A Lâmina de Ferro
2 Uma Noite Agitada
Notas iniciais
Estava frio naquela noite.
Ele vinha como o vento... parecia um tigre... um invisível, veloz e muito ágil. Espreitava não nos cantos ou frestas... mas sim em amplo espaço aberto, lá fora. Mas tão bem escondido que, quando atacava, o máximo que as vítimas poderiam fazer seria sofrerem as consequências, assustadas e aos murmúrios baixos de reclamação.
Eu? Confesso que o frio não estava na minha lista de preferências.
–Seu café, senhor.
Repassei meu olhar rapidamente para o garçom. Parecia um ser jovem... e entediado, ao mesmo tempo. Mal mudou a expressão de tédio quando eu o dei espaço, para que colocasse na mesa a pequena xícara branca. Lancei-lhe um pequeno sorriso, talvez como forma de agradecimento. Ele apenas fez uma levíssima reverencia, e saiu dali, apressado.
Ah... lidar com pessoas entediadas e mal educadas não era tão ruim, quando já se fazia isso todos os dias.
Mas mal liguei... apenas peguei a xícara de leve com meus dedos. O calor do café percorreu meus dedos gelados, dando-me uma sensação de prazer e alívio. Calor era bom... principalmente vindo dessa bebida dos deuses. A porcelana foi levada aos meus lábios lentamente... e logo eu senti aquele gosto incrível. Doce a amargo... unidos no mesmo líquido. Como ainda existiam criaturas que não gostavam disso?
Mas, para a minha infelicidade, eu não estava na ocasião certa para me dedicar exclusivamente ao meu disfarce preferido.
Discretamente, e ainda mantendo a cabeça baixa, passei meu olhar pelo lugar. A cafeteria não era muito grande... mas estavam com as mesas cheias naquela noite. O teto baixo era de madeira branca, adornado de círculos brilhantes, com lâmpadas dentro, que davam um tom curioso no local. Mesas... pessoas... garçons apressados e irritados... cafés e pedidos aqui e ali. Era o lugar perfeito para ser uma normal cafeteria francesa.
Mas... como de preferência... se fosse mesmo, eu não estaria ali.
Estavam ali... apenas duas mesas de distância da minha. Haviam apenas me informado que haviam dois “possíveis” lacaios deles em Paris... e, como nosso serviço estava extremamente abarrotado, tive que me virar apenas com isso. Mas... quem diria... não foi tão difícil de encontrar esses dois caras, no final das contas. Dois estranhos carrancudos e carecas eram bem visíveis em uma cafeteria de classe média em Paris.
Estavam em uma conversa... e parecia interessante, pelo visto. O mais alto especulava muito com as mãos... o mais baixo só parecia ouvir atentamente, de vez enquanto falando algo, ou apontando lugares imaginários no ar. Vestiam um sobretudo preto... parecia feito de um couro brilhante, mas já meio gasto... como se tivesse ficado em um deserto por algum bom tempo. Carecas... uma pálida, e uma um pouco queimada. Não dava para ouvir em que língua falavam... mas, só pela expressão de cada um, eu já chutava que não era Francês.
Um russo, provavelmente... conversando com um outro... talvez cazaque? Não parecia ser das Arábias... nem afegão. Algo intermediário... talvez... mas isso era trabalho para o serviço de inteligência. Minha parte nessa história é levar essas informações à eles.
O problema era... como fazer isso, sem que chamasse mais atenção do que deveria chamar em uma cafeteria?
Provavelmente isso teria que vir da minha parte... porque, deles, o progresso parecia ser baixo. Afinal: Porque suspeitar de um garoto de uns 16 anos, vestindo blusa de couro, tomando um simples café em um lugar que foi feito justamente para tais coisas?
Bem... não sei quanto a mim, mas não me notar até agora foi um erro que deveria se reconsiderar bastante, principalmente depois que já sofreu as consequências dele.
Vejamos... e como fazer isso?
