A Lenda
32 Uma estranha conversa na cozinha
Notas iniciais
Capítulo 32 – Uma estranha conversa na cozinha
A luz da manhã invadiu seu quarto e atingiu seu rosto tingindo suas pálpebras de vermelho. A claridade o incomodava enormemente, preferia permanecer no escuro. Com um rosnado mexeu o corpo para se levantar e foi quando sentiu as dores o perpassar como eletricidade atingindo cada molécula, cada célula de seu corpo. Sua pele ardia, seus músculos pulsavam de dor e sua cabeça quase explodia. Lembrou-se do poderoso cruciatus que saíra da varinha de seu mestre atingindo-o no peito e derrubando-o na frente dos outros comensais que tremiam assustados esperando suas vezes. Recordou-se também do que viera antes disso. Do plano, a emboscada no trem, o estuporamento do maquinista, a espera e finalmente o encontro. Harry parado ali na sua frente com a testa brilhando de suor, o corpo com sangue onde cortes corromperam sua carne e determinação nos olhos. Harry o ameaçando, gritando querendo ser ouvido, reclamando e jurando sua morte pela de Dumbledore.
Como queria, como queria poder se controlar, poder seguir o plano de Voldemort e então salvá-lo. Mas no momento em que encostou no menino, olhou dentro dos olhos dele percebeu que Dumbledore sempre estivera certo, não há possibilidade de voltar atrás quando se começa a amar. É uma trilha que só tem uma direção. Amaldiçoou-se por ter fraquejado e quase implorado para que o menino fosse com ele, fosse para qualquer lugar, fugisse junto a si para bem longe onde poderiam acordar sem temer a morte. Juntos. Queria tanto, desejou tanto. Mas esquecera que estava falando com Harry Potter. Harry jamais fugiria, iria até o fim para terminar seja lá o que fosse que Dumbledore deixara para ele. Fora tolo e isso causara seu estado de inconsciência pelo poder que Harry lançara sobre si. Esse fato o incomodou por um tempo, como ele conseguira tal poder? Mas depois entendeu que a resposta era tão clara que parecia óbvia. Harry era um descendente da princesa da vida, tinha dentro de si uma bondade e luminosidade tamanha que ao tocar no nome de Dumbledore, seu mentor, o poder revelou-se através de sua dor perpassando a varinha e o atingindo no peito. Ficara surpreso quando acordou, pensou que teria morrido, mas no fim se viu em um lugar escuro, pequeno e com um bilhete jogado em seu colo.
Com cuidado e sentindo o corpo protestar Snape se virou e meteu a mão no bolso traseiro. De lá tirou um pedaço de pergaminho onde havia uma mensagem sem assinatura, mas com uma letra tão especifica que era impossível não saber que era do menino.
“Você está no compartimento da cabine do maquinista. Espere todos irem embora para sair. Tome cuidado.”
Por um momento ficou parado apenas olhando aquele bilhete. Não acreditava no que estava lendo, Harry pedira para tomar cuidado, não lhe entregou aos aurores, pelo contrário, o escondeu deles. Ele se importava. Um sorriso abriu-se no rosto dolorido fazendo machucar os lábios que há muito tempo não se abriam daquela forma. O sol esquentou seu corpo. Queria permanecer ali, deitado no chão onde caíra inconsciente quando não teve forças para alcançar a cama, mas precisava de suas poções, tinha que se erguer, por isso agüentou as dores e se arrastou até perto do criado mudo onde guardara os dois vidrinhos de que iria precisar. Primeiro o vermelho para curar os ferimentos e para as dores, depois o azul para levá-lo novamente ao inconsciente. Não demorou muito para sentir o efeito, foi rápido, mas não o suficiente para impedi-lo de se deitar na cama e apertar os lençóis com a mão fraca ao se lembrar dos olhos do menino que ainda mesmo que raivosos eram belos como a mais magnífica esmeralda. Será que a menina também tinha esses olhos? Ou seriam iguais aos seus, negros como carvão? Um dia chegaria a saber?
Suspirou sentindo o quarto sumir, iria desmaiar. Porém antes de se entregar ao nada uma única palavra saiu de seus lábios secos.
