Treze dias atrás, acordei em uma caverna, com muita fome. Senti o cheiro deles vindo na minha direção, eram muitos, fiquei ansiosa. Ir-nos-á sustentar por nove dias, pensei feliz. Acordei assustada, outro pesadelo ou uma memória? Não sei mais dizer, depois de ter tomado aquela taça, relembrei de coisas nas quais eu não queria. Senti vários apertos, acho que perceberam minha insegurança. “Tenho que me levantar.” Senti-las saindo rapidamente e dando sorrisos de desculpa. Elas só tinham quatro dias de existência, mas sabiam como eu me sentia e sempre vivem agarradas a mim, como se tivessem medo de me perder. Aliás, eu nem sabia como tinham nascido, quando acordei, já me estavam segurando, chorando e ensangüentadas, em uma caverna. Estávamos em uma antiga biblioteca municipal, já que a cidade foi arrasada (era onde ficava a Central, depois do ataque, tudo foi destruído), sobraram poucos edifícios em pé. Andei pelas infinitas estantes até chegar perto da porta de saída e acompanharam-me. Passei pelo portal com elas agarradas em minhas roupas, estávamos indo a uma padaria. Mesmo destruída, a cidade estava voltando a ser povoada. Por causa de um acordo de paz que a família real fez com os humanos, ironicamente chamado de Lei da Luz[1], aonde os monstros só iriam transformar quem queria e poderiam viver em paz sem nenhum preconceito. O único problema do acordo é que tinha que se cadastrar e ter uma ficha (e crachá) comprovando de que espécie é, para poder ganhar ajuda do Governo (tipo, saquinho de sangue) e estão proibidos de matar humanos, mas, ainda concordaram (não sei no que pensaram, eles estão em desvantagem). Voltando ao assunto, chegamos à padaria, comprei quatro pães de queijo e um chocolate quente grande, dividindo com elas. A atendente ficou encantada com as três meninas de quatro anos. Quatro anos? Mas só têm quatro dias que nasceram. Sim, porém, é um mecanismo de proteção que a espécie criou, tornar-se adultos mais cedo para se defender. Agora como sei disso, só lhe posso que é instinto. Voltamos para a biblioteca, fui lavar a roupa suja de sangue (parece que a biblioteca foi feita para abrigar refugiados), enquanto vieram brincar perto de mim. Cara, é difícil retirar mancha de sangue. Eu tentei participar desse acordo, mas não me aceitaram, “monstros têm olhos vermelhos e caninos.” Okay, depois se acontecer alguma coisa, não digam que não avisei. E o pior que acontecia, à noite, instintivamente, eu ataco os seres que estão ao meu redor, sentido seus aromas, acordo na cama com a roupa suja e, ainda, dou meu sangue para elas, acho que é assim que me entendem (na verdade, elas que mordem meu pulso, sempre o fizeram, nunca liguei, mas ainda é estranho, deve ser instinto materno). Ouvi o sino da mesa, “fiquem aqui” e corri para atender. Senti um forte cheiro de sangue, torci o nariz, um servo. Mas o Governo me paga como funcionária pública, pelo menos isso (pedi-los e aceitaram-me para não terem que procurar por funcionários, então me deixaram viver aqui, sussa), então tenho que ser impessoal. Um vulto pegou-me pela garganta e levantou-me, era o Yoru. “Mamãe quer ver sua filha e netas”, sorriu. “Yami tem muitas filhas para poder se preocupar”. “Você não as conseguiu matar, como quer acabar com nossa espécie se nem isso fez (não deu para perceber que ele mudou de assunto)?” Está aí uma verdade que devo encarar, “é porque são inocentes. Não irei deixar a Yami corrompê-las”. “Você fala que somos monstros sanguinários, mas é a pior de todos, pois mata a própria espécie (mudou novamente de assunto, ainda me chamou de canibal).” “Dark contou-me que você andou-se despertando e atacando nossos servos à noite para satisfazer sua sede.” Quando