A Lâmina de Ferro
10 O Envio
Notas iniciais
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Praga — República Checa
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Dois toques seguidos e rápidos foram ouvidos, sendo socados na porta de madeira. Logo, outro toque, mais longo e demorado, se seguiu dos dois rápidos. Era o sinal.
–Identifique-se.
–Marco, sou eu!
–Ei! E eu?
–Ah, e o Louis.
–Enfim chegaram. Esperem.
Felipe ouviu um clique leve, conforme Marco abria a porta. Logo, o ar quente do interior atravessa a pesada blusa escura de Felipe, que recebe alegre o calor.
–Entrem logo. Não posso manter a porta aberta por muito tempo.
Os dois garotos adentraram o aposento em uma passada rápida, enquanto Marco vasculhava os arredores. Mesmo para uma sala protegida, não custava se prevenir.
O aposento era de um tamanho mediano. Pisos de madeira escura revestiam o chão do 3º andar, já gastos pelo tempo. As paredes, que um dia já foram brancas, exibiam um cinza deprimente, depois de tantos anos de uso da lareira no inverno terrível e congelante. Uma pequena janela deixava a luz da manhã recém-nascida entrar. Mas, apesar da luz acolhedora, era a pequena lareira a mais disputada.
Marco suspira, aliviado, enquanto voltava a trancar a porta.
–Ótimo... podemos começar?
Marco viu 6 cabeças acenarem. Havia sido um pouco complicado voltar à reunir a equipe, que trabalharam juntos para a vitória na Batalha da Califórnia. O casal espanhol, Pablo e Maria, estavam se abraçando no frio. Os cabelos escuros combinavam com a pele castanha, transformando-os em um belo casal jovem. Felipe e Louis, recém-chegados, se sentaram ao lado deles, em duas das cadeiras frágeis de madeira, que estavam espalhadas pelo aposento. Mas Felipe logo procurou sentar ao lado de uma figura solitária e sombria.
–Hey cara! Tudo bom?
Kevin levanta lentamente o olhar. Felipe se assusta com as olheras, em torno dos olhos escuros e sinistros. O cabelo estava um pouco mais longo, e parecia não ser penteado à alguns dias. Uma blusa de couro negro escondia uma blusa vermelha, onde Kevin afundava a cabeça, de braços cruzados. Tudo o fazia parecer uma figura um tanto medonha.
Até mesmo para Felipe.
Ele o encara por alguns segundos. Kevin queria dar uma resposta ríspida, mas simplesmente não conseguia. Só de olhar para aquele olhar azul elétrico e para aquele sorriso já ajudavam a melhorar seu humor.
–Mais ou menos...
–Mais pra mais ou pra menos?
–O que você diria?
–Diria que precisa passar mais xampo.
Kevin não consegue resistir. Um sorriso se forma em seus lábios, depois de muito tempo.
–Acha? É que é meio difícil tomar banho por aqui.
–É difícil tomar banho em qualquer lugar agora. O Louis ali estava com um cheiro terrível antes do banho.
–Hey! Eu ouvi essa!
–Eu sei!
Risos leves foram ouvidos. Marco e Aveline sorriram junto, ao ver que um dos sorrisos vinha de Kevin.
–E você, Felipe? Teu quarto é pior do que o da minha tia! – retruca Louis, aos risos.
–O meu? Tinha que ver o do meu pai! Aquilo sim é bagunça!
Os três caíram na gargalhada. Logo Marco, Aveline e o casal deram seus próprios sorrisos. Depois de terem visto Kevin daquele jeito por vários meses... vê-lo sorrir era gratificante.
Apesar de estar adorando o que via, Marco não podia perder tempo.
–Okay, pessoal... vamos conversar.
Lentamente, as risadas pararam. Marco sorri de satisfação, quando vê que todos o encaravam.
–Ótimo. Bom... essa sala está lacrada com uma magia especial, desenvolvida por Aveline. Mesmo estando no centro de Praga, nenhum espertinho poderá ouvir-nos.
O público assente. Marco sempre sabia o que fazia.
–Reuni vocês aqui hoje por ordem de dois Mestres. Mesmo vocês estando sob o comando de diferentes “setores” de nossa Irmandade, fomos convocados a realizar as próximas tarefas em equipe. E, claro, eles quiseram essa, em especial.
Felipe pensava fundo. Esse sistema que haviam criado era um tanto confuso para ele. Mesmo assim, não havia deixado de notar certos detalhes.
–E a Heloísa, Marco? Não está conosco?
–Pelo que fui informado, Heloísa está em uma missão urgente, na Sibéria. Mas logo estará entre nós novamente.
