A Lista da Redenção

1 Sofia — Lista da redenção


Notas iniciais
Espero que todos gostem porque é a minha primeira vez escrevendo e postando algo. Uma amiga me disse que é um prólogo muito longo, mas mesmo assim não me abandonem, leiam e me digam se está bom ou se tá uma porcaria. Boa leitura.

Os fones de ouvido, o frio das seis horas da manhã e um céu totalmente azul são as combinações perfeitas para uma caminhada até o ponto de ônibus. Tornou-se rotina, acordar, me vestir, tomar café, escovar os dentes, pegar os fones e sair com as melhores músicas admirando a beleza do céu e a beleza urbana. Mesmo no primeiro dia de aula cumpri certinho com o roteiro matinal e então era só esperar pela “surpresa” que me aguardava na escola.

Todo ano é a mesma coisa, desço do ônibus e vejo Alice e Pedro me esperando com um bolo junto ao Lucas que segura alguns balões vermelhos — que por acaso é uma de minhas cores favoritas. Quando chego, começam com uma cantoria extremamente alta desejando-me parabéns. Acho que esse ritual começou no primeiro ano do ensino médio quando reclamei para Lucas que meu aniversário caía sempre no primeiro dia de aula e, assim, ninguém se importava muito com ele. Mesmo depois de ter passado pela fase depressiva do primeiro ano, Lucas continuou no próximo ano, o que me deixou feliz pois percebi que tinha um amigo de confiança e que se preocupava muito comigo.

Quando o ônibus escolar virou a esquina do meu colégio, vi todos reunidos no ponto. Desço do ônibus, e logo Lucas vem em minha direção abraçando-me muito forte.

— Parabéns Sofia, muitos anos de vida e todas essas coisas de aniversário, agora vamos comer porque eu estou nervoso e com fome porque não tomei café da manhã — apressou Lucas.

— Mas você só pensa em comida Lucas, nem pra me desejar um feliz aniversário decente! — reclamei.

— Olha, minha filha, eu comprei um monte de coxinhas para o seu aniversário, estou com muita fome, e sem falar que é o nosso primeiro dia de aula do último ano de nossas vidas no ensino médio, EU ESTOU SURTANDO! — ri do seu desespero. — ESSE ANO TEM VESTIBULAR, TRABALHO, DINHEIRO, UMA VIDA PARA CONSTRUIR. — ele balbuciou nervoso.

— Calma, calma — disse rindo de sua dificuldade em falar — Eu sei como é, também estou nervosa, mas calma esse é só o primeiro dia.

— Primeiro de muitos dias excelentes que vou vivenciar ao seu lado, aniversariante — disse Pedro deixando a bandeja de coxinhas com Alice e se debruçando para me dar um abraço.

— Obrigada, Pedro, você sabe o quanto isso é especial para mim, não é igual a uma certa pessoa que conheço que só está interessada nas coxinhas. — disse num tom zombador.

— Hey, escute aqui, eu que organizei tudo isso, tá? — Lucas reclama. — E sem falar que deu um trabalhão para achar esses balões vermelhos agora de manhã… você sabia que depois que fechou aquela lojinha aqui da frente, eu tive que comprar as coisas só a seis quarteirões daqui, em uma mercearia? Então não reclama porque eu fiz tudo isso, e sem falar que esse ano comprei coxinha porque sei que você adora. PORQUE EU TE AMO, SUA LAZARENTA.

Lucas tem um jeito muito estranho de demonstrar afeto com as pessoas.

— Calma hahaha.

― Eu sei, estou só brincando com sua cara. — dou mais um abraço em Lucas e digo: — TAMBÉM TE AMO, SEU LAZARENTO.

— Agora é minha vez! — exclama Alice com vários balões vermelhos nas mãos. — Ela tem todo tempo do mundo para te abraçar quando vocês estiverem na sala de aula, Lucas, agora sai que é minha vez.

— Toda sua, milady. — Lucas deixou do abraço com uma cara de espanto.

Com um sorriso no rosto, entregando-me os três balões vermelhos e deixando a bandeja cheia de coxinhas com Pedro, Alice me abraçou forte. — Parabéns Sofia, que tudo dê certo na sua vida e que esse ano seja muito bom para todos nós, e que todos consigam passar no vestibular.

— Amém. Vai deixando energia positiva mesmo, porque olha, só assim para eu passar — disse Lucas quase engasgando com as coxinhas.

— Não fala assim, você vai passar, Luc.

— Que assim seja, Alice.

— Lucas, para de comer agora e me ajuda a levar essas coisas para o refeitório! — disse Pedro.

Comendo uma coxinha e com a outra mão pegando mais uma, disse: — Vamos então.

Lucas e Pedro pegaram a bandeja e seguiram até o refeitório, enquanto Alice e eu ficamos no ponto de ônibus amarrando as bexigas em minha mochila. Conheço Alice desde o ensino fundamental, éramos muito amigas, mas ultimamente temos tido algumas complicações em nossa amizade, e depois de uns tempos nós nos tornamos mais colegas do que amigas. Isso teve início porque toda vez que eu me aproximo dela ela se afasta, mas sempre exige uma aproximação melhor entre nós duas, o que me deixa muito confusa.

