A Lista da Redenção

2 Lucas — O monstro no armário


Notas iniciais
Eu demorei muito (desculpa), mas cá estou para continuar com essa história. Espero que gostem.

Eu nunca fiquei tão nervoso em toda minha vida. Ver aqueles itens da lista me deixaram um tanto quanto animado, mas um em especial me deixou totalmente nervoso. “Beijar alguém do mesmo sexo”.

Eu confesso que disfarcei de todos os jeitos para que ninguém percebesse que estava incomodado com a fato de beijar alguém do mesmo sexo. Eu tenho muitos problemas com isso, afinal passei minha vida inteira sendo alvo de piadas sobre ser gay e agora que estou diante de um possível passe de entrada pra vida dos “assumidos”, eu estou surtando.

Preciso contar para Pedro, Sofia e Alice.

Depois de uma pequena discussão com Alice por implicar com a lista, todos foram para as suas respectivas salas de aula. Eu fui acompanhado de Sofia que no caminho bolava mais ideias para o número onze da lista. Ela não estava satisfeita somente com dez itens na lista, ela sentia que faltava algo para realmente fechar o ciclo.

Nós não entendemos muito bem, mas ela nos convenceu de outro modo, dizendo que seria melhor, pois, um ano tem doze meses e, como as aulas começam em fevereiro e como nós perdemos o primeiro mês do ano, seria melhor deixar onze itens para que consigamos realizar um em cada mês. Até a formatura em 22 de dezembro.

E isso me deixa muito empolgado. Acho que quando eu estiver na formatura terei coragem o suficiente para contar para todo mundo o que sinto. Só na formatura.

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Somente quando bateu o sinal para irmos para casa percebi que estava distraído pensando com o que vou fazer com o “beijar alguém do mesmo sexo”? Por que eu complico as coisas? Isso deveria estar me animando!

Eu finalmente vou ficar com alguém e sentir algo!

Mas fico nervoso sem motivo, porque o nosso grupo apoia o movimento LGBT, inclusive, Sofia ano passado assumiu sua homossexualidade. Mas mesmo eles apoiando, aceitando, eu não consigo chegar e simplesmente contar.

Como Sofia me disse quando se assumiu: “Eu me sentia presa e errada por desejar a liberdade.”

É exatamente isso! Tudo que eu faço parece errado. Eu me sinto errado. E me sinto errado quando me pego pensando em libertar essa frustração. Uma das piores coisas que existe é você não estar contente com você mesmo, e o pior é quando você sabe que se contar para sua família eles também estarão inclusos na lista dos não contentes.

Sofia sempre enfatiza sua tristeza e com motivos, mas eu realmente admiro sua bravura de contar com todos para desabafar algo tão importante.

Eu a admiro pela sua coragem de enfrentar seus problemas e ainda cuidar de mim com tanto amor.

Assim como se preocupa com Alice (mesmo sendo meio grosseira às vezes, ela se preocupa de verdade). E como ela acolheu Pedro em nosso grupo quando estávamos no primeiro ano. E como lidou com seu drama com o pai e a mãe. E ainda por cima, se assumiu. Ela lida com os seus problemas bem melhor do que eu, bem melhor do que qualquer um.

Espero ter essa coragem e autoconfiança que Sofia tem. Espero mudar. Espero me aceitar.

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Depois da aula, na saída, como de costume, demos a volta no colégio até uma parte onde Sofia fica no ponto de ônibus e Alice chega até o carro do seu pai. Enquanto Pedro e eu seguimos a pé até às nossas casas, que ficam bem perto uma da outra.

— E aí? O que achou da lista Lucas? — perguntou Pedro.

— Eu… gostei da ideia. — não consegui disfarçar a desanimação.

— Hum… só isso? — interrogou Pedro.

— O que você quer que eu diga? Eu adorei, sei lá.

— Nossa, achei que você estava empolgado com a ideia. Quando eu contei sobre a lista você estava muito animado, e agora fala que só “gostou da ideia”. Esperava mais. — respondeu desapontado.

— Desculpa, é que eu só acho que não vou me sentir à vontade fazendo uma coisa da lista. Só isso.

— E o que é que você está tão preocupado em fazer?

