Notas iniciais
Olá.Aí está o capítulo 2. Mais algumas coisas sobre o universo e a mitologia da história em si, mas o principal foco deste, foi a introdução há alguns personagens importantes da história. Boa leitura. =)

Dominic às vezes se perguntava o porquê daqueles quatro estarem ali ainda, já que vez ou outra nem mesmo ele acreditava que a profecia do Mestre seria verdadeira. A hipótese mais clara para ele era que eles tinham uma lealdade inquestionável à Leton, já que ele não era um mero Filho da Sombra. Mas aquilo era o que mais trazia admiração em Dom, o fato de eles estarem juntos não apenas por um objetivo obscuro e incerto, e sim pela confiança que um tinha no outro. Algo que havia sido esquecido pelos outros Domínios.

De pé, observando aquela selva de concreto, estava uma das mulheres mais lindas que já tinha conhecido, e também a mais insuportável em sua opinião. Sua face clara ganhava destaque pelo cabelo e roupas escuras, seus olhos castanhos transmitiam a ferocidade de um urso mesmo calma, seu nome era Siouxie, a única Filha que conseguia converter sua Sombra em Iratus.

A Iratus, é a fúria em sua mais poderosa forma, é algo abominável para os guerreiros do outro lado do continente conhecidos como Domadores de Espadas e também temida pelos próprios Filhos das Sombras. A Iratus é uma mutação que pode acontecer com as duas partes da Siela. Quando ela é ativada, muitas vezes involuntariamente, a Sombra passa a desaparecer do corpo do usuário que entrará em um estado de frenesi que poderá fazer seu poder triplicar temporariamente, com um preço muito caro. O fato é que a Iratus irá consumir toda a Sombra, isso fará com que o balanço da Siela fique totalmente Desiquilibrada e aos poucos vá matando o usuário que não conseguirá voltar ao seu estado normal.

Mas Siouxie, quando foi convertida, sua Sombra foi totalmente consumida pela Iratus que serviu como uma substituta na balança e a manteve controlável, assim ela pode expandir sua Iratus ao máximo e voltar ao normal quando bem entender, mesmo que aquilo lhe cause uma grande fadiga.

Sentado na poltrona ao seu lado, estava o mais experiente e segundo mais velho do Domínio da Última Noite. Seu rosto era quadrado, tinha os cabelos castanhos lisos e crescidos até o ombro, também usava uma roupa social e estampava um sorriso sempre simpático e alegre. Era Draen.

Dominic nunca soube muito sobre Draen, em seus estudos dos livros do Mestre, aquele homem era sempre citado apenas como um conselheiro e portador da sensatez no grupo. Não havia qualquer relato de que ele pudesse ter algum dom especial dado pela Sombra, apenas o aumento das capacidades humanas em geral. Ele e Leton estavam sempre juntos e eram praticamente irmãos, ambos fizeram feitos importantes juntos quando o Mestre ainda estava entre eles.

No outro lado, encostada na parede, estava uma mulher com um pouco mais de um e setenta de altura, cabelos com cor de mel, morena e com uma expressão calma e alegre. Ela foi a primeira pessoa para quem Dominic acenou e sorriu, para ele aquela mulher era a que mais se aproximava de uma mãe.

Seu nome era Samantha, esposa e companheira inseparável de Leton. Assim como Draen, ela não ostentava nenhum dom especial que provinha da Sombra, mas para Dominic ela tinha sim algo que outros como ela não possuíam. A capacidade de transmitir seus sentimentos melhor do que ninguém, e talvez por isso Samantha fosse uma das pouquíssimas pessoas que podiam realmente ver o verdadeiro Dominic que se escondia por trás de uma mascara de complexos sentimentos e incertezas.

Samantha havia sido escolhida para ser uma Filha da Sombra não por ter uma manifestação em potencial como a maioria, mas sim pelo fato dela ser uma das poucas barreiras que realmente poderiam parar Leton caso ele saísse do controle. O casal já se conhecia desde que eram humanos, e o Mestre sabia que Leton jamais conseguiria controle daquilo dentro de si se ele não tivesse uma motivação maior, que era Samantha.

Por fim, estava aquele que Dom achava o mais misterioso e estranho Filho da Sombra que já encontrara. O mesmo que os havia cumprimentado primeiro, era um jovem de óculos, bronzeado, cabelos negros e enrolados, usava roupas jeans e normais, tinha um sorriso misterioso nos lábios. Ele era Vesta.

Para Dominic, Vesta era no mínimo uma aberração que deu muito errada, ou extremamente muito certa. Mesmo que um rastreador de Sombra passasse a dois palmos ao lado de Vesta jamais conseguiria identificá-lo como um Filho da Sombra, porque ele sequer possuía uma Sombra ativa dentro da sua Siela. Ele sequer tinha habilidades sobre-humanas como os Filhos mais comuns, se ele desse um soco numa parede provavelmente ele quebraria a mão.

