A Little Piece of Hell
4 Merle
Notas iniciais
(POV Daryl)
Eu precisava que ela desse uma resposta logo. Aquela enrolação toda só estava me deixando arrependido de tê-la trazido para a prisão. Apesar de todo o meu corpo me falar que ela não era uma ameaça, a minha preocupação com a pequena durona era maior do que qualquer outra coisa. Além disso, Glenn estava levando a sério essa coisa de ser o próximo a cuidar do grupo com Rick enlouquecido.
Eu olhava para ela, mas o seu rosto não esboçava nenhuma expressão que dissesse que era perigosa. Mas eu não podia ficar do lado dela quando eu não tinha nenhuma prova de que era uma pessoa boa, ainda mais quando estou tentando conquistar a confiança das pessoas com quem vivo agora.
– Não estou me sentindo muito bem... — Ela disse com aparente esforço.
Pensei que ameaçá-la iria fazer com que ela abrisse a boca e nos contasse o que realmente estava havendo ali. Então para o bem dela, mesmo que não parecesse na hora, fui ignorante e ameaçador.
– Essa é a última vez que perguntamos! — Eu falei um pouco mais grosso do que eu realmente quis ser. — Você, está, sozinha? — Perguntei devagar, chegando cada vez mais perto para ver a verdade em seus olhos verdes.
E então ela caiu.
– DARYL! — Hershel gritou para mim, já que eu estava mais perto para segurá-la.
Larguei a minha besta no chão e segurei a garota antes que atingisse o chão. Ela estava pálida, mas não como quando a trouxe para cá. Não estava parecendo como se fosse por perda de sangue. Mas quem melhor para dizer o que houve do que o Hershel? Coloquei a garota sentada numa das cadeiras em volta da mesa e ele se levantou para examiná-la.
– O que houve com ela? — Perguntei antes mesmo que ele a tocasse.
– Calma filho, provavelmente foi só a pressão que caiu. — Ele falou medindo o pulso. — Ela não deve comer há dias. — Disse com pouca preocupação. — O corpo está fraco e precisa de nutrientes para poder sustentá-la.
A consciência da garota já começava a voltar e fui correndo buscar uma lata de sopa. Hershel segurava a mão dela e a esfregava, chamando-a delicadamente.
– Hey, está me ouvindo filha? — Ele dizia calmamente. — Fale comigo, está me ouvindo?
Aos poucos, murmúrios saíam de sua boca, falando coisas sem nexo que ninguém compreendia e sua respiração estava acelerada, como se algo estivesse impedindo o ar de entrar em seus pulmões. Todos na sala, com exceção de Hershel e Beth, estavam nervosos, principalmente eu.
– O que houve? — Ela perguntou depois de um tempo.
Seus lábios estavam brancos e seu rosto ainda estava pálido. Ela ainda estava acordando do desmaio, mas já tinha noção de que estávamos ao seu redor. Peguei uma colher e tentei fazê-la comer.
– O que é isso? — Perguntava afastando minha mão fracamente. — O que está acontecendo aqui? Onde estou?
– Você faz perguntas demais. — Eu disse calmamente, assim como Hershel estava fazendo minutos antes. Não queria assustá-la mais uma vez. — Coma um pouco! É sopa, vai fazer você se sentir melhor.
– Obrigada, mas consigo comer sozinha. — Ela falou pegando a sopa e segurando a minha mão.
Senti algo estranho quando ela me tocou, então soltei a colher e me afastei, voltando até onde minha besta estava largada no chão. A peguei e me encostei na parede. Fiquei observando a garota comer a sopa de uma vez. Levei meu olhar até seu tornozelo direito, onde sua calça estava furada em vários pontos da barra e toda manchada de sangue. Eu estava preocupado com aquele ferimento, Hershel tinha que ficar de olho nele para não inflamar. Precisávamos de antibióticos.