“Harry”
Harry acordou assustado, jurara ter ouvido seu nome sussurrado ao seu lado e sentido a presença de alguém, mas seu quarto estava completamente vazio, a única exceção se encontrava dormindo no berço perto do guarda roupas. Com cuidado se levantou e se aproximou da menina que dormia tranquilamente como se nada pudesse lhe incomodar. E não podia mesmo, estava protegida, jamais poderiam chegar perto dela, pois ele não deixaria. Ninguém chegaria perto dela, nem mesmo...
– Seu pai. – Sussurrou Harry. – Desculpe por tirá-lo de você. Mas será melhor assim, ele não é bom.
Ainda que dissesse aquilo, Harry se debatia por dentro. Ela também era filha dele e queria poder levá-la até ele e o ver todo desajeitado tentando segurá-la. Queria, mas não podia.
– Desculpe Lys.
Harry voltou para a cama e fechou os olhos, em sua mente recordou o beijo que dera no homem no trem, os lábios, mesmo moles, eram igualmente macios e tinha o mesmo gosto diferente e único. Poderia ter ficado por séculos beijando aquela boca sem se cansar, ela era sua, fora sua, somente sua e sentia uma saudade enorme que só lhe dava mais e mais vontade de reivindicá-la para si.
Suspirou. Nada mais naquele homem era seu, muito menos o coração que era unicamente das trevas.
As primeiras semanas na Rua dos Alfineiros foram o que Harry chamaria de normais. Os tios e Duda o ignoravam como sempre fizeram, deixavam-no quieto em seu quarto e só o viam nas horas das refeições onde o menino pegava a comida e ia para seu quarto. Os únicos momentos em que conversaram, se é que podia se chamar de conversa, era quando a senhora Weasley ia até a casa dos seus tios para ver a menina, o que acontecia pelo menos umas três vezes por semana. Tio Valter sempre gritava com Harry pelas visitas de “gente da sua laia”, Tia Petúnia ficava reclamando, pois a senhora Weasley invadia sua cozinha para poder fazer comida para Harry e o estoque de leite da bebê, o fato da mulher fazer uma farta refeição para Harry usando a comida que compraram com seu dinheiro era como um afrontamento pior que o senhor Weasley destruir sua lareira. Duda só se escondia.
Houve um dia em que Harry simplesmente não conseguira segurar o riso. Tio Valter acabara de ameaçar a matriarca da família Weasley dizendo que chamaria a polícia, pois estava farto daquela intromissão. O tio provavelmente pensara que ela se intimidaria com aquela ameaça e que iria embora, mas a senhora Weasley apenas sacou a varinha de suas vestes, apontou para o homem. – Tia Petúnia ofegou e Duda gritou correndo para fora do recinto. – E então disse o que os tios mais temiam.
– Cale a boca, Dursley. Harry não pode fazer feitiços, mas eu posso e não faz a menor ideia de como eu desejo transformá-los em insetos e dar para meus gnomos.
Harry abriu a boca, jamais imaginara a senhora Weasley falando daquela forma, mas achou que a mulher nunca os perdoara por não tratar Harry bem. Apesar de gostar de ver a mulher ali o ajudando e poder saber das novidades no mundo bruxo que não passavam de pessoas se escondendo e o medo se espalhando, Harry achava que conseguiria fazer a poção do morto vivo mais facilmente do que cuidar da criança. A princípio pareceu tão fácil, mas depois descobriu que dar de comer, fazer arrotar, banhar, trocar fraudas e colocar para dormir não era tão fácil assim. Teria que dar os parabéns para a senhora Weasley.
Sempre tentava ficar fora do alcance dos tios e se aquietar, mas por vezes se surpreendeu ao encontrar um olhar perdido de Tia Petúnia em sua direção e mais ainda de Duda que por vezes fora encontrado parado no batente da porta de Harry olhando-o brincar com a criança que ria alto, mas quando olhava para o primo ele saia rapidamente e se escondia em seu quarto. Tio Valter nem ao menos o olhava e muito menos para a criança, só reclamava quando ela começava a chorar. As reclamações, porém, não eram tão justas. Lys surpreendeu a todos por ser um bebê quieto. Não chorava tanto, somente quando precisava de algo, dormia durante muitas horas e adorava ficar deitada no peito de Harry.