Dom procurou durante muito tempo informações de Vesta nos livros do Mestre, mas a única coisa especifica que havia nos tomos que ele encontrara era apenas um trecho:

Vesta era o nada que lhe observa. Ele nunca teve uma voz ativa, nunca deu opiniões, conclusões ou filosofou sobre algo. Sua normalidade era tão explicita para mim, que quanto mais eu o olhava mais sabia que alguma coisa tinha de errado. Durante muito tempo eu achava que Vesta era um Filho da Sombra que eu errei em algum ponto da conversão para se transformar assim, já que ele era um usuário com uma manifestação de Sombra devastadora enquanto humano. Mas era uma conclusão errônea, quando eu o vi pela primeira vez sem os óculos, pude ver sua Sombra pulsando para fora do seu corpo, como uma explosão de energia que poderia se comparar ao próprio Leton. Mas isso fez com que minhas duvidas aumentassem ainda mais sobre ele.

Vesta é uma página em branco.

A primeira vez que Dominic leu aquilo, ele apenas riu e pensou “por que um objeto seria o que separasse a humanidade da Sombra?”. Mas ele também se obteve a mesma resposta do artigo quando viu os óculos de Vesta serem arrancados da sua cara a força, e desde aquele dia, Dom o estuda de todas as formas possíveis para encontrar uma resposta válida, mas por enquanto a sua conclusão era a mesma que o Mestre escrevera: Vesta era uma página em branco.

— E então, Leton, por seu olhar prevejo que haja algo que queira nos contar. — Draen foi direto ao assunto.

— Está certo, meu amigo — Leton respondeu — parece que temos uma nova manifestação em potencial e que aparece com frequência aqui. Acho que está na hora de expandirmos nosso Domínio, desde que os Filhos da Sombra se fragmentaram nós sempre nos mantemos nesta formação e nunca acolhemos ninguém.

— Não acho uma boa ideia — Siouxie protestou — a nossa vantagem sobre os outros Domínios é o fato de que eles pensam que nós morremos, se adicionarmos um ou quantos forem ao nosso grupo, provavelmente vamos perder o anonimato.

— Eu entendo os riscos Siouxie. — Leton cruzou os braços e se recostou na parece. — Mas este usuário parece ter uma manifestação imensa de poder, algo que não vemos há muitos anos. Além disso, com os Domínios da Força e da Sabedoria quase entrando em guerra, um usuário desses pode ser o incentivo final para que se inicie um massacre.

— E então qual é o plano? — Perguntou Samantha. — Já tem a localização dele?

— Antes do plano, — Dominic interrompeu — Kraven e Angus já foram vistos por essa cidade. Então com certeza o Domínio da Força já está a procura, e eu já me adianto a dizer que não vou bater de frente com eles.

— O que? — Siouxie riu sarcasticamente. — Está com medo de apanhar, criança?

Vesta que ouvia calado abafou um riso com a boca.

— Sim, porque ao contrário de você eu não sou um saco de pancada gratuita.

— Vocês dois, por favor, podem parar de se jogarem pedras por pelo menos dois minutos? — Draen pediu pacientemente e voltando para o foco da conversa. — Leton, Dominic tem um ponto. Sabemos que Kraven é um Filho de alto nível assim como Angus, como vamos lidar com isso?

— Eu vou criar uma falsa manifestação usando um pouco do meu poder — Leton respondeu — em seguida, vou tentar ocultar ao máximo a trilha da manifestação original. Isso não vai fazê-la desaparecer totalmente, mas vai ser o suficiente para deixa-los confusos e irem atrás do mais intenso. Quanto a localização, ambos sabemos que as pessoas que tem esse tipo de manifestação, procuram instintivamente se isolar dos outros, e ao que parece esta parece ter corrido em direção a mata de uma reserva florestal, não muito longe da rodovia.

— Enquanto eu estiver distraindo os dois, Siouxie e Dominic vão buscar a vitima pessoalmente. Draen e Samantha vocês ficam vigiando os limites da cidade e fiquem atentos a qualquer chamado de cada um de nós para prestar socorro imediato. Vesta, você ficará com o carro na rodovia esperando a volta de Siouxie e Dom, tente chamar o mínimo de atenção possível, mesmo sabendo que você é bom nisso.

— Pode deixar — Respondeu Vesta — estarei preparado.

Era obvio que Dominic e Siouxie não gostaram nem um pouco daquilo. Ambos eram extremamente parecidos em questão de ego, personalidade e atitudes, além disso, os dois não concordavam um com o outro em diversos aspectos. Leton estava ciente daquilo, mas ele também sabia que em momentos de necessidades reais os dois tinham uma sincronia inigualável e sabiam que podiam confiar um no outro.

— Todos se preparem, nós começaremos ao cair da noite. — Leton falou finalizando a reunião.

