Estava parado, embasbacado. Fazia muito tempo que não via um desses animais mitológicos, relativamente comuns em sua terra. Junto com o grande dragão negro, estava um rapaz, pudera perceber que era um humano como ele, mas era... diferente. Trajava roupas nobres, certamente feitas para alguém da corte do Rei. Possuía um colar interessante no pescoço, algumas bagagens consigo e... aquele dragão. Era isso que o sábio treinador conseguia ver. E o que aquele rapazote percebia? Bem, ele via um humano de pele e cabelos alvos, rugas em suas mãos e rosto que entregavam a idade do senhor e roupas típicas de um mago. Parecia mais com um ancião do que com um hábil mestre, que mesmo há anos fora da ativa, ainda possuía a mesma destreza e poder de dominação sobre os animais místicos que causavam tanto respeito e admiração nas outras criaturas.

–Olá, jovem. Belo dragão, este seu. O nome dele é... -franziu o cenho enquanto parecia comunicar-se com o animal — Spindle, suponho. Combina com ele, realmente. E ele parece gostar bastante de você.

Alan ficou um tanto... perplexo. O homem os conhecia há apenas 5 minutos e já pudera saber tanto assim? Pensou a respeito do tamanho poder que este homem dominaria. Alguém que Alan certamente precisaria muito.

–Você quer que eu cuide de seu dragão, certo? Bem, isso custará alguns sacos de cobre, mas posso ver o que faço por você.

–Obrigado. — disse, ainda impressionado, com uma expressão que entregava perfeitamente o que estivera pensando nos últimos segundos — Estou em uma jornada... inesperada, e acho que nós dois precisamos descansar, não é mesmo?

Spindle olhou para seu mestre e assentiu, com o olhar. Pouco a pouco, os dois tornavam-se cada vez mais íntimos, mais próximos. Era uma intimidade quase necessária, mas que crescia de forma natural. Alan não tratava Spindle como um dragão, mas sim como um amigo, de forma que os dois tinham uma relação muito superior à mestre/dragão. Spindle sabia o que o humano pensava, sentia e desejava, assim como Alan sabia o que seu companheiro necessitava. Tornavam-se verdadeiros amigos, laços mais fortes que qualquer outro que o garoto tivera com alguma pessoa.

Alan deixou Spindle em segurança com o mestre, que chamava-se Varanir. Era um homem bastante respeitado na cidade, e soube mais cedo, de um anão até então desconhecido na taberna, que Varanir era cercado de mistérios. Chegara na cidade em um dia qualquer e construíra uma estalagem, sem dar motivos ou satisfações para alguém. A cidadela aceitara sem questionar, pois muitos aventureiros passavam por ali, bem como guerreiros do Rei Lanty, e necessitavam de um pouso para seus companheiros voadores. Assim, Varanir trazia alguns sacos de ouro para a cidade e aumentava a segurança, afinal, não existiam muitos intrusos, mesmo que fossem ladinos, que se arriscariam a atacar uma vila que abrigava dragões. O pouco que se sabia sobre eles, era suficiente para entender que a fúria de um cairia sobre todas as criaturas que os rodeassem, sejam orcs, trolls, humanos, gnomos, anões ou qualquer outra raça que por azar ali pudesse estar.

~

Antes de voltar à taberna, resolveu dar uma olhada nas cidades, conversar com algumas pessoas e descobrir mais sobre o lugar que estava, afinal, nem mesmo o nome da vila, Alan sabia. Avistou um anão, em frente à uma pequena loja de armas, e foi em direção à ele. Não parecia ser hostil; até parecia simpático. Carregava consigo um jarro de hidromel (tão costumeiro para um anão...) e tinha uma longa barba ruiva, tal qual seus cabelos. Antes que pudesse dizer alguma coisa, ouviu:

–Mas, e aí? Queres um gole do meu hidromel?