Houve um dia em que Harry se viu em uma situação complicada. Fazia mais de três dias que a senhora Weasley não aparecia e o estoque de leite havia acabado, ele teria que fazer mais, pois Lys acordara no meio da noite com fome. Apesar de não fazer tanto escândalo, a menina choramingava e Harry temeu que seus tios acordassem com a barulheira.
– Shh, quietinha. – Disse Harry pegando a menina do berço enrolada no cobertor e a levando até a cozinha onde a colocou em cima da mesa embrulhada no cobertor, ela continuava a choramingar.
Harry se adiantou para a geladeira e retirou algumas coisas que precisava. A senhora Weasley o havia ensinado a fazer o leite da menina, mas aquilo parecia pior que fazer as poções que Snape o mandava fazer em sala de aula. Lys soltou um choro baixo.
– Calma. – Sussurrou Harry. – Já vou fazer. Droga! Qual é a quantidade de leite mesmo? Isso deveria estar escrito.
– Mas o que é que você está fazendo?
Harry se assustou quando a voz de sua tia reverberou pela cozinha. A mulher estava vestindo uma camisola preta por baixo do roupão branco, parecia furiosa.
– Quer acordar todo mundo? O que está fazendo aqui?
– Desculpa Tia Petúnia, mas acabou o leite da Lys e a senhora Weasley não deixou mais então vim aqui fazer a mamadeira dela.
– Bem a cara de gente da sua laia largar as coisas para os outros cuidar. – Disse a mulher cruzando os braços sobre o peito. – Muito bem, faça isso o mais rápido possível e em silêncio.
– Sim senhora.
Petúnia olhou do menino para a criança e bufou antes de se virar para voltar ao conforto de sua cama, mas nem ao menos conseguiu chegar até o segundo degrau da escada. Parou com a mão no corrimão e voltou o olhar para a cozinha, algo a deixava incomodada. Indecisa em voltar para o aconchego dos gordos braços do seu marido.
Por fim se amaldiçoou pelo que estava fazendo e voltou para a cozinha. Harry estava de costas mexendo em algo na pia, nem ao menos viu Tia Petúnia se aproximar silenciosamente da menina. Petúnia tinha os braços fortemente cruzados no peito e olhava com receio para a menina dentro do cobertor. Lys mexia as perninhas e os bracinhos, fazia uma leve careta de desconforto, mas assim que seus olhinhos verdes focalizaram a imagem da mulher que a olhava, ela simplesmente parou e a encarou com um leve interesse no olhar. De repente, assustando Petúnia e Harry, a menina ergueu os bracinhos e riu alto.
– O que está fazendo? – Perguntou Harry com uma mamadeira em uma das mãos e um caneco de vidro na outra.
– Estou olhando-a apenas. – Disse Tia Petúnia arrumando o roupão que se abrira quando se assustou. – Quantos meses ela tem?
– Dois, quase três.
– Não parece ter só isso. – Disse Petúnia enrugando a testa e olhando novamente para a menina que ergueu a mão em sua direção aguardando contato, a fome já esquecida.
– Os bebês bruxos se desenvolvem mais rápido no ventre do que os bebês trouxas. – Disse Harry achando muito estranho ter aquela conversa na cozinha da casa de seus tios no meio da madrugada. – Vou terminar isso aqui.
Petúnia não o olhou, continuou encarando a menininha. Aos poucos se aproximou mais e finalmente, para deleite da menina, estendeu a mão deixando-a agarrar seu dedo e tentar levar para sua boca.
– Onde está o outro pai?
A pergunta foi tão surpresa que Harry quase derrubou a mamadeira no chão ao se virar e encarar a mulher que o olhava intensamente enquanto a menininha babava seu dedo.
– Como... como sabe disso? – Perguntou Harry sem fôlego.
Petúnia simplesmente voltou a olhar para a menina e relembrou momentos antigos em um passado distante onde sentava-se no sofá junto de seus pais e ouvia Lilian contar como era na escola em que fora após os onze anos e dizer os costumes diferentes assim como a natureza dos bruxos que lhes permitia fazerem coisas impossíveis para os trouxas como engravidar um homem.
– Eu detestar seu mundo e acha-los um pária não quer dizer que não o conheça, somente desprezo o suficiente para não me interessar nem envolver. Mas não fuja da minha pergunta. Onde está o outro pai, onde está Severus Snape?
