A Little Piece of Hell
3 Perigosa.
Notas iniciais
(POV Daryl)
Passo a maior parte da noite ao lado da garota, mas não consigo ficar acordado por muito tempo depois que Hershel vai embora e me deixa sozinho com ela na cela. Começo a devanear sem nem mesmo perceber, pensando em tudo o que tem acontecido.
Depois que aquele prisioneiro sabotou as cercas da prisão e aqueles errantes entraram nos blocos que já tínhamos limpado, eu não consegui salvar todos. Eu tenho uma dívida com Rick e um acordo comigo mesmo: proteger esse grupo com a minha vida, porque mesmo com o irmão que eu tenho, eles não me deixaram na mão. Sei que fui injusto com muitos deles, principalmente com T-Dog por causa do preconceito de Merle, e confesso que até mesmo cheguei a pensar da mesma forma que ele. Mas depois que meu irmão fugiu, eu não sinto mais tanta necessidade de ser igual a ele. Posso ser quem ele nunca permitiu que eu fosse.
Mas eu não consegui cumprir esse meu acordo, minha promessa interna. Não consegui proteger Carl e Lori e o garoto teve que matar a própria mãe quando ela morreu depois do parto.
E então eu fecho os meus olhos e de repente estou revivendo todo esse pesadelo mais uma vez. Mais lívido e mais real do que realmente foi.
"Rick, Glenn e eu fomos buscar lenha fora da prisão e de longe começamos a ver o grande passo que Hershel estava dando. Já tinha se recuperado e agora estava se acostumando com as muletas. O dia estava calmo e todos nós estávamos com a sensação de que tudo ficaria bem. Mas não durou por muito tempo. De repente dúzias de errantes invadiram o pátio onde eles estavam. Começamos a correr até eles enquanto Glenn fechava a abertura que fizemos na cerca.
Havia muitos portões que tínhamos trancado para segurança deles e agora essa ideia se virava contra nós. Não fui rápido o suficiente em ajudar o Rick a abrir cada um deles, já era muito tarde. Chegando ao pátio, enquanto eu matava os errantes que estavam ali, Glenn fechava o portão que estava aberto e Rick falava com Beth, que estava trancada na entrada das celas do bloco que tínhamos limpado, junto com seu pai. Pude escutar a conversa dos dois.
— Que inferno aconteceu? — Rick perguntou gritando.
— O portão estava aberto! — Beth respondeu tentando acompanhar o ritmo de Rick.
— Onde estão Lori, Carl e os outros? — ele continuava gritando sem se preocupar em soar desesperado.
— Maggie levou Lori e Carl ao bloco C. — respondeu Hershel enquanto eu matava mais um walker.
— T foi mordido — Beth disse.
— Mais alguém?
— Não sei dizer — ela respondeu enquanto eu me preparava para ir atrás de cada um deles.
— Fiquem aqui — disse Rick se dirigindo a Beth e Hershel.
Glenn voltou correndo ao nosso encontro matando um último walker livre ali no pátio.
— As correntes não se soltaram — ele dizia tentando não atropelar as palavras — Alguém as partiu com alguma coisa!
Olhamos para os prisioneiros que estavam atrás da gente.
— Acha que foram eles? — Glenn perguntou.
— Quem mais? — Rick respondeu com uma pergunta.
E aí as coisas pioraram. Alarmes começaram a soar chamando atenção de mais andantes. Rick jogou as chaves para mim e começou a atirar nos autofalantes que haviam espalhados pelo lugar. Caminhei em direção dos dois prisioneiros e apontei minha besta para eles. Rick veio logo em seguida, também mirando sua arma nos dois.
— Como isso pode estar acontecendo? — ele gritava.
— Wow, wow, wow — o prisioneiro mais alto falava esticando as mãos — Devem ser os geradores reservas — dizia ele. Seu nome era Oscar se não me engano.
— E como os liga?
— Há três deles conectados a um tanque de diesel ok? — ele gaguejava — Cada um controla uma parte da prisão. Eles foram desligados na invasão.