Se eu falasse o que era ficaria na cara que tenho receio em comentar sobre beijar um garoto. Eu realmente sou um idiota! Se eu ficasse quieto não estaria agora mentindo para meu melhor amigo. Se bem que menti todo o tempo.

— Ah… esquece… eu vou tentar fazer tudo… na verdade, eu só estou desanimado porque a Alice começou a pirar enquanto todos concordavam em realizar tudo. Então, eu acho que não vai ser do jeito que você queria. — expliquei.

— Sim! Exatamente isso, eu fiquei tão empolgado quando criei essa lista e agora Alice vem e estraga tudo com a ideia. Enfim, aqui que me despeço. Tchau. — disse Pedro enquanto me depositava um abraço.

Aquele abraço com o cheiro do perfume de Pedro me deixou com as pernas bambas.

“Eu me sentia presa e errada quando desejava a liberdade”.

Essa frase repetiu em minha mente por vários segundos depois do abraço. Dei um sorriso amarelo e quando fui retribuir o tchau, ele disse:

— Depois, quando der, venha na minha casa para planejar as tarefas da lista. Ok?

— Ok. Tchau. — Com um sorriso falso, disse

Com passos apressados, saio o quanto antes da frente da casa de Pedro. Parece que tudo antes do abraço não aconteceu, parece que tudo ficou diferente, parece que não importa mais se eu sou…

NÃO!

Isso não pode acontecer! É só minha mente pregando peças. Estou confuso porque meu corpo tem desejos involuntários por homens, então, automaticamente ele se confundiu. Além da carga que é aceitar desejar homens, tenho que aceitar que desejo meu melhor amigo? Isso não vai acontecer. É só um desentendimento. Quando eu estava virando a esquina para seguir até a rua da minha casa, ouço uma voz atrás de mim. É Pedro correndo e gritando com um papel nas mãos.

— Eu esqueci de te entregar agora na saída. É a lista e o planejamento de todos os itens, é só um rascunho, mas é bom ir pensando desde já. — Pedro explica entregando-me a lista.

— Mas nós não íamos planejar na sua casa, como você disse?

— Ah, é verdade! É que eu tinha esquecido que tinha feito tudo nas primeiras aulas. Enfim, então venha só pra passar um tempo comigo, para conversar, sei lá. Você não me falou ainda porque tem receio em fazer as coisas da lista.

— Ah, esquece isso ― ri nervosamente. ― Eu vou fazer tudo.

— Uhum. Mas vai me contar mesmo assim porque tinha receio, então.

— Esquece…

— Agora eu vou — Pedro interrompe. — Porque eu tô morrendo de fome. Tchau. De novo. — Se despede com um sorriso de canto de boca.

Novamente me sinto preso e errado por desejar a liberdade. Fecho meus olhos, seguro forte a lista e sigo para minha casa.

Abro meus olhos e sorrio olhando aquela lista. Realmente é a lista da redenção. Para cada um se redimir, de seus medos, suas inseguranças.

O meu é beijar alguém do mesmo sexo.

Mas como Pedro sabia que esse seria o meu? Ele criou a lista. Ele criou esse item. Será que era para mim mesmo?

Afinal, Pedro criou esse item, mas se ele é hétero porque criaria um item assim para que todos realizassem, inclusive ele?

Quando cheguei em casa logo deitei na cama abraçando aquele pedaço de papel com todos aqueles objetivos e significados.

Sorri ironicamente, porque tinha uma possibilidade de Pedro ser como eu. Tinha uma possibilidade dele está passando pela mesma coisa que eu estou. Vergonha; medo; sentir-se errado; sentir-se preso.

Eu não quero isso para meu amigo. Não quero para ninguém, na verdade.

Queria que ele me contasse para que eu pudesse ajudar, mas como vou fazer isso se não posso nem me ajudar?

Até que entendi. Se ele fez essa lista, se ele criou esse item, é a porta para ele se abrir com a gente. Se for isso, então quer dizer que ele já passou pela fase de aceitação. Sorri, pois sabia que se fosse verdade ele estaria feliz.

Senti-me livre e não me importei, afinal, se desejava a liberdade.

Notas finais
De novo peço desculpas pela demora. Então, espero que tenham gostado. Até algum dia com o próximo capítulo.