A Loba e o caçador

7 Capítulo 6 - Sombras da ordem


A noite se estendia como uma prece sem fé.

O fogo já havia se apagado, mas o cheiro de fumaça e tensão ainda pairava no ar.

Jacob observava o horizonte, o corpo imóvel, o coração em guerra.


Desde o momento em que Renesmee pronunciara aquela palavra — imprint — ele não conseguia mais pensar com clareza.

Era como se uma marca invisível queimasse sob a pele, pulsando em sintonia com o nome dela.


Ele tentou se convencer de que era mentira.

Que era bruxaria, armadilha, qualquer coisa — menos destino.

Mas quando fechava os olhos, via o rosto dela.

E ouvia o próprio sangue chamando por ela.

— Está perturbado, Black. — A voz surgiu atrás dele, grave, calma demais para ser inofensiva.


Jacob se virou.

Um homem alto, envolto num manto cinza, caminhava lentamente até o acampamento.

O fogo refletiu seu rosto severo: traços marcados, olhos pálidos, um ar de quem conhecia os limites da alma humana… e os ultrapassava sem hesitar.


Arcturus Hale, o Inquisidor da Ordem.

Diziam que ele podia ler o coração dos homens e transformá-los em armas da própria culpa.


— Senhor Hale — Jacob se curvou ligeiramente. — Não esperava vê-lo tão cedo.


— A fé não espera — respondeu o inquisidor, aproximando-se. — Ela observa. E quando vê fraqueza, age.


Jacob engoliu em seco.

— Não há fraqueza aqui.

Hale inclinou a cabeça, como quem estuda um animal ferido.

— Não? Então me diga… por que hesitou em cumprir sua missão?


O silêncio pesou. Leah, sentada ao lado, desviou o olhar.

Arcturus percebeu e sorriu de leve.


— Há algo errado com o seu coração, Black. Ele bate rápido demais quando mencionamos a loba.


Jacob cerrou os punhos.

— Eu não sou controlado por ela.


— Mas é por isso que ela existe — murmurou o inquisidor. — Para testar os limites da sua obediência.


Hale se inclinou um pouco, o olhar gelado penetrando o dele.

— Cuidado, Black. A fronteira entre caçar monstros e se tornar um deles é muito… fina.


Ele se afastou, deixando no ar o perfume metálico de medo e dúvida.

Leah o observou por um instante e, quando ele desapareceu na escuridão, voltou-se para Jacob.


— Ele vai te destruir — disse, baixinho. — A Ordem não perdoa quem sente demais.


Jacob suspirou, sem responder.

No fundo, sabia que ela tinha razão.

Mas também sabia que, se tentasse apagar Renesmee, apagaria a si mesmo junto.

O acampamento mergulhou em silêncio.

As chamas se apagavam, uma a uma, e só restava o som distante dos galhos estalando sob o vento.

Leah se afastou, deixando Jacob sozinho — imóvel, cercado pelas sombras da própria mente.


Mas, do outro lado da floresta, algo despertava.


Renesmee sentiu o chamado.

O imprint vibrava dentro dela, insistente, pulsando como um segundo coração.

Era como se o nome dele atravessasse o ar, chamando-a pela alma.


Ela fechou os olhos, escutou o vento… e correu.


A cada passo, o chão parecia guiar seus pés até ele.

Até o centro do conflito.

Até o que o destino tentava unir e o mundo queria separar.

Leah surgiu entre as árvores, o olhar frio.

— Ainda o procura, não é? — disse, quase num sussurro. — Mesmo sabendo que ele é a arma que vai te matar.


Renesmee manteve o olhar firme.

— Não é ele quem vai me destruir. É o que querem fazer dele.


Leah a analisou por um instante.

— E você acha que pode salvá-lo?


— Não — respondeu Renesmee, dando um passo à frente. — Mas posso lutar com ele.


O vento soprou entre as duas, carregando uma tensão invisível.

O imprint vibrava no ar — uma força viva, impossível de negar.


— Ele vai se perder — disse Leah, com uma ponta de amargura. — E você vai se perder com ele.


Renesmee respirou fundo.

— Então que seja.


As duas se olharam em silêncio, cada uma carregando dentro de si o mesmo medo: o de amar o inimigo.