O loiro assente, enquanto voltava a se encostar na cadeira. Ouvira que Heloísa havia partido à uma semana para uma missão especial. Mas achava que já tinha voltado, mesmo não tendo a visto em nenhum lugar recentemente.
–Como já devem suspeitar... não foi a toa que eu voltei a reunir vocês. A famosa equipe da Batalha da Califórnia, que ajudou à desvendar o Castelo dos Negros. Vocês já renderam vários comentários por aí.
Felipe e Louis se entreolham, sorrindo. Não que gostassem de serem reconhecidos pelas bases da Europa, quer seja por comentários dos Irmãos que viram os membros da “Equipe da Califórnia”, ou de quem lutou ao lado deles. Sabiam que não tinham feito tanta coisa quanto dizem, mas não conseguiam impedir tudo isso. Tirar uma informação dessas dos Assassinos é praticamente como tentar tirar carne de um Leão faminto.
–Mas... fora a Heloísa, não estão todos da equipe aqui.
A voz fria de Aveline apagou imediatamente o sorriso dos presentes. Os três garotos, em especial, abaixaram seus olhares, pesarosos. Sabiam de quem Aveline estava falando. A simples lembrança daquela cena fazia a alma de qualquer um tremer. Principalmente de quem tinha presenciado aquilo ao vivo.
–Ele estava sorrindo... – lembra Kevin.
–Partiu desse mundo com tristeza... – completa Louis – mas com extrema honra.
Aveline concorda com um aceno da cabeça. O clima na sala era triste e pesado.
–Sem o Luca, não teríamos chegado onde chegamos hoje. Que ele descanse com os anjos.
Por algum momento, a sala ficou exatamente assim: domada por um silêncio melancólico e triste. Até o casal espanhol, que só haviam conhecido Luca mais tarde, baixaram suas cabeças. Para todos ali, era um assunto terrível e pesaroso, que só de pensar já fazia seu humor mudar radicalmente. Foi necessário força de vontade de Aveline para quebrar o silêncio.
–De qualquer maneira... devemos seguir enfrente. Isso é uma guerra, é impossível não haver perdas, por mais dolorosas que sejam. Os que se foram deram de tudo para estarmos vivos hoje, e devemos honrar o desejo deles.
Apesar de ainda estarem no pesar, o público da sala ergue o olhar, mais determinados do que antes. Louis, Felipe e Kevin foram os últimos a erguerem o olhar, mas eram os deles os mais determinados e motivados. Aveline estava certa; aquilo era uma guerra. Se não soubessem batalhar e seguir enfrente, estariam condenados desde o início. Poderiam ser jovens, mas entendiam disso.
A mulher loira suspira.
–Sei que conseguimos desvendar os segredos de São Francisco esse ano... mas a Irmandade quer algo diferente para nós dessa vez.
–E o que seria? – pergunta Pablo.
–Lembram-se da explosão em Creta?
O grupo assentiu. Havia apenas uma semana e meia, uma base de apoio na ilha de Creta havia sido misteriosamente carbonizada, por uma explosão de fogo. A notícia se espalhou rapidamente, enquanto especialistas tentavam descobrir a real causa do acidente. O número de mortos havia chegado à 6.
–Pois bem... descobriram vestígios de um infiltrado, que teria instalado um explosivo em um tanque de combustível para geradores elétricos.
Louis reflete, pensativo. Era algo que já tinha passado na mente de todos... mas não tinham certeza absoluta.
–Os Negros?
–Provavelmente.
–Então... isso quer dizer...
–Que nem a Europa, onde somos mais fortes, está segura.
A frase de Marco causa uma pequena surpresa na multidão. De todos os lugares no globo, a Europa era onde os Brancos estavam mais presentes e seguros. Era o lar dos Brancos, um lugar que haviam conquistado e construído suas bases desde que saíram do Oriente Médio. As bases eram as mais numerosas e as mais bem protegidas. Não era a toa que um ataque à Europa era motivo de alarme.
Para a surpresa de todos, Kevin toma a palavra.
–E o que devemos fazer?
Apesar de já suspeitar da resposta, Kevin demonstrou uma certa determinação ao fazer a pergunta. Como se estivesse mais dedicado, mais interessado.
–A Irmandade, além de auxiliar o resto do mundo, quer reforçar a defesa na costa Mediterrânea. Não temos batalhas... ainda. Precisamos colocar a força que pudermos no sul, e tentar defender nossa casa.
