Notas iniciais
Esta será a segunda parte de um conto, espero que gostem! Desde já, boa leitura!

Algumas semanas se passaram desde o deslizamento da pedra do guará, como Igor a chamava e, por tradição, sua família e outras pessoas da vila, uma vez ao ano, trilhavam o caminho sinuoso e íngreme pela selva de vegetação densa naquele período de inverno e seguiam até o santuário no cume do monte Fonseca com o objetivo de agradecer pelas boas chuvas, agradecer por graças alcançadas e orar para que seu guardião protegesse a vila por mais um ciclo.

Era cedinho quando eles deixaram a residência e adentraram a selva. Alguns pássaros já cantarolavam no alto das árvores, anunciando mais um belo alvorecer dourado.

À medida que o Sol despertava há alguns quilômetros de distância do local, surgindo atrás do monte Alto do Bem-te-vi, seu brilho pouco a pouco iluminava os botões a desabrocharem pelo campo inclinado por onde Igor passava, logo após o riacho. Ao chegar na outra extremidade e logo antes de adentrar a selva mais primitiva, ele apreciou a vista.

Já estavam há centenas de metros de altitude e um imenso horizonte começava a se formar diante de seus olhos. Ele estava deslumbrado e, por um instante, sentiu-se mais conectado à natureza do que nunca. Ele podia ouvir cada canto de pássaro e distingui-los, o som de insetos voando não o causava incômodo e o balançar das copas das árvores guiava sua visão mesmo de olhos fechados, até que sentiu uma sutil brisa de ar fria vibrar seus cabelos e tocar seu corpo, ouvindo uma voz o chamar logo em seguida.

Ao longo do caminho diversas pausas foram feitas. Era cansativo, principalmente para ele, em sua primeira visita ao santuário. Embora exausto, tudo em volta o causava admiração, animais que ele nunca viu os observava do alto das árvores e os seguiam por alguns metros em busca de comida, como alguns espécimes de macacos.

A vegetação também sofria uma leve alteração, esbanjando toda a grandeza de um ambiente pouco tocado pelo homem, uma mata virgem. Além disso, a voz de outrora ainda o seguia e ficava cada vez mais forte e próxima.

Algumas horas de caminhada foram o suficiente para que chegassem à fabulosa árvore centenária do Fonseca. Seu avô não sabia sua idade ao certo, mas ele repassava, com animação, as histórias e lendas que seus avós contavam e que os avós de seus avós deles já ouviram de outras pessoas. Todos viveram grandes aventuras, e aquela árvore presenciou cada uma delas lá do alto, com toda sua grandeza e alegoria por centenas de anos.

Com dezenas de metros de altura, uma copa que se sobrepujava às outras e um imenso tronco, a área a sua volta era escura como a noite, mas emanava tanta vida que parecia restaurar todas as energias dos visitantes, uma singularidade repleta de universos.

O caminho a partir dali seguia uma curva, passando exatamente ao lado do tronco. O trecho a seguir era baixo, quase como um túnel natural, criado por um imenso galho da árvore que havia caído muitos anos atrás e que hoje estava coberto por trepadeiras e outras vegetações rasteiras. Não era possível ver o outro lado, somente sua entrada emoldurada em flores.

Igor era o último da fila naquele momento. Sem que percebesse, seus avós e os outros seguiram caminho enquanto ele permaneceu parado deslizando as mãos sobre a madeira. A voz então falou próximo de ouvido “Vem! Vem!”.

O garoto assustou-se e correu para o túnel, tropeçando, ao levantar a cabeça, o caminho a sua frente havia se fechado e, ao virar-se, ele avistou um enorme guará de olhos vermelhos e pelagem preta se aproximar. Pouco a pouco pequenas gotas de água começaram a cair sobre sua face e ele percebeu a forte chuva lá fora. A cada passo do animal, mais forte seu coração batia. Ele estava preso e sozinho. Até que fechou os olhos e agarrou o colar com a pedra da Lua em seu pescoço, orando por socorro. Para sua surpresa, o animal apenas tocou sua cabeça na do jovem, conectando-os.

No instante seguinte, inúmeras cenas de destruição, pessoas desmatando, animais sumindo um a um entre armadilhas de fumaça cintilante disparadas pelas mãos de homens brotaram em sua mente, ele então avistou a pedra rolando, se recordando de meses atrás, e por último teve o vislumbre de um grande incêndio destruindo todo o monte.

“Nos ajude!” Disse a voz seguidas vezes, desaparecendo até que ele acordasse. O garoto havia escorregado e batido a cabeça próximo da grande árvore, desmaiando, mas fora encontrado por seu avô.

Não tardou até chegarem ao topo, as memórias ainda estavam frescas na mente de Igor e aquilo parecia muito real para ser ignorado, porém, o clima e a energia sentida no santuário eram revigorantes, embora pesadas naquele dia.

O local estava bastante frio e coberto por uma densa névoa. Ele estava diferente e não parecia mais o ambiente iluminado que seus avós conheciam. Os animais estavam calados, embora houvesse vários pássaros lá, mais que o normal. Os macacos também se aglomeravam em grandes grupos, todos próximos, buscando aconchego, e alguns pequenos répteis e outros mamíferos noturnos estavam se mostrando a luz do dia com maior frequência.

— Tem alguma coisa errada aqui, não é normal, nunca vi este lugar assim... – Disse o senhor com espanto, olhando em volta.

O garoto, agindo como outrora, aproximou-se da nascente próxima à rocha do altar e então comunicou o que ele havia visto.

— O guardião falou comigo em meus sonhos e próximo da grande árvore, ele me mostrou todo o mal que estão fazendo a esta terra, ao seu lar... as pessoas não mais acreditam nele, outras não oram mais para ele como antes e assim, sua força está se esvaindo lentamente. O guardião me mostrou algo e acho que está prestes a acontecer, eu vi a cena da pedra e eu estava certo no final... vai haver um grande incêndio muito em breve e ele precisa de nossa ajuda. – Um rosto canino podia ser visto na superfície espelhada da água.

Sua avó, também notando o brilho dourado em seus olhos, se aproximou preocupada.

— Meu filho, seus olhos... se o guardião falou com você, isso quer dizer que... ele falou como evitar o incêndio? Ele... – Fora interrompida por seu esposo, que olhava fixamente para a água.

— Não há como evitar! Ele está fraco e... Não temos um Umalá há décadas ou séculos... – Balbuciou o homem cabisbaixo, escondendo o rosto.

— Então como vamos ajudar todos eles, vovô? – Indagou o menino, já com feições normais, sem o brilho dourado e apontado para os animais em volta. O silêncio fora sua única resposta.

Notas finais
Se curtiram, marquem como favorito, deixem um comentário com o que gostou, o que podia melhorar, enfim, é importante para mim, como autor, ter esse feedback.