ele disse despertar, significa que eu virava um monstro sem senso humano? “Ele disse que era bonitinha, fazia só para alimentá-las.” Apontou para as três que estavam na porta nos olhando apavoradas (queridas, esse é o seu papai, esse babaca traíra, espere aí, o Dark... Como sabia? Como o Yoru descobriu que estavam na porta, e o que estão fazendo ali, eram para estar lá dentro!). “Já que não quer ir, levá-las-ei para mamãe.” Comprimiu mais a minha garganta, “depois que lhe matar.” “Não, não quero”. Lágrimas de dor caíram, meus músculos se contraíram, meus caninos cresceram (lindo instinto de sobrevivência). Em um segundo, estava-o enforcando no chão quebrado (e divertindo-me com isso). Se ele estava estupefato, eu estava duas vezes mais. Dei um sorriso maldoso e o afundei mais ainda. Já estava na jugular dele, mordendo com fome (putz, quando é que não estou? Será que tenho anemia ou hemorragia para beber tanto assim? Já devem ter passado dos 10 litros). “Você sabe que se beber nosso sangue, irá hibernar.” Mordi mais forte, já não me conseguia controlar (ele era delicioso, miserável). “Da próxima vez que fizer isso, amor, i-lo-ei matar”. Soltei-o, levantei, senti-me outra pessoa, mais forte, não gostei. Voltei para minhas filhas, estavam tremendo de medo, hesitei, baixei a cabeça de vergonha, lindo, essa é que sua mãe brigando com o pai, depois disso, vão com ele, com certeza, com a cara de `mamãe é um monstro’. “Essa é minha verdadeira Hikari, seus olhos são mais bonitos vermelhos (ele está abusando da sorte, já tem que ficar feliz por estar vivo). Então, quer dizer que agora você despertar quando fica com ódio? Tem três semanas para se decidir, ficar com a família ou morrer” e sumiu. Voltei ao normal (legal, instintivamente considero o Yoru uma ameaça), senti mais fraca, cambaleei e elas acudiram-me (pensei que tinham medo de mim). Seguravam na barra da minha calça rasgada, tremendo, chamando pelo meu nome. Fiquei encantada, agora podiam falar (depois de tudo que passei, que ironia). No meio da primeira semana, criei vergonha na cara e comprei um caderno para nomeá-las. A de cabelo negro chamei de Teresa[2], a de castanho, Clare[3] e a loura, Hope[4]. Agora estavam bem mais felizes, faziam bagunça pela biblioteca, e sempre ficavam grudadas em mim (normal). Na segunda semana, elas atingiram os dezesseis anos, falavam, conversavam, faziam segredinhos. Sentia-me cada vez mais distante, porém aproximavam-se mais de mim, acho que sabiam o que me aconteceria. Chegou à terceira semana, fazia tanto frio que tivemos que fechar as janelas. O vento era tão forte que as faziam tremer. Estávamos numa mesinha de quatro lugares tomando chocolate quente. A porta se abriu e duas pessoas entraram, uma menina loura e um cara de cabelos negros. Suspirei, “meu nome é Clarise e esse é o meu namorado.” Ainda bem que as meninas fugiram (era um plano que formei ontem), eu pensava que era o Yoru que... Uma armadilha. Elas estavam em perigo. (Pelo que eu vi, ele pegâ-las-ia pelo fundo.) Senti um ardor no peito, não conseguia respirar, percebi que havia um buraco (na verdade, um rombo), virei para trás e o garoto segurava meu coração (como conseguiu tão rápido? Não as conseguirei salvar). “Senti um pouco de inveja – Clarise sorriu – mamãe sempre falava sobre você. Ela disse que era para lhe capturar também, só que diremos que foi um acidente, Não há como sobreviver, regenerando um órgão.” Um sorriso cínico, claro que não dá para regenerar, matei um bando de servo assim. Chegou mais perto de mim “irei cuidar muito bem delas.” Desmaiei.

[1] Hikari significa luz

[2] テレサ (Teresa) personagem do Claymore

[3] クレー (kuree) personagem do Claymore

[4] Hope (esperança)