A Lenda
20 Um jogo perigoso
Olá gente, quero agradecer a todos pelos reviews.... adorei mesmo, novos leitores obrigada pelos comentários e criticas e sejam bem vindos...... bjusssss
Capítulo 20 — Um jogo perigoso
Era uma manhã nublada de sábado. Não havia mais gelo nos gramados verdes, agora era somente o frio que se fazia presente. O frio e o vento. Um vento que poderia machucar se viesse violento em meio a uma tempestade ou só muito veloz enquanto corria pelo céu cinzento entre as folhas das árvores altas, mas ainda assim era deliciosamente libertador e invejado.
Harry conhecia muito bem a sensação de liberdade que o ar poderia proporcionar àqueles que soubessem apreciá-lo. Era mágico o fato de não haver nada ali que o prendesse, era somente ele e o mundo abaixo de si estendendo-se em uma imensidão gloriosa. O vento passou por seu cabelo dançando entre os fios desalinhados e fazendo-o fechar os olhos por um momento e respirar fundo antes de sorrir. Como sentira saudades daquela sensação, estar no alto e ser o dono de todas as escolhas, poder girar em todas as direções, correr velozmente sem um obstáculo a lhe parar. Era delicioso e seria mais ainda se não tivesse uma voz gritando consigo.
Harry abriu os olhos e se endireitou em cima da sua Firebolt antes de descer alguns metros e finalmente reconhecer a menina que o chamava na ponta do campo de quadribol. Os cabelos vermelhos de Gina seriam reconhecidos em qualquer lugar, parecia uma labareda de fogo dançando atrevidamente no meio do vento cruel do inverno não se deixando intimidar pela crueldade do frio. Os cabelos de Gina eram quentes assim como o sorriso que se abria em seu rosto enquanto esperava o grifinório pousar.
Ao tocar os pés no gramado bem arrumado do campo, Harry sentiu uma pontada no peito, já não estava mais no domínio pleno de tudo, agora estava de volta a realidade, de volta ao chão. Segurou a vassoura com uma mão e com a outra arrumou o uniforme tentando esconder a barriga já proeminente de quase quatro meses, depois se lembrou que a poção que Snape rigorosamente o lembrava de tomar todos os dias mascarava sua aparência fazendo com que os olhos daqueles que não sabiam de seu segredo vissem apenas aquele menino magro que sempre fora. Porém, e isso era constantemente lembrado por seu marido, ele estava em um momento delicado, deveria tomar muito cuidado com tudo que pudesse afetar sua saúde.
Harry suspirou, Snape estava sendo gentil todas essas semanas, pelo menos quando estavam a sós e do jeito dele, o que queria dizer que ele apenas não era cruel quando estavam entre quatro paredes, mas também não era mil amores e jamais voltou a agir tão vulneravelmente como no chuveiro, algumas vezes até tinha que aguentar sua cólera após um dia estressante de aula. Nesses dias Harry se sentia completamente machucado pelas palavras que Snape lhe gritava, ou pior, sussurrava. Mas depois acabava perdoando, mesmo que as desculpas não fossem nunca pedidas com palavras e sim com a fome desvairada que se transformava em uma noite de sexo quente e intenso. Mas mesmo com tudo isso Snape não tocava no assunto mais importante, seu filho, a criança que carregava em seu ventre e que no futuro seria como ele, uma eleita para se sacrificar pela vida de todos.
Que destino cruel, pensou Harry franzindo a testa.
- Não pense muito, Harry. Vai acabar pirando.
Harry riu e sentiu-se bem assim, fazia tempo que não dava uma risada por besteira. Hermione estava paranóica com os estudos devido os exames que se aproximavam e as aulas de aparatação, Rony estava ocupado tentando conquistar Hermione e se livrar totalmente de Lilá e ele mesmo estava ocupado tentando um bom convívio com seu esposo instável, intragável, espião e comensal. Mas além de tudo isso ainda tinha Malfoy.
Malfoy ainda era um assunto pendente em sua mente, mesmo prometendo, depois de quase matar o loiro com um feitiço hostil, que se distanciaria do sonserino, não poderia apenas deixar tudo para lá. Malfoy era um comensal e estava aprontando algo, ainda descobriria o que era e daria um jeito de fazer Snape acreditar em si. Mas não naquele momento, naquele momento Gina sorria para si e o puxava para o vestiário.
