Começaremos nossa história em 1582, na época das navegações, feudos, até mesmo descobertas sobre novas espécies e do próprio princípio dos humanos. Sobre o sol quase quente de um local temperado (acho que é Europa[1]), onde havia mais floresta (animais e plantas) que casas (pessoas) más construídas (alguns castelos também havia), uma menina loura de olhos azuis (eu) pegava na enxada para trabalhar na lavoura, seu rosto estava cansado e vermelho pelo trabalho árduo. Um homem, de roupas surradas, ao seu lado, ajudava-a, era seu pai. A mãe cozinhava-lhes, nunca lhes pode ajudar por sofrer por causa da idade (velhice); e também tecnicamente não poderia usar essa palavra (cozinhar), pois seria mais para esquentava (ou requentava na fogueira); e para época, modernamente com os talheres vindos do Oriente (pelos viajantes metidos a irem para Índia e errarem o caminho, ou seja, China, Japão, Brasil). Viajantes (bisbilhoteiros) olhavam com curiosidade quando passavam pela frente da casa (podem ser ladrões também), “uma menina, ainda criança, fazendo o trabalho de um homem, invés disso ela deveria estar em casa, cuidando-a, como uma boa mulher” (então por que não nos ajudam? Já que não estão fazendo nada, pensei); meu pai olhou-me suplico (ele é adivinho, sabe do meu temperamento e lê meus pensamentos, acho que é experiência), gasto pelo tempo, para que eu não lhes brigasse. Tinha que o ajudar (sem alternativa), eu era a única filha, além de um senhor não dar conta sozinho de uma lavoura (e mamãe não ajudava, só cozinha, reclama), um preconceito secular (homens!). Mamãe chamou-nos para almoçar, entramos no recinto depois de algum tempo, a comida já na mesa e o olhar de nojo da mãe sobre nós (para variar). Como não havia um rio para nos banhar, tínhamos uma desculpa para comer mais cedo (oba). Olhei para os móveis (ou uma tentativa de parecer com eles), um local familiar nos meus quinze anos de existência [na época, eu deveria ter mais a preocupação de lembrá-lo, pois seria a última vez que o veria]. De noite, meu pai mandou-me levar o (pouco) fruto do nosso trabalho para trocar por comida na qual acabou; por pouco e azar (e distração, ainda pensando em matar viajantes a toas), passei reto pelo local de trocas [como se fosse um mini-mercado]. Voltei para “casa” correndo por dizerem que era perigoso por essas horas devido aos ataques sangrentos e impiedosos (pessoas quase irreconhecíveis encontradas mortas pela rua). Quando cheguei (feliz da vida pensando estar salva), vi: 1º — uma poça de sangue refletindo meu rosto apavorado (normal); 2º — minha mãe jogada, deitada de bruço, caindo gostas do pescoço, onde havia dois furos (quem os fez?); 3º — uma menina de longos cabelos negros, lisos, com a boca no pescoço do meu pai (aí já é muito), vendo-me com olhos vermelhos (que raro, já vi negros). Apavorei-me (como toda boa garota esperta), gritei e corri pela rua até chegar à floresta (era mais fácil de esconder do que o vilarejo). Andei rápido pela neve (e como escorrega) que se acumulou pela noite [era inverno, mesmo com o sol quente de manhã], jurando que aquela/aquilo (ainda sem classificação) estava atrás de mim. Parei para descansar, em uma clareira, depois de tantos galhos cortarem-me e de meus pés ficarem doloridos (entre outras coisas), quando ouço: “Encontrei-te”, vir-me-ei assustada, havia nada. Voltando a minha posição, aliviada, dou de frente com o par de olhos vermelhos (refletindo meu rosto pálido), olhando para minha jugular (para variar, atacou meus pais, agora me quer). “Senti teu cheiro nas duas pessoas que devorei (será que é por que convivo com elas? É um cachorro para sentir cheiro?), excitou-me, todavia, creio que o teu sangue será o melhor que beberei hoje.” Chorei (ou melhor, choraminguei, não quero ser morta), mas, pelo menos, iria para junto dos meus familiares, logo que ela terminasse (que dilema). Assim que estava chegando perto de mim, já vendo minha morte (e sentindo o bafo horrível), um homem apareceu, na minha frente, com o mesmo olhar vermelho dela (pronto, agora tem dois). Ele virou-se para mim, deu um sorriso cínico (quer-me também?) e perguntou-a: “Lanche da noite?” Ela, sarcástica, riu “Tu vai-me impedir, um lobisomem desgarrado (agora vão brigar por mim?)? Sabes que a droga que bebes não funcionará para sempre (e para que ela serve?). Logo estarás sob o controle da minha irmã (tem mais?).” Depois disso, ela olhou-me (eu já passei do branco na cor da pele, agora estou transparente): “Perdi minha fome, devorar-te-ei quando estiveres sozinha (e se eu não tiver, morrerá de fome?)”, sumiu e eu desmaiei (não sei se foi por medo ou por cansaço depois de ter corrido muito). Quando acordei, estava em uma cama (acha que devo chamar trapos assim?) com o homem olhando-me; perguntou por meu nome, ‘Hikari’ eu disse (fez uma cara de esperto), “Oriental (Japão), que estranho (será por que estamos na Europa?). Eu já fui para lá (jura?!), é um local pior que aqui (tem como?), no qual sempre vivenciou os ataques desses seres sanguinários (já morreram?), que atacam as pessoas para tomarem seu sangue, tanto que foi assim que me transformei (olhei-o de esguelha) e