— Se houver energia, pode abri-los eletronicamente? — perguntou Rick apontando a arma na cara do outro prisioneiro.
— Só trabalhei neles por uns dias. Acho que é possível. — respondeu Oscar sendo puxado pela roupa logo em seguida.
— Venha conosco! — gritou Rick — Vamos!
Eu queria ir atrás dos outros. Da Lori, do Carl, T-dog, Carol... Eu já não tinha conseguido salvar a filha dela, Sofia. Não podia deixá-la morrer também. E, além disso, embora eu não quisesse admitir, eu sentia algo por aquela mulher.
Mas Rick precisava de mim, e eles sabiam se cuidar. Além disso, os geradores ficavam no mesmo bloco em que Lori, Carl e Maggie estavam. Glenn, eu e os prisioneiros matamos cinco errantes. Rick havia matado quatro deles, mas não achamos nenhum sinal do filho e da esposa dele. De repente ele gritou.
— Alguém está brincando conosco! Vamos nos dividir e procurar. O primeiro que chegar nos geradores, desligue-os!
Rick, Oscar e eu chegamos à sala dos geradores fugindo de muitos errantes. Rick entrou e checou a sala enquanto eu segurava a porta junto com o prisioneiro.
— Como os desligamos? — gritou Rick.
Olhei para Oscar e vi que tínhamos que desligar os geradores o mais rápido possível, e o único ali que sabia fazer isso era ele.
— Ajude-o, eu cuido disso — eu disse usando mais força para segurar a porta sozinho.
Eles eram muito fortes e meus pés estavam escorregando. Pensei em todos que eu ainda tinha de salvar, e usei todas as minhas forças para aguentar um pouco mais. Quando Rick desligou os geradores, um prisioneiro que achei que estava morto pulou em cima dele com um machado, e eu não podia fazer nada. Rick estava ali, precisando de ajuda, e eu estava incapacitado de ajudá-lo.
Meu corpo já estava inclinado tentando segurar a maldita porta enquanto eu via Rick tomar o machado da mão do cara e sacar a sua arma. Mas o filho da puta lançou a arma dele longe e os dois estavam jogados no chão e lutando contra o outro.
Eu tinha que fazer alguma coisa. Vi a minha besta logo ali do meu lado e contei mentalmente até três. Larguei a porta e a agarrei dando uma flechada certeira na cabeça de um errante, mas minhas flechas haviam acabado. Peguei minha faca que estava presa no meu cinto e matei mais um. E assim consegui fechar a maldita porta.
Quando me virei, Oscar tinha jogado algo no outro prisioneiro, que caiu de costas no chão. Pegou a arma que estava jogada e apontou para Rick.
— Atire nele! — Dizia o que tinha atacado meu amigo, minutos antes — Podemos retomar a prisão. — Oscar hesitou. — O que está esperando? É a nossa casa! Atire!
Eu estava com a faca em mãos, pronto para matar Oscar, quando ouvi um tiro.”
Acordo assustado, gritando. Olho para os lados freneticamente, procurando alguma ameaça. Mas tudo está bem.
Não preciso terminar o sonho para me lembrar do que vinha em seguida. Oscar atirou no traidor e devolveu a arma para Rick. Mas de qualquer forma não conseguimos salvar todos. T-dog, Lori... Carol. Todos estão mortos agora.
Olho para a pequena abertura na cela e vejo que o sol está começando a aparecer. Sinto que tenho algo para fazer com urgência. Meu olhar é atraído para a garota, ainda se recuperando. Seu rosto está tranquilo, embora sua testa esteja levemente franzida. Estico meu braço hesitantemente em sua direção, e passo a mão em seus cabelos.
—Fique bem, garota.
E então eu a deixo para trás.
Caminho lentamente até onde os outros tinham cavado valas para os nossos mortos e me aproximo do 'túmulo' que foi feito para Carol. Eu tiro uma rosa cherokee do bolso da minha jaqueta e a coloco dento de um círculo pequeno feito com pequenas pedras. Prendo a rosa com um pouco de terra, para que o vento não a leve embora. Isso me destrói por dentro. De certa forma sou culpado pela morte de Sofia, e agora pela de Carol. Olho a cruz posta no túmulo e a acaricio sem medo, como se fosse uma parte daquela doce mulher.