–Oh, não. Eu sou novo aqui, não conheço a cidade. Gostaria de algumas informações.

–Entendi, guri. Tu estás em Deephallow. Olha, se tu quiseres, eu tenho um mapa aqui, pode te ajudar bastante.

–Isso seria bastante útil, se não fosse te incomodar.

–Meu nome é Davamros. Acho que tu precisas é de um pouco mais de convívio com uns anões e de umas boas cervejas! Sabes, ouvi dizer que um tal guri tava fazendo uma viagem pelo Rei, pruns lados distantes. Se for tu mesmo... Vai precisar de bem mais do que um mapa.

–É... fui pego de surpresa, mas é por um bem maior. E meu nome é Alan.

–É uma guria, hein? Um nobre guerreiro indo em uma aventura pra salvar uma linda princesa. Bah, guri, eu fui com a tua cara, vem comigo que tenho um conhecido que vai te ajudar.

Davamros andou em direção à loja de armas, e chamou por umtal de Allushat. Logo depois, um elfo, de cabelo loiro e trajes diferentes da armadura pesada de Davamros desceu as escadas do estabelecimento. Trazia consigo um cajado e abriu um sorriso para o visitante. Parecia ser algum tipo de mago, que incitou interesse súbito da parte do humano.

–Bem, o que temos aqui! Um visitante, e certamente precisa de mim.

–É, eu...

–O guri precisa de ti. Tá indo lá pros lados das Montanhas e acho que não sabe nem pegar numa espada. — Interrompeu o ruivo, Davamros — Será que dá pra ti dar um jeito nele? Arranja uma arma aí pra ele e quem sabe até ensina algumas coisas sobre como é ser mago.

–Oh, certamente. Faz tempo que não ensino um mago, é verdade, já que o Rei anda querendo mais ladinos e guerreiros do que estudantes da pura magia, mas bem, não devemos questionar as ordens de Lanty, Coração de Leão.

–Bem, o guri fica contigo. Boa sorte aí, rapaz. Se precisar de mim, to lá na taberna, mas só se tu me pagar uma cerveja! — disse Davamros enquanto saía da pequena loja.

Alan assentiu com a cabeça, com um largo sorriso no rosto — simpatizou bastante com esse anão — e virou-se para Allusha.

–Jovem, conte-me mais sobre você. Queres mesmo minha ajuda, e para que? Não posso te ensinar sem te conhecer e muito menos passar conhecimentos preciosos sobre a magia para mãos erradas.

–Meu nome é Alan. Eu estou em uma jornada em nome do Rei, preciso recuperar uma pedra, a pedra Raerual, pertencente à Princesa Devin. — deu um pequeno sorriso com o canto da boca, era impossível não fazê-lo lembrando-se de sua amada — Esta pedra é o elixir de vida dela, e sem ela, Devin ficará cada vez mais fraca. Além do mais, se..

–Então é sério! Você tem minha ajuda, Alan. Conte comigo. Mas está escuro, então creio que seria melhor você voltar aos seus aposentos e descansar. Leia isto esta noite — disse Allusha, enquanto conjurava um pergaminho — e amanhã certamente estará pronto. Lhe ensinarei tudo que posso no menor espaço de tempo. E assim, tornarás-te um grande mago, o suficiente para derrotar todo e qualquer perigo que possa encontrar além das Montanhas.

Alan pegou o pergaminho e agradeceu ao mago. Deu-lhe adeus e enfim, voltou para a taberna. Fez uma longa refeição — afinal, o dia fora cansativo demais para ele, e estava completamente faminto — e recolheu-se em seu quarto. Debruçou-se sobre a grande janela e observou a lua, tão cálida e bonita naquela noite. O vento soprava agradável como uma carícia; deitou-se em sua cama e adormeceu. Um grande dia lhe aguardava, e sua amada princesa estava esperando o fim da tempestade que os atingia. Esperava o dia que poderia abraçar novamente seu corajoso guerreiro.