"Alan? Por favor, acorde. Preciso de você."

E foi com a voz firme, mas suplicante do dragão que o jovem acordou. Levou alguns momentos para perceber que estava nos aposentos reais de Devin, e que a mesma dormia tranquilamente ao seu lado. Deixou um sorriso tímido percorrer seu rosto enquanto acariciava os quadris desnudos da garota. Ela estava ali, submissa, enrolada em brancos lençóis, deixando algumas partes de seu corpo expostas. Agora ele conseguia perfeitamente ver todas as curvas de seu corpo que na noite anterior podia ver apenas sombreadas, fracamente iluminadas pela luz da Lua. O garoto deu um beijo nos lábios da garota e levantou-se. Queria ficar para sempre ali, com sua amada, mas necessitava ir. Assim, em alguns poucos minutos, estava pronto. Proferiu um "eu te amo" quase inaudível e criou uma aura de energia arcana que envolveu a princesa com cores fracas, mudando de acordo com a luz.

Foi com pesar que Alan começou a formar o globo mágico por entre seus dedos e sentiu a energia envolver-lhe. Nem mesmo o contato mais longo da Luz poderia animá-lo — Spindle estava certo quanto à isto. Alguns momentos depois, sentiu-se desenvolto da Luz. Abriu seus olhos e viu Spindle em posição de combate, observando o céu.

"Oh, meu companheiro, que bom que chegaste." — citou o dragão negro logo que sentiu a presença de Alan. Virou-se para o garoto, de forma que este pudesse montar-lhe. "Creio que tenha descansado, mas de qualquer jeito, é hora de partir. Sinto uma perturbação por perto, e veja, o céu está enegrecendo."

Alan apenas assentiu com a cabeça e subiu no dragão. Logo, estavam no céu, voando, sentindo novamente o vento gélido no corpo. O garoto pegou em sua bolsa o mapa e tornou a observar. Calculava mentalmente o tempo que poderia levar até o pé da muralha que dividia o reino das alianças élficas e das raças guardiãs da natureza com a aliança das raças bárbaras e selvagens — e era no comando dessas raças que o inimigo de Alan estava. Todas as raças brancas o conheciam, porém ele era citado como uma lenda. Ninguém ousava acreditar em sua existência; era desumano demais crer nas atrocidades que esta criatura, que um dia fora um mago abençoado pela Luz, poderia ter cometido.

~x~

A jovem acordou com um sopro de vento acariciando-lhe os cabelos alvos. Sorriu após lembrar da noite que compartilhara com seu amor — embora uma parte de si, ainda sonolenta, acreditava ser tudo um sonho lindo e desejava voltar a dormir para tornar ao torpor do sonho. Um pouco cambaleante, levantou-se e vestiu seu longo vestido lilás, com detalhes púrpura. Pegou seu diadema e seu colar, que durante os momentos de luxúria em que esteve fora de si na última noite, jogara no chão sem nenhuma cerimônia. Colocou-nos e andou em direção à sacada, acariciando seu corpo e docemente lembrando de Alan. Sentiu a magia envolver-lhe de forma gentil e soube que fora um presente, uma forma de proteção. O Sol já iluminava o céu, e Devin, envolvida pela emoção, proferiu algumas palavras conhecidas no dialeto élfico real que protegeriam seu mago.

Ela sorria, caminhando lentamente pelo quarto distraída, quando notou um pergaminho diferente em sua estante. Havia algo estranho, familiar, nele. A princesa desenrolou e logo no fim da leitura, deixou algumas lágrimas percorrerem seu rosto. Não eram lágrimas de tristeza, — bem, apenas em parte — era apenas seu amor se manifestando. Devin não conhecia esta história sobre a criação de seu mundo, e ter a oportunidade de lê-la com uma pequena declaração de amor no final transpassava para ela uma sensação incrível. Era o poder que as palavras e o puro amor podia fazer com alguém. Sua mente viajou ao encontro da de Alan, e ela pode apenas desejar que ele estivesse bem.

