A Luz e a Noite
14 華族 (nobreza)
Acordei num pulo, sentei-me pela tontura, franzi o ceno com a sensação estranha na pele, percebi que estava negra e escamada, gritei, corri o olho para o espelho e vi uma miniatura quase humana de um dragão fitando para mim, afastei-me. Meu cabelo estava negro e meus olhos vermelhos como sangue. Mas que droga é essa? É assim que são os famosos dragões que tanto ouvi falar? Vi uma sombra na porta, era Tatsu observando com um sorriso, “não se preocupe, hoje mesmo voltará ao normal”, espero, mas nunca acontece o que desejo. “Gostar-lhe-ia de convidar para o nosso café-da-manhã, no Ametatsu[1], quer-me acompanhar?” “Claro, por que não?” Depois de tudo o que aconteceu, já devo ser um membro mesmo do clã, então não devo ir contra a mãe. Havia várias mesas, muitos casais já estavam lá, pareciam esperar por algo ou alguém; sentei numa qualquer, ela acompanhou-me. Todos ficaram surpresos, normalmente ela senta no trono real sei-lá-o-quê enquanto as outras comem, mas parece que hoje se resolveu juntar as filhas. “Hikari, tenho uma proposta, -observei-a atentamente — vamos almoçar depois que trouxermos sua família, — arregalei os olhos, já a convenci tão rápido assim? — suas escamas já estão caindo e suas asas já sumiram, depois daqui lhe ensino a controlar a transformação.” Abri a boca, mas nada saiu (também, só iria ser besteira, então é melhor prevenir do que remediar). Chegou às dez horas (eu já ansiosa para sair deste inferno), Tatsu e eu fomos para saída com várias nos olhando enciumadas (mesmo que todas saibam que quando havia família afora, Tatsu acompanha a irmã). Estávamos pelo menos vestindo algo normal; eu, um vestido preto, e ela parecia uma estudante japonesa. Quando chegamos ao portal, despimo-nos, dobramos e guardamos a roupa e transformamo-nos, não inteiramente em dragões (pois perdemos a consciência), mas na forma que eu estava antes. Éramos idênticas, retirando o fato da minha escama ser preto brilhante e o dela cinza opaco; levantamos vôo em direção a biblioteca. Pelo caminho, estávamos observando a que local iríamos descer e trocar tranqüilamente, achamos um beco descente, trocamos e fomos até o local para adentrar-nos. Cheguei até a recepção e toquei o sino do balcão, enquanto o som repercutia pelo teto, Hope veio-nos atender, derrubou o livro que segurava por ver-nos, estava trêmula. Fui para perto e abracei-a, só que ela se soltou e gritou para os outros virem. Congelei, quando vi o Yoru, estava doente, numa cadeira de rodas. “Você não é a mamãe, ela nunca se teria juntado ao clã dos dragões, só pode ser uma farsante, enquanto a mantêm presa e usar-nos-ão como iscas para convencê-la, não quero que isso aconteça.”Chorou Clare, as outras concordaram, tremi, droga, mudei tanto assim para nem me reconhecerem, está bem, claro que me juntei aos inimigos por medo. Não me importava com que diziam (só um pouco), tudo o que queria era salvar o Yoru, tentei-me aproximar, mas elas barraram-me o caminho. “Saíam”, ele estava sério quando ordenou, elas encolheram e obedeceram por medo. Fui até ele, abracei-o e chorei. “Yoru, o que aconteceu?” “Isso se chama ficar obsoleto, quando mais ficar longe de mim, mais eu adoeço.” “Mas estou aqui.” “Não adianta, uma vez que começa, acabará em minha morte.” Solucei, “sabe o que tem que fazer, ela deve ter ensinado, não me precisa devorar, é só acabar com meu sangue.” “Não, não quero, principalmente na frente delas.” Olhei-as de soslaio, parece que foi recíproco. “Irão entender, é melhor do que me perder, certo?” “Saíam, a mulher ali lhes irá contar o que vai acontecer, tomem o sangue da Hikari para confirmar e, por favor, não a odeiem.” Elas foram com uma cara de raiva, Tatsu acompanhou, só restando nós dois, olhamo-nos desconcertados, mas eu ainda tinha minha dúvida . “Yoru, eu matei aquele agente, né?” “Sim, para me poder gerar.” Mordi o lábio inferior, suspirei, “onde devo morder?” “Na minha jugular, será mais rápido.” “O que farei depois?” Meu medo foi aumentando. “Por um mecanismo de defesa do meu próprio corpo, será criado um ovo no meu coração, o que interromperá minha circulação e matar-me-á mais rápido.” Mordi sua jugular, o sangue misturava com minhas lágrimas, a respiração dele estava falhando, mesmo assim, ele sussurrou “não tenho pressa de voltar, só quero ficar ao seu lado”, assim, ele morreu. Mirei no coração, furei o tórax com a mão, senti algo oval, puxei. Era um ovo negro do tamanho do meu punho, era o meu Yoru. Lambi-o para retirar o sangue, quando vi, ele já não estava entre minhas mãos, tinha-o engolido sem perceber, chorei. As meninas pularam em cima de mim, parece que aceitaram o motivo. Tatsu estava com um olhar entre pena e raiva. Decidimos partir a pé, não as conseguiríamos carregar no vôo, mas não era tão longe, daria para chegar ao almoço. Deixamos o corpo do Yoru sangrando para trás.
+ 華族 (kazoku) nobreza (hoje em dia, a primeira palavra se escreve 家 – significando família)
[1] 雨竜 (ametatsu) – dragão da chuva
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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