A Lâmina de Ferro
11 Homens do Gelo
Notas iniciais
Sibéria
–Estamos chegando?
–Segundo o mapa... sim. Aguente mais um pouco, estamos perto!
Heloísa suspira. Não estava muito animada com aquela afirmação; Heinz tinha dito a mesma coisa duas montanhas atrás. Mas, o simples fator de estar ali a impulsionava à continuar.
A neve caía levemente sob o solo branco daquela região desolada do extremo norte russo. A paisagem era tomada por um imenso branco, até onde a vista poderia alcançar. Altos pinheiros, de um verde escuro, se juntavam em pequenos grupos, e pontilhavam a paisagem, com metros e metros de distância um do outro.
A paisagem era bela, mas raros eram as criaturas, que ousavam se aventurar em um inverno da Sibéria. Raros animais produziam minúsculos sons aqui e ali, e eram perdidos entre os ventos fortes, que produziam seus sons na paisagem. Porém, no meio disso tudo... uma trilha longa de pegadas denunciava dois indivíduos, subindo uma encosta branca.
Heloísa ajusta seu novo arco, enquanto colocava mais força nas pernas. O arco era um modelo novo da Irmandade, feito de um material negro, flexível, e muito leve. Apesar disso, apresentava uma força destrutiva na corda metálica. O mais interessante era seu sistema de funcionamento.
–Bem engenhoso, não? – a voz dele corta o som do frio.
–Sim... é bem melhor para guardar. Com isso, se locomove mais rápido. E você pode saca-lo rápido, ainda. É ótimo, na caçada e na batalha.
–Pena eu ser apenas um velho professor de camuflagem. Senão, iria adorar ter um desses seus brinquedinhos. São incríveis!
Heloísa não pôde deixar de sorrir. Só havia conhecido Heinz fazia uns dias, quando se encontraram em São Petersburgo, para a missão. De início ficou em dúvida quanto à quem estaria acompanhando para a missão, mas logo havia aprendido à gostar e a respeitar aquele homem, tanto por suas táticas quanto pela sua energia.
–Você lembra muito o Felipe, sabia?
Heinz também sorrio, à menção do nome do filho. Até para quem tinha visto Felipe por apenas alguns segundos, tinha que admitir que os dois eram parecidos. O longo cabelo loiro-escuro estava oculto pelo grosso capuz branco. Uma barba do mesmo tom preenchia toda a mandíbula, e os arredores dos lábios. Olhos azuis e vívidos pareciam brilhar, entre as olheiras da pele clara.
Heloísa o achava incrível, mas um tanto contraditório. Sempre sorria e era otimista, apesar de parecer destruído por dentro, de cansaço e pensamentos. Parecia alguém atarefado, mas que sempre tinha um sorriso no rosto. Forçado, ou não.
–Muitos dizem isso... e ele? Como está?
–O mesmo de sempre.
Os dois deram uma risadinha baixa e feliz, com a doce lembrança. Era algo caloroso, no meio do frio cortante. Nem as vestes especiais estavam dando conta do recado: Uma grossa blusa branca ia por cima de muitas outras, e era forrada com pelo de ovelhas. As pesadas botas pretas afundavam na neve branca quase totalmente, mas não chegava a levar junto a calça branca. A típica faixa vermelha estava amarrada à cintura dos dois, e dividia o espaço com suprimentos, mapas, GPS e duas adagas de caça. O capuz, também forrado pelo interior, cobria o rosto pálido dos dois Assassinos, ajudando a manter as orelhas aquecidas. Os únicos aspectos que os diferenciavam era a aljava de flechas vermelhas de Heloísa, e o rádio ao cinto de Heinz.
Ambos suspiram, depois de encarar novamente a desolada paisagem. Com um passo inicial, Heinz recomeça a subida ao monte. Logo acompanhado pela sua protetora.
–Como um esconderijo de magos deve ser? – pergunta Heloísa.
–Bem escondido... se é que dá pra fazer isso por aqui.
–Pinte uma casa de branco, e pronto. Está camuflada.
Heinz volta a sorrir. Tinha razão em uma coisa: Felipe sabia arranjar boas amizades.
