A Lenda De Devin
9 A Aprendizagem
Alan acordou de sobressalto, ainda com as imagens nítidas em sua mente. Aquele sonho... fora tão real... Ainda podia sentir os lábios de Devin tocando os seus, o coração acelerado, o vento tocando de leve os longos e belos cabelos da princesa élfica. Esfregou os olhos, afinal, já deveria ser tarde e ele precisava ir ver seu novo mestre. Estava terminando seu treinamento, tornando-se cada vez mais habilidoso em seu uso da magia, e podia observar que os dias estavam ficando cada vez mais escuros, conseguia sentir que as coisas mudavam por ali. Ele ainda não sabia, mas não era o único que notava essas mudanças lentas, e também desconhecia o fato de que o perigo aproximava-se lentamente de todo o Reino de Lanty.
Spindle avançava em seu treinamento com Varanir, aprimorando suas habilidades elétricas e tornando-se um dragão mais poderoso, consequentemente. Os dois estavam ali no pequeno vilarejo há alguns dias, talvez uma semana, supunha Alan. O tempo passava de forma silenciosa, sem deixar-se notar por completa, mas mesmo assim, passava, e a hora do confronto aproximava-se sorrateira.
Após o seu café da manhã, Alan fora visitar seu companheiro. Conversou um tanto com Varanir, e sem demorar, dirigiu-se à casa de Allushat. Bateu na porta de madeira, mas não houve resposta. Notou então que estava entreaberta e pensou em entrar para esperar seu mestre ali mesmo, mas ouviu o chamado do mago, de um local distante.
–Alan! Venha, hoje preciso lhe mostrar uma coisa. — pronunciou Allushat, a alguns metros do humano. — Será o fim de seu treinamento.
O garoto andou em direção ao elfo e, mesmo com a mente completa de dúvidas, permaneceu em silêncio. Allushat entregou a Alan um pergaminho e deu-lhe um cajado. Era bastante bonito; um cajado negro, com detalhes que formavam um dragão boquiaberto. A boca do dragão aberta situava-se no topo do cajado, e seu rabo pontudo era a sola, que tocava o chão. Certamente era um artefato raro e especial.
–Bem, garoto, isto é para você. Tem sido um ótimo aprendiz durante esses poucos dias, e você aprendeu de forma magnífica algumas lições que outros demoraram meses. Se o futuro de Aithnushar, o reino élfico, ou da princesa Devin está em suas mãos, ele está bem protegido.
Allushat pediu que o jovem o seguisse, e após alguns poucos minutos, chegaram em um estábulo, um tanto afastado do centro de Deephallow.
–Aonde iremos, mestre? — finalmente perguntou Alan, bastante confuso.
–Hoje faremos um treinamento prático. Quero ver suas habilidades postas à prova em batalha. Agora, monte em um cavalo e vamos.
Em pouco tempo os dois já situavam-se longe dos limites de Deephallow. Adentravam a temida Floresta Blackshadow. Allushat cavalgava rápido, sabia perfeitamente a direção em que estava indo e Alan, um tanto desajeitado logo atrás, seguia o mestre animado, mas temeroso também. Não sabia o que lhe aguardava, mas logo saberia. Apenas alguns minutos perdido em pensamentos, e pôde ver o elfo diminuindo o trote, até parar na beira de uma cachoeira, a nascente do rio que abastecia a vila e desembocava próximo às Montanhas Icestorm. Era um lugar lindo, com flores em todos os lugares, a água cristalina que refletia os tímidos raios solares que chegavam até o solo por entre as árvores e o som de pássaros entoando belas cantigas. Na verdade, Alan poderia jurar que ouvira canções, mas acreditou ser sua imaginação.
–É aqui, Alan. Este é o local mais próximo da magia em todo o nosso mundo. Você consegue ver estes pequenos brilhos no ar?
–Oh, sim, eu posso ver... são lindos.
–São fadas, protetoras da natureza, seres de luz e magia. Consegue ouvir este som? São elfos noturnos, certamente reunidos em algum lugar desta floresta, com suas flautas e suas belas canções sobre o amor. Agora, deixe-me lhe explicar o porquê de nossa vinda até aqui.
Após dito isso, Allushat sentou-se na grama fofa e fez um sinal para que Alan fizesse o mesmo. Falou brevemente sobre a importância da natureza, e sobre as especificações da magia. A Luz escolhia cada mago para que designasse uma função. Alguns deles tornavam-se piromantes, senhores do fogo, que podiam queimar seus inimigos e invocar a fúria das chamas para recair sobre eles. Outros dominavam a Luz para curar seus aliados, fundindo sua alma com a magia. Haviam também os senhores de gelo, que congelavam e criavam tormentas de neve para derrotar quem interferisse sua jornada. E também existiam os magos sagrados, considerados os mais "puros". Dominavam a magia de forma superior, chamada magia arcana, criando ondas explosivas de magia em uma quantidade letal para qualquer criatura. Mas Allushat não havia dito tudo à seu aprendiz, e Alan perguntou-lhe sobre os necromantes. Os necromantes não eram magos da Luz; eram senhores dos mortos, que desestruturavam o ciclo da vida, trazendo para a vida quem não deveria mais fazer parte dela. Eram magos corrompidos muito poderosos, usados contra os povos que protegiam a natureza e a vida e que criavam portais para comunicação entre mundos.
Alan e Allushat conversaram durante longas horas, e após o mago conjurar alguns biscoitos de mana para que se alimentassem e jarros de seiva, o mestre contou ao garoto que Hélix era um necromante. Havia sido um conhecido e respeitado mago, que fora escolhido pela Luz para designar a cura e as magias arcanas, coisa que era incomum — normalmente a Luz designava apenas uma especialização para cada aprendiz. Alan percebeu que Hélix poderia ser a solução para ele; ele poderia criar um portal de volta ao garoto, que enfim voltaria à sua casa. Essa possibilidade fez-lhe dedicar-se mais à sua última tarefa como aprendiz, que fora complicadíssima.
Depois da longa conversa, Allushat levantou-se e pediu que Alan fizesse o mesmo. Era hora de descobrir se o garoto estava pronto para receber a Luz — e também para saber se a Luz estava pronta para acolhê-lo. O mestre pediu ao humano que segurasse seu cajado e começou a proferir algumas palavras ininteligíveis aos ouvidos de Alan. Era um tipo antigo de élfico, e as palavras possuíam sonoridade única. Allushat fechou seus olhos e poucos segundos depois, uma explosão de luz, acompanhada de um estrondo, fez estremecer o solo e envolveu Alan em um halo de luz espectral, era uma luz que emanava cores exatamente como seu colar. Seu cajado negro passou a brilhar com um fogo branco no topo, saindo da boca do dragão, e o resto do dragão entalhado no cajado tornou a emitir fagulhas de luz fascinantes. Alan sentia-se calmo, sereno, completamente tranquilo, exatamente o oposto de como se sentia há alguns minutos. A Luz o admitira perfeitamente, e Allushat observava Alan surpreso e confuso. Então quer dizer que a natureza o havia escolhido para... todas as funções? Um humano? Tão jovem e despreparado... com um fardo gigantesco em suas costas.
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