Notas iniciais
Esta será a primeira parte de um conto, espero que gostem!
Desde já, boa leitura!

Há muito, muito tempo atrás, habitava sobre a Terra, criaturas magníficas, dotadas de grande poder e sabedoria, os Espíritos Bestiais, mais tarde também chamados de Guardiões pelos povos das florestas.

Eles eram responsáveis pela proteção de grandes áreas, agindo como o ponto de equilíbrio entre as plantas, animais e humanos. Cada guardião habitava um monte, tornando este uma zona encantada, e apenas os julgados dignos poderiam visitar a nascente encontrada no cume destes montes; o coração, corpo e alma dos guardiões.

Ao longo dos tempos, a cada geração, os espíritos escolhiam uma criança entre os humanos para se tornar o Umalá, aquele que é tocado pelos Deuses Bestiais, tornando-se a ponte entre o reino dos espíritos e dos homens e o principal responsável pela proteção do santuário de sua respectiva entidade.

Cada Umalá possuía conexão singular com um ser bestial, que se mostrava presente na vida de cada escolhido desde a sua infância. Havia também aqueles que estavam ligados exclusivamente à uma planta, os Umauê, igualmente importantes para seu povo.

Mas tudo isso mudou com o passar das eras. As florestas foram sendo invadidas por povos estrangeiros, devastando grandes áreas, gigantescos impérios de pedra e concreto se ergueram, as águas não seguiam mais seu curso natural e poluentes químicos passaram a envenenar a vida aquática como nunca antes.

Os guardiões, gradualmente, foram perdendo seu poder, espaço e história, chegando aos tempos em que apenas suas lendas são contadas, sem nenhum rastro da grandeza que foram um dia. Contudo, ainda não perderam sua chama espiritual e, do alto, cada entidade aguarda pacientemente o nascimento do humano capaz de se tornar o novo Umalá ou Umauê.

***

— ... E lá estava eu, no alto daquele monte, sozinho com meus cachorros enquanto as onças caminhavam em volta, lambendo os dentes e desejando pular na minha garganta. É... rapaz, as matas a noite são perigosas... – comentava o senhor Rosa, um homem de cabelos grisalhos perdidos entre os muitos fios negros em sua cabeça. Sentado numa cadeira de madeira e revestida em couro bovino, ele contava para seu neto uma de suas muitas aventuras enquanto era jovem.

A baixa luminosidade na calçada da residência rural durante as noites gerava o clima ideal para a contação de histórias e lendas de terror.

— Vovô, e como o senhor saiu de lá? – O menino parecia encantado e curioso, inclinando-se para frente com as mãos sob o queixo.

— Lá em cima, no alto do monte, há uma terra encantada, os espíritos de lá não deixam você entrar, e se entrar, você tem que rezar muito para aguentar a noite todinha. Durante o dia eles dormem, e dessa forma os caçadores e visitantes conseguem entrar e sair. Foi assim que eu consegui... coloquei os quatro cachorros perto, um de cada lado, o Barão ficava atrás, porque ele é o mais valente, as onças não iam pular por cima dele. – continuou.

— Eu posso ir caçar com o senhor também? Eu levo o Barão comigo, porque sou pequeno ainda. – Riu.

— Não, você não chegue nem perto dele, este cachorro só atende a uma pessoa, ele só atende às minhas ordens, qualquer outra pessoa que se aproxime dele, ele ataca.

Aproximando-se da porta, a avó do garoto o chamou para ir se deitar, já estava ficando tarde e ela não o queria se assombrando com essas histórias que seu avô inventava.

O garoto retrucou, mas aceitou a ordem e foi para seu quarto. Naquela noite algo chegaria à sua janela e o observaria atentamente com seus olhos vermelhos. Ele não sabia ainda, mas seu momento logo chegaria. Um novo Umalá finalmente havia nascido, e o espírito do Guará Negro já sabia onde estava seu alvo.

No dia seguinte, como de costume, o jovem Igor brincava nas proximidades de sua residência. As plantas e pequenos montes de terra eram o cenário perfeito para as aventuras que o garoto criava e vivia com seus brinquedos. Sua própria versão do imenso monte Fonseca avistado dali. Apenas um riacho e uma estreita faixa de árvores separava seu início do quintal onde ele estava.

Sem que percebessem, o Barão havia se soltado de sua corrente na noite anterior e, sorrateiramente, ele se aproximou do garoto. Por alguns segundos ele congelou, se recordando das falas de seu avô e temendo o ataque do grande animal de pelagem escura parado a sua frente.

O animal então deu mais alguns passos, cheirou o corpo franzino de Igor, parando próximo ao seu pescoço, onde ele lambeu em sequência e terminou a volta deitando-se ao lado com a barriga para cima como um dócil bichinho de estimação.

Sua avó, ao ver a cena, ficou incrédula. Ela nunca viu um cão de caça como aquele ser tão dócil com outra pessoa que não fosse seu dono, sobretudo o Barão. Nem mesmo ela se aproximava dele.

Após ter a barriga e a cabeça acariciada, o cachorro se ergueu, olhou para o monte atrás do garoto e uivou naquela direção, fazendo-o olhar para lá e, por um breve momento, ter a impressão de ver um rosto de guará esculpido em uma das grandes rochas do monte. Embora esse comportamento seja característico dos lobos, outros caninos também podiam agir de maneira semelhante.

Durante a noite uma forte chuva atingiu o local. Enquanto isso, no mundo dos sonhos, o garoto voava alto, próximo ao monte, onde uma luz azul o guiava. Entretanto, o belo céu estrelado deixou o palco, escondendo-se atrás das densas cortinas tempestuosas, de onde um raio desceu em queda livre, atingindo com grande força a rocha de outrora, fazendo-a desprender-se do chão e escorregar em direção ao riacho. A luz a sua frente rapidamente foi se esvaecendo, assim como sua habilidade de voo, fazendo-o cair e acordando assustado.

Os avós de Igor foram acordados no mesmo instante, mas com um barulho ensurdecedor vindo do monte. Estava muito escuro e não era possível ver nada. Neste momento, surgindo silenciosamente entre o contorno da porta desenhado pelas chamas alaranjadas de uma vela acesa sobre as mãos, o garoto balbuciou em voz baixa que a pedra do guará fora partida e desceu pela serra.

A avó não acreditou de fato, tentando entender do que ele estava falando, mas Rosa ficou o encarando, como se suspeitasse de algo. O garoto parecia muito certo de suas palavras. Se o que ele dizia fosse verdade, não era um bom sinal.

No dia seguinte, para a surpresa de todos, a enorme rocha localizada próxima ao cume havia mesmo deslizado, deixando um imenso rastro de destruição. Parados no quintal, o garoto novamente fora questionado sobre como sabia daquilo.

— Eu não sei, vovó, só disse o que a luz me mostrou. O Barão também falou comigo em um sonho outro dia, disse que os animais estão tristes e com medo... que era mal agouro... algo muito ruim vai acontecer.

Notas finais
Se curtiram, marquem como favorito, deixem um comentário com o que gostou, o que podia melhorar, enfim, é importante para mim, como autor, ter esse feedback.