A Loba e o caçador
33 Capítulo 32 - Ecos da sombra
A noite se derramava sobre a floresta como um manto silencioso. O vento frio atravessava as árvores, fazendo-as murmurar em um idioma antigo — o idioma da caça, do medo e da expectativa. Dentro da casa dos Cullen, o fogo crepitava, lançando sombras que dançavam nas paredes.
Jacob permanecia diante da janela, observando o breu lá fora. O reflexo no vidro mostrava um homem dividido entre o dever e o instinto — o caçador e o amante. Atrás dele, Renesmee o observava em silêncio. Havia ternura e preocupação em seu olhar dourado.
— Você não conseguiu dormir? — perguntou ela, baixinho.
Jacob negou com a cabeça. — Não dá pra descansar enquanto ela estiver por aí. Leah não é o tipo que recua.
Renesmee se aproximou, pousando a mão em seu ombro. — Ela já foi minha amiga, Jake. Eu não quero acreditar que ela seria capaz disso.
Ele virou-se, segurando a mão dela. — Ness… você precisa acreditar em mim. Eu conheço o olhar de um predador quando vejo um.
Antes que Renesmee respondesse, um som se ergueu do lado de fora. Passos apressados, quebrando a folhagem úmida. Jacob instintivamente levou a mão à faca presa na cintura. A porta se abriu, e Seth surgiu — ofegante, com o rosto pálido pelo frio.
— Jacob! — chamou, fechando a porta atrás de si. — Eu vim o mais rápido que pude.
Jacob foi ao encontro dele. — O que houve?
Seth respirou fundo, tentando se recompor. — Leah. Ela… ela está reunindo os lobos dela. Disse que Renesmee é uma ameaça, que a criança que ela carrega vai desequilibrar o território. Ela quer acabar com isso antes que nasça.
O silêncio foi imediato. O fogo pareceu vacilar na lareira, e o ar se encheu de tensão. Renesmee levou a mão ao ventre, o coração acelerando.
— Ela vai matar meu bebê? — sussurrou, a voz embargada.
Seth assentiu, relutante. — Eu tentei falar com ela, mas… ela está cega de raiva. Acredita que você traiu a matilha, Ness. Disse que seu filho é uma aberração.
Jacob cerrou os punhos, o maxilar rígido. — E Embry? Ele está com ela?
— Sim. — respondeu Seth, pesaroso. — Ele se juntou a Leah. Disse que você a enfeitiçou, Renesmee. Que seu poder está corrompendo os lobos.
Renesmee fechou os olhos, a dor estampada no rosto. — Embry…
Jacob passou o braço pelos ombros dela, trazendo-a para perto. — Isso não muda nada. Eles não vão chegar perto de você.
Carlisle, que até então observava em silêncio, se aproximou calmamente. — Se Leah está reunindo forças, precisamos nos preparar. Os Cullen estarão com vocês.
Edward, ao lado do pai, completou com a voz tensa: — Alice teve visões fragmentadas. Há movimento no norte. Eles estão vindo.
Renesmee ergueu o olhar para Jacob, os olhos marejados. — Eu não quero que ninguém morra por minha causa.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos, firme. — Ninguém vai morrer, Ness. Você me ouve? Ninguém.
Nesse instante, um movimento dentro dela a fez suspirar. Jacob recuou um pouco, confuso.
— O que foi?
— Ele… se mexeu. — Renesmee sorriu entre lágrimas. — Acho que o bebê sente a tensão.
Jacob pousou a mão sobre o ventre dela, sentindo uma energia estranha — viva, quente, pulsante. Por um segundo, jurou ouvir um eco distante, como se o coração do bebê respondesse ao dele.
Edward desviou o olhar, inquieto. — Há algo diferente nessa criança… algo que nem mesmo Alice consegue prever.
Carlisle assentiu. — A gestação está acelerada, como imaginei. O corpo de Renesmee está se adaptando, mas é um processo instável. Precisamos estar atentos.
Jacob ficou em silêncio, o olhar fixo em Renesmee. — Então não vamos deixá-los chegar nem perto.
Seth respirou fundo. — Eu posso ajudar. Se Leah realmente vai atacar, eu ainda tenho acesso à Ordem. Posso avisar quando eles se moverem.
— Vai ser perigoso. — alertou Jacob.
— Eu sei. Mas já escolhi o lado. — respondeu Seth, convicto.
Jacob assentiu com um leve aperto no ombro dele. — Então, seja bem-vindo à guerra.
Enquanto isso, no extremo norte, o luar prateava o campo gelado. Leah caminhava lentamente pela clareira, o corpo alto e esguio envolto em um manto escuro. Embry a seguia, inquieto.
— Você tem certeza disso? — perguntou ele, com a respiração pesada. — Atacar Renesmee… é loucura.
Leah virou o rosto, os olhos brilhando de determinação e algo mais sombrio. — Ela se tornou uma ameaça. Está grávida de um caçador, Embry. Isso nunca deveria ter acontecido.
— Mas… ela é a alfa. — insistiu ele. — Ela liderou a matilha quando ninguém mais conseguia.
Leah se aproximou, tocando o rosto dele com falsa ternura. — E foi exatamente por isso que todos a seguiram. Mas agora, ela perdeu o controle. Está fraca. Vulnerável. E se não agirmos, essa criança vai nascer mais forte que qualquer um de nós.
Embry desviou o olhar, incerto. — Leah… você está diferente.
Ela sorriu de canto, fria. — Estou apenas vendo o que sempre esteve diante dos nossos olhos.
Ela se afastou, erguendo o olhar para o céu. — Quando tudo acabar, Embry, seremos lembrados como os que restauraram a ordem.
Ele hesitou. — E se Jacob tentar interferir?
Leah virou-se lentamente, um brilho calculado nos olhos. — Ele vai. E quando o fizer, vou me certificar de que ele veja apenas o que eu quero.
Embry franziu o cenho. — O que você quer dizer?
Leah deu um passo à frente, sussurrando próximo ao ouvido dele:
— Se as coisas derem errado, todos vão achar que você me traiu. Que você se aliou a Renesmee. Eu vou me fingir de vítima. E Jacob… Jacob vai me agradecer por tentar salvá-los.
Embry recuou, surpreso. — Você vai me culpar?
— É o preço da história, Embry. — Leah respondeu, fria. — Alguém precisa pagar.
E, com um último olhar para o céu, completou: — Quando ele me vir sangrando, vai esquecer que a amava.
De volta à casa dos Cullen, Renesmee repousava com a cabeça no colo de Jacob. Ele passava os dedos em seus cabelos, tentando acalmar a mente e o coração.
— Você está tremendo — murmurou ela.
— Estou com raiva. — confessou ele. — Queria poder acabar com isso agora, antes que cheguem até aqui.
Ela ergueu o olhar para ele, com um pequeno sorriso. — Então me prometa… que não vai me deixar sozinha.
Jacob inclinou-se, encostando a testa na dela. — Nunca.
Do lado de fora, os ventos uivavam mais forte. E, no horizonte, um uivo respondeu — longo, feroz, anunciando o início da caçada.
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