Ela é uma garota linda, inteligente, e com gostos excelentes tanto para música quanto cinema; ela tem um sorriso que qualquer um ficaria encantado e cabelos curtos e ruivos, mesmo que tenha reclamado de seus cabelos curtos — que em minha opinião são os mais maravilhosos desse colégio.

Quando chegamos no refeitório avistamos os dois meninos sentados com a bandeja em cima de uma das mesas, sentamos e logo vejo Pedro tirar uma vela e Lucas já preparando um fósforo.

— NÃO! Eu sabia que vocês estavam esquecendo de alguma coisa, aqui não, pelo amor de Deus.

— Não adianta, vamos cantar sim, já preparamos tudo — disse Pedro enquanto colocava uma das velas em uma coxinha enorme — Depois da última parte do ritual, eu quero comentar sobre uma ideia que eu tive esses dias, mas isso será depois do momento mais feliz do primeiro dia de aula, que é a hora do parabéns.

— É verdade, Sofia, dois anos realizando esse ritual, não é hoje que vamos abrir uma exceção. — disse Lucas enquanto tentava acender a vela em cima da coxinha enorme.

— Tá, estou animada — revirei meus olhos e continuei olhando com desprezo para Lucas, e ele sorriu alegremente como um cachorro esperando pelo próximo passo de seu dono.

— Hum, Pedro quer nos contar algo, aposto que está planejando outra festa. — disse Lucas enquanto queimava o dedo tentando acender as velas.

— Não, não é uma festa. — explicou Pedro

— Ai, ainda bem porque eu não iria se tivesse — comentou Alice.

Com olhar de deboche, digo: — Por que, Alice Soares? Não é o que eu estou pensando, né?

— Não começa, Sofia, não é por isso, eu só não tenho dinheiro.

— Tá, tá, não comecem as duas! Agora que consegui acender essa merda quero que todo mundo cante o famoso parabéns, porque olha, deu trabalho encontrar todas essas coisas ainda nessa manhã. E sim, vou repetir isso várias vezes porque gosto de dizer o quanto deu trabalho para achar tudo isso só pro aniversário. — disse Lucas.

Rindo, Pedro diz. — Tá gente, vamos cantar agora, porque já vai bater o sinal para entrar para as salas e eu ainda não falei minha ideia.

Todos concordaram e começaram a cantar muito alto me deixando muito constrangida, pois estávamos no meio do refeitório do colégio e eu nunca sei como reagir quando cantam parabéns. Mas naquele momento eu fiquei refletindo, observando todos os meus amigos ali, cantando, fazendo algo por mim. Eles compraram todas aquelas coisas porque realmente se importam comigo, aquele momento foi de fato muito especial, não porque era o primeiro dia do último ano no ensino médio, menos ainda porque era o meu aniversário, mas sim porque eu estava com os meus amigos e eles estavam totalmente comigo, sem interesses, sem dramas, estavam porque queriam estar. Ver o rosto deles enquanto cantavam para mim foi muito especial, ver a alegria de Lucas, Pedro e até de Alice me fez sentir empolgada por esse ano.

Me fez querer tornar esse ano o melhor, porque será o último. Último que vamos ter esses momentos, último que estaremos juntos. Eu queria que alguém de fora tirasse uma fotografia dessa cena, que captasse tudo o que eu estou vendo e sentindo. Queria que mostrasse bem a expressão de todos, mostrasse também as coxinhas com as velas — sinceramente quem pensou nisso é um gênio, quem mais colocaria uma vela em uma coxinha? — mostrasse os balões e, sem dúvida, o começo! O começo dos melhores momentos de nossas vidas.

Todos estavam ali, como se nada do que houve nos anos anteriores tivesse acontecido, estavam felizes e animados, por isso fiquei feliz, pois agora é que vamos mudar e realmente viver intensamente.

Lucas é o meu melhor amigo, desde sei lá, sempre eu acho, mas durante uns tempos ele esteve meio estranho, entrando em uns assuntos e saindo rapidamente, como se tivesse um segredo gigantesco que não pode contar nem para mim que sou sua melhor amiga. Mesmo tendo uma ideia do que ele está enrolando demais para contar eu ainda o amo muito, ele me deixa calma, ele é meu porto seguro de que tudo ficará bem, tudo fica melhor quando ele está por perto. Eu adoro admirar o quanto ele é bonito, os óculos com armações enormes, seus cabelos castanhos com uma franja enrolada na testa, seu sorriso, e seu jeito desajeitado de falar. Adoro lembrá-lo de sua beleza, porque mesmo sendo essa pessoa incrível, ele se cobra demais; é inseguro, pessimista, não acredita em seu potencial, e por trás de sua energia e empolgação, está um Lucas com uma autoestima baixa ― acho que isso tem relação com o que ele tem receio em me contar.