Dominic voltava para o seu quarto após um bom e necessário banho, ele ainda estava sem camiseta, gostava de sentir o vento batendo pelo seu peitoral e os cabelos molhados, o calafrio causado lhe dava uma sensação de ainda estar conectado com o mundo normal que há muito tempo ele havia se distanciado. Os momentos de solidão fora da caça eram os piores para Dom, pois era naqueles instantes que sua mente era invadida por questões sem respostas, a mais gritante delas era: Por que sou diferente?

Para ele próprio, Dominic já havia deixado de ser humano há muito tempo, seus sentimentos eram confusos e ofuscados pela sua Sombra instável que ora está intensa, ora está quase nula. Aquela maré de vai e vem era o que diferenciava Dom dos outros Filhos da Sombra, pois diferente dos outros, ele não havia poderes concretos, sua Sombra, às vezes, não era tão forte a ponto de arrancar uma arvore grande do lugar, como provavelmente qualquer outro Filho comum poderia, ele também ficava frágil como um humano caso sua Sombra diminuísse, bastava apenas uma pancada na sua cabeça enquanto estivesse distraído e ele morreria.

Entrando no quarto Dominic fechou a porta, sentou-se no meio da sua cama e observou as tatuagens idênticas cada uma desenhada em uma mão. Aquilo era o que diferenciava ele dos demais. Dom fechou os olhos e se focou por um instante, desejando que aquelas coisas reaparecessem, e assim o fez. As tatuagens brilharam por uns instantes e de repente duas lâminas saltaram por debaixo da sua pele, não causando dor, nem espirrando sangue. Cada uma possuía sessenta centímetros de comprimento e eram exatamente iguais.

Um Filho da Sombra dificilmente teme a morte, para ele nada pode o fazer extinguir deste mundo a não ser si próprio. Quando a Sombra se torna dominante dentro da Siela, o Filho se torna arrogante, prepotente, seu ego infla e seu senso de medo e perigo automaticamente se torna obsoleto. Isso se deve ao fato de que quando a Sombra fica ativa em uma pessoa, ela aumenta todas as resistências físicas de uma pessoa, deixando-a invulnerável a todo tipo de doença, aumenta-se o fator de regeneração de todas as células do corpo criando um fator de cura extremamente rápido e a impedindo de envelhecer. Mesmo assim, um Filho da Sombra ainda possui órgãos vitais que devem ser protegidos a todo custo, como o coração e o cérebro.

Entretanto para aquelas lâminas nada dessas resistências eram capazes de impedir um corte. As Lâminas da Morte foram feitas justamente para matar qualquer coisa, qualquer criatura deste ou de qualquer outro mundo colocando-as no mesmo patamar perante a Morte. Além disso, apenas um golpe de raspão poderia estraçalhar a Siela de qualquer um, causando-lhe uma dor incompreensível e indescritível que o condenaria para o resto da eternidade.

Dominic lembrou-se de um dos manuscritos na qual o Mestre cita o poder dessas armas:

Feitas a partir do mesmo aço que forjou todo o mal, as Lâminas da Morte são uma perfeita combinação de terror, morte e escuridão que existe neste Universo. Desde o inicio elas foram cobiçadas por criaturas para que elas se tornassem soberanas sobre as outras. As Lâminas da Morte trazem consigo um pesado fardo de destruição para aqueles que os carregam.

Existem exatamente cinco armas dessas espalhadas pelo tempo e espaço, mas apenas três são conhecidas. A primeira delas está embainhada à cintura do Primeiro Caído, a mãe das outras e mais poderosa de todas, chamada de Pecado, esta espada com apenas um golpe é capaz de criar um rasgo eterno em dimensões paralelas e para sempre deixar esta marca, basta apenas um olhar para ela e já pode-se sentir o seu poder retalhando a Siela. A segunda Lâmina, porta a forma de uma foice dupla, recebeu o nome de Perdão e está sempre sendo carregada por um dos Quatro Errantes que vagam por aí sem rumo. A terceira, que na qual eu as possuo, foi divididas em duas pequenas lâminas e dadas a mim, O Guardião Sombrio, para que este as use com sabedoria e justiça, e para que ele a use para proteger o Equilíbrio de qualquer criatura que fuja dos seus propósitos principais: Nascer, viver e morrer.

Eu as adaptei para que fossem de fácil manuseio, além de extremamente rápidas na hora de escondê-las. Precisei de dois símbolos de invocação tatuados em minhas mãos para conseguir trazê-las para fora que podem ser ativados apenas por um simples desejo.

As outras Lâminas ainda são um mistério para mim, desde quando soube de suas existências, eu quis ter suas localizações ou ao menos sua identidade, mas infelizmente jamais tive qualquer pista delas.

Ele as observava com repulsa e ao mesmo tempo fascinação. Dominic odiava aquelas Lâminas tão quanto ele odiava a si mesmo, mas sabia que elas eram armas exóticas e únicas no mundo. Leton uma vez disse para que Dom desse um nome para elas, assim como os Domadores de Espadas faziam para suas, mas ele achava que aquelas armas não mereciam nome, pois não foram feitas para defender, honrar e lutar, mas sim para o simples fato de matar e causar a maior dor possível em qualquer coisa que ela toque.