- Pare de sonhar acordado, Harry. Temos que treinar. O jogo está próximo e ganhando esse enfrentaremos a Sonserina. Quero ver aqueles nojentos derrotados.
- Eu também. – Concordou Harry sorrindo.
- Então mantenha o foco capitão. – Riu a menina entrando no vestiário onde todos os jogadores estavam em seus devidos uniformes e prontos para treinar firmemente.
- Gina, hoje quero que treine como artilheira e como apanhadora. – Disse Harry acompanhando a menina pelo gramado após uma extensa explicação das jogadas que todos deveriam treinar.
- Por quê? O apanhador do time é você. – Respondeu a menina virando-se rapidamente e olhando intrigada.
- É só para o caso de uma emergência. – Mentiu Harry vendo os olhos de Gina se estreitarem como os da senhora Weasley. – Você jogará como artilheira, mas é nossa melhor apanhadora substituta e não podemos perder esse jogo por nada. Quero garantias de que conseguiremos enfrentar a Sonserina.
Gina pareceu ponderar suas palavras por um tempo como se tentasse descobrir se aquilo era verdade ou não. Por fim a ruiva relaxou os olhos e abriu um sorriso.
- Claro Harry, precisamos mesmo garantir que tudo saia sem problemas. – Disse a menina virando-se para o campo e começando a andar para perto da entrada. – Mas só para se situar, eu sou a única apanhadora substituta. – Gritou por sobre os ombros antes de alçar vôo em sua vassoura de segunda mão.
Harry riu, era fácil abrir um sorriso ao lado da menina e realmente se sentia bem em sua companhia. Gina não era como as outras meninas de sua idade, não era cheia de frescuras ou de falação sem interesse, sua criação junto com diversos irmãos a fez se tornar uma adolescente cheia de vida e divertida. O tempo junto com os gêmeos a tornara capaz de enxergar as coisas de forma mais leve e interessante, nada precisava ser sério e difícil, isso deixava o ar a sua volta tranqüilo e fácil. Gostava de ficar ao seu lado, só havia uma coisa que o impedia. Snape.
Sabia que Snape não gostava de Gina, só ainda não conseguira descobrir se isso era de antes ou se começara após seu envolvimento com o homem. Snape era difícil de ler e muitas vezes o confundia demais.
- Anda Harry, para de sonhar. Vamos treinar!
Duas horas mais tarde, suado, cansado e ainda com uma hora de treino pela frente, Harry estava muito feliz com o desempenho de sua equipe. Rony estava esplendido como goleiro, Gina estava magnífica com a goles em sua mão sempre atirando dentro dos aros e dando mais e mais pontos para sua casa, Catia estava completamente de volta ao time e ele mesmo já havia pego o pomo diversas vezes, cada vez mais rápido. A princípio pensara que teria alguma dificuldade em treinar, até mesmo em ficar em cima da vassoura, mas realmente nascera para isso, seu corpo se adaptava de tal forma à vassoura que jamais poderia dizer que estava grávido. O vento forte o impedia de sentir vertigens e a sensação de completude era mais poderosa que qualquer possível enjôo, estava no ar novamente, estava em pleno poder, estava....
- Potter!
Todos os jogadores pararam os movimentos ao ouvir a voz propagada pelo campo vazio. Harry olhou para baixo e viu Filch na beira do campo segurando sua gata horrenda e lhe sorrindo feiamente.
- O que ele quer? – Perguntou Rony voando para perto de Harry.
- Não sei, mas alguma coisa me diz que tem haver com Severus. – Disse Harry apertando os lábios. – Continue com o treino. Te vejo mais tarde.
- Não deixe o sebosão acabar com você, Harry.
Harry queria pedir para Rony não chamar seu esposo daquela forma, mas não iria adiantar e vendo pelo lado critico, Snape também xingava Rony sempre que queria independente de Harry estar perto ou quase implorar para ele parar. Respirou fundo antes de pousar e olhar para o zelador e sua gata.
- O que foi, senhor Filch?
- O professor Snape pediu para que eu o chamasse, ele o espera em seu escritório.
