Acordei com o sol no meu rosto, além de uma bruta ressaca, estava toda pegajosa e ensangüentada, além disso, havia vários corpos, gritei por reação, porém, sabia que não tinha ninguém viva ao raio do meu alcance, chorei. Pensei que depois de ter-me transformado, acho que pensei um pouco pelo menos no assunto, que não me descontrolaria, mas parece que me enganei feio. Andei pela cidade com um leve pesar, só via mortos (e a mula aqui queria o quê? Flores?), igualmente a quando eu e minhas irmãs chacinamos aquele vilarejo por vingança. Priscilla realmente estava certa, não se dá para mudar a natureza de um monstro. No meio do cenário devastado, vi uma menina loura correndo na minha direção, parei, feito dois de paus, para reconhecê-la, era a Clarise. Ela estava em uma velocidade que não consegui acompanhar com olhos (como a pude reconhecer?), acertou em cheio no meu estômago com algum tipo de calmante e adormeci na hora. Acordei em uma cama confortável, novamente grogue, nem queria levantar para ver se não vomitava. Percebi que havia uma menina de cabelos castanhos e olhos verdades olhando para mim com curiosidade, levantei rapidamente no susto, ela segurou-me delicadamente, “não levante, ainda não passou o efeito.” “Quero voltar para casa.” Parecia que eu a estava ordenando, olhou-me incrédula. Ela riu majestosamente, acho que encarou como uma piada, “aqui é a sua casa; você terá tudo o que precisar, quando mamãe aceitar-lhe como filha, seremos todas irmãs, mas, por enquanto, você estará sobre nossa vigilância, depois da cerimônia, poderá trazer sua família.” “Eu não quero ficar, é como ficar presa em um recinto escuro onde me querem usar como cobaia.” Pareci uma idiota, mas fui sincera, sei lá quando seria essa cerimônia de macumbeiro. “Mamãe disse-me que hoje à noite lhe aceitará como da família, enquanto isso, devê-la-ei ensinar sobre como se comportar aqui.” Deu um suspiro, eu já sabia que sou um porre para ser levada para um passeio. “Depois da aceitação, você poderá ter um quarto onde ficarão você e sua família. Não poderá ter filhos sem o consentimento da mamãe e sem brigas entre irmãs. Poderá sair com a permissão da mamãe e acompanhada, dependendo do seu nível, no qual será escolhido pela mamãe. Quando maior o nível, mais privilégios e mais perto da mamãe ficará.” Falava com um certo quê de inveja, claro, também seu tom era quase febril. “Deverá tratar todas as irmãs iguais, não há distinção pelos níveis, além de tudo, receberá missões dadas pela mamãe e é obrigatório as cumprir, senão, haverá penalidades muito rigorosas, mas não por falhar. Agora, vou-lhe mostrar o local.” Abriu a porta do quarto e obrigou-me a sair do recinto, sabia que empacar não seria a melhor solução. Com certa surpresa, percebi que era ao estilo japonês clássico; jardins enormes e bem cuidados; tinha que andar de meia pela casa; as portas deslizam; decoração floral; banheiros nos quartos; senti-me estranhamente tranqüila com o som dos pássaros cantando. Por alguma razão, queria ficar para sempre, mas claro que eu sei da minha obrigação como mãe para com as minhas filhas. Só que houve uma coisa que estragou o dia, pois nada é perfeito, quando estávamos andando pelo corredor, foi que vi um casal beijando-se. Olhei com atenção, jurei que a mulher, no beijo, inseriu algo dentro dele, depois de um tempo, ela o puxou para dentro do quarto, e ouvi algo como se estivesse triturando, depois um grito. Congelei. Apareceu uma poça de sangue embaixo da porta. A mulher saiu com sangue escorrendo pela boca, “você sabe que vai ter que limpar tudo, não é?” Disse minha guia, a mulher mostrou a língua, igual a uma criança. A guia voltou para mim e riu com o meu espanto. “O que foi? Está surpresa só por isso, é assim que nos auto-fecundamos, para termos homens. Devoramos nossos maridos, quando estão velhos, encontramos alguém de outra espécie, ou seja, humano, inserimos o ovo, quando vemos que a jugular estourou, devoramo-lo, assim, o feto terá comida por nove dias.” Com a boca escancarada, perguntei-lhe “por que devoramos nossos maridos?” Olhou-me pensativa, escolhendo as palavras mais eufemistas. “Eles pedem, percebem quando não conseguem mais acompanhar nossa evolução, pode ficar tranqüila, quando o matamos, eles criam um ovo dentro do coração, logo que comemos o corpo, o ovo irá para o estômago (temos os mesmos órgãos que os humanos), depois que achamos o humano, inserimos o ovo nele e devoramo-lo, o ovo irá para o útero com a comida para nove dias, e nasce com todas as memórias e características que tinham antes. Mais alguma pergunta?” Eu estava ainda meio estupefata, se é assim que nascem, então como eu gerei o Yoru, ou seja, quem foi minha vítima? Pensei um pouco, paralisei, foi o agente que me salvou dos monstros, por isso que nunca o vi, ele morreu pelas minhas vontades. Logo que chegou à noite, começou o ritual, que consistia em eu ficar pelada, no centro de várias mulheres de quimono[1], rindo da minha cara. Se eu for para o que me explicaram, seria assim: I – ficar nua significa que me irei purificar; II – essa ‘mãe’ ia dar seu sangue e transformar-me-ei em um dragão; III- o quimono será confeccionado de acordo com a cor da minha escama, terá meu nome e o símbolo do meu nível. Agora, terei que aprender japonês (pois os nomes são convertidos), andar de quimono colorido e avaina-de-pau. Além do mais não sei nem qual será meu nível, nem se verei minha família novamente, suspirei, estou meio depressiva no meu primeiro dia, até parece que vou para ser noiva. A tal ‘mãe’ chegou, vestindo um longo quimono preto, com um símbolo de dragão e escrito “竜”[2], alguém poderia traduzir para mim, por favor? Era loura e seus olhos, pela primeira vez depois de ver tantas mulheres, eras azuis claros, como os meus. “Filhas e filhos aqui presentes, temos a honra de receber mais uma filha para nosso clã, depois de tantos séculos sem mudança. Agora, iniciaremos o ritual, aproxime-se, criança. Quando me aproximei, vi que Clarise estava ao lado da ‘mãe’ com um quimono preto, símbolo de dragão e escrito ‘クラリセ’, percebi que ela deveria ser a filha verdadeira, por isso o ciúme. “Criança, qual é seu nome?” Hikari. Ela sorriu,“então lhe trarei para luz, Hikari”, trocadilho tosco. Ela entregou-me o pulso, hesitei, mas, mesmo assim, mordi, senti um gosto estranho na boca, fazendo-me quer vomitar. Então, começaram a cantar. Senti meus músculos contraírem, meus caninos e minhas unhas crescerem. Eu estava-me transformando, porém ainda mantendo o controle da consciência, mas nada é para sempre, pois caí no chão, rugindo, não estava mais agüentando a pressão que o instinto exercia, olhei para a ‘mãe’ com raiva, ela sorria com muito orgulho, chegou perto de mim (ela é bem corajosa) e disse, “finalmente minha neta veio a mim.”

[1] 着物 (kimono) roupa japonesa

[2] Tatsu (竜) – dragão (símbolo do zodíaco, maneira chinesa de se falar)