Felipe reflete cada palavra dita. Tropas estavam sendo enviadas para todos os lugares do mundo. Em alguns, era só por precaução. Em outros, já estava acontecendo batalhas contra pequenos grupos de Negros. Já havia começado na Índia, e estavam com alguma suspeita na Austrália e no Japão. Nada tinha sido tão sério quando a Batalha da Califórnia... até agora. Depois de um ataque assim, seria idiotice não reforçar a proteção no Mediterrâneo. Mas Felipe ainda não entendia uma coisa...
–Porque nós? Sei que ajudamos na Califórnia, mas não foi grande coisa. Qualquer um pode fazer algo assim, se dedicar-se.
–Não está errado, Felipe – foi Marco quem respondeu – mas vocês foram os primeiros à fazer isso, em décadas. Acreditamos na capacidade de todos. Mas, se tivermos vocês como líderes, eles terão uma força bem maior.
Os três erguem uma sobrancelha, ao mesmo tempo. Eles tinham escutado certo?
–O senhor disse “líderes”? – pergunta Louis.
–Sim. Os próprio Grã-Mestre disse isso à mim; ele quer esse grupo comandando uma das tropas do Sul. Não como os primeiros comandantes... mas serão vocês quem armarão a estratégia, quem organizarão tudo.
Todos presentes ficam chocados com a afirmação. Nenhum deles nunca tinha ficado em algum tipo de liderança em alguma coisa. Não apenas por nunca serem designados, mas por acharem que não eram apropriados para tal cargo. A notícia os pega de surpresa. A Irmandade geralmente levava em consideração muitas coisas antes de escolherem seus líderes. E eram poucos os que conseguiam essa aprovação.
–Mas... Marco – Louis tenta argumentar contra – metade de nós nem passamos dos 18 anos. Como poderíamos liderar bem alguma coisa?
–O Grã-Mestre tem observado vocês – comenta Aveline – e ele sabe o que está fazendo. Ele vê potencial em cada um de vocês, individualmente e como equipe. E, por ordem direta dele, estão promovidos à raglaws.
Novamente, os presentes ficam surpresos com tal afirmativa. Logo abaixo do Comandante de uma tropa, chamado de Dux, estavam os Raglaws. Era um grupo de pessoas, que atuava na administração geral da equipe, bem como na motivação, e atuavam como os segundos em comando. Eram comandados pelo Dux, e se submetiam à ele. Mas ordenavam e comandavam a equipe toda de membros da Irmandade, e participavam da batalha. Receber esse título era algo raro, e muito honroso.
–Duvido que sejamos bons o suficiente para isso – diz Louis.
–Como eu mesmo disse: Foi recomendação do próprio Grã-Mestre.
Louis se calou. Por mais que todos ali não concordassem, não havia como recusarem. Uma ordem do Grã-Mestre era incontestável, não importava o que fosse.
–Ainda não acho que eu mereça isso – comenta Kevin – mas darei o melhor de mim. Se isso for possível.
Quem estava envolta acena com a cabeça, lentamente. Não iriam engolir isso tranquilos, mas iriam fazer o possível para cumprirem com seu dever. Se não poderiam escapar de seu destino, deveriam encara-lo com determinação, e batalharem pelo que acreditavam. Agora, iriam não apenas lutar; iriam ficar responsáveis por um batalhão inteiro. Alimento, moradia e, sobretudo, motivação. Tudo estava nas mãos deles agora. Mais de cem vidas estavam sob o destino dos seus atos. Claro que isso os deixava com medo, e os faziam pensar em desistir.
Mas Felipe sorri, ao se lembrar do que seu pai sempre lhe dizia: “Um Assassino sempre deve encarar seus desafios, e fazer de tudo para cumprir com seu objetivo. Mesmo se falhar, estará falhando com honra! Pois saberá que não fraquejou ao tentar.”
–Não vou me acostumar com a liderança fácil. Mas eu topo.
–Eu também – diz Louis.
–Nós também! – exclama Maria, animada – daremos o melhor de nós dessa vez!
Marco e Aveline sorriem, ao verem a recém-formada equipe de Raglaws alegres e determinados, conversando entre si e animando um ao outro. Para eles, que haviam feito esse tipo de trabalho antes, era sempre uma visão gratificante. Afinal: Talvez o Mestre esteja certo quanto aos garotos, e ao casal.
–Okay, chega de comemoração – diz Aveline, silenciando à todos – vocês precisam se arrumar. Partirão em um trem para o destino de vocês.
Louis olha para Aveline, carregando a pergunta que começava a tomar conta dos membros da recém-formada equipe.
–E para onde iríamos?
Aveline dá um pequeno sorriso.
–Sugiro que tomem um pouco de cuidado. Os Italianos costumam ser uma caixinha de surpresas.
Felipe dá um sorriso para si mesmo, ao ouvir a frase.
–Nunca sei o que vestir em Veneza
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