Harry engoliu em seco, sabia que Snape não iria gostar nada da história de ir treinar, mas não podia deixar a equipe na mão, agora precisava enfrentar o professor em seu escritório. Sem interesse algum rumou para os corredores do castelo e de lá para as masmorras. Alguns alunos da Sonserina estavam por ali e o olhar hostilmente como sempre, alguns até esbarravam em seu ombro o jogando para a parede, Harry fazia o possível para não perder a cabeça, tinha que pensar em seu bebê e em sua segurança. Por esse motivo, e unicamente por esse, respirou fundo engolindo a raiva e se dirigiu ao escritório de Snape perto de seus aposentos. Bateu três vezes na porta e esperou, não houve resposta só a porta que se abriu permitindo sua entrada.
O escritório de Snape era pequeno, considerando sua sala de aula, e cheio de prateleiras com vidros estranhos. Aquele lugar lhe lembrava o estoque de poções que o professor o fizera limpar no final de outubro antes de tudo mudar e ele se tornar seu esposo e o dono de sua alma, aquela lembrança ainda o fazia tremer, lembrava-se nitidamente dos olhos cheios de raiva antes do homem quase lhe enforcar e deixar bem claro que faria da sua vida um inferno. Bom, até aquele momento nada demais tinha acontecido, mas tinha medo que aquelas palavras ainda se concretizassem. Rezava todos os dias para que não.
Snape estava sentado atrás de sua mesa de madeira negra, mas não estava sozinho. Um sonserino loiro de olhos verdes escuros debruçava-se sobre a mesa do professor vendo alguma coisa que Snape apontava em um pergaminho. O queixo de Harry trincou, seus lábios cerraram e seus olhos escureceram, era loucura sentir-se daquela forma, Snape estava dando conselhos e ajuda escolar como sempre fizera em um sábado de manhã, porém Harry jamais o vira em seu escritório com outro aluno a não ser ele. Ver Snape tão perto daquele menino, na mesa onde já fizeram sexo era tremendamente desconfortável.
- Mandou me chamar, senhor? – Disse Harry rancoroso dando grande ênfase na palavra senhor fazendo Snape olhá-lo rapidamente.
- Sente-se e espere, senhor Potter.
Harry apertou a mão na vassoura e se sentou na cadeira próxima esperando enquanto ele falava baixinho com seu aluno. Após alguns minutos o menino se endireitou, agradeceu o professor com um sorriso desnecessário e saiu da sala. Em todos os momentos os olhos de Harry acompanharam o sonserino até que a porta finalmente fora fechada, mas não selada indicando que a conversa com Snape seria breve. Voltou seus olhos para o homem e o viu franzir a testa enquanto observava seu corpo de cima a baixo.
- Acho que não me fiz claro quando lhe avisei que estava banido do quadribol. – Disse Snape entrelaçando os dedos e pousando as mãos em cima dos papeis que corrigia.
- Foi muito claro, senhor. – Respondeu Harry ainda sentindo raiva pela presença do outro aluno.
- Então me explique o motivo de estar dentro desse uniforme e voando o campo de quadribol antes mesmo do café da manhã quando eu o proibi de tal coisa.
- Não me proibiu de treinar, somente de jogar. Não sou professor e sei que os jogos só acontecerão daqui a uma semana, você não sabia disso?
Snape estreitou os olhos e se levantou aproximando-se devagar do menino. Harry sabia que deveria temer aquele olhar, mas estava com tanta raiva que não conseguia deixar o medo lhe tomar. O homem chegou bem próximo de Harry e apoiou as mãos nos braços da cadeira se aproximando devagar do rosto do menino.
- Acho que nossos recentes momentos o fizeram esquecer o respeito, senhor Potter.
- Não esqueci o respeito, senhor. Acho que você também não, correto?
- Cuidado, Potter. Não vai querer que eu perca a paciência com você, sabe muito bem do que sou capaz.
- Claro que sei. Conheço muito bem o comensal que tenho como marido.
As mãos de Harry se postaram automaticamente na barriga quando Snape segurou seus braços com força o fazendo levantar-se e o encarar. Havia muita raiva nos olhos de Snape, pareciam areias negras brilhando em suas íris.
- Não estou com paciência para suas impertinências, Potter. Vou fazê-lo aprender a me respeitar e a me tratar com o devido respeito, mas antes vai me contar exatamente o que está fazendo jogando quadribol quando lhe ordenei exatamente o contrário.