Passo as mãos em meus olhos de uma forma bruta, impedindo que as lágrimas que se formam em meus olhos caiam. Me levanto e volto para a prisão, sentindo a fome apertar meu estômago. Deixo o túmulo para trás junto com meus sentimentos. A partir de agora eles estão trancados, como sempre deveriam ter estado. E eu não vou permitir que ninguém os traga de volta.
Ninguém!
(POV Melanie)
Não sei o que está acontecendo comigo. Eu me sinto distante, e tudo o que eu quero fazer no momento é dormir. Mas esse barulho continua. Estou num estágio do sono onde consigo escutar tudo o que acontece ao meu redor. Mas, por mais que eu lute para entender o que há, não consigo dizer o que faz parte do meu sonho e o que faz parte da realidade.
— Não... Não, não, não! — Escuto murmúrios, bem ao meu lado.
Não pode ser uma daquelas coisas, elas não conseguem falar. Eu sei que estou deitada, mas não sei o porquê estou. Me lembro perfeitamente de ter me arrastado para um lugar bem menos confortável do que este. Não pude simplesmente ficar num local onde uma janela quebrada pode ser o bastante para que uma tragédia aconteça, qualquer um poderia fazer o que quisesse comigo. E aqui é macio demais para um chão de um edifício abandonado, mas ainda assim muito duro para ser uma cama.
— Carol...
Carol? Ok, ou estou ficando louca, ou então esse é o sonho mais estranho que já tive em toda a vida. Alguém está muito perto de mim e escuto claramente sua respiração, muito acelerada. Gemidos e palavras balbuciadas continuam a se espalhar e acariciar meus ouvidos. E então tudo fica quieto demais.
Não sei por quanto tempo o silêncio se estica pelo local, mas é o suficiente para que eu volte a perder a consciência que ainda me resta. Até que um grito me prende mais uma vez entre o sono e a realidade.
— Não!
A respiração ao meu lado torna a se acelerar, e então ela começa a ficar mais distante. Estou confusa, a escuridão me abraçando, e dessa vez tenho certeza de que não vou conseguir ficar consciente por muito mais tempo. Ouço passos e uma ligeira impressão de que estou sendo observada toma conta de mim.
Mais tempo se passa, e novamente não sei dizer se foi muito ou pouco. Quase posso afirmar que tudo não passou de um sonho febril, e deixo aquela névoa me envolver. E então eu sinto
Uma mão pousa levemente em minha cabeça, passeando por entre os fios do meu cabelo. Seu toque é como fogo e me deixa inquieta quando sua proximidade é quebrada.
— Fique bem, garota — uma voz grossa e rouca me causa arrepios, e então vai embora.
De repente todo o sono vai embora, e com um pouco de resistência consigo abrir meus olhos. Eu olho para cima e percebo que estou numa beliche. Viro minha cabeça para o lado, talvez rápido demais. Vejo tudo rodar e pontos pretos pontilharem minha visão. Mas assim que me recupero vejo que estou numa cela. Na prisão? Estou numa prisão?
Repasso tudo o que fiz na vida para achar algo que pudesse me trazer até aqui. Ainda mais uma prisão caindo aos pedaços como essa. Parece até que está abandonada. Sempre fui uma boa menina! Estudei bastante para me formar, já estava estagiando no hospital central. Meus pais devem estar preocupados comigo, isso se já não soubessem que eu estou aqui. Como devem estar decepcionados comigo.
Sento na beliche e imediatamente sinto a mesma vertigem. Logo me lembro do que realmente está acontecendo. Meus pais não sabem onde eu estou simplesmente porque não existem mais. E tudo vem de uma vez na minha cabeça. O caos no hospital, meu pai morrendo, logo depois minha mãe, Mary e por fim... Noah.