Enquanto as observava, uma voz conhecida de repente brotou em sua mente:

— Você não pode negar que elas são bonitas. — disse se referindo às runas desenhadas, e a simetria perfeita que as Lâminas da Morte tinham em relação a sua altura e largura.

Dominic por um instante fechou os olhos tentando não prestar atenção, mas ao abri-los novamente deu de cara com aquele espectro que o infernizava desde que nascera. Antes ele era apenas um amigo imaginário que toda criança solitária da sua idade tinha, que Dom passava horas e horas conversando, mas depois que conheceu Leton seu amigo se tornou não apenas outra pessoa, como também tomou um aspecto visual.

— Você não pode ficar quieto pelo menos um dia? — Dom perguntou.

— Se você me quisesse quieto, provavelmente eu nem existiria. — respondeu a voz que agora vinha de alguém sentado na janela.

Usando roupas negras, coberto por uma capa rasgada nas pontas, usando um capuz que ocultava quase todo o rosto, ele apreciava a visão que tinha para o lado de fora. Dominic sabia que ele jamais existira, que aquilo fazia parte do seu próprio subconsciente que havia dado um jeito de se comunicar com a sua consciência sã. Mesmo assim, era mais um motivo que Dom odiava ficar sozinho.

— E então, você nunca aparece por nada. — Dom foi direto ao assunto. — O que foi que eu falei de errado dessa vez?

— Você não deveria me tratar assim, e se eu quisesse falar com você, apenas para saber se está tudo bem por aqui? Jogar papo fora.

— Provavelmente você nem existiria.

— Tem razão. — O homem respondeu virando-se agora para Dominic. — Tem algo que me incomoda profundamente em você.

— Em nós. — Dominic frisou.

— Tudo bem. Então precisamos discutir sobre como nossa vida está fora dessa outra vida.

— Hã?

— Convenhamos Dom, voc... Digo, nós, não somos um Guardião Sombrio vinte e quatro horas por dia. Existem coisas boas lá fora.

— Tipo o que? Dormir?

— É uma boa opção, mas mesmo que quisesse você só pode dormir uma vez a cada três noites. Que tal sair? Andar por aí?

— E ter que matar um a cada esquina que eu viro? Por favor, você mais do que ninguém sabe que para não mergulhar de vez nessa vida, eu não posso simplesmente sair por aí sem compromisso.

— Eu sei que você tem medo disso. Nos dias de hoje, temos um assassino em todas as partes que está afetando o Equilíbrio de alguma forma.

— A primeira regra de um Guardião Sombrio é caçar aqueles que disturbam o Equilíbrio do mundo, sendo ele humano ou não. Então, como você quer que eu saia por aí sendo que, você mesmo disse que existem vários desequilibrados por aí?

— Simples. Dê uma chance para a humanidade.

Dominic soltou um suspiro desanimado.

— Só pode ser brincadeira isso...

— Pense bem, você todo dia que sai por aí com dois motivos. Ou para caçar, ou para comprar pão para o café. Porque não tenta sair apenas para não criar mofo aqui?

— E se eu encontro um desequilibrado.

— Você o marca e deixa passá-lo.

— Eu me pergunto se você em vida diria uma coisa dessas.

— Talvez. Mas não vem ao caso isso, só digo isso para que você se policie mais a respeito. Sabemos que o que separa você dos outros Filhos da Sombra é exatamente essa questão.

— Que eu sou mais fraco que qualquer um, mesmo com a minha Sombra cobrindo quase totalmente a minha Siela.

— Isso é um efeito colateral, sabemos disso.

O homem então inclinou sua cabeça, deixando a luz iluminar a parte direita da sua face. Mesmo os olhos ainda estando escondido nas sombras, era possível ver que em seu rosto havia três traços em forma de cicatriz que iam do lábio inferior e que continuavam em direção aos olhos e desapareciam.

— Mas você não pode negar que este pequeno problema se compara a vantagem de ainda ter a humanidade dentro de você.

— Minha humanidade se foi há muito tempo. — Dominic respondeu frio. — Antes mesmo de eu ser um Guardião.

— Não. Sua humanidade está aí, só está enrolada na sua Sombra com medo de sair e ser traumatizada novamente.

— Às vezes eu me pergunto. — Dominic então encarou o homem desta vez com um olhar feroz, mas ao mesmo tempo calculista e cruel. — Quando você preferiu salvar um humano aos seus Filhos, você estava sendo movido pela humanidade ou pela Sombra, Mestre.

A porta de repente se abriu sem que houvesse qualquer batida. O homem que estava na janela desapareceu na mesma velocidade que um fechar de olhos. Dominic que tinha sua Sombra mais intensa, de repente se viu voltar ao estado normal, ao ver Vesta entrando no seu quarto.

— Estava falando com alguém? — perguntou ele sorrindo.

— Eu? Não.

— Ok. — Ele olhou para as mãos de Dominic que ainda ostentavam as Lâminas da Morte para fora. — E por que está com suas armas a mostra?