- Eu estava treinando a equipe. – Disse Harry perdendo toda a raiva no momento em que a dor ultrapassou a linha do ódio. Seus braços ardiam com o aperto. – Me solte, está me machucando.
Snape não o soltou de imediato, pelo contrário, apertou mais as mãos fazendo Harry quase gritar de dor e quando soube que não poderia mais continuar sem fazer uma besteira largou-o fazendo quase cair no chão gelado de seu escritório. Harry se equilibrou no último momento segurando-se na cadeira e impedindo uma queda que poderia ser fatal para seu filho. O menino postou novamente a mão protetora no ventre inchado e olhou incrédulo para o homem que o fuzilava com os olhos ardentes.
- Você...
- Responda a minha pergunta.
- Eu já respondi. Estava treinando a equipe. Sou o capitão, preciso dar as coordenadas, as jogadas. Não irei jogar na droga do campeonato se assim deseja. – Quase gritou Harry. – Até treinei Gina como apanhadora para que ela fique no meu lugar. Está feliz?
Snape pareceu ponderar a resposta de Harry e aos poucos se acalmou a ponto de fazer sumir de seus olhos a raiva estrondosa e deixar apenas um resquício de seu desafeto.
- Você poderia ter me machucado. – Sussurrou Harry. – Poderia tê-la matado. Qual é o seu problema?
Harry sentia as lágrimas em seu rosto, mas não ligava para elas, ainda sentia o ressentimento em sua alma. Sabia que Snape tinha um humor devastador e que sempre piorava quando era chamado por Voldemort como acontecera na noite anterior, mas ainda assim odiava seus ataques sem motivo.
- Você me desobedeceu.
- Não desobedeci, será que não consegue entender isso? É tão inteligente com suas poções e explicações detalhadas de feitiços na sala de aula, mas é tão burro quando se trata de uma coisa tão simples.
- Olha como...
- Olha você! Estou farto dessa palhaçada, farto de abaixar a cabeça para você em tudo e sempre sair como o idiota culpado. Você me machucou, Severus, e tudo por uma besteira.
Harry ofegava enquanto gritava em meio as lágrimas, Snape apenas o olhava com surpresa e resignação no olhar.
- Eu te compreendo, sempre estou ao seu lado quando ele te chama e você volta revoltado. Eu agüento os seus insultos, seu mau humor e suas injurias derramadas em mim que não tenho nada a ver com a história. Já senti sua raiva fisicamente e agüentei calado por que você precisava daquilo, mas isso é um jogo para dois, Severus.
- Acha que não sei de tudo isso, Potter. Sou seu esposo....
- Exatamente, seu bastardo! – Gritou Harry empurrando Snape quando esse se aproximou. – Você é meu esposo assim como eu sou o seu e mereço o seu respeito também, não vou aceitar ser tratado como um rato por você somente porque fui cumprir com os meus deveres de capitão do time enquanto você ficava aqui cochichando com seu aluno.
- Potter, olha o que está falando, está tão descontrolado que não sabe o que diz.
- Sei exatamente o que digo, Severus. E digo que é melhor eu sair daqui o quanto antes.
- Potter!
- Não se preocupe, senhor. Não descumprirei sua ordem. – Disse Harry antes de sair e correr pelos corredores até alcançar o jardim.
- Ei Harry! – Chamou Rony enquanto voltava do campo de quadribol ao lado de Gina.
Harry virou-se e viu Rony acenando, mas não estava com a mínima vontade de falar com o ruivo, queria apenas se isolar e chorar as lágrimas que não quis derramar na frente de Snape. Sem responder ao aceno saiu pelo jardim em direção ao corujal e se escondeu atrás do prédio.
- Harry...
- Não. – Disse Gina impedindo Rony de ir atrás do menino. – Leve minha vassoura, eu vou atrás dele.
- Mas eu sou o amigo dele.
- E eu sou menina, acredite em mim, conseguirei ajudá-lo mais que você.
- Não, Gina, acho que nesse caso é melhor Hermione. – Disse Rony imaginando que aquilo tinha a ver com Snape.
- Não se preocupe.
Rony não teve tempo de impedir a irmã, Gina largara sua vassoura com ele e saíra correndo atrás de Harry. A única coisa que conseguiu pensar era em ir atrás de Hermione na biblioteca, precisava que a menina segurasse sua irmã e ajudasse seu amigo.