Depois de um longo minuto, encarei minha xícara de café. O seu delicioso e negro conteúdo ainda estavam pela metade. Não era daqueles que gostava de beber café com um gole só. Porque perder os vários segundos que você ganharia, apreciando profundamente todo o sabor da bebida? Bebia lenta e calorosamente... aproveitando cada gota que meus poucos Euros do momento poderiam pagar.
Porém... o encarei com um olhar triste. Iria ser um belo desperdício... nenhuma bebida merecia morrer de maneira tão brutal e sem sentimentos. Mas... isso tinha que ser feito de algum jeito.
Sem motivo aparente, esperei a garçonete passar ao meu lado correndo, antes de começar meu planinho de ação. Não, não fazia nenhum sentido. Mas ter algum amuleto de sorte bobo pode melhorar muito seu humor. Mesmo que ele seja esperar uma garçonete desconhecida passar ao seu lado.
Lentamente, e com total descontração, me levantei da mesa. Não sei se dava para fazer as duas coisas ao mesmo tempo... mas tentar não derrubar uma xícara de café perto da borda da mesa parecia ser um bom motivo. Peguei-a delicadamente pelo cabo, com a mão direita. Acho que poderia dar certo... um caminho direto de onde eu estava, até o balcão, estava impedido por várias cadeiras e mesas juntas, cheias de pessoas conversando. O que me força a fazer um triste contorno... passando pela mesa dos dois carrancudos.
A caminhada foi rápida... tentei aparentar pressa e desconforto. Afinal... seria exatamente o que eu faria, acaso houvesse algum problema técnico com minha preciosa fonte de cafeína. E, como esse já foi um sentimento que pude sentir ao vivo... sabia interpretar bem.
Cheguei perto da mesa dos dois, que pareceram nem notar que havia um estranho passando logo ao lado. Isso era bom... me dava mais chances para tentar notar alguma característica, mesmo que seja em um segundo. A conversa continuava... acho que poderia ser em Russo... já havia ouvido algumas pronuncias antes. O que, claro, não facilitava meu entendimento da conversa. Felizmente, isso não era o importante.
Chutei a cadeira do carrancudo mais alto de uma maneira bem banal, distraída. Doeu... acertei bem o dedão o pé. Nem a bota amorteceu... mas, no final das contas, foi bem útil. Fez a cena parecer mais realista... nem que fosse eu soltando um leve urro de dor, deixando a xícara inclinar perigosamente para minha direita, fazendo todo o líquido preto despencar, direto para a careca do homem.
Bem... acho que ele não gostou nadinha do café queimando sua careca. Nem eu gostei... pobre café, destinado a acabar sua vida queimando a careca de um carrancudo mal humorado. Mas logo seu mal humor ficou ainda mais evidente, ao surgir um urro de dor pela cafeteria. Um olhar zangado e raivoso foi dirigido a mim logo em seguida. Achei que era tudo... mas ele ainda teve a cortesia de se levantar, mostrando sua altura superior à minha.
Não... não dava para eu identificar o que ele gritou na minha cara com toda a força. Acho que foi em russo... e, como os senhores já viram, não tinha a capacidade de identificar o que saiu daquela boca... além de gotas nojentas de saliva e uma leva de ar quente. Realmente... esse cara precisava de um enxaguante bucal.
O xingamento foi longo... e nem quando parou me deu folga. Ficou me encarando com aquele olhar raivoso... como se quisesse uma explicação pelo que aconteceu. Ou, quem sabe, que eu desse alguns Euros, para desculpa-lo pela careca queimada. Sinceramente... eu gostei dela mais daquele jeito. E parecia que a cafeteria também... afinal; metade dos presentes estava nos olhando agora. Infelizmente, tudo o que ele ganhou de mim foi um sorriso leve.
–Foi mal... é que o preto às vezes se atrai.