— Opa. — Dom imediatamente as recolheu. — Estava apenas praticando seu saque em caso de emergência para hoje. Aproveitando sua invasão domiciliar, quantas vezes que eu vou precisar te dizer pra bater na porta, antes de quase arrombá-la!

— O suficiente. Só queria dizer que o almoço está pronto. — Vesta era o cozinheiro do grupo, e fazia questão de chamar todos quarto a quarto, com tanta empolgação que se esquecia de bater. — Frango ao molho, arroz e tomates picados. O que acha?

— Já estou descendo chief, me dê alguns minutos até vestir algo.

— Não se atrase. — Vesta ia saindo do quarto quando parou no meio do caminho e deu um passo de ré e falou. — Alias, acho que deveríamos sair por aí qualquer hora.

— Pensamos nisso depois.

Depois que Vesta saiu e fechou a porta, Dom olhou novamente para a janela e não havia mais ninguém lá. Ele respirou fundo e sentiu uma pontada de culpa por ter falado aquilo para si mesmo.

A noite caiu rapidamente, Dominic e Siouxie estavam sentados no banco traseiro de uma camionete preta de cabine dupla enquanto Vesta assumia o volante.

— Vocês tem a localização do nosso prodígio? — Perguntou ele enquanto trocava de marcha.

— Sim, Leton passou a posição exata de onde ele pode estar rondando. — Respondeu Siouxie.

— Fiquem atentos, estamos dentro de uma reserva florestal, animais selvagens habitam aí e eles costumam ser mais ativos durante a noite.

— Preocupe-se em apenas estar onde deve Vesta. — Siouxie respondeu afiada.

— Não está mais aqui quem falou. — Vesta ergueu levemente as mãos do volante com tentando desfazer o sorriso do rosto.

— É aqui, logo após a curva. — Dominic olhava pelo GPS do seu celular, e havia marcado onde Leton havia dito para começarem a busca.

Vesta encostou a camionete na borda da pista, Siouxie e Dominic desceram.

— Não garanto que estarei aqui quando voltarem — alertou Vesta. — Esta área é constantemente vigiada por guardas florestais, logo preciso ficar em movimento para não chamar a atenção. Mas pararei aqui durante cinco minutos a cada quinze, fechado?

— Nos vemos daqui a pouco então. — Dominic deu um soco leve na lataria da camionete. Vesta engatou a primeira e seguiu em frente.

Os dois então se viraram para a mata. A única coisa que eles viam era uma trilha que penetrava por dentre os pinos com mais de vinte metros de altura, o breu era soberano e não havia sequer a luz da lua naquele dia. Entretanto, a Sombra de Dominic estava adaptada ao escuro da noite, fazendo sua retina conseguir distinguir muito bem a visão que havia em sua frente. Siouxie não podia enxergar tão bem, mas seus sentidos apurados conseguiam prever com tranquilidade as coisas a sua frente mesmo no escuro.

— Consegue ouvir alguma coisa? — perguntou Dom enquanto andavam mais a fundo pelo mato.

— Pouca coisa. — Ela respondeu focada. — São sons normalmente produzidos por animais, uma pessoa causaria mais barulho.

— Pelos mapas daqui, há uma clareira a cerca de quinhentos metros a frente. Pode ser um bom lugar a se procurar.

— Pode ser perigoso. Aqui ainda podemos nos esconder por dentre as árvores e nos ocultar na escuridão, além do seu manto ajudar bastante. Mas uma clareira é um lugar aberto e as chances de sermos flanqueados são gigantescas.

— Você acha que pode haver mais deles?

— Não podemos descartar essa possibilidade, Dominic. Se Leton e Kraven sentiram essa manifestação, provavelmente outros também fizeram o mesmo e podem estar por aqui.

Dominic redobrou a atenção e eles passaram a andar com mais cuidado a medida que se aproximavam da clareira. Siouxie aos poucos conseguiu distinguir alguns sons que se diferenciavam do comum de uma floresta, mesmo que ainda indistinguíveis, os passos se tornaram silenciosos como o de uma pluma e não tão depois Dom também começou a ouvir.

— O que é isso? — Sussurrou ele.

A clareira foi ficando visível por dentre as árvores, o coração de Dominic começou a bater mais forte, sua Sombra se agitou dentro de si. Enquanto isso, Siouxie continuava cada vez mais cuidadosa e aos poucos foi reconhecendo o barulho, que logo tomou a forma de soluços.

— É um garoto? — Siouxie perguntou para Dom enquanto tentava enxergar uma silhueta de pé mais a frente.