Ao chegar na parte de trás do corujal Gina queria gritar por Harry, mas temeu que o menino saísse correndo dela, precisava chegar perto sem que ele soubesse assim não teria como fugir depois. Não demorou muito para encontrá-lo sentado encolhido embaixo da escada.
- Harry? – Chamou cuidadosamente se abaixando e vendo Harry com a cabeça apoiada na parede. – Harry, o que aconteceu?
- Eu sou um idiota.
- Isso eu já sabia. Saia daí, vem conversar comigo.
Harry olhou para a mão estendida da menina e quase imediatamente a aceitou saindo daquele lugar frio para perto do calor dos cabelos vermelhos. Mas quase imediatamente a soltou para poder se virar e enxugar as lágrimas vergonhosas de seu rosto.
- Ei, não precisa se esconder. Eu moro com um monte de meninos, esqueceu? Eu sei que vocês choram. Meus irmãos sempre tentavam esconder, mas eu sempre via um deles chorando e sempre era pelo mesmo motivo. – Ela conseguira, Harry se esquecera de suas lágrimas e concentrara-se em suas palavras. – Amor, ou paixão, as vezes brinquedos. – Riu fazendo Harry sorrir levemente.
Gina aproximou-se devagar e estendeu as mãos para seu rosto limpando as lágrimas que ainda percorriam o caminho de seu rosto. Seus olhos não demonstravam nada mais do que a compreensão e amizade, talvez um pouco de amor que Harry não sabia identificar, mas que estava ali.
- Obrigado, Gina. Mas me desculpe, não posso te dizer o que é.
- E não precisa, só quero que saiba que estou aqui, Harry. Caso precise.
Sem esperar, sem nem mesmo imaginar que aquilo algum dia pudesse acontecer, Gina sentiu as mãos de Harry em seus ombros a puxando rapidamente até que o rosto do menino estivesse encostado em seu pescoço, escondido do frio. Devagar enlaçou a cintura dele e o trouxe para mais perto. Nenhum dos dois disse algo, nem mesmo quando Harry a soltou e Gina lhe sorriu pegando sua mão e o levando pelo caminho de volta ao castelo.
Uma coruja saiu de seu poleiro e voou pelo céu nublado indo na direção contrária de Harry, diretamente para a janela aberta do castelo onde Snape estava parado olhando para as duas crianças que corriam no gramado gelado, de mãos dadas.
Harry só apareceu em seus aposentos de noite, após se afastar o máximo que pode das masmorras e desaparecer pelo máximo de tempo permitido, mas teve que voltar. Assim que entrou em seus aposentos viu Snape sentado em sua poltrona, seus olhos estavam direcionados para a lareira, mas não viam as labaredas, estavam desfocados. Harry se aproximou e se sentou no sofá ao lado. Nenhum dos dois falou por um tempo.
- Severus... – Começou Harry, mas logo foi interrompido pela voz baixa e fria de Snape.
- A vassoura que esqueceu no meu escritório está em seu quarto. Tenha uma boa noite.
Sem falar mais nada Snape se levantou e se dirigiu para seu próprio quarto trancando a porta ao passar. Harry suspirou e largou o corpo no sofá, Snape seria completamente difícil nesses dias e teria que aguentar calado. Suspirando deitou-se no sofá estendendo o corpo e estralando as costas, rapidamente dormiu imaginando o quanto aquela semana seria difícil.
E realmente fora.
Harry acordou na manhã de sábado sentindo-se péssimo. Desde o dia em que brigara com Snape em seu escritório o homem não lhe dirigia a palavra, nem mesmo quando perguntava alguma coisa ou forçava alguma conversa, nas aulas ele simplesmente o ignorava e não dormira uma única noite consigo. O obrigara a dormir sozinho em seu quarto frio. Pensava que pelo menos o sexo seria feito, tinham um contrato não tinham? Mas nem mesmo para isso Snape apareceu.