~x~

Mas não estava. Naquele momento, Alan estava sendo atacado por três humanoides — que Alan acreditou serem orcs — bárbaros, selvagens, intempestivos, montados em pégasus negros. Suas montarias estavam envoltas por um brilho negro, tinham os olhos vermelhos de fogo e crinas flamejantes. Os orcs gigantescos, porém pequenos em relação aos seus cavalos alados não fizeram cerimônia ao atacar Alan e seu dragão, com exceção de alguns grunhidos indecifráveis que foram gritados, tempo suficiente para que o dragão lançasse uma magia de proteção temporária em si mesmo e em seu companheiro.

Alan observou seus inimigos; o mais próximo trajava uma armadura completa pesada, com muitas ranhuras e falhas — sinal de que era veterano em batalhas — e também possuía cicatrizes em seu corpo verde-musgo. O outro orc, de pele com tonalidade um pouco mais clara, trajava uma armadura igualmente pesada, de metal, porém não estava completa e nela haviam poucos arranhões. Logo mais distante, um orc negro, de olhos tão vermelhos quanto as crinas flamejantes de seus pégasus, vestia uma túnica púrpura e, pelo que Alan conseguia ver com seus olhos humanos, tinha mãos calejadas.
"Certamente", pensou o mago de forma correta, "este é um necromante. Devo concentrar-me nele".

Não precisou dizer à Spindle o que fazer, pois o dragão já invocava raios contra os orcs que os atacavam. Assim, Alan estava livre para conjurar feitiços à longa distância contra o necromante.

"Alan, você precisa derrotar este necromante antes de qualquer coisa." — ouviu a voz do dragão em sua mente — "Ele está protegendo seus companheiros, e enquanto não for derrubado, meus esforços são inúteis."

Alan criou uma torrente de estilhaços de gelo que congelaram o necromante. Assim, Spindle pode derrotar um dos orcs — sobrara o curandeiro que embora congelado persistia e o orc veterano que parecia poder aguentar durante muito tempo ainda. O mago continuou concentrando-se no curandeiro e criando barreiras de proteção para si e seu dragão. Spindle notou que isto persistiria enquanto o necromante continuasse lutando, então concentrou-se no necromante também. Obviamente, o orc notou a brecha para atacar e investir com mais força e vigor contra os dois — porém já apresentava seus sinais de cansaço e sentia tonturas devido à falta de cura.

O curandeiro grunhiu alto quando sentiu que era alvo dos dois inimigos. Seus poderes de cura não eram eficazes contra os globos arcanos de Alan e os raios precisos de Spindle, e assim, o necromante caiu por terra. Seu pégasus esvaiu-se no ar, tornou-se cinzas como o pégasus negro do orc que já havia perecido. O orc ainda lutando soltou um alto grito de guerra, e em poucos instantes um bando de morcegos voou contra o mago e o dragão.

"Alan, você domina a energia arcana de forma magistral. Crie explosões de magia e derrote os morcegos; eu cuido deste orc."

Assentindo, Alan passou a envolver todos próximos a ele com luzes de cor lilás e azul, protegendo Spindle e a si e fazendo com que vários morcegos caíssem. O dragão negro proferia palavras indecifráveis no dialeto matriz dragônico e por fim, o orc caiu de seu pégasus, que da mesma forma que os outros dois, transformou-se em cinzas que escorreram pela atmosfera. O mesmo aconteceu com os morcegos convocados pelo orc.

Não houve tempo de comemorar ou de se recuperar; Spindle e Alan haviam chamado muita atenção, mesmo estando à metros e metros do solo. Combates como este eram vistos de longe, ouvidos à distâncias inigualáveis e sentido por senhores detentores de grande poder. O dragão continuou a voar, enquanto o mago conjurava feitiços de cura e invisibilidade temporária. Não podiam se dar ao luxo de entrar em outro combate por descuido, nem de parar para descansar. Agora a guerra os procuraria até nos confins do universo.