Mas Dominic sequer ouviu aquilo. Ele estava mergulhado em uma ilusão pregada por sua mente que foi desencadeada pelo choro da criança. Sua consciência foi levada para dez anos atrás, momentaneamente a floresta ao seu redor desapareceu, dando lugar a uma sala de azulejos brancos, substituindo as arvores por pedaços de porcos pendurados por ganchos presos ao teto. Sua mão direita estava com um talho enorme, mas ainda segurava um caco de vidro com tanta força que parecia um córrego de sangue. O barulho dos cadáveres sendo balançados em seus cabos aumentava ainda mais o desespero, que fez pela primeira vez sua Sombra explodir para fora do seu corpo. Ele chorava, soluçava e gritava apavorado misturando um sentimento de terror, ira, medo e desespero. Seu amigo imaginário ainda tentava acalmá-lo, chamando seu nome: “Dominic, Dominic, Dominic, Dom...”

—... Minic! — Siouxie quase gritava enquanto o sacudia.

Dominic de repente acordou do seu devaneio suando frio e tremulo. Sua Sombra estava como o mar em noite de tempestade, sua mente ainda confusa tentava se focar no presente. Ele não ouvia mais o choro o que o ajudou a se recuperar.

— Você está bem? — Ela perguntou preocupada e confusa. — O que houve?

— Estou bem — ele falou pressionando as pálpebras dos olhos com as mãos.

Dom levantou-se e sacudiu a cabeça, tentando mandar para longe aquela lembrança maldita. Quando seu deu conta de onde estava, seu pé quase tropeçou em algo pesado. Ao olhar para o chão percebeu um verdadeiro massacre. Ao redor do menino desmaiado, vários corpos de pessoas mortas jogados por todos os lados, todas pareciam ter sido acertadas por algo tão violento e brutal que nem Dominic não ousou a tentar imaginar o que poderia ser.

— O que houve aqui? — Dom perguntou ainda pasmo.

— O garoto simplesmente parou de chorar e desmaiou no chão. Acho que sua Sombra o deixou exausto. O que me espanta são os corpos ao redor.

— Acha que devemos nos aproximar?

Os dois saíram por dentre os pinos e se aproximaram cautelosamente analisando os corpos. Chegando perto, viram que aquilo fora muito mais do que uma simples manifestação da Sombra, tamanho o estrago que havia. A maioria eram homens com cerca de vinte anos, todos com seus corpos estraçalhados como se fossem cortados por uma hélice de helicóptero. Braços, pernas e cabeças estavam espalhados por todos os lados enquanto o sangue pintava o gramado verde por quase toda a dimensão da clareira.

— Eu nunca vi algo assim. — Dominic falou impressionado com aquele massacre.

— Nem eu, e são todos do Domínio da Sabedoria. — Siouxie ressaltou. — Vê que todos tem um símbolo marcado na nuca?

— Os que estão inteiros sim. — Dom respondeu reparando na minúscula tatuagem de um dos corpos. O Domínio da Sabedoria eram os únicos que marcavam seus membros para que fossem leais eternamente.

Dominic então se aproximou da criança com cuidado e se ajoelhou próximo a ele. Era um menino com pouco mais que sete anos, os cabelos eram loiros e tinha um metro e meio de altura, suas mãos estavam cheias de sangue, assim como sua roupa rasgada. Os olhos ainda estavam úmidos por causa das lágrimas e a expressão facial ainda transmitindo uma sensação assustada.

— Demos sorte de chegar após a festa. — Siouxie comentou também se aproximando. — Vamos tirá-lo daqui antes que outros apareçam.

Foi apenas ela terminar com a frase que Siouxie foi agarrada e saiu rolando pelo chão. Dominic olhou, mas foi surpreendido por alguém nas suas costas que o prendeu com uma chave de braço em volta do seu pescoço. Ele se debateu tentando se livrar, mesmo com sua Sombra crescendo Dominic ainda estava preso e começava a ter dificuldade para respirar.

— Vocês não vão levar ele! — gritou o agressor. — Este garoto é do Mestre, o verdadeiro Mestre.

— Conta outra! — Dominic ascendeu mais ainda sua Sombra e desferiu uma cotovelada forte o suficiente para fazer o homem atrás de si largar seu pescoço.

Dom se afastou e ficou entre ele e a criança desacordada. Vendo que não tinha alternativa a não ser lutar, ele fechou os punhos esperando o seu atacante partir para cima novamente. Mas isso não aconteceu, pois Siouxie saltou em cima do Filho da Sombra a sua frente esmagando suas costas e o fazendo cair a sua frente.

— Pegue o garoto e suma daqui, Dominic!

— Mas e...

— AGORA! — Siouxie gritou pisoteando uma vez a cabeça do homem embaixo dos seus pés.

Dominic virou para trás, ergueu o garoto no colo e saiu em disparada na direção da mesma trilha por aonde vieram. Ele olhou para trás e viu Siouxie sendo atacada pelo outro Filho que a derrubou. Sua vontade era largar o garoto e ajuda-la, mas Dom sabia que aquilo desperdiçaria aquela chance e deixaria não só ela, mas todos os outros bastante irritados.

Correndo o mais rápido que podia, Dominic saltava pelos obstáculos com agilidade o suficiente para não tropeçar e acordar o garoto assustado. Sua Sombra ainda estava instável, o que piorava ainda mais a situação o deixando com menos disposição física e trazendo seu cansaço rápido. Mas a situação ficou desesperadora quando os olhos do garoto começaram a se abrir.