Péssimo, então, era apenas um apelido carinhoso para como se sentia naquele momento. Sem animo levantou-se e se arrumou. Snape não estava nos aposentos, provavelmente já subira para tomar café. Sim, ele estava em seu devido lugar ao lado de Dumbledore que parecia cada vez mais e mais doente, se bem que naquele dia ele estava extremamente contente. Harry só descobriu o motivo daquilo depois que se lembrou de que aquele dia era o dia do jogo que fora usado para se comemorar também o dia dos namorados que seria naquela semana, mas que os alunos não teriam tempo de perceber devido os exames.
Seguiu pelas mesas enjoando-se enquanto via os casais juntos, se beijando, se olhando e conversando abraçados enquanto outros conversavam rindo alto sobre o jogo iminente. Snape não o olhara em nenhum momento, parecia que Harry não existia, era apenas uma sombra perdida.
- Vem, Harry. – Chamou Gina se aproximando e pegando em sua mão. – Guardei seu lugar.
A menina o puxou até a ponta da mesa, a mais próxima da mesa dos professores e o fez sentar-se ao seu lado e empurrou um prato de comida que não tinha a menor vontade de comer, mas que fora obrigado a colocar para dentro. Hermione e Rony chegaram logo depois e se sentaram de frente para eles, Rony parecia sem saber o que fazer enquanto Gina conversava animadamente com Harry, mesmo esse lhe respondendo apenas com acenos de cabeça, e Hermione parecia furiosa olhando para Harry como se o entusiasmo da menina fosse sua culpa.
Mas Harry estava absorto a tudo isso, estava doendo demais a falta dos olhares dele para se prender a qualquer coisa que fosse além da esperança de que ele olhasse para si, o percebesse.
- Vamos Harry. – Chamou Gina aproximando-se e sussurrando em seu ouvido. – Vamos acabar com aqueles desgraçados.
A menina não esperou resposta apenas o puxou para se juntar a equipe que passava pelos corredores a caminho do campo de quadribol, a maioria dos alunos os aplaudia e gritava seus nomes, mas Harry só deu atenção para a sensação ruim em sua nuca, aquele olhar gelado que sabia estar plenamente em sua direção. Rapidamente virou-se e viu entre a multidão o olhar de puro ódio de Snape. Era um aviso, por mais que não estivesse falando com Harry, a ordem dada deveria ser cumprida. Deveria ficar sem jogar.
Mas....ele não se importa não é. Não se importou quando quase o machucou, não se importou quando parou de falar consigo e muito menos quando não ligou para seus sentimentos. Não seria, então, sua hora de não dar importância?
Sim, era sua hora.
A escola quase balançou de entusiasmo quando Harry levantou os braços e sorriu. Ele iria jogar e a Grifinória iria ganhar. Snape estava espumando de raiva.
Mas nada impediu Harry de subir em sua vassoura e alçar vôo vestido com seu uniforme de capitão e apanhador. Todos aplaudiram e seu peito encheu de prazer ao ouvir a gritaria. Sim, aquele era seu lugar, nunca deveria ter permitido que Snape dissesse o contrário, não podia sair dali, era eu cantinho, seu refugio. As equipes deram voltas no campo e em uma dessas voltas Harry mais sentiu do que viu o olhar negro e raivoso de Snape. Ele estava ali, iria assistir, provavelmente não conseguira impedi-lo de jogar e ficaria até o final para ai sim poder descontar em cima do menino toda a sua ira. Tudo bem, no entanto que Grifinória fizesse seu papel.
O jogo começou e Harry subiu até mais que os outros jogadores. Naquele momento não poderia pensar em Snape, sua mente tinha que estar completamente concentrada no pomo de ouro. Demorou um pouco para ver, mas finalmente o achara e disparara atrás daquele pontinho dourado passando pelas arquibancadas com velocidade que fazia as meninas tomarem um susto. Harry girou e deu piruetas doidas no meio do ar. Estava novamente no controle de tudo, menos do pomo que já havia fugido.
Pelo que conseguia ver nos raros momentos em que ficava parado, a Grifinória estava ganhando, mas por pouco. Precisava pegar o pomo o quanto antes. E eis que ele aparecera do outro lado, mas baixo o suficiente para que tivesse que passar pelos jogadores afoitos. Sem perder tempo Harry se colocou em movimento desviando-se por pouco dos outros jogadores. O pomo estava logo adiante, parado como se esperasse por Harry e logo atrás dele, na arquibancada, com olhos flamejantes estava Snape segurando a beirada com força enquanto o via chegar mais perto. Mas quando estava a apenas alguns metros de seu objetivo viu os olhos negros perderem todo o ódio e se expandirem em completa preocupação.