Minha cabeça lateja e minha visão ainda continua um pouco turva. Me levanto com cuidado, sempre me segurando na beliche e depois nas barras de ferro. Meu tornozelo me mata de dor e eu não consigo me apoiar nele, mas eu tenho que continuar e ver o que está acontecendo. Tenho que descobrir o que estou fazendo nesse lugar. A cela está aberta para a minha surpresa, e ainda com receio, saio da cela dando passos de bebê. Olho para os lados e não vejo ninguém.
— Então o vírus chegou até aqui também – sussurro, com medo de chamar atenção de alguém. — Até onde isso foi parar?
Ouço vozes, vindo de uma sala depois do corredor. É um sacrifício toda vez que eu apoio o meu pé direito no chão, e sinto meu rosto esquentar com as lágrimas que se formam em meus olhos. Chego mais perto e consigo ouvir as vozes com mais clareza, distinguindo cada palavra.
—... nós podemos tirar os corpos — uma voz masculina se pronuncia.
Tirar os corpos? Corpos daquelas coisas ou de pessoas? Eles continuam conversando enquanto eu permaneço escondida atrás de uma parede, do lado de um portão aberto.
— Todos têm uma arma e uma faca? — outra voz, também masculina pergunta um pouco mais distante.
— Sim — outra voz grossa e levemente rouca responde. Será que só tem homens nesse lugar? — Mas estamos ficando sem munição.
Percebo então que essa última voz é a mesma que eu estava escutando hoje mais cedo enquanto estava dormindo. Mas isso não é importante no momento. Eles estão armados, e eu não sei como posso me defender. Mas eu já me sinto fraca, passando mal e precisando comer. Sei que meu corpo não vai aguentar me sustentar por muito mais tempo. O portão do outro lado é fechado com força, e com a vertigem voltando decido entrar de uma vez e acabar logo com a minha apreensão.
Entro na sala e todos param de falar, os olhares fixos em mim. Um segundo depois eu estou sob a mira deles. Um homem, uma garota, um garotinho e um cara com uma besta. Dou um passo para trás e reprimo um grito de dor por causa do meu tornozelo.
— Você não deveria estar andando! — exclama um velho homem. — O que estão fazendo? Abaixem as armas!
— Não! — o rapaz de olhos puxados diz rudemente. — Não vamos baixar a guarda até sabermos se ela é perigosa ou não! — diz virado para o homem atrás dele. — Você está sozinha?
Eles estão achando que eu sou perigosa? Oh, por favor! Eu não consigo fazer mal nem a uma formiga e eles estão pensando que eu sou uma ameaça? Simplesmente congelo com a possibilidade e os encaro incrédula.
— Você está sozinha? — ele chega mais perto, gritando na minha cara.
— Ele te fez uma pergunta garota — o homem que segura a besta se aproxima — Se quer continuar viva é melhor começar a falar! Agora!
Não me sinto bem e toda a tensão começa a piorar o meu estado. Sinto meu corpo perder o equilíbrio e me jogo um pouco para o lado, me segurando nas barras. Ao me mover tão rápida e bruscamente, as armas ficam a centímetros do meu rosto.
— Vocês estão assustando ela! – A única garota fala chegando mais perto.
— Fique longe Beth — o garotinho diz pela primeira vez, empurrando-a para trás. — Ela pode ser perigosa.
Minha boca fica seca e instantaneamente me lembro de que eu não bebo água há dias. Tento falar algo, mas eu só arranho a minha garganta. Com muito esforço consigo expressar minha perplexidade.
— Perigosa? — mal reconheço a minha voz.
— Vou perguntar de novo — o rapaz com a arma voltou a falar comigo — Você está com alguém?
Meu estômago dói, fico tonta e não consigo entender muito bem o que eles falam.
— Não estou me sentindo muito bem – digo num sussurro.
— Essa é a última vez que perguntamos! — o cara com a besta fala ferozmente. – Você. Está. Sozinha? — pergunta pausadamente, chegando cada vez mais perto.
Minha visão escurece e a última coisa que escuto é o grito do velho homem.
— Daryl!
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