A Lenda De Devin
11 A Lenda
Alan e Spindle pousaram na beira de um riacho para descansar, após as longas horas de viagem que haviam percorrido novamente. Era cansativo, mesmo para um dragão, viajar por tanto tempo e por distâncias tão longas. O destino continuava invisível para seus olhos e não faria muita diferença parar por alguns momentos. O mal estava à solta e de uma forma ou outra continuaria assim.
"Sabe, Alan, você é um mago, você tem um grimório com alguns feitiços, certo?"
–Sim, Spindle. Mas por quê?
"Eu sinto o quanto você sente falta de Devin e o quanto pensa nela. Eu consigo ver em sua mente que não há nada mais importante do que ela. Mas isso vai desviá-lo de sua missão, e pode ser fatal para todos nós."
Alan calou-se e olhou para cima, encostado na frondosa árvore que lhe proporcionava sombra em um dia quente como aquele. Não havia o que replicar, pois era verdade, e ele sabia disso.
"Talvez eu tenha uma solução. Bem, eu sou um dragão, nós somos protetores da magia. Conheço um feitiço que pode lhe proporcionar alguns momentos com Devin."
O garoto levantou-se e andou até perto de seu dragão, que estava deitado na beira do riacho. Ajoelhou-se e pegou em sua mochila o léxico que continha o básico para Alan controlar seus poderes e várias folhas em dialeto élfico para conjurar os feitiços que aprendera.
"Este léxico não está completo... existem páginas secretas nele, que só podem ser descobertas à base de magia e com algumas palavras especiais, acho."
–Como você sabe disso, Spindle?
"Acho que terei de lhe contar uma história. A história de meu povo."
Ela começa assim:
"Havia um globo de luz e a escuridão
Sua luz roxa iluminava a criação
Logo, a luz repartiu-se
Assim criou a terra que também dividiu-se
Outra luz da escuridão surgiu
Com fervor à terra se uniu
Porém, de longe, uma explosão
E de forma simplória houve outra separação
Separação pós separação, seguidamente
Criou-se vida circunstâncias afronte
A sábia dragonesa roxa, da luz proveniente
Envolvida, proferiu palavras vis
No dialeto que tornou-se matiz
Tornou a pintar o céu de anis
Dos seus pés, um longo chafariz
De sua pelagem fez-se flora
De seus olhos, a luz da aurora
E então, a magia arcana primordial
Deu-lhe um presente surreal
Um dragão branco, a quem chamou Lua
E a brilhante dragonesa seria sua
Após terminarem juntos a criação
Houve guerra na escuridão
E o dragão branco, visando amável proteção
Aos céus tornou a morar
E ela, solitária, deixou-se chorar
Lágrimas que vida veio a criar
Mas a magia, novamente piedosa
Deu-lhe forma de Sol, para no céu também ficar
E assim, toda noite, a arcana bondosa
Tornou possível para Sol e Lua amar
Do ventre de Sol os guardiões
Para proteger sua criação, seus dragões
Da coragem de lua, a magia retornou
E por pedras aos elfos ela passou
Haveria guerra, mas haveria paz
E a criação em harmonia jaz
Até que o mal desperte então
E o frágil abençoado pela luz
Não dê à terra abençoada seu adeus."
Alan ficou envolvido pela longa poesia por alguns momentos. Seu espírito estava em paz e ele sabia o que fazer. Spindle sorriu e assentiu com a cabeça; não era necessário mais do que isso.
Então, ele lentamente criou um pequeno globo por entre suas mãos. Fechou seus olhos e lentamente aumentou seu tamanho, tornando-se envolvido pela luz espectral. Por alguns instantes, o tempo congelou-se, e então, Alan se viu em um lugar bem conhecido.
–Alan? Você... como... Oh, pela Luz!
A princesa correu ao seu encontro, radiante, com aquele sorriso ímpar que encantava qualquer criatura presente. Abraçou-no e deu-lhe um beijo demorado, esperado, sonhado. Continuaram abraçados por um longo tempo, apreciando o silêncio da companhia em que estavam.
–Deixe-me explicar, eu...
–Não é preciso, Alan. Eu sei que você ainda não encontrou a pedra, pois eu a sinto longe de mim.
–Então... por que está tão feliz? Quer dizer, sou apenas eu aqui.
–Por isto mesmo estou feliz. É você. Um mago. Um mago... — seus olhos confusos encontraram com os do seu amado e ela decifrou o poder por trás deles — Um mago completo.
Fez-se silêncio por alguns momentos, antes de tornarem a um outro abraço. Ele precisava voltar, ela sabia, mas ao mesmo tempo, era tão impossível aceitar isso.
–Eu estarei de volta logo, Dev, eu prometo.
–Sei que sim, Alan. Mas agora, por favor... — e com olhos suplicantes e praticamente impossíveis de negar, pegou a mão do seu amado e virou-se em direção ao seu quarto.
Não havia mais luz àquela hora. Havia escurecido cedo, e Alan parou por alguns instantes para conectar sua mente à de Spindle. Pediu que o dragão continuasse no bosque em que estavam e que voltaria em algumas horas. Mas agora, era hora de dedicar sua atenção à princesa.
Saiu da sacada da torre em que Devin mantinha seus aposentos e dirigiu-se à porta do quarto dela. Entrou lentamente, até que pode ver a silhueta da jovem na janela, apenas os contornos do corpo esguio de Dev. A única luz no lugar era a da Lua, e Alan lembrou-se da lenda que Spindle havia lhe contado. Imaginou se Devin conhecia essa história, mas logo seus pensamentos nublaram, assim que ela aproximou-se de Alan e encostou seu corpo no dele. Estava completamente despida, exceto pelo diadema que carregava no topo de seus longos cabelos brancos, que refletiam a luz do luar. Alan percorreu o corpo curvilíneo da princesa e fora puxado por ela até a cama.
Para alguns, era noite de guerra. Uma noite tempestuosa. Mas para os dois amantes, esta era uma noite de amor.
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