A boca de Harry abriu e ele sentiu seu chão afundar. Jamais, nunca, negativamente pensara que a tia sequer soubesse sobre o mundo bruxo além do que já a ouvira dizer em seu quinto ano quando mostrara saber o que era Azkaban, imaginara muito menos que ela saberia sobre gravidez masculina e conseguiria acreditar em Papai Noel do que no conhecimento da tia sobre Severus. Petúnia sabia mais do seu mundo do que poderia ter imaginado algum dia nos seus mais profundos sonhos.
– Como sabe?
– Pare de perguntar como eu sei e responda.
– Ele... ele foi embora das nossas vidas.
– Bem típico de vocês. Pelo menos sua mãe, por mais desgraçada que tenha levado a vida após se casar com aquele homem, não foi deixada grávida igual a você. Sim, eu sei que você a gerou em um útero mágico. – Disse a mulher sem olhar para o menino, mas encarando a menina que se divertia com seus dedos finos. – Você tem o brilho no olhar, o brilho que somente quem pariu tem direito a isso. – Foi então que ela se afastou da menina e chegou perto do sobrinho o olhando atentamente como se pudesse ver algo através dele. – Você pode ser a aberração que for, mas teve a benção de gerar um filho, isso deve significar alguma coisa.
– Não entendo. – Disse Harry baixinho sentando-se em uma cadeira perto do balcão e esquecendo a mamadeira ao lado. – A senhora sempre me odiou, sempre me maltratou. Sofri humilhações e coisas muito piores, até mesmo físicas de suas mãos ou das mãos de meu tio e Duda sem que a senhora levantasse um dedo para impedir. E agora, de repente, estou aqui tendo essa conversa extremamente estranha onde diz que é uma benção gerar uma criança? A senhora não pareceu pensar isso durante todos esses anos.
– Você é igual a ele. – Disse Petúnia quando o menino parou para tomar fôlego. Harry estava ofegando e com o rosto vermelho de nervoso. Quando Petúnia falou tinha um tom baixo e choroso. – Ele tirou Lilian de nossa família, se ele não estivesse na vida dela ela poderia estar viva e por mais que não nos falássemos, ela estaria viva. Então, não me peça para explicar o motivo de eu não conseguir ver mais do que o culpado pela morte de minha irmã quando olho para você.
O silêncio se postou como um intrometido no meio da conversa de dois estranhos que acabaram de se conhecer. Harry viu os olhos da tia marejarem e achou muito estranho aquilo acontecer quando estavam se encarando tão de perto, as únicas vezes que vira a mulher chorar fora sempre quando algo acontecia com Duda, mas agora aquelas lágrimas eram para si, Harry sabia disso. Eram suas e de Lilian.
Após alguns minutos Harry se mexeu incomodado no banco quando a mão da mulher levantou-se e se aproximou de seu rosto. Não havia como não ter o instinto de se afastar, aquelas mãos só o tocavam quando era para lhe castigar por alguma coisa, mas naquele momento os dedos finos passavam trêmulos por seu rosto e pareceu a Harry que a tia via outra pessoa diante de si. Petúnia finalmente via Lilian através de seus olhos. Quando Harry não sabia mais o que fazer além de ficar parado, foi salvo pela pessoa mais improvável. Lys gritara novamente fazendo a mulher voltar de seus devaneios com um balanço de cabeça Sua mão recuara para perto de seu corpo e parecia não querer mais sair dali.
– Preciso dar o leite para ela, se não o tio Valter vai acordar.
Harry levantou-se com a mamadeira na mão e foi até a mesa onde pegou a menina no colo e ia colocar a mamadeira na boquinha dela quando foi impedido pela mão de sua tia.
– Será que não sabe fazer nada direito? – Perguntou a mulher retirando a mamadeira da mão do menino. – Você usou leite de vaca, tem que ser o leite em pó. Aquela mulher, apesar de tudo sabia o que deveria fazer quando comprou essas coisas. – Disse indo até o armário e pegando as latas com o leite em pó. – Pelo menos foi comprado com o dinheiro dela, já chega termos sustentado você.
