalha pelo mundo todo... sangue das antigas famílias escorre pelas lâminas... ou são pulverizados pela magia...
O Branco escuta os passos cessarem, bem em sua frente.
-...E você ainda me pergunta o que quero de você?
Como um tigre, o Negro dá um chute na cara cabisbaixa do branco. A força foi tal que o fez capotar para longe. Suas mãos agarram em desespero o ferimento, encharcando sua mão de sangue. Um grito tomou conta da clareira... logo seguido por outro.
-SEU DESGRAÇADO! Brancos filhos da puta!
Antes mesmo do Branco reagir, outro chute o atinge, dessa vez no estômago. Novamente a inércia age, o jogando para o lado. Ele para com a cabeça virada para o céu. Nem mesmo aquelas estrelas pareceram agradá-lo... o gemido de dor veio logo depois.
-Me mata logo... vai poupar seu tempo.
-Ah... não acha que eu teria mandado ela matar-te assim que o viu, se eu quisesse assim? Além de nojentos, vocês são um bando de baratas tolas no esgoto.
-Então porque se dá ao luxo... de se importar com uma delas?
Uma risadinha medonha escapa de seus lábios.
-Até mesmo as baratas mais idiotas e nojentas podem se apoderar de um diamante...
O Branco não podia ver... mas sabia que o encarava.
-E eu o quero para mim.
-Não sei do que está falando...
O Negro suspira enquanto, lentamente, sua mão se dirigia a uma das inúmeras adagas. Logo, o Branco ouve o som de lâmina deslizando sobre couro, logo depois para encarar o Negro analisando a lâmina atentamente... como se fosse um doce colorido.
-Confie em mim... você não vai querer fazer isso do jeito difícil.
-Você vai acabar comigo de qualquer jeito...
-Não vou mentir para você: Sim, eu vou. Mas... acaso deseje contar a verdade à mim... faço isso ser tão rápido que só sentirá dor quando chegar ao inferno. Acaso decidir não cooperar...
Ele encosta a lâmina de leve no pescoço do Branco.
-Pode não gostar do resultado.
Pela primeira vez naquela noite... o Branco força uma risadinha.
-Pode esquecer... já sou um homem morto. Você não merece tê-lo...
O Branco não podia ver com detalhes... por isso não sabia dizer se o Negro estava triste... ou se estava sorrindo.
-Não está facilitando as coisas.
-Mas as estou dificultando... para você. Com isso... posso morrer feliz... – a voz parecia cada vez mais forçada.
Enquanto se agachava ao lado do Branco... a luz lunar finalmente permitiu ver sua boca novamente.
E ele estava sorrindo. Um sorriso cruel... prazeroso.
-Tem certeza? Sabe que vou correr atrás deles... se não disser agora.
-Não... subestime... a Irmandade... – uma tosse insuportável o atinge. Falar parecia fazer lâminas rasgarem sua garganta a cada palavra. Porém... o Negro parecia se divertir ainda mais com isso.
Uma risadinha tomou conta da escuridão que era sua face sob o capuz. Para logo dizer, com uma voz calma, e sarcástica.
-Não os estou subestimando... só estou tendo certeza de que esmaga-los será fácil... tão fácil quanto será mata-lo agora.
Ele se posiciona acima do Branco caído. Agarra o colarinho com violência, porém encosta com delicadeza a adaga brilhante no pescoço do homem. O Branco tinha parado de lutar... no que aquilo ia dar. Mas o olhar ainda era firme, sólido. Pretendia ir até o fim com aquilo... mas não iria revelar o que o inimigo tanto procurava.
-Últimas palavras? – sussurra o Negro.
-Vá pro inferno...
-Ótimo... nos encontramos lá...
Gritos ensurdecedores tomam conta da floresta, tão dolorosos, altos e desesperados que foram capazes até de acordar os pássaros, que agora voavam assustados pela paisagem noturna. Mas... para qualquer um que poderia estar ouvindo aquilo... não seriam os gritos de terror que mais o assustariam...
Seriam as risadas. Risadas loucas, prazerosas e sinistras... que, junto com o grito, faziam a alma gelar. E cortavam a noite como garras afiadas... gélidas... e mortais.
Notas finais
Boas Festas!
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