Ao chegarem no topo, tiveram que parar para analisar a paisagem. A desolação era belíssima, ao mesmo tempo que era mortal e destrutiva. O monte esbranquiçado era apenas um pouco mais alto do que o oceano de colinas e planícies, cobertas pelo branco gélido e brilhante, exposto à pouca luminosidade do norte. Rochas nuas e árvores continuavam a pontilhar a paisagem, tornando tudo muito parecido com a paisagem que tinham visto à 20 quilômetros atrás. Parecia que estavam andando em círculos... em um ciclo sem fim, tortuoso e gélido.
Heloísa observa Heinz sacar seu pequeno aparelho GPS. Vapores pálidos saíam da boca de ambos, conforme a respiração se estabilizava.
–Chegamos...?
–Segundo o GPS... sim.
Nem precisaram trocar mais palavras. Um simples olhar pelo horizonte reduzia tudo à simples expressões preocupadas.
–Você tem certeza que marcaram certo o lugar?
–Claro. Fui eu mesmo que marquei.
Heloísa teve que acenar com a cabeça. Até ali, Heinz não havia falhado uma vez sequer com ela. Nem na sua segurança, e nem na jornada. Pontos de referência, que ela nem notaria, Heinz o percebia detalhadamente. Não era o tipo de pessoa que se perderia fácil. Nem mesmo em uma paisagem deserta como aquela.
–Só não entendo uma coisa...
Heloísa se vira para ele. O vê encarando uma folha de papel, dobrada e amassada, que deveria conter alguns pontos de referência importantes. Desde que saíram de São Petersburgo, Heinz analisava aquilo constantemente... mesmo que o caminho pudesse parecer um tanto óbvio.
–O que foi? – ela olhava por cima do ombro do adulto.
–O último texto... é uma espécie de poema.
–Um poema?
–Sim. Aparentemente, ele revelaria o local exato.
–Deixe-me ver...
Heloísa pega o papel de Heinz, e logo começa a ler suas linhas manuscritas. Estava feito em russo: nada que Heloísa não pudesse traduzir para sua própria língua natal.
“Nas brancas terras, as trevas caminham
Onde ideias desvanecem sem sentido
Como leves bailarinas, luzes desfilam
Na voz que canta o sonoro rugido”
Uma das sobrancelhas castanhas de Heloísa se levanta. Não era o melhor dos poemas que ela já havia visto... mas não deixava de ser um tanto enigmático.
–O que é? O Sol?
–Também pensei... mas o sol não tem uma “voz que canta”.
–Hum... o que poderia ser?
–É mais enigmático. Talvez as trevas sejam os pecados do mundo... ou até os Negros.
–Ou os dois.
–Uhum... talvez sim, talvez não.
A jovem Assassina devolve o papel à Heinz. Logo, começa a caminhar pelo topo da colina, encarando a paisagem, tão lentamente quanto sua caminhada. O que poderia ser aquele poema, então? A garota revirava cada neurônio de seu cérebro nisso. Provavelmente era alguma espécie de senha... um código secreto e enigmático. Se os que procuravam eram como diziam, não era à toa que faziam algo assim para se isolarem. Mas... isso não deixava as coisas mais fáceis para ambos.
Heloísa junta as mãos. Estavam tão geladas quanto pedras. Ambos usavam grossos pares de luvas, mas parece que nem isso resolvia o frio intenso do local. Vendo que não iria conseguir aquecê-las facilmente, Heloísa aproxima os lábios das palmas.
–Heat...
A reação foi instantânea. Heloísa sente o calor voltando às pontas de seus dedos, e se espalhando por toda a mão. Um sorriso se estampa em seu rosto, conforme levantava a cabeça. Era incrível como a magia funcionada. Facilitava sua vida, resolvia problemas e situações... apenas com uma palavra dita. Depois de ver a magia dos Negros, Heloísa tinha que reconhecer que os Brancos estavam um tanto prematuros. Mas... nem depois disso, sua fascinação estava reduzida. Ela achava a magia algo... simplesmente mágico, por mais tosco que possa parecer. Era algo incrível, fabuloso, fantástico. Uma simples palavra, dita com fé e pensamento, poderia tornar algo realidade e...
–Espera...