Dei uma piscadela de leve, ainda mantendo o sorriso. Logo depois, e ergui um pouco as mãos, inocente. Confesso que eles demoraram... um olhar confuso tomou conta, e expulsou a raiva do rosto deles. Arregalaram de leve os olhos quando a ficha caiu... mas já era tarde demais. Quando perceberam, já havia largado a xícara vazia.
O soco foi rápido e ágil, mas acho que fez o mesmo estrago que um mais lento e mais forte... já que um soco no nariz foi o suficiente para jogar um brutamontes assustado para trás. Ele tomba, e suas costas desabam encima da mesa.
–Ui... essa doeu – disse eu, sacudindo meu punho direito.
Mas não bastou, infelizmente. O companheiro, ainda mais assustado, dá a volta na mesa, para vingar o colega. O soco veio de lado... rápido e raivoso, como se estivesse desesperado. Para quê a pressa, afinal? Bloqueei o golpe com meu antebraço esquerdo, jogando o do careca mais baixo para o lado. O desequilíbrio dele foi a meu favor, pois rapidamente agarrei os ombros dele. Meu joelho seguiu de encontro com sua barriga, causando um urro de dor por parte deste. Em um rápido movimento, meus punhos o empurram para o lado, fazendo-o aterrissar em uma mesa, partindo-a em três partes.
Quando eu estava começando a tentar relaxar... pressinto que esqueci algo. Claro que arremessar um brutamontes russo em uma mesa não iria detê-lo... mas pelo menos ele bem que poderia ter desistido, iria facilitar meu trabalho. Mas... ele persiste. O brutamontes, ainda assustado e sem nem saber direito seu próximo passo, arrisca um soco forte e preciso no meu rosto.
Sério... tentar acertar um Assassino Branco desse jeito já é humilhante.
Duas mãos foram necessárias para parar o golpe. Elas agarram o punho do brutamontes, absorveram a força, e pararam o golpe. Havia sido forte... eu fui até inclinado para trás. Mas não havia sido suficiente para algum efeito. No mesmo instante, eu torci a palma dele, até consegui ouvir um estalo. Depois do urro de dor dele, me lancei para trás dele. Pressionei o braço dele contra o corpo, imobilizando-o tão rapidamente que ele mal teve tempo de reagir.
Bom... tenho que dar um desconto para ele. Um informante Negro geralmente não espera ser atacado por um adolescente Branco em uma cafeteria parisiense. O que fazer? Confesso que até eu teria que ter um tempinho a mais para pensar... mas, até lá, melhor acabar rápido com isso.
Esperei ele poder raciocinar um pouco, depois de empurra-lo para a mesa. Sua face foi direto ao encontro da superfície da mesa, o que gera grande dor ao brutamontes. O segurei por um segundo... até um brutamontes precisava se recuperar de uma mesada na cara. Mas logo aproximei lentamente meu rosto aos ouvidos do brutamontes careca.
–Wo ist das? – sussurrei em seus ouvidos.
Ele hesitou. Decidi fazer a pergunta em alemão... não era seguro usar o francês para interrogar um russo enfrente a um publico francês... as pessoas poderiam ouvir muito bem, se é que já não estavam nos encarando assustadoramente. Mas nem liguei... me concentrei na informação.
Como pensei... ele não respondeu de primeira. Levantei o rosto da superfície da mesa, e voltei a amassa-lo contra ela, causando ainda mais dor ao homem corpulento.
–Vou repetir – disse, um pouco mais alto e lentamente – Wo ist das?
“Onde está?”
Ele sabia do que se tratava, mesmo não respondendo nada. Estava suando... os olhos iam de um ponto a outro muito rápido. Tentava disfarças que não sabia... mas seus atos já haviam condenado o homem. O colega estava no chão... e estava cercado por um povo assustado e boquiaberto, isso sem falar de que ele, um homem que deveria ter uns 30 ou 40 anos, fora derrotado por um adolescente. O que poderia fazer agora?
Hesitante e latentemente, ele leva a única mão livre ao bolso traseiro da calça. Não tentei impedir... sabia que ele não iria poder fazer nada no momento. Apenas observei sorridente o smartphone sair de seu bolso.