Harry diria que colocá-lo para dormir embaixo da escada, dar-lhe as roupas velhas e grandes de Duda e regular comida não era o que se chamaria de sustentar, mas preferiu ficar calado vendo-a preparar o leite da menina. Sua tia finalmente voltara a ser desprezível.
– Tome, faça-a ficar calada.
– Obrigado, Tia Petúnia.
Harry se sentou no sofá com a menina no colo e levou a mamadeira para a boca dela, Lys fez um grande e gracioso bico ao chupar as primeiras gotas de leite.
– Como sabe quem é Snape?
– Você falou o nome dele.
– Mas não falei o primeiro.
– Eu e sua mãe o conhecemos quando crianças. Aquele menininho sujo da casa após o rio. Eles foram para Hogwarts juntos e pelo que Lilian me contava e o que eu via durante as férias dele, ele era apaixonado por ela, mas depois perderam o contato, pensei que tinha morrido até ouvir o nome dela. Os Snape nunca tiveram outro filho, não foi difícil saber quem era o pai.
– Severus foi apaixonado pela minha mãe?
Um sorriso apareceu nos lábios da tia. Parecia gozar de alguma coisa, saborear o fato de saber algo que deixava o menino tão surpreso.
– Ele não te contou? Pensei que fossem...íntimos. – Disse olhando de relance para a menininha que se deleitava em sua alimentação. – Ele não pode ficar com Lilian, mas se contentou com a cria dela.
Harry não respondeu, apenas encostou as costas no encosto do sofá e soltou um suspiro fechando os olhos e negando o insulto da tia, naquele momento só importava Snape que aparecia atrás de suas pálpebras. Ele era apaixonado pela sua mãe? Por que não contara? Tivera que saber pela boca da tia que ainda se vangloriava por saber aquilo. Estava tão cansado, tão cansado. Lys começava a ficar mais leve. Não deveria ser o contrário, já que ela estava comendo?
– Moleque, acorda!
Harry acordou assustado e dolorido pelo cutucão da tia.
– Seu incompetente, quase derrubou a menina. Há quantos dias não dorme direito?
– Não sei, ela dorme bem, mas tenho que acordar algumas vezes para alimentá-la ou trocá-la. – Respondeu Harry piscando fortemente tentando afastar o sono.
– Me dá essa criança. Agora! Um absurdo, é isso que dá criança gerar criança. Reclamou a tia enquanto pegava a menina dos braços de Harry e colocava nos seus com uma habilidade tamanha que dava inveja em Harry. – Vai dormir. – Ordenou sentando-se no sofá.
– Não precisa, eu faço isso.
– Não me ouviu? Vai dormir.
– Mas tia, eu...
– Vai dormir!
Harry não esperou uma quarta ordem, deu as costas para as duas e subiu as escadas se arrastando, quando chegou ao seu quarto deitou-se de qualquer forma adormecendo quase instantaneamente. Os dias que se seguiram foram normais. Nem Harry, nem Tia Petúnia comentaram o estranho acontecimento na cozinha, mesmo Harry tendo grande vontade de saber mais sobre Snape e sua mãe. Por que ele nunca citara que conhecia sua mãe antes da escola? Por que nunca dissera que fora apaixonado por ela? Por quê? Seria mais uma coisa para sua coleção de traições e mentiras? Snape realmente se contentara em pegar a cria de Lilian Potter? Provavelmente sim. Porém jamais saberia, pois sua tia não seria receptiva como fora naquele dia na cozinha.
A senhora Weasley visitou a casa algumas vezes para saber como estava a menina e Harry que ficou impressionado por ouvir uma tremenda discussão que se seguiu onde Tia Petúnia dissera em alto e bom som que a bruxa era uma irresponsável e que nem ao menos ensinara o menino a cuidar da criança. Harry sentiu a cabeça doer ao tentar entender se Tia Petúnia estava apenas reclamando como sempre fizera em relação aos bruxos ou se realmente estava preocupada com a menina. Tudo estava estranho demais e ficou mais estranho ainda quando duas semanas antes de seu aniversário ele fora colocar a roupa no varal conforme mandaram e ao voltar ao seu quarto encontrou Duda olhando para a menininha dentro do berço. O rosto abobalhado de Duda, junto com seu enorme corpo, faziam-no parecer um retardado.
– O que está fazendo ai? – Perguntou Harry pronto para partir para cima do primo. Ele jamais tocaria nela, ela não seria seu saco de pancadas.