- Cuidado Harry! – Gritou um dos batedores.
Harry se virou com rapidez, mas não o suficiente. O balaço que a outra equipe mandara acertou em cheio suas costelas jogando-o para fora da vassoura. Harry caiu na areia do campo, mas não conseguiu situar-se de onde estava, uma dor lancinante fazia seu corpo tremer. Queria gritar, mas não havia fôlego e nem mesmo força. Encolheu-se abraçando o corpo e tremeu fechando os olhos com força. Madame Hooch parou o jogo e toda a arquibancada calara-se. Harry quase berrou ao sentir uma mão em seu braço.
- Calma, Harry. – Disse a voz de Gina enquanto sua mão acariciava seus cabelos. – Vamos te levar para a enfermaria. Vai ficar tudo bem. Chamem Madame Pomfrey!
Houve uma movimentação ao seu redor, mas não havia como dar atenção à ela, ainda doía demais. A única coisa que pensava enquanto Gina dizia que ficaria tudo bem e todos o olhavam com preocupação era que tinha que ficar tudo bem com sua filha. Sua filha.
- Saia da frente, Granger! – Vociferou Snape aproximando-se rapidamente e agarrando o braço da menina com tamanha força que Gina o sentiu queimar.
- Temos que levá-lo para a enfermaria, Severus. – Disse McGonagall chegando perto do rosto de Harry.
Dessa vez o carinho em seus cabelos veio de uma mão bem mais velha, já com a pele enrugada e Harry se surpreendeu ao perceber que era McGonagall quem fazia tal carinho. Snape não disse nada até que McGonagall sacou a varinha.
- Nem pense nisso, Minerva. – Disse Snape. – Não sabemos a extensão dos ferimentos dele, o uso de magia pode piorar a situação.
- Então deixe que eu o leve, professor. – Disse a voz rouca de Hagrid.
- Por favor, está doendo. – Gemeu Harry.
Snape não ligou para as exclamações dos alunos e nem os olhos surpresos dos professores. Apenas ergueu Harry em seus braços com o máximo de cuidado que podia ter em sua pressa para sair dali e andou em direção ao castelo. A multidão queria acompanhá-lo, mas Madame Hooch fez com que todos voltassem aos seus lugares, o jogo ainda não tinha terminado.
Harry sentia pontadas fortes em seu corpo, nem ao menos sabia de onde vinham, só sabia que estava com medo e dor. Muita dor. Snape tentou segurá-lo mais afastado de si para o caso de estar pegando em algum lugar ferido, mas Harry apertou seu pescoço com seus braços e escondeu o rosto em seu pescoço chorando copiosamente.
- Nossa filha, Severus. Não deixa que algo aconteça com ela.
- Está tudo bem, Potter. Estamos chegando.
- Está doendo, Severus. Severus! – Gritou Harry se apertando em seu corpo e mordendo o ombro do homem com força. Snape não reclamou. – Salva nossa filha. Por favor, nossa filha.
Snape quase corria em direção a enfermaria, ao chegar Madame Pomfrey já tinha tudo preparado para cuidar de Harry, pelo visto Dumbledore mandara um aviso para a mulher. Com rapidez Snape o levou até a maca indicada e colocou o menino deitado, mas os braços de Harry não se soltaram de seu pescoço.
- Potter, solte-me.
- Não, não me deixa, Severus. Por favor, fique aqui comigo.
- Potter, você precisa ser examinado. Solte-me. – Disse tentando soltar os braços do garoto, mas Harry os prendera com força e balançava a cabeça em negação. – Escute-me. – Disse Snape devagar fazendo Harry olhá-lo entre as lágrimas. – Eu não vou deixá-lo, estarei aqui. Mas precisa me soltar para que Madame Pomfrey examine você. – Apesar de suas palavras, Harry não queria soltá-lo e Madame Pomfrey já estava ficando nervosa. Precisava usar de outro artifício. – Então faça isso por ela, solte-me para que possam examinar sua filha, nossa filha. – Sussurrou Snape. – Pode fazer isso por ela?
Harry assentiu olhando nos olhos de Snape e foi soltando as mãos devagar até que estivesse completamente deitado e Madame Pomfrey pudesse lhe examinar.