–Sie sind hier – murmura ele, como se estivesse com várias dores.
“Está aqui”
Com uma de minhas mãos, peguei o aparelho. Não sabia o que esperar dentro daquele pedaço de plástico, vidro e metais... mas parecia ser o que eu procurava em Paris. Lentamente, eu o enfiei no bolso traseiro da minha calça... como se quisesse que o momento durasse mais. Felizmente... não era a realidade. Assim que o aparelho fica onde dele ficar, um gesto rápido joga o brutamontes para o lado. E ele despenca no chão, incapacitado de reagir.
Foi aí que me dei conta. Ao me voltar para a cafeteria, me deparei com um círculo de pessoas, que olhavam boquiabertas para tudo aquilo. Sim, franceses geralmente não viam um adolescente nocautear dois brutamontes estranhos todos os dias... então achei melhor fazer algo a respeito.
Foi simples: Sorri. Um sorriso caloroso, acompanhado de olhos fechados e braços erguidos levemente, inocentes. Como se estivesse se desculpando da situação... ou rindo dela.
–Desculpem! Briguinha boba – nem usando minha persuasão e o máximo de meu francês, os cidadãos não engoliram essa. Na verdade, nem eu teria engolido. Mas... digamos que eu estava sem ideias.
Com a multidão e os funcionários ainda assustados (Haviam até uns filmando com o tablet), enfiei minha mão no bolso, e retirei toda minha quantia de dinheiro. Ok... 5 euros? Eu estava ficando carente na Irmandade. Mesmo assim, sacrifiquei meu dinheiro, arremessando-o direto para uma das mesas bagunçadas. A nota repousa tranquilamente sobre a mesa, logo ao lado de uma poça de cerveja.
Feliz com o resultado, caminhei naturalmente para fora, como se nada tivesse acontecido. As pessoas abriram passagem... não sei se foi por educação ou medo. Câmeras de celulares e tablets miravam em mim... via um flash aqui e ali também. Ah... provavelmente eu estaria na internet em segundos.
Espero que tenham me filmado direito, pelo menos. Odeio sair feio na mídia...
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–Atende logo...
Não, não era bacana ficar em um beco frio e escuro de Paris.
Assim que saí da cafeteria, esperei ser seguido por alguns curiosos depois. Por isso, saltei uns muros, e corri pelas ruas calmas daquela parte da cidade. Fazer isso era agradável... e ajudava a despistar curiosos sedentários.
Enfim... no começo, achei o beco uma boa para poder fazer a ligação. Mas o fato dele estar demorando não fazia o lugar ser mais atraente. Depois que se entra em guerra... parece que um inimigo pode saltar até mesmo de um ralo.
–Alô? Quem está na linha?
Aleluia!
–Oi, sou eu.
–“Eu” quem?
Revirei os olhos. Sério que ele ainda pergunta essas coisas?
–Precisa responder?
–Não... vamos poupar-nos do serviço de identificação.
–Ta aí algo que eu concordo com você. Parabéns.
–Conseguiu?
–Não teria, se não tivesse ligado... – eu levantei o smartphone ao nível dos meus olhos, enquanto ainda usava o meu celular. Quais mistérios estariam naquele aparelho?
–Olhou?
–Desculpa, estava ocupado tentando fugir de paparazzis adolescentes.
–Sim... você já está na internet, alias.
–Meu cabelo ficou bom?
–Um pouco bagunçado, para ser sincero. Mas não é isso o que importa.
–Ah... vou usar gel na próxima... bem... e agora?
–Não se lembra dos processos?
–Você sabe que não.
–Fique enfrente ao Louvre... passaremos pegar você. Ou, se preferir, pode ir a pé até nossa Base em Paris.
–Você sabe que eu não recuso uma boa carona até Versalhes.
–Como desejar. Evite ser seguido, nos vemos lá.
–Como quiser, Mestre. Klaus desligando.
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