A Loba e o caçador
34 Capítulo 33 - A calmaria antes da tempestade
A noite havia se dissipado lentamente sobre Forks, deixando para trás um céu cinzento e pesado. A floresta, ainda úmida da chuva, guardava o cheiro metálico de terra e sangue. Tudo estava em silêncio — um silêncio que antecedia a tormenta.
Dentro da casa dos Cullen, a atmosfera era densa, quase irrespirável. As conversas vinham em sussurros, as expressões eram graves. Carlisle organizava frascos e instrumentos sobre a mesa, enquanto Bella observava a filha de longe, inquieta.
Renesmee estava sentada junto à janela, com as mãos sobre o ventre. A luz pálida da manhã tocava seu rosto, realçando a fadiga nos olhos. Jacob, ao lado dela, mantinha a postura tensa de um homem que não sabia descansar.
— Você precisa dormir, Ness — murmurou ele, tocando de leve a mão dela. — Está exausta.
— E você? — ela perguntou, o olhar firme, mas suave. — Desde que tudo começou, não te vi fechar os olhos nem por um segundo.
Jacob sorriu de lado, cansado. — Caçadores dormem quando o perigo passa.
Renesmee o olhou por um momento longo, como se o mundo ao redor tivesse parado.
— O perigo nunca passa, Jake. — sussurrou. — A gente só aprende a viver com ele.
O toque das mãos deles se apertou, e foi nesse silêncio partilhado que Edward apareceu à porta. O olhar dele alternava entre a filha e o genro improvável.
— Ela precisa descansar, Jacob — disse em tom calmo, mas inflexível. — Carlisle detectou algo instável na gestação. Qualquer esforço pode ser perigoso.
Renesmee ergueu o queixo, teimosa. — Eu não vou ficar deitada enquanto eles vêm atrás de nós.
Bella se aproximou, a voz trêmula, mas doce. — Filha, você carrega uma vida dentro de você. Não é covardia se proteger.
— Eu sou alfa, mãe. — respondeu Renesmee. — Minha matilha precisa de mim. Jacob precisa de mim.
O olhar de Bella se desviou para Jacob, que apertou os lábios, dividido entre o dever e o medo.
— Ela tem razão, Bella. — disse ele, com voz grave. — Eu não posso tirar dela quem ela é. Mas também não posso perder as duas.
Renesmee o olhou, surpresa. A sinceridade crua de suas palavras a fez estremecer.
Carlisle, que os observava, suspirou. — Vamos fazer o possível para estabilizá-la. Mas ela não deve se transformar. O corpo dela não aguentaria.
Jacob passou o braço por seus ombros, aproximando-a do peito. O gesto foi instintivo, protetor.
— Então ficamos aqui — murmurou ele, baixinho. — Só nós.
Os Cullen se retiraram em silêncio, deixando-os a sós. O tempo parecia suspenso. Renesmee repousou a cabeça contra o peito dele, ouvindo as batidas ritmadas do coração de Jacob — fortes, humanas, seguras.
Ele deslizou a mão por seus cabelos, respirando o cheiro doce de floresta e chuva.
— Você me assusta, Ness. — confessou, num sussurro rouco. — É tão forte que às vezes esquece que pode quebrar.
Ela ergueu o rosto, os olhos dourados úmidos. — E você é tão teimoso que esquece que também sente medo.
Jacob sorriu, e nesse instante, o espaço entre eles se desfez. Ele beijou sua testa, depois seus lábios — um toque lento, contido, mas cheio de promessas silenciosas. Ela o segurou, frágil e intensa, como se aquele momento fosse o último antes da guerra.
Mas o corpo dela vacilou. Um suspiro pesado escapou, e Jacob a amparou antes que caísse.
— Ness! — Ele a deitou sobre o sofá, aflito. — Carlisle!
Em segundos, o médico estava de volta.
— O corpo dela está reagindo. O bebê… o metabolismo está acelerando demais. — disse, examinando-a. — Ela precisa repousar absoluto.
Jacob segurou a mão dela com força. — Eu fico com ela.
Renesmee abriu os olhos, a voz fraca. — Não me deixa…
— Nunca. — respondeu ele, firme. — Nunca vou te deixar.
Carlisle trocou um olhar silencioso com Edward. Havia preocupação ali, mas também algo que Jacob não conseguiu decifrar — talvez medo do que viria.
Enquanto isso, longe dali, Leah observava o reflexo trêmulo do fogo dançar sobre a superfície do rio. Sua respiração era calma, calculada. Embry estava ajoelhado à sua frente, a expressão tensa.
— Você me usou, Leah. — disse ele, com a voz baixa. — Me fez acreditar que estava lutando por algo justo.
Ela se virou lentamente, o olhar glacial. — E não estou?
— Vai entregar Renesmee… e o bebê.
— Renesmee já fez a escolha dela. Agora é minha vez.
Embry se levantou, furioso. — Você está se tornando aquilo que mais odiava.
Leah sorriu, fria. — E você ainda acredita que existe pureza no que somos?
Ela se aproximou, e antes que ele reagisse, passou os dedos por seu rosto — um gesto falso de afeto.
— Quando tudo terminar, Embry… vão achar que foi você quem me traiu. Que tentou me matar.
— Leah… — Ele recuou, incrédulo. — O que está planejando?
Ela inclinou a cabeça, os olhos faiscando. — Sobreviver.
E, com um último olhar cortante, completou:
— Jacob vai acreditar em mim. Ele sempre acreditou nas vítimas erradas.
Seth observava de longe, o corpo tenso escondido entre as árvores. O coração batia acelerado.
Ele havia escutado o suficiente para entender o perigo — mas não o bastante para saber toda a verdade.
Quando Leah se afastou, ele pegou o rádio preso ao cinto e falou baixo:
— Jacob, aqui é Seth. Leah vai se mover. Hoje à noite. Ela quer o bebê.
Do outro lado, a voz de Jacob veio firme, mas abafada:
— Entendido. Mantenha-se no acampamento. E, Seth… obrigado.
Seth respirou fundo, olhando o luar. — Só espero não estar protegendo a pessoa errada.
De volta à casa dos Cullen, o ar estava quieto, quase sagrado. Jacob permanecia ao lado de Renesmee, que dormia em repouso leve. O brilho suave das velas iluminava o quarto, banhando-a em tons de ouro e âmbar.
Ele observava o movimento do ventre dela, a respiração calma, e sentiu algo dentro de si mudar — um medo antigo se dissolvendo em amor.
Ele pousou a mão sobre o ventre dela.
— Eu não sei o que você vai ser, pequeno. Mas juro que ninguém vai te tocar.
Renesmee, mesmo dormindo, sussurrou algo quase inaudível:
— Jake… não me deixa…
Ele sorriu, os olhos marejados. — Nunca, Ness. Nunca.
Do lado de fora, o vento soprou mais forte, trazendo o cheiro da floresta e um presságio distante.
No horizonte, Leah caminhava sozinha, com o olhar fixo na direção da casa.
Uma expressão de falsa dor moldava seu rosto.
Logo, todos acreditariam nela.
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