A Love That Has Withstood Time
4 Pesadelo.
O fim de semana não passou tão rápido, afinal, não se tinha muita coisa à fazer, quando se estava sozinho em Brokeback, ainda mais pra mim. Já eram 5:20 da tarde, quando tranquei a jaula do cavalo e entrei em minha caminhonete azul, arremessando a mochila de couro e a barraca no banco do carona. Dei a partida no veículo e fui, estrada afora, voltando para o meu velho e conhecido trailer.
Foram mais seis horas de viagem, assim como na ida, que fizeram com que eu chegasse em casa na faixa de 11:30 da noite. Não me importava com o horário, nunca fui de dormir muito. Lembro-me que, no caminho de casa, eu passava por uma cidadezinha, um pouco conhecida. Nela haviam inúmeros anúncios sobre um rodeio que teria na próxima semana. Isso fez com que eu soltasse um pequeno muxoxo, seguido de um leve sorriso. Leve, porém satisfeito. Obviamente Jack estaria louco, se soubesse desse acontecimento.
Com medo de entrar, novamente, em minhas memórias, pisei no acelerador, querendo adiantar minha passagem pelos anúncios que, de uma forma ou de outra, causavam um aperto imenso em meu peito. Cheguei, no trailer, finalmente. Admito que estava exausto, pelo fato de ter ficado seis horas seguidas, sentado num banco de caminhonete, que não era guiada tão facilmente, pelo fato de ser velha.
Quando entrei em minha, literalmente, humilde residência, arremessei, como sempre, a mochila sobre a cadeira e voltei para o lado de fora, seguindo até a caixa de correio. Abri, a caixinha de metal, que era erguida por um pedaço de madeira, enfiado no solo, e vi que tinham algumas correspondências a mais do que eu esperava. Retirei todas elas, de dentro da caixa, de uma só vez e voltei para dentro do trailer, sentando-me na beirada da cama, e lendo uma por uma.
Uma das cartas chamou-me a atenção.
"Passarei ai em 3 meses, mais ou menos. Espero que esteja em casa, parceiro. Os peixes nos esperam, novamente.
Jack Twist."
Arregalei os olhos, até notar a data, posta no final do cartão.
- Três dias antes da morte... — Sussurrei, para mim mesmo, enquanto sentia meus olhos embargarem. Me levantei e abri meu armário, sem conseguir evitar que meu olhar se lençasse às blusas, penduradas na porta. Fiquei olhando-as por alguns segundos, o que, para mim, pareciam horas. Saí do transe e peguei, em cima da prateleirazinha, uma caixinha branca. Voltei à cama, sentando-me ali, e abri a caixa, colocando este cartão "mais recente" junto a todos os outros que eu havia recebido do mais perfeito companheiro Jack 'Fucking' Twist.
Depois de ter fechado a caixa, e tê-la colocado de volta em teu lugar, fechei o armário, desta vez, me contendo para não olhar as blusas. Segui ao banheiro, me despindo pelo caminho. Arremessei a blusa e o casaco na cadeira, e pendurei o chapéu num pequeno prego que havia na parede, onde era teu lugar. Fui banhar-me. Precisava relaxar, de alguma forma, e esta era a melhor maneira que eu havia encontrado.
Depois de ter me vestido, e comido aquelas mesmas bolachas da sexta feira, com um pouco de café, escovei os dentes e fui me deitar. Eu precisaria acordar cedo, no dia seguinte, o que não era nenhuma novidade para mim. Afundei o rosto no travesseiro fino e desgastado, jogando a coberta simples e velha sobre meu corpo. O grito que deixei sair, fora abafado pelo travesseiro, mas, nada nesse mundo, poderia abafar ou evitar as lágrimas que eu deixava escapar, todas as noites, antes de dormir.
- É uma puta falta que eu sinto, tua, parceiro. — Falei, como se ele me escutasse, dos céus. — Jack, seu filho da puta... porque fez isso comigo?
Passei mais alguns momentos ali, liberando toda raiva e tristeza que eu sentia, até que peguei no sono.
Jack estava ao meu lado, e nós caminhavamos, em meio a gargalhadas, pelas ruas do Texas. Era maravilhoso sentir o toque da mão dele sobre a minha, e o sorriso que havia em meu rosto não conseguia ser desfeito. Jack me arrastou, para uma pequena rua que havia ali ao lado, o que me deixou bastante intrigado.
Um, dois, três, quatro... Quatro homens apareceram, fechando nossa passagem. Jack riu, pedindo licença para todos eles. Disse que queria mostrar o rancho dele, para mim, e que estava com pressa.
Não demorou muito para que meu sorriso fosse desfeito. Eu via Jack Twist ser espancado pelos quatro homens. Espancado, sem dó nem piedade, e sem conseguir reagir. Eu gritava. Gritava, em meio a tanto desespero. Mas nenhum som saía. É como se eu fosse impedido de pedir por socorro, para salvar o meu parceiro. Aquele que vivi belos momentos, em tanto tempo.
"Jack, Jack, reaja!" , eu gritava, olhando-o. Mas de nada adiantou. Jack era arrastado pelos rapazes, e eu, apenas, corria atrás, querendo tirá-lo dali. Os rapaz riam, se divertiam fazendo aquilo. Então eles se foram, deixando à mostra aquele corpo, que um dia fora perfeito aos meus olhos. Jack estava morto. E eu não fiz nada para impedir aquilo. Meus gritos falharam, meu corpo travou. E o amor? O amor se foi? Caí sobre o corpo de Jack Twist, já imóvel e sem vida, apenas derramando as lágrimas, que nunca mais seriam substituídas por sorrisos.
Sentei-me na cama, gritando pelo nome de Jack. Eu suava, a ponto de escorrer pela lateral de meu rosto. Meu coração acelerado, como nunca estivera antes. Meus olhos abertos, atentos a qualquer movimento que pudesse haver, ali. Meu olhar percorreu a extensão do trailer, então notei que fora um pesadelo. Um dos pesadelos mais horrendos que eu tive, em toda a minha vida.
- Merda... — Sussurrei, deitando-me, novamente, sobre o travesseiro enxarcado. Fitei o teto, e tentei me concentrar em outra coisa, mas era impossível. As imagens de Jack sendo morto invadiam minha mente a cada segundo. Eu balançava a cabeça, tentando espantar, dali, as imagens que me causavam dor e arrepios.
Minha vida não era mais a que eu sonhei. Há 9 meses minha vida tinha virado um pesadelo. Um pesadelo sem fim.
Continua...
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