A Lenda De Devin
13 O Encontro
A sombra que a janela com belos vitrais defletia no interior da masmorra escondia um poderoso ser. Dele, apenas podia-se distinguir os olhos que emitiam um brilho azul, que demonstravam que a alma desta criatura já não pertencia mais a um patamar humano. Em suas mãos, um envolvente artefato reluzia em tons rubis, revelando os propósitos para que seria usado. O silêncio difundia-se perfeitamente por todo o aposento, que era ricamente decorado, apesar de não deixar o aspecto mórbido que qualquer masmorra apresenta, e fora quebrado apenas quando uma criatura no mínimo curiosa adentrara o local. Um exemplar de uma raça quase extinta naquele mundo — os kobold — entrara sem cerimônias, emitindo seus típicos ruídos. A mística criatura que naquele momento observava por através dos vitrais, envolto por uma capa negra e com uma expressão pensativa escondida sob a sombra do manto, não precisou perguntar o motivo da visita. O pequeno exemplar, dentre ruídos e grunhidos, emitira seu recado: "O alquimista terminou seu trabalho, meu senhor. Está pronto para que você o veja, meu senhor... se assim o quiser". Apenas uma palavra fora dita, e fora o suficiente para que o reptiliano não pensasse duas vezes antes de obedecer à ordem: "Entre".
De forma desajeitada, o kobold agitou seu corpo escamoso pela sala novamente, voltando em direção à grande porta de madeira entalhada. Abriu-na e, entre grunhidos, observou a beleza da jovem que esperava do outro lado. Deixara a jovem entrar e, com o comando de seu mestre, saíra. Estavam na sala, então, apenas os dois.
A face do necromante, até então escurecida pelas sombras, observou claramente a obra prima que encomendara. Estava diante dos olhos nefastos do poderoso lorde, uma bela jovem, com um corpo que faria inveja às deusas dos humanos e com feições capazes de superar a beleza da mais nobre elfa. Os longos cabelos loiros possuíam ondas que assemelhavam-se às do mar, e os olhos roubavam o anil puro do céu. Era, sem dúvida alguma, uma obra prima perfeita, criada para a serventia do senhor da escuridão. Poderia ser usada para diversos fins, mas, neste caso, apenas para distorcer e atrapalhar a jornada de um jovem herói, na busca de recuperar seu amor.
-Tens um nome, minha dama? — interrogou, de forma gentil, mas autoritária, o senhor dos mortos.
-Chamaram-me Eris, Lorde.
-A deusa do caos, para os humanos... Um belo nome. Perfeito para seu desígnio. — os lábios alvos e autoritários formaram-se em um sorriso, e o necromante encheu-se de satisfação. — Então vá, Eris. Encontre o jovem escolhido, faça com que ele caia aos seus pés, e traga-o para que seja meu.
-Como queira, meu senhor.
A jovem deixou o aposento, e vários pensamentos passavam-se na mente sombria de Lókënyashtar. Tornou a observar por além dos vitrais, olhando a floresta que circundava o grande castelo. Os céus que pairavam sobre aquela região tinham tons escuros, e as florestas eram uma sentença de morte, até mesmo para o guerreiro mais valente. O arquimago podia ver seu reflexo em uma das repartições do vitral, e sentia orgulho do que havia se tornado. O que havia daquele humano frágil, que dedicara anos de sua vida em busca da magia pura, não residia mais naquela alma. Sua aparência, embora ainda atraente, mostrava perfeitamente seu narcisismo e egocentrismo. Além dos olhos nefastos, que emitiam um brilho azul, sua pele já acinzentada contrastava com os longos cabelos negros e lisos. A vida não poderia permanecer junto daquele corpo, e suas delicadas mãos já haviam cansado de controlar a magia para que o Senhor da Noite pudesse reviver guerreiros e magos poderosos. Seus lábios finos, tão alvos quanto a neve, tornaram-se desta forma por recitar os longos feitiços de conjuração nefasta durante anos. Esta era a face de um antigo mago, corrompido pela ilusão de poder eterno e com habilidades ímpares. Dizia-se não haver quem pudesse combatê-lo, mesmo em seus anos de aprendiz.
O senhor da noite, de alcunha Lókënyashtar era tudo isso, e provavelmente, muito mais. Comandava exércitos de raças variadas, com integrantes retirados das piores partes do mundo de Iris, em que viviam. Costumava viver em seu castelo negro, a antiga capital da raça dos anões, devastado pelo necromante e seus exércitos. Hoje, muito poucos exemplares da raça sobreviveram, tendo fugido para refugiar-se em aldeias humanas e alguns até mesmo com gnolls. Havia apenas devastação onde Lókënyashtar passava, e ainda assim — ou talvez mesmo por isso — coletava mais seguidores a cada batalha. Pouco a pouco, dominava cada raça, para que um dia, todos formassem um único exército, sob a sua dominação.
Haviam várias lendas que pairavam sobre este ser. Alguns especulavam que ele há tempos deixara de ser um humano e passara ao status de divindade. Outros, que seus estudos permitiram-lhe transformar-se em um dragão, que fora o que lhe dera sua alcunha. Ninguém dentre todos os cinco reinos sabe o nome dele; os que um dia souberam, deixaram a sanidade há tempos. E assim, mitos passavam de boca em boca nas aldeias, eram difundidos pelos pássaros que enviavam as mensagens, e nunca sabia-se ao certo o que era real e o que era falso. A única certeza é que Lókënyashtar estava pronto, e todas as raças existentes dependiam apenas de uma pessoa: Alan.
Fale com o autor