– Qual é o seu nome filha? — Perguntou Hershel, me trazendo de volta dos meus pensamentos.
– Melanie... — Ela respondeu, tímida. — Melanie Parker.
– Está sozinha? Tem um grupo? Conhece alguém que está vivo? — Glenn disparou com as perguntas.
Percebi que ela se sentiu desconfortável e parecia que iria chorar a qualquer momento. Abaixou a cabeça e balançou-a em negativo.
– Seja bem-vinda Melanie! — Beth tinha um grande sorriso. — Esse é Glenn e aquele é o Daryl. Meu nome é Beth Greene, e esse é meu pai, Hershel — Ela disse apontando para o pai — Ele vai cuidar de você, ele é médico. Bom... quase. — disse ela dando um pequeno sorriso para o pai.
– Veterinário. — Me intrometi na conversa. — Mas é a mesma coisa. — Falei dando de ombros. — É muito importante tê-lo aqui com a gente. Se não fosse por ele, todos já tinham morrido! — Eu disse, me lembrando de quando fui procurar por Sofia. Acabei com uma flecha em meu flanco e um tiro de raspão na cabeça.
– Então eu posso servir de ajuda... — Ela disse com uma voz suave.– Estava prestes a me formar em medicina quando essas coisas apareceram.
– Os errantes? — perguntou Carl.
– Errantes? É assim que chamam esses monstros? — Ela disse olhando para mim.
– Sim, errantes. — Respondi — Também os chamamos de walkers, mordedores, andantes... Várias opções, pode escolher a que mais gostar.
– Será de grande ajuda para nós termos você aqui conosco Melanie! — Disse Hershel ignorando minha ironia. — Principalmente para mim. É difícil cuidar de todos sozinho. Se você estivesse aqui quando...
Hershel parou de falar imediatamente e todos entendemos porque, exceto a garota Melanie. Ele estava se referindo ao que houve com a Lori. E talvez ele tivesse razão. Se ela estivesse aqui, poderia ter salvo vidas.
– Precisamos de remédios. — Eu disse. — Para esse seu tornozelo. Para a pequena durona e o resto do grupo.
– Pequena durona? — Ela perguntou levantando uma sobrancelha.
– Minha irmã. — Carl respondeu frio — Ela nasceu há poucos dias, e minha mãe...
– Oh! — Ela disse se contraindo e olhando para suas mãos. — Eu sinto muito garoto.
– Não sou mais um garoto, pode me chamar de Carl — Ele disse saindo da sala.
– Eu não sabia que... — Melanie disse tentando se desculpar. — Que ele ficaria assim.
– Tudo bem. Está sendo difícil para todos nós — Beth disse.
Glenn pigarreou, chamando atenção de todos.
– Quanto aos remédios e aos suprimentos, Daryl, achei uma lista telefônica. Eu e Maggie vamos numa cidadela não muito longe daqui. Já passamos por lá antes, mas não sabíamos que tinha tanta coisa assim. Podemos levar Melanie para nos ajudar.
– Ela está ferida! — Eu disse, me recusando a deixá-la sair no estado em que estava. — Acabou de chegar aqui e não sabemos pelo que passou.
– Eu posso ajudar! — ela disse.
– Sabe atirar? — Perguntou Hershel, recebendo um não como resposta. — Já matou algum errante? — Mais um não.
– Não tem problema. — Glenn interveio. — Onde vamos é muito tranquilo, até dá para ouvir os pássaros. Vai ser bom pra ela tomar um ar puro.
– Ela acabou de chegar. — Eu disse levantando — Além disso, olhe o estado do tornozelo dela! — Apontei para o seu pé.
– Eu consigo, eu posso ajudar! — Ela dizia me olhando — Consigo andar, e ficar parada não vai ajudar muito na minha recuperação. Precisamos dos remédios, como você falou. E eu posso ajudar com isso.
Eu olhei para Hershel em busca de ajuda.
