A Linha Tênue Entre Nós

10 Capítulo 9 – Queimando Lento Demais


A chuva finalmente cessara em Ravenbrook, mas o ar continuava pesado, como se a cidade inteira aguardasse o próximo golpe. Na sala improvisada da delegacia, pastas, fotos e mapas cobriam a mesa em uma bagunça organizada.

Mas ninguém olhava para o caso.

Eles olhavam para Emily e Reid.

Não havia gritos, nem confrontos diretos — apenas um silêncio espesso, cheio de verdades mal contidas. A tensão entre os dois era intensa demais para passar despercebida até pelos menos atentos.

Rossi foi o primeiro a quebrar o silêncio, com a calma de quem já vira inúmeros desastres sentimentais e profissionais se misturando.

— Vocês dois querem nos contar alguma coisa? — perguntou, cruzando os braços, embora o brilho nos olhos revelasse que a pergunta era apenas retórica.

JJ bufou, sem esconder o “eu avisei”.

— Eu falei, Hotch. Eu falei que tinha algo acontecendo — murmurou, quase rindo de nervosa.

Hotch permaneceu quieto. Observador. Seus olhos analisavam como bisturis: cortavam, avaliavam, revelavam. Naquele instante, ele não via apenas dois agentes. Via um risco real ao caso.

Emily respirou fundo. Reid engoliu seco.

Então alguém bateu à porta.

Um policial entrou rápido, sem notar o clima estranho.

— Isso chegou para vocês. Foi deixado na frente da delegacia.

Hotch tomou o envelope antes de qualquer um se mover. Preto. Sem remetente. Sem destinatário. Cheirando levemente a fumaça — como se tivesse sido deixado perto de uma chama.

Abriu com cuidado.

Um bilhete. Curto. Escrito em tinta vermelha, caligrafia elegante e perturbadora:

"Ele já fez você queimar por dentro.

Agora é a minha vez.

Estou mais perto do que imagina, Spencer."

A sala inteira congelou.

Reid ficou imóvel.

Emily sentiu o estômago despencar.

JJ levou a mão à boca.

Rossi soltou um som grave, quase um aviso.

— Então é isso — disse Hotch, com a voz firme. — Ele sabe. Sabe sobre vocês. E está usando isso.

Emily sentiu o sangue esfria.

Reid ficou pálido.

— Não… ele não pode… — murmurou.

Mas podia.

E tinha conseguido o que queria: entrar na mente dos dois.

Mais tarde, enquanto a equipe revisava o bilhete e tentava retomar o foco, outra revelação emergiu. Mais silenciosa. Mais perigosa.

Emily e Reid analisavam fotos dos símbolos, tentando manter distância — tanto física quanto emocional. Mas havia um detalhe que ninguém vira.

Rossi notou primeiro.

— Isso aqui não faz parte do padrão — disse, apontando para um traço no canto inferior do círculo ritual do terceiro crime.

Reid se inclinou.

Emily ajoelhou ao lado dele.

E, ao mesmo tempo, disseram:

— É um “E”.

— É um “S”.

Silêncio absoluto.

JJ arregalou os olhos.

— Meu Deus… são iniciais.

Rossi resmungou, tenso:

— O filho da mãe está assinando para vocês…

Reid falou com a voz trêmula:

— Ele coloca isso desde o segundo ritual. Ele já estava nos observando antes de… qualquer coisa acontecer.

Hotch se aproximou, implacável:

— Ele não está apenas provocando. Está cercando vocês. Quer atrair vocês. Juntos.

Emily olhou para Reid.

Reid olhou para Emily.

E qualquer tentativa de negar evaporou ali.

A verdade estava gravada nas paredes dos crimes.

Nos bilhetes.

Nos olhos do assassino que os enxergava como um só.

JJ respirou fundo.

— A gente suspeitava… — disse, com um sorriso triste. — Só não imaginamos que fosse tão forte.

Rossi completou:

— Ou tão perigoso.

Hotch concluiu:

— A partir de agora, vocês dois ficam juntos. Ele está mirando nos dois. Separá-los seria o que ele quer.

Emily abriu a boca para protestar.

Reid tentou argumentar.

Mas JJ os interrompeu suavemente:

— É tarde demais para esconder. Somos uma equipe. Agora lidamos com isso juntos.

Horas depois, a cidade dormia sob escuridão espessa. Emily e Reid estavam sozinhos no quarto dela.

Para segurança.

Pelo menos era o que deveriam acreditar.

O bilhete estava sobre a mesa, o nome de Reid em tinta vermelha quase pulsando no escuro.

Emily tocou o papel.

Reid tocou a mão dela.

E a chama voltou — lenta, profunda, inevitável.

— Ele quer brincar com a gente — disse Emily, a voz rouca. — Quer arrancar tudo que temos de mais íntimo.

Reid se aproximou. Perigoso. Calmo demais para estar calmo.

— Ele só consegue se a gente deixar — sussurrou, roçando o rosto no dela. — E eu não vou.

O beijo veio como brasa contra pele — lento, profundo, torturante.

Queimando lento demais.

As mãos tremiam.

Os corpos se buscavam sem pensar.

O mundo sumiu.

Por um instante, não existiam símbolos, nem riscos, nem o assassino que os observava das sombras.

Só eles.

Dois corpos que tentavam se conter há tempo demais.

Duas almas queimando em ritmo perigoso.

Dois agentes destinados a ruína — e um ao outro.

Quando se separaram, com os lábios trêmulos e os olhos brilhando na penumbra, Emily murmurou:

— Isso vai nos destruir…

Reid encostou a testa na dela.

— Eu sei.

Mas já não consigo te deixar ir.

Ele tentou se afastar. Tentou lembrar que estavam em campo. Que a equipe estava a poucos metros. Que Hotch percebia tudo. Que JJ suspeitava. Que Rossi sabia.

Tentou.

E falhou.

Emily tocou seu peito, como se pedisse desculpas por não soltá-lo. O toque bastou para quebrar a última gota de racionalidade.

— Eles vão perceber — sussurrou ela.

Reid soltou um riso baixo.

— Emily… eles já perceberam.

Ela fechou os olhos. Exausta de lutar contra algo que só aumentava.

Reid segurou o rosto dela com cuidado, como se segurasse fogo.

— Eu tentei — confessou, quase um sussurro. — Juro que tentei me afastar. Mas parece que você puxa o ar do meu corpo. Não dá pra ficar longe.

Emily abriu os olhos, crua, vulnerável — um lado dela que ninguém mais via.

— Eu também tento. E falho. Sempre.

Passos soaram no corredor. Os dois prenderam a respiração.

Reid recuou um passo, mas o corpo protestou.

— Tenho que ir — murmurou, rouco.

— Sim… — Emily ajeitou a camisa, tentando recuperar o controle perdido.

Ele tocou a maçaneta.

Parou.

Olhou para ela uma última vez.

— Isso não acaba aqui.

E quando Emily encontrou o olhar dele, soube que era verdade.

Não estava acabando.

Estava começando.