Pedro é o mais tranquilo, sério e compreensivo entre nós. Às vezes nós o zoamos dizendo que todo dia de manhã ele fuma alguns baseados para ficar tão relaxado e calmo o dia todo — eu não duvido muito disso já que toda festa que nós vamos ele arranja para todos nós. No começo, quando começamos a nos tornar amigos eu achava que ele era muito misterioso, que estava escondendo alguma coisa, mas depois descobri que ele era assim mesmo e que na verdade só era tímido. Mas depois que ele deu a primeira festa em sua casa, fez muitos amigos e melhorou muito com a sua timidez. Continuou a fazer muitas festas e mais amizades, e nós o apoiamos muito, mas só se ele prometesse que nós seríamos sempre os primeiros. Lucas que gosta de lembrá-lo sempre, já que se conhecem há anos, e foi ele quem o incentivou a fazer a primeira festa, pois conhece muitas pessoas e sabe muito bem organizar uma festa, ainda mais na casa enorme de Pedro.

Cada um tem algum problema para resolver, algo para superar. Acho que é por isso que somos todos amigos, somos iguais em algum ponto, eu sei que pode ser só mais um drama de adolescentes e que tudo isso vai passar com o tempo; mas todos temos inseguranças, medos, por isso temos esse grupo. É o que me faz bem, são eles que me fazem querer sorrir novamente, são eles que eu escolhi para dividir meus problemas e eles também me escolheram para dividir os seus. E olhando aquela cena deles cantando para mim, organizando tudo aquilo, me fez perceber o quanto eu necessito deles e o quanto sentirei falta quando partirem. São eles que me fazem querer acordar todo dia para admirar o céu de manhã, são eles que me ajudam a superar esses problemas da vida que enfrento todos os dias. Todos temos problemas e por isso devemos confiar em alguém para ajudar a superar e, no meu caso, são eles em quem eu confio, são eles que eu quero para minha vida inteira. Esse grupo de desajustados.

— Pronto, agora fecha os olhos e faz um pedido. — ordenou Pedro.

— Ok.

— Só não conta o que é porque aí o desejo não vai se realizar. — Lucas mencionou.

Fechei meus olhos, respirei fundo e desejei que esse ano fosse o melhor de todos e que ao fim dele nós ainda tivéssemos essa ligação tão especial, e assoprei.

Todos bateram palmas e gritaram um último parabéns.

— Obrigada, obrigada, gente, mas agora todos devem concordar que estamos ansiosos para saber o que nos aguarda com essa ideia do senhor Pedro.

— É verdade, fala logo. — assentiu Lucas.

— Então, estava eu com minha lista de material escolar conferindo o que eu comprei e o que precisava comprar e escutando a música It’s my life do Bon Jovi. Então… quando chega na parte em que ele diz “it's my life, it's now or never, I ain't gonna live forever”.

— Que quer dizer? — disse Alice.

— Quer dizer que é agora ou nunca, e que ele não vai viver para sempre… enfim, o que importa é que depois que eu ouvi essa parte fiquei pensativo. — Pedro com uma das mãos coçando o queixo e olhando seriamente para todos. — Pensei em quanto tempo estamos nesse colégio e nada foi feito para deixar uma lembrança, em como nós estamos apagados desse colégio e em como a nossa adolescência está comum, sem nenhuma rebeldia, sem nenhuma mudança. Mesmo saindo em festas e aproveitando esse resto de vida escolar, nada está diferente do que já fizeram um dia. Então, foi aí que eu criei a listinha da redenção. É a lista de afazeres que irá nos redimir da nossa vida normal no ensino médio, e ela consiste em 10 coisas para realizarmos até o fim desse ano.

— Você é um gênio, Pedro, saiba disto — falei com um olhar espantado.

— Quem é você? E o que fez com o meu amigo tímido que conheço? — Lucas perguntou boquiaberto. — Essa é a melhor ideia que eu já ouvi!

— Eu sei disso, mas continuando… — Pedro disse tirando um pedaço de papel do bolso — Aqui estão os itens da lista.

— Deixe eu dar uma olhada. — estendendo a mão, Alice pegou o papel e colocou-o em cima da mesa para que todos enxergassem.

Lista da redenção

Pintar os cabelos de uma cor diferente;

Colocar um piercing em alguma parte do corpo;

Acampar (com direito a barraca, fogueira, Marshmallow’s e quem sabe um violão);

Dar uma festa fantasia;

Viajar em grupo;

Primeiramente perder a virgindade, depois transar muito;

Fazer uma tatuagem (todos farão o mesmo desenho e no mesmo lugar);

Beijar alguém do mesmo sexo;

Organizar um trote na escola;

E por fim, assistir uma aula chapado.

Notas finais
ENTÃO, GENTE O QUE ACHARAM??? Eu sei não tem onze coisas na lista, mas calma, vou colocar mais uma no decorrer da história ♥. Espero que tenham gostado de verdade, porque eu fiz de coração mesmo. Até algum dia quando eu postar o segundo capítulo.