– Não posso prendê-la aqui. — Ele disse como resposta e eu me irritei. — Ela tem razão, o que ela precisa agora é de antibióticos e analgésicos. — Abaixei a cabeça, não concordando com nada daquilo. — Além disso, precisamos de mais fórmula e vitaminas para a filha do Rick.
– Eu vou junto! — Falei, já me preparando para arrumar minhas coisas para sair.
– Já temos gente o suficiente Daryl, mais pessoas e acabaremos chamando atenção. Além disso você prometeu ao Rick que iria limpar a sala do gerador e varrer os níveis superiores.
Me dei por vencido e saí da sala. Não queria mais participar daquela loucura. Se aquela maluca quiser ir, que vá! Mas parei e acabei voltando.
– Se algo acontecer... — Falei apontando para Glenn — A culpa e responsabilidade será sua!
Saí da sala e fui me preparar para varrer os níveis superiores com Carl e Oscar.
(POV Melanie)
Depois de almoçarmos, eu, Glenn e Maggie — que eu conhecera durante a refeição — fomos nos preparar para sairmos. Meu tornozelo ainda doía, mas eu já conseguia andar um pouco melhor. Maggie ficou de me ensinar a me defender se encontrássemos algum errante no meio do caminho.
Glenn me deu uma mochila vazia relativamente grande, uma faca e uma colt.
– Não sei como usar isso Glenn... — Estendi minha mão, devolvendo a arma.
– Fique com você. É melhor do que andar somente com uma faca. — Ele disse empurrando minha mão de volta. — Além disso, podemos ensiná-la como usar. Um tempo atrás estávamos numa fazenda e ensinávamos aqueles que não sabiam nem sequer como segurar uma arma.
– O que seria o meu caso. — eu disse rindo internamente.
Eu estava fazendo o possível para parecer bem com tudo aquilo. Mas a verdade é que eu estava completamente a beira de um colapso, ainda mais com a arma em mãos. Isso me lembrava de quando... coisas ruins aconteceram. Mas isso já passou. Não me ajudará em nada ficar relembrando isso.
Saímos com um carro vermelho com um grande espaço e eu realmente não entendi o porque de levarmos mochilas. Hershel e Beth nos levaram até o pátio da prisão para nos despedirmos. Logo depois estávamos na estrada.
– Então, Melanie... — Maggie puxava assunto. — Onde estava antes de ser trazida até a prisão?
– Eu não sei muito bem. — Respondi com sinceridade. — Perdi a noção de tempo e de onde estava depois de quase um ano, quando fiquei sozinha.
– Então quer dizer que você tem um grupo... — Insinuou Glenn, um pouco desconfiado.
– Eu tinha... — Disse, mas querendo mudar de assunto.
– O que houve? — Maggie perguntou delicadamente.
– Eu... — Não queria falar sobre isso. — Podemos não falar sobre isso?
Os dois concordaram desconfiados. Ficamos calados por um tempo e então o assunto se voltou para a medicina e a faculdade. Era bom falar de antes, mas ainda doía muito em mim. Eu ainda não tinha me recuperado das perdas.
Chegando na cidade, fomos até um pequeno centro de comércio. Maggie olhou em volta e nos deu a certeza de que estava tudo limpo. Glenn arrebentou as correntes de uma loja infantil e entramos para pegar as coisas de que precisávamos para a "pequena durona", enquanto ela ficava de vigia do lado de fora. Glenn pegou um pato a pedido de Maggie para a criança. Ganhamos na loteria de fórmula, de acordo com o que ele disse e encontramos também feijões, baterias, salsichas de coquetel, mostardas...
Havia uma porta acoplada entre a loja e uma farmácia que não podia ser vista do lado de fora. Lá encontramos antibióticos, anti-inflamatórios, anti-térmicos, analgésicos, xaropes, remédios para limpeza dos ferimentos e álcool. Além das vitaminas necessárias para a bebê.