- Preciso que todos saiam. – Disse a enfermeira. Rapidamente os professores saíram da sala e Snape estava virando-se quando Harry gritou mais uma vez fazendo-o voltar. – Preciso que saia também, Severus.
- Eu não vou sair. – Disse o homem olhando para o menino que se contorcia na cama.
- Severus...
- Eu não vou sair do lado de meu marido, Papoula. Ponto final.
Madame Pomfrey nunca tivera medo de Snape, nem mesmo quando esse vinha machucado e se negava a responder suas perguntas lhe dando olhares congelantes. Mas naquele momento a mulher quase tremeu ante o frio olhar do homem. Naquele momento percebeu em Snape o desespero de um marido e um pai.
- Então fique no canto da cabeceira tentando acalmá-lo e não me atrapalhe.
Snape se aproximou da cabeça de Harry e colocou sua mão no ombro do menino.
- Vai ficar tudo bem, Potter, mas precisa se acalmar par ser examinado.
Harry olhava-o com suplica, ergueu a mão e segurou a de Snape apertando-a com força, muito devagar assentiu e tentou respirar fundo algumas vezes. Madame Pomfrey retirou a roupa de Harry e passou a varinha por todo o seu corpo para fazer o diagnóstico, depois pediu para Harry dizer onde estava doendo enquanto apertava em locais estratégicos de seu corpo. Harry ia lhe dizendo, mas quando atingiu a costela próximo ao quadril o menino gritou apertando fortemente a mão de Snape que se sentia completamente inútil por não poder fazer nada além de olhá-lo sofrer bem na sua frente.
Depois de alguns minutos Madame Pomfrey fizera Potter tomar uma poção para dor e outra para curar a costela quebrada. Para felicidade de Harry a mulher lhe dissera que as costelas fizeram seu trabalho e impediram que o bebê se machucasse. No mesmo momento Harry se virou para Snape e sorriu.
- Ouviu isso, Severus? – Perguntou o menino visivelmente cansado. Havia suor escorrendo de seus cabelos. – Está tudo bem com nossa filha. Está tudo bem.
Harry caiu no sono assim que a poção fez efeito. Pomfrey o trocou e o arrumou na cama dizendo que o menino iria dormir pelo menos pelas próximas vinte e quatro horas até se recuperar totalmente. Snape se negou a voltar para o jogo. A enfermeira não podia fazer nada além de dar de ombros e se afastar fechando as cortinas ao redor da cama.
Snape retirou a capa e o sobretudo deixando-o no pé da cama do menino e se sentou em uma cadeira ao lado da cabeceira. Sem dizer nada e com receio de acordá-lo, mesmo tal receio sendo inútil, passou a mão pelo seu rosto limpando as últimas lágrimas e o suor. Retirou seus óculos e os colocou cuidadosamente na mesa ao lado antes de continuar passando seus dedos levemente pelo corpo do menino até finalmente atingir o ventre avantajado. Levantou a camisa do pijama dele e a deixou a mostra, virou a cabeça para o lado como se pensasse no assunto e então, muito cuidadosamente, se abaixou e colocou a cabeça ali em cima sem pesar o corpo. A princípio não havia nada, era apenas uma barriga maior que o normal, poderia até mesmo dizer que ele estava gordo, mas logo ouviu o barulho inconfundível de algo se mexendo e foi então que sentiu o aperto em sua alma.
Havia um filho seu dentro daquele ventre. Depois de tantos meses vivendo ao lado daquele menino ele finalmente acreditou que aquele bebê que um dia salvaria o mundo de uma segunda ameaça era seu filho, seu sangue. Precisava dele. Foi exatamente nesse momento, quando escutou novamente o barulho da movimentação mínima, que percebeu que sua preocupação nunca fora somente com Potter, mas era com ele também, o pequeno ser que ali dentro habitava e crescia. Uma emoção maior do que as que já se deixara sentir ao lado de Harry tomara seu corpo ao perceber o quão perto esteve de perder aquele mínimo pontinho de esperança. Sua esperança, seu filho.
Após colocar um feitiço para que ninguém o incomodasse e nem escutasse, retirou a camisa e o sapato colocando-os cuidadosamente na cadeira onde estivera. Após olhar para Potter novamente e fazