A Luz e a Noite
4 Verdades
Acordei em uma cama limpa, sem mais o cheiro de sangue da batalha (deram-me banho, só pode). Falando nisso, a primeira coisa que reparei foi o saquinho de sangue e o tubo levando-o para minha veia (que gentis). Arranquei-o, senti-me mais fraca. Fui até o espelho que ficava perto da porta, meus olhos não mudaram de cor, ainda bem (que não era sangue humano). Saí, entrei no corredor e desci as escadas, senti-me enjoada e pesada, acho que era o calmante. Para a minha mais pura sorte, quando já estava na metade do caminho, vi o Yoru me olhando. Parei, os olhos vermelhos dele (parece que se andou divertindo matando humanos) me avaliavam, novamente. Comecei a retroceder, pendi para trás e fui segurada. ‘Solte’. “Não.” ‘Deixe-me’. “Você não está em condições de ficar perambulando sozinha pela casa.” ‘Largue-me’, gritei. “Eu já sei muito bem o que quer fazer, e como seu marido, não deixarei que morra (que heróico).” “Você quer matar toda sua espécie, não é?” Vi a Yami lá no final da escada (quando foi que apareceu?). “Quando bebemos o sangue de alguém, sabemos tudo sobre a pessoa (eu disse que ela tinha invadido minha privacidade). Vá até o salão, acho que lhas devo apresentar.” Eu tinha escolha? A resposta é não. Yoru me acompanhou até o “salão”, onde havia alguns quadros, um relógio antigo e uma mesa de oito lugares, só dois estavam desocupados e sentamos neles (jura?! Algumas vezes acho que minha burrice supera meu próprio entendimento). Vi-me refletida num espelho em cima da lareira, agora que percebi estar usando um vestido azul claro, fazendo-me aparentar a Alice[1]. Voltei meu olhar para mesa. Na ponta oposta estava a Yami, com o cara que me dopou (Dark[2]). Na minha esquerda estava a vampira que atacou meus pais (Anna) e seu marido; na direita, uma menina de cabelos castanhos, longos e cacheados (Erika) e seu marido. Eu estava junto com os geradores dos monstros, maravilha, sinto-me com sorte. Cara, é numa hora dessas que eu queria estar morta, odeio quando me avaliam. “Mãe, por que a Hikari não é a mesma de antes? Por que nos odeia?” Erika me encarou. ‘Como assim, meu passado começa em 1582’. “Não – sorriu Yami – só precisei tomar seu sangue para descobrir algo que esqueceu (será que dá para esconder algo dela?). Na verdade, seus passados começaram em 1005, com o descobrimento do meu cadáver por ‘escavadores’(adorei a ironia na última palavra).” “Eles não importaram comigo, só com as três pedras que estavam no meu ventre – sorriso sarcástico – e queriam-nas abrir. Eram muito duras para as ferramentas rústicas; até que um errou, machucou-se e deixou o sangue cair em um dos ovos.” “Os ovos começaram a pulsar e deram mais sangue até chocarem (gente inteligente). Os três escavadores separaram-se e criaram as meninas como se fossem animais. Mas, um dia, quando finalmente descobriram o que eram, fizeram um massacre.” Okay, ainda bem que não me lembro, adoraria recordar quando mato pessoas, deve ser melhor que os monstros. “Quando se encontraram, fizeram uma promessa de ficar juntas para sempre. Mas como você, Hikari, é meio anormal, hibernou e esqueceu-se de tudo. Daria para segui-la?” Putz, ter que cumprir algo que não se lembra é complicado. ‘Não irei depois de tudo o que fizeram’. “Sabe que só sobrevivemos com o sangue humano, não o produzimos e a cada ferida perdemos muito, temos que ficar na faixa de dez litros por dia.” Disse Anna. Fiquei estupefata, se cada humano tem cinco litros, então dois por dia para cada um, uma delícia. “Por isso, que lhe recomendo tomar isso.” Yoru pegou uma das taças que estavam em cima da mesa e põe em direção a minha boca, afastei-me. Já de longe dava para sentir o cheiro de sangue humano, enojei-me. “Uma pergunta, Hikari – Yami deu um sorriso alegre – você acha que matando a nós três acabará com tudo?” Inclinou-se para arrumar a cadeira e me olhou. “Quem disse que eu só tive vocês três até hoje? Vocês podem ter sido as primogênitas, mas agora pouco estava na minha quarta gravidez.” Pelo amor do Woo-foo[3], doze filhas mais a mãe para matar, além de descobrir que hiberno por quinhentos anos, antes de acordar já não devem existir mais humanos. Tremi só de pensar no apocalipse, como será que vão sobreviver? Será que pensaram nisso? De repente, Yoru aperta minha garganta e me faz tomar aquilo. Meu corpo paralisou, senti o amargo gosto descendo, uma fome me atacou, minha cabeça zunia. Baixei a cabeça sobre a mesa e coloquei minhas mãos como se quisesse parar de ouvir os gritos dos humanos que matei. Não consegui interromper, estava com fome, nunca me alimentaram, havia tanto sangue em mim quanto no chão, além de vários corpos espalhados. Chorei, senti meus caninos crescerem, além dos meus músculos contraírem. Ouvi onze corações batendo, assustei, mas como era possível se só existiam oito pessoas, há três a mais e estão dentro... Arregalei os olhos, não acredito. Olhei para a Yami, ela retribuiu-me um sorriso empolgado (acho que meus olhos deveriam estar da cor dos dela, pode ser outra coisa também). “Hikari, posso-lhe dizer uma curiosidade?” Lá vem bomba. “Sabia que a reprodução da nossa espécie é diferente da dos humanos?” Agora, para fechar com chave de ouro, um largo sorriso mostrando os dentes brancos sobre a luz da lâmpada. “Só um longo beijo é mais que o necessário.” Olhei o Yoru com tanto ódio que tremeu, um dia acuso-o de estupro. Levantei, oscilei e caí, e, para variar, ele pegou-me. Eu estava tão sonolenta que nem liguei, mas pelo menos os múrmuros eu ouvi. “Acho que ela sofreu uma mutação por ter bebido muito o sangue dos nossos servos. Quando bebe o nosso ou o humano, entra em estado de hibernação.” Disse Yami. Será que ela sabia que eu ainda estava acordada? Vou-me lembrar disso mais tarde. “Então quer dizer que ela nunca vai entrar no estágio máximo (ou seja, parar com essa frescura de hibernar)?” Perguntou Anna curiosa. “O importante agora é que, quando acordar, peguemos suas filhas antes que faça alguma besteira, ou seja, daqui...” Escuridão.
[1] アリス (arisu) – Alice no país das maravilhas
[2] ダルク (daruku) – nome de uma personagem do Bleach
[3] Do desenho Yin Yang Yo!
Fale com o autor