Estávamos saindo da loja para guardar os suprimentos no carro.
– É fácil voltar à prisão daqui. — Disse Glenn. — Podemos chegar até o jantar.
– Eu gosto do silêncio. — Maggie falou — Lá em casa, podemos ouvi-los nas cercas, em qualquer lugar.
Eu estava concordando com Maggie, a ponto de dizer que o lugar era mesmo muito tranquilo, quando um homem com uma lâmina afiada no lugar da mão direita apareceu segurando uma arma e apontada para nós.
– E onde fica o lugar que chamam de lar? — Perguntou, se aproximando mais.
Maggie e Glenn apontaram suas armas para o homem, enquanto eu simplesmente fiquei parada no mesmo lugar. Estava travada.
– Merle? — Glenn estava surpreso.
– Ho ho ho! — O cara disse, se abaixando e colocando a arma no chão. — Nossa!
Ele estava chegando mais perto e eu recuei. Maggie gritou:
– Hey! Afaste-se!
– Okay, okay, querida. Jesus!
– Você sobreviveu! — Disse Glenn, ainda com a arma apontada para o estranho homem.
Eu e Maggie o olhamos, sem entender nada do que estava acontecendo. O homem nos olhou.
– Você se deu bem, chinês! Uma morena e uma ruivinha? — Exclamou olhando para Maggie e para mim, nos comendo com os olhos. — Me conte seu segredo garoto! — Ele riu. — Hey, não há ciúmes entre vocês? — Continuamos calados. — Imagino que dá para fazer muitas brincadeiras à três, não? — Ele disse e gargalhou.
Ficamos parados. Eu estava com a impressão de que não ia sair nada de bom daquela conversa.
– Pode me dizer de meu irmão está vivo? — Continuou falando. Então além de conhecer Gleen, ele ainda tinha um irmão no grupo deles?
– Está. — Glenn respondeu contra gosto.
– Hey, leve-me até ele e estaremos quites por tudo que aconteceu em Atlanta. — Eu não estava entendendo mais nada. — Sem ressentimentos, okay?
Merle riu ao ver que estávamos encarando a lâmina em sua mão.
– Gostou disso? Pois é. Bem, eu encontrei um depósito de suprimentos médicos. Eu mesmo fiz. É bem legal, não?
– Diremos ao Dary que está aqui e ele virá para vê-lo. — Glenn disse querendo colocar um ponto final na conversa para irmos embora.
– Espere, espere! — Merle disse se aproximando. — Espere aí! O fato de nos encontrarmos é um milagre! Qual é... Podem confiar em mim.
– Confie em nós! — Glenn falou com uma voz decidida. — Você fique aqui.
Eu tinha a visão de Merle de perfil, então pude ver quando ele sacou outra arma.
– Cuidado! — Eu gritei e o homem atirou.
Glenn me empurrou para o lado do carro e Maggie se jogou para o outro. Nos levantamos rapidamente e decidi pegar a minha arma. Talvez quando visse três pessoas armadas, ficasse com medo e fosse embora.
Quando demos a volta, vimos Merle sentado no chão com o braço direito em volta do pescoço de Maggie e apontando a arma em sua cabeça.
– Hey, hey, espere aí, amigão!
– Solte-a. Solte-a! — Glenn gritou.
– Coloque as armas no carro. Coloque! — Merle dizia.
Glenn colocou sua arma no capô do carro, mas eu continuei segurando a minha.
– Você também ruivinha! Agora! — Coloquei a arma no mesmo lugar que a de Glenn. — Isso mesmo. Agora, daremos um passeio.
– Não iremos ao acampamento! — Glenn disse determinado.
– Não. — Merle respondeu, para a minha surpresa. — Iremos a outro lugar. Entre no carro Glenn! Você dirige! Ande ruiva, entre no carro também!
Deixamos as coisas que guardamos nas mochilas para trás, e Glenn dirigiu seguindo as ordens de Merle.
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