— O... Que... Está havendo... — Sua voz estava fraca.

Sem nada melhor para responder no momento, Dominic respondeu ofegante.

— Não se preocupe. Estamos numa competição de correr com pessoas no colo, e estamos ganhando, apenas volte a dormir!

Dominic não soube se aquilo realmente ajudou, mas o menino novamente fechou os olhos eliminando temporariamente uma de suas preocupações e focou-se o suficiente para perceber que algo o espreitava pelas arvores ao lado. Ele sabia que Siouxie não faria aquilo, então imediatamente deixou sua Sombra expandida ao máximo que podia e esperando um ataque. De repente uma mulher executou um salto violento, com as mãos esticadas em direção aos dois, Dominic não teria tempo de desviar se ela não parasse no meio do ar e fosse segurada pelo tornozelo por Siouxie que estava logo atrás.

— NÃO! — A Filha da Sombra gritou, seu corpo foi arremessado contra uma arvore com tanta violência que partiu o tronco.

Siouxie passou correndo por Dominic e foi emboscada por outros dois Filhos da Sombra logo à frente. Para limpar o caminho, ela agarrou os dois pelo braço e se jogou para fora da trilha rolando pela folhagem com os outros dois. Dom passou correndo e pode ouvir o barulho da briga até o fim da trilha.

Ao chegar novamente na estrada, Vesta não estava lá ainda. Dominic olhou para os lados e enfurecido gritou para o alto:

— VESTA, SEU MALDITO! APAREÇA!

Fazendo a mesma curva por onde eles vieram, em altíssima velocidade e cantando pneus, Vesta freou a camionete exatamente onde Dominic estava já com a porta traseira aberta. Sem pensar duas vezes, Dom jogou o garoto no banco de passageiros, fechou a porta e entrou pela porta da frente. Vesta saiu patinando e seguiu reto.

— O que houve ali? Onde está Siouxie?

— Ela ficou cuidando de outros Filhos que estavam ali. — Dom respondeu com dificuldade devido a sua respiração arfante.

— O que? Kraven estava lá?

— Não, eram do Domínio da Sabedoria.

— DROGA! — Vesta socou o volante. — Vamos voltar e você vai ajudá-la, eu levo a criança para o esconderijo.

— Não se preocupe. — Dominic abriu a janela para tomar um pouco de ar. — São todos com nível de manifestação D ou C. Siouxie sequer vai suar para dar conta deles.

— Espero que você e essa sua classificação estejam certos.

— Sempre estão. — Dominic se afundou no banco e olhou para o garoto atrás que ainda dormia.

Vesta estacionou a camionete em um beco logo atrás do prédio abandonado, cobriu o veículo com uma lona preta e ajudou Dominic a tirar o garoto da camionete.

— Cuidado com a cabeça. — Alertou ele enquanto Dom o levantava no colo com todo cuidado possível para não acordá-lo.

— Como vamos subir com ele? — Perguntou Dominic. — Não temos adaptações para crianças dormindo.

— Deixe comigo.

Vesta pegou um pé de cabra que estava na caçamba da camionete, subiu numa lata de lixo e enganchou a ponta num degrau de escada móvel que estava com a parte de baixo recolhida próxima ao teto. A escada desceu com a puxada, então o Filho olhou para Dominic e falou com um sorriso forçado:

— Só falta subir sem acordar ele.

Os dois passaram quase quinze minutos tentando subir o garoto pela escada. Dominic às vezes lamentava por Vesta não poder usar um pouquinho da sua Sombra sem antes explodir pelo menos uma cidade inteira para definitivamente ajudar em alguma coisa, como naquela hora. Ao finalmente alcançarem a janela do primeiro andar, os dois ainda subiram quase 10 lances de escadas até finalmente chegar ao topo onde eles de fato viviam.

Quando Dom abriu a porta da mesma sala em que houve a reunião mais cedo, ele se deparou com Leton, Samantha, Draen e Siouxie machucada.

— Finalmente! — Leton falou preocupado. — Onde estavam?

— Tivemos um probleminha com as escadas... — Vesta ia falar, mas Leton não deu atenção e foi direto a Dominic que entregou a criança para ele.

— Então ele é a fonte deste poder. — Leton pensou alto enquanto olhava para o garoto.

— Leton, nós temos que fazer a conversão, antes que a Sombra tome conta de toda a sua Siela. — Samantha alertou.

— Sim, — Siouxie disse enquanto cobria com a mão um corte no supercilio direito. — Pelo tanto de mortos e o estrago neles, ele expandiu sua Sombra demais.

Dominic, entretanto não estava feliz com aquela ideia.

— Não acho que devemos fazer isso. — Ele falou, surpreendendo a todos.

— Como? — Perguntou Leton.

— Leton olhe para ele, é apenas uma criança. Se fizer isso ele vai se transformar num Filho da Sombra.