Heinz vira a cabeça para Heloísa, com dúvida e curiosidade dominando seu olhar.
–O que houve?
–Pense... vivemos no mundo moderno, algo “escuro”, sem cor e alegria.
–...Onde até mesmo as ideias dos homens são derrubadas, não se fazem de antas... – Heinz começa a olhar para um ponto qualquer na paisagem, acompanhando a voz de Heloísa.
–Mas, nisso tudo, há algo que pode nos alegrar. Pode dar cor e fascinação à vida... uma luz, que vem como uma dança...
–“Cheia de Sabedoria, numa voz que canta”... mas isso só poderia ser...
Os olhares dos dois se encontraram no exato momento. Dois pares arregalados de olhos acompanhavam os sorrisos dos Assassinos. E, como se fosse mágica... falam em uníssono.
–A Magia!
A palavra ressou na mente deles, como se fosse algo forte, impactante. Uma sensação elétrica tomou posse do corpo de Heloísa, e ela se sentiu mais carregada... mais alegre, mais viva. Era como se tivessem descoberto o verdadeiro nome de Deus, e o tivessem proclamado para o mundo. Era como se a alma deles estivesse nova... de um segundo para o outro. A força e a energia daquela única palavra foi transmitida, para eles e para o mundo.
Sentindo-se estranhamente renovada, Heloísa percebe que estava segurando o ar em seus pulmões. Ao soltá-los rapidamente, vira o olhar para o colega. Heinz parecia estar igualmente afetado, tendo se levantado da neve ao solo, e começado a andar para lá e para cá.
–O que foi isso? Será que descobrimos?
–Deve ser. Mas, até agora, eu não vi nada que...
Antes que pudessem sequer terminar, algo estranho começa a acontecer.
A luminosidade do local começa a agir estranhamente. Heinz levanta o olhar, e vê pequenas ondulações, acima de um ponto, em uma colina distante. Pareciam-se com aquelas ondas de calor, que podia-se ver em asfaltos no verão. Mas... como era possível isso? Estavam no meio da Sibéria, com uma temperatura congelantemente baixa. Não havia como...
Heinz ficou boquiaberto, quando viu aquilo.
Do nada, espécies de linhas retas surgiam no céu. Eram brilhantes, finas e retas. Uma ou duas começaram a pontilhar o céu... mas, em menos de um segundo, um número enorme de linhas foram surgindo no céu azulado e pouco nublado siberiano. As estranhas linhas douradas começam a se alongar, e se cruzam em pleno ar. A luminosidade aumenta drasticamente de um momento para o outro. Heloísa cobre os olhos desesperadamente, mal aguentando a claridade. Demorou alguns segundos, para que sua visão pudesse voltar ao normal.
Mas, mesmo quando voltou, ela não sabia se o que via era verdade ou não.
–Oh... meu... Deus... – Heinz quase cai, ao encarar aquilo.
No topo da colina, onde antes havia apenas ar... uma construção gigantesca havia simplesmente surgido, do nada. Gigantescos tijolos cinzas brotavam do chão, e se elevavam em um castelo enorme, em estilo medieval. Quatro torres, com telhados pontudos, estavam nas pontas da construção em formato de paralelepípedo, em que uma das faces maiores da fortaleza estava virada para eles. Uma quinta torre, mais alta e grossa, saía do centro da fortaleza, e rasgava os céus.
A parede era grossa e robusta, mas pontilhada de janelas de uma madeira igualmente forte e grossa. Uma escadaria de mármore conduzia até uma enorme porta dupla, de um carvalho grosso, e enfeitado com tribais cor de prata. No alto das quatro torres laterais, pendia uma bandeira branca triangular, que tremulava com o vento
Heloísa já tinha visto algo parecido na Califórnia... mas não pode deixar de ficar boquiaberta. Algo ser oculto no meio do nada era incrível. Ela ainda não conseguia compreender como faziam aquilo. Ocultar algo tão grande e complexo parecia ser algo impossível.
–Heinz... isso é...
–Para uma dupla de Nórdicos... vocês até que descobriram rápido.
O que veio em seguida foi tão rápido quanto um piscar de olhos.