– Ela é estranha. – Disse Duda ainda olhando para a menina. – Por que ela está fazendo isso?
– Isso o que? – Perguntou Harry aproximando-se do berço e vendo a menina sorrir e erguer os bracinhos em direção a Duda. – Ela faz isso sempre. Ela gosta.
– Ela tá sorrindo para mim. Por quê?
– É porque ela ainda não te conhece. Com certeza não vai sorrir quando souber como você é. – Harry queria acrescentar como ele era um idiota. Mas ficou calado.
– Posso pegá-la?
– Não. – Disse Harry aproximando-se mais e ficando entre Duda e o berço. – Saia do meu quarto.
Duda fechou a mãozona em punho e cerrou os dentes. Que viesse para cima então, Harry já aguentara os socos antes, poderia aguentar agora. Mas Duda apenas virou as costas e saiu de seu quarto. Harry imediatamente fechou a porta com um estrondo e se aproximou do berço onde pegou a menina no colo e ficou olhando para seus olhos verdes que piscavam evidenciando as pálpebras grossas e negras como seu liso cabelinho. Seu rostinho alvo tinha bochechinhas vermelhas e sua boca babava na roupinha.
– Será? – Perguntou-se Harry olhando da menina para a porta. – Será que você é tão poderosa que consegue mudá-los?
A resposta foi formada pelas ocorrências dos dias seguintes. Tia Petúnia, por vezes perguntava como ela estava antes de pegá-la do berço e levá-la para a sala onde a deixava em seu colo e ficava olhando para seus lindos olhinhos até que adormecesse, naquele momento não havia TV ou fofoca dos vizinhos que fosse mais importante e até mesmo Duda parecia interessado em sua filha. Não parava de olhar para ela e sorrir quando achava que ninguém estava olhando. Teve um dia, porém, que Harry quase usara magia. Tia Petúnia, que não negava nada ao filho, passou a criança para seus braços deixando-o ficar com Lys em seu colo. Harry pediu para que ele a devolvesse, mas Tia Petúnia brigou com ele dizendo que não deveria se atrever a dizer que Duda machucaria um bebê e antes que a discussão acabasse Harry se surpreendeu novamente com a menina. Ela ria das caretas que o menino gordo fazia e Duda parecia tão entretido com ela como se jamais tivesse visto um bebê na vida.
Entretanto nem tudo estava tão diferente assim. Tio Valter não queria nem mesmo saber da menina e parecia que Lys sabia disso, sabia que não deveria irritá-lo, pois era uma má pessoa que não gostava dela. Por isso ela sempre ficava quietinha quando Tio Valter estava em casa o que deixava a casa com aspecto sombrio e ruim, não havia mais as risadas de Lys para encher o local.
Faltando apenas nove dias para seu aniversário Harry pediu para que Tia Petúnia fosse ao seu quarto para terem uma conversa muito importante. Harry sabia que aquela conversa era mais do que necessária para o futuro de sua filha. Tudo dependia da resposta daquela mulher. Quando saiu do quarto Petúnia encontrou-se de cara com o marido que fuzilava tanto o menino quanto a mulher como se o fato de estarem conversando no mesmo ambiente sem que Harry fosse humilhado ou saísse machucado fosse um absurdo, uma traição.
– Precisamos conversar, Valter.
– Espero que não tenha nada haver com aquela aberração lá embaixo.
– Não chame minha filha assim! – Gritou Harry avançando para o tio, mas sendo impedido pelo braço levantando de Petúnia.
– Quieto. – Dissera a tia olhando de canto de olho para o menino. – Vá para baixo, a menina precisa tomar banho.
– Mas...
– Vá.
Harry queria ficar, queria ver a reação do tio, mas não quis contrariar a tia já que o destino de Lys estava nas mãos dela. Ao chegar na sala encontrou a senhora Weasley em pé olhando com a testa franzida para Duda que estava sentado no sofá fazendo careta para Lys que ria alto das graças do primo.
– Ele não me deixa banhá-la. Diz que quer ficar brincando.
Harry riu alto, tudo aquilo era tão absurdo e improvável que não podia deixar de achar que um dia acordaria e estaria novamente em seu primeiro dia após sua saída de Hogwarts.