que achei a cura.” Olhei-o (novamente de esguelha), ainda meio incrédula (com a boca escancarada), não com medo (será?), ele já me teria matado (será?!), quando teve chance (ou ainda não teve), agora descobri o do porquê dos olhos vermelhos (não brinca). “Meu nome é Vladimir (tio Vlad), pode ficar tranqüila (será?), não lhe matarei (será?!), pois consegui, numa das minhas viagens, uma droga que pudesse controlar meu desejo por sangue (então era para isso que servia), mesmo que ainda o devo tomar, para não morrer (ou seja, mesmo assim, ainda é um monstro), porém não mato (será?!), tenho um estoque sanguíneo (como?). Alguns cidadãos deram-mo pensando que era para pesquisa dos assassinatos (distorção da realidade, roubo de propriedade privada e extorsão).” “Pelo jeito, parece que você não tem família ou algum amigo que lhe possa cuidar (como sabe?) – concordei – por isso, quero que seja minha ajudante, numa descoberta sobre a origem desses monstros, que foram à principal causa dos assassinatos, iguais a que lhe atacou. Poderemos descobrir até como matá-los ou detê-los.” Fiquei surpresa com a explicação e a proposta, aceitei-a por vingança, assim ele guiou-me pela casa até um alçapão. Descemos até uma caverna (o local tinha um porão) rodeada de luzes, em lamparinas, um corredor sombrio, uma sala de torturas (pelo menos aparentava) e uma múmia no meio do caminho. Ela tinha um par de asas, uma cauda, cabeça de um lobo, embora o tamanho fosse de um humano e ainda por cima queimada (ou seja, um bicho feio); de acordo com o “tio Vlad”, por ter sido soterrada quase perto do núcleo (que ele crê ser muito quente). Havia três ovos quebrados perto dela, ele disse-me que os “paleontólogos” (mais para ladrões, da maneira que a disse) deram-nos sangue humano, assim nasceram três meninas (como, mas o bicho é feio!) e (pela grande surpresa) uma delas havia- me atacado. Ele disse-me que tinha uma cama ali e que eu dormiria do lado da múmia (alegria! Eu poderia estar dormindo num cemitério). Pensei, melhor morto do que vivo (ou zumbi). Agora, imaginem quando uma pessoa está sozinha, no escuro, sabendo que está trancada, ela tenta conversar até com um cadáver (chamado falta do que fazer, ou também conhecido como paranóia). E o pior, que nos momentos, pensei que ela falava comigo (esquizofrenia), também, fiquei tanto tempo lá embaixo (sem nada para fazer). A melhor coisa que fiz foi ter pena daquela pobre, inocente, inócua e pura criatura, dando-lhe meu sangue (note, ela disse-me para fazê-lo, então não sou louca). Depois, dormi na cama mal-feita com a consciência limpa (feliz por fazer uma boa ação). Acordei com um grito histérico do outro lado da rua, percebi que havia dormido pouco por causa da dor de cabeça (não era excesso de etanal[2]), além disso, não vi a múmia (agora a consciência ficou um pouco pesada). Para variar eu já sabia que tinha feito algo errado (jura?! A múmia era ancestral e devoradora de sangue, não pensei – ou penso – que acordaria só com meu sangue) só pelo berro, mas não queria comprovar a gravidade (da burrice). Subi e abri a porta do porão, sem barulho, e saí de casa (acho que o Tio Vlad não estava, não foi tão silencioso assim, derrubei algumas coisas). Vi vários corpos e poças espalhados pelo chão (culpa), e assim que a vi (quem?). Uma menina, da minha idade, com o cabelo da mesma cor do meu, segurava uma pessoa (quando vi, era o tio Vlad, então era ali que ele estava) e logo que me viu, largou-o (acho que está morto, não se moveu). Seus olhos vermelhos me avaliaram (adoro quando o fazem), o sangue correndo sobre sua boca num sorriso mortal (paralisei-me). Logo que dei por mim, ela estava em cima de mim, mordendo minha jugular (delicia, adoro quando invadem minha intimidade). Meu corpo começou a paralisar, por causa do veneno, senti-me morrer (vi meus pais), porém sabia que, se ao menos ela não me desse seu sangue, eu não viraria um monstro, mas não foi minha sorte (para variar). Ela passou a mão no meu rosto, chegou perto do meu ouvido. “Você tem medo de mim?” Assustei-me, um monstro ex-mumificado falando e ainda minha língua (assusta qualquer um). Ela mordeu o pulso, acumulou o sangue na boca. Apertou minha garganta e me beijou (sou mulher, está bem?). Senti seu sangue descendo, quente, amargo (nojento). Já não conseguia mais me mexer (de nojo) nem acreditar no que acontecia. Depois de certo tempo, ela parou e me olhou novamente (acho que era para ver se meus olhos já estavam vermelhos, para ver se terá um amigo). Levantou-me e abraçou-me, como se fossemos velhas conhecidas, e quando dei por mim, ela estava chorando com a cabeça no meu ombro direito (fiquei estupefata). Não entendi (como sempre), por que chorava? Por que me atacou? Por que eu estava ficando sonolenta? Quanto mais perguntas fazia, mais minha cabeça pesava (e doía). Senti um aperto (era ela no abraço). \"Finalmemente lhe encontrei (conheço-lhe?), uma pena que nos devemos separar depois (agora, não é?) mas nos encontraremos (será?)\" sorriu. “Durma e reviva! Retorne a quem verdadeiramente é.” E apaguei.

[1] Tudo o que estiver nos parênteses é pensamento da personagem

[2] Ou seja, ressaca