A voz estranha dispara a adrenalina nas veias de cada um, em questão de milésimos. Em um único e veloz movimento, Heloísa dobra seu corpo em um ângulo de quase 180 graus, em um furacão de branco, vermelho e castanho. Em um movimento de sincronia, sua mão esquerda agarra o pequeno instrumento cinza escuro do cinto, e o trás para junto do giro. Enquanto a mão direita se dirigia à aljava, o botão é pressionado.
Em uma velocidade ainda mais rápida, dentro do giro, o arco ganha vida. As engrenagens dentro do cilindro impulsionam o corpo metálico do arco para cima e para baixo. As pontas de metal se montavam, saindo de dentro da anterior. Quando as duas pontas curvas do arco se formam, um fino fio metálico salta de um e, numa velocidade mortífera, chega ao outro lado, se fixando com a força e a tensão necessárias.
Ao fim do movimento, a mão direita de Heloísa puxa o fio metálico para trás, acompanhado de uma bela flecha, de madeira e penas vermelhas, que vibravam pelo vento, lembrando sangue na neve.
Em praticamente 1 segundo, Heloísa apontava um arco e uma flecha para o dono da voz misteriosa.
–Essa foi rápida. Mas... porque a necessidade?
Heloísa enfim pôde franzir o cenho, ao encarar o homem à sua frente. De cara, se via sua imensa forma física, alta e musculosa, que nem os grossos mantos longos e brancos conseguiam esconder. Grossas botas negras raspavam na neve, e eram tocadas por uma faixa vermelha, com alguns detalhes em dourado. Um grosso capuz branco, com pelagem interna, ocultavam sua face, de onde dava para se ver apenas uma longa e espessa barba, que misturava fios negros e grisalhos. Uma de suas grossas mãos segurava um cajado de madeira pálida, tão branca e pura quanto a própria neve, que media pouco menos que a estatura do próprio homem. No topo, havia uma espécie de pedra preciosa, de um tom verde-escuro e brilhante, incrustada na madeira. Estava de tal forma que parecia que raízes davam origem ao cristal, que possuía uma forma abstrata e bela.
Não foi o suficiente para converter Heloísa. Ela continuou mirando para o homem, enquanto continuava à estudá-lo. Notou que o manto era um tanto... diferente. Parecia mais longo, menos detalhado, e com várias dobras e pedaços soltos de tecido, que formavam uma bela veste.
–Quem é você, homem do gelo?
Um rápido olhar da garota é dado para Heinz, que estava em sua posição de defesa. Uma adaga curta e curva estava em sua mão direita, e a esquerda parecia formar uma barreira, perpendicular ao braço armado de cima. Assim como Heloísa, parecia surpreso, assustado e desconfiado. Haviam recebido ordens de quem encontrar... mas não tinham ideia de como seriam esse “alguém”, muito menos suas intenções. Assim como a estranha fortaleza, havia surgido aparentemente do nada... o que o tornava perigoso. Mesmo o homem parecendo tranquilo e pacífico, as armas continuaram apontadas.
–Devem saber quem somos, jovens viajantes. Afinal: É para isso que vieram aqui, não?
Heloísa levanta um pouco as sobrancelhas, surpresa. Como ele poderia saber disso? Ela duvidava ser apenas por dedução. O homem era um dos Assassino Branco, visivelmente. Mesmo assim...
–Você sabe... – Heloísa toma a palavra – com tribos nômades e ladrões por aqui e ali, não se pode confiar em todo mundo. Foram 3 ladrões e 1 atacante do rio mais próximo até aqui.
Uma risada toma conta do ar. Logo, ficaram surpresos em saber que era do estranho homenzarrão.
–Realmente... é duro confiar nas pessoas daqui. Apesar de insultarem minha hospitalidade com isso, tenho que aceitar seus motivos. Assassinos Brancos sabem bem a hora de sacar a lâmina.
–E você é um de nós?
O homem pareceu olhar para Heloísa, com um sorriso nos lábios. Estende as mãos, em um gesto de acolhida.
–Somos os Truskas, os Grandes Magos Brancos do Norte. Também conhecidos como os Magos da Neve.
E, com a dupla já surpresa, o homem estende uma das mãos, apontando para a fortaleza.
–Aceitam um chocolate quente?
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