— E daí? — Siouxie perguntou.

— E daí? Droga, vocês se julgam tão diferentes dos outros Domínios, mas estão fazendo a mesma coisa do que eles! — Dominic cerrou os dentes. — A Sombra vai neutralizar os sentimentos desse garoto antes mesmo dele sequer saber como é. Como podemos pensar que isso é benéfico sendo que no fundo vai ser uma tragédia. — Ele se direcionou a Leton. — Olhe para ele, Leton, como vai ser a vida dele sem poder sentir alegria em fazer amizades, abraçar a mãe, em brincar com os irmãos, rever a família num fim de semana?

— Dom... — Leton disse quase sussurrando.

— Esse garoto não pode ser como eu! — Dominic estendeu os braços. — A minha Sombra despertou com a mesma idade que ele, e vejam no que eu me transformei.

— Você é diferente Dominic... — Draen disse. — Sabe disso.

— Sim, eu sou diferente porque minha Sombra é instável, porque ela me permite ainda ter sentimentos. Mas me respondam com sinceridade, qual é a vantagem de se ter sentimentos sendo que todos os dias eu preciso sair a noite e matar cinco, seis ou sete pessoas? — Silêncio. — Agora me respondam o que realmente é diferente se esse garoto viver para o resto da sua eternidade sem sequer ter sentido o gosto da felicidade ao menos uma vez! — a medida que Dominic falava, sua Sombra diminuía.

Leton soltou um suspiro.

— Draen, leve o garoto para um quarto vazio, deixem-me a sós com Dom, por favor. — Pediu enquanto entregava o garoto para o seu amigo.

Todos saíram da sala enquanto Leton fechava a porta e Dominic olhava para a parede, ainda inconformado.

— Eu sei que você está frustrado com tudo isso, Dominic, acredite eu sinto tanto quanto você isso.

— Leton, qual é a diferença de converter aquele garoto do que mata-lo? Ele irá perder sua vida de qualquer jeito. Você mais do que ninguém deveria entender isso.

— Escute, Dom, uma vez, o Mestre também trouxe um garoto para que se convertesse num Filho das Sombras. Ele era um pouco mais velho, acho que tinha uns dez anos de idade e havia acabado de matar cinquenta pessoas que fugiam em desespero quando sua Sombra se manifestou. Na época eu também não conseguia aceitar aquilo, pois ainda assim era uma criança, eu expus os mesmos fatos que você colocou agora. E o Mestre concordou com todos, disse que eu estava absolutamente certo e que realmente o que estávamos fazendo era errado. — Leton ficou em silêncio alguns segundos antes de retomar. — Mas então ele me fez uma pergunta: quantas crianças como ele próprio iriam ser mortas por isso? Quantos iriam pagar até que sua Sombra cobrisse toda a Siela e finalmente ele morresse?

Dominic não respondeu.

— Estamos exatamente na mesma situação aqui. Agora coloque essa mesma pergunta nos dias atuais, acrescentando o fato de que outro Domínio pudesse captura-lo. Imagine o sofrimento que esta criança iria ter se Angus o convertesse? Você sabe os métodos que o Domínio da Força usa para converter seus Filhos.

— Isso ainda não nos livra da responsabilidade de tirar sua vida humana. — Dom deu um soco na parede e permaneceu com a mão ali tremula.

— O mundo não é justo com os Filhos da Sombra, Dominic. Se eu pudesse, com certeza faria a Sombra do garoto recuar e apagar sua memória, para que ele voltasse a ser uma criança normal. Mas ambos sabemos que não é possível fazer isso. Agora pense que, ele está em volta de boas companhias, temos Samantha e Draen que ainda possuem fortes sentimentos, você sabe disso, Vesta também é assim. Nós temos Siouxie que mesmo sendo cabeça quente, é uma boa pessoa e faria de tudo para nos proteger, como ela mesma fez hoje com você. — Leton abriu um sorriso. — E temos você, o único Filho da Sombra que pode ensinar aquele garoto a ter sentimentos mesmo com a Sombra dele cobrindo permanentemente parte da Siela.

— E quanto a família dele? — Dom perguntou agora mais passivo.

— Tomei a liberdade de investigar alguns fatos antes mesmo de sabermos quem era ele, e descobri que o menino perdeu os pais em um acidente, e que ele foi dado como morto. Com certeza esse foi o motivo dele ter despertado a sua Sombra.

— Pois bem... — Dominic respirou fundo tirou o punho fechado da parede, virou-se e foi andando em direção a porta. — Faça isso, mas esse garoto ainda vai voltar a ser um humano, não sei como vou fazer isso, nem por onde começar, mas ele não vai se tornar o que eu me tornei. — E saiu.

Percebendo que estava sozinho, Leton fechou os olhos por um instante.

— Como eu rezo para que um dia você faça isso, Dominic. — Falou para si mesmo. — Como eu rezo para que um dia você acabe com todo o nosso tormento, sem acabar consigo mesmo.