– Duda, precisamos banhá-la.
Duda fez cara feia, mas se afastou para que Harry pudesse pegar a menina e levá-la até a pequena banheira que foi colocada na cozinha.
– Senhora Weasley. Não tem nenhuma novidade?
– Nenhuma significativa pelo menos, mas parece que Olho-Tonto quer se reunir conosco amanhã. Tem alguma coisa importante que ele quer contar.
– Certo. Humm, será que a senhora pode entregar isso aqui para o Fred e o George? – Perguntou Harry entregando para a mulher um envelope magicamente lacrado. – É importante.
– Tudo bem, só espero que não esteja encomendando bombas de bosta. Sua tia ficaria uma fera e seu tio mataria você.
Harry riu. Quem dera aquilo fosse um pedido de bombas de bosta. Seria muito melhor. O aviso da senhora Weasley de que algo estava acontecendo era como um agouro, Harry ficou tenso no restante dos dias e mais ainda quando o senhor Weasley e Quim apareceram na casa de seus tios. Lys estava em seu quarto dormindo, por sorte, não queria mais ninguém sabendo da criança.
O senhor Weasley foi rápido explicando a Harry as mudanças no plano enquanto Quim informava para os Dursley que teriam que se mudar e que deveria ser dentro de dois dias, antes do aniversário de Harry.
– Fred pediu para te entregar isso, Harry. Nos espere daqui a dois dias com tudo pronto.
– Certo.
Harry respirou fundo e abriu o pacote quando os bruxos foram embora, parecia tudo certo. Dois dias, era sempre dois dias. Os dias passaram mais rápidos do que pensara. Logo suas malas estavam prontas e Tio Valter novamente colocava as malas no carro. Quando tudo estava pronto e Harry viu que faltavam apenas trinta minutos para que os aurores chegassem, desceu com uma mochila e Lys em seu colo. Os Dursley estavam sentados esperando, pareciam apreensivos e muito ansiosos.
– Preciso falar com vocês. – Disse Harry. Tio Valter olhou-o com desconfiança e depois bufou indicando que Harry deveria falar logo. – Vocês aceitaram levar Lys com vocês para a casa protegida pelo feitiço fidelius que realizamos ontem e eu agradeço por isso. Acredito que ela estará a salvo com vocês em outro país. Só vou pedir que não a maltratem como fizeram comigo, nem a mimem como fizeram com Duda. Só quero que ela seja feliz. – A voz de Harry embargou e ele teve que tossir para continuar. – Nessa mochila. – Entregou a mochila a Duda. – Tem dinheiro e novos documentos que foi o pacote que Fred e George me deram. Agora ela será filha de vocês para todos os quesitos. Espero que isso ajude a mascará-la além dos feitiços que ela tem. Não vão precisar se importar com dinheiro, tem bastante ai e mais no banco trouxa onde abriram uma conta no nome falso dela deixando você, Tia Petúnia, como titular.
Harry engasgou, seus olhos marejaram ao olhar a menininha o encarando. Devagar deu um beijo na testa dela e sussurrou um eu te amo antes de entregá-la para a tia que a embalou nos braços.
– Caso, caso eu morra, tem um testamento deixando a casa do largo Grimauld e minha fortuna para ela, porém só será dado se derrotarmos Voldemort.
Naquele momento todos olharam para o menino. As precauções tomadas foram tão pensadas como se ele não tivesse esperança de retornar.
– Mas você não vai morrer, não é? – Perguntou Duda.
– Não sei. Talvez sim, talvez não. Só quero mais uma coisa. – Disse Harry entregando a Tia Petúnia um colar com uma pequena pedra de esmeralda. – Severus me deu isso no natal, entregue a ela, por favor.
– Tudo bem. – Respondeu a tia pegando o colar.
– Adeus.
Harry subiu as escadas correndo e fechou a porta com força, não havia coragem grifinória em seu corpo naquele momento. Estava deixando Lys, talvez para sempre. Talvez a menina estivesse fadada a crescer como ele, sem pais, sozinha com os tios rezando para que alguém fosse reivindicá-la. O tempo passou, os aurores chegaram e saíram. Harry viu o carro de Tio Valter sumir na rua levando consigo a coisa mais preciosa de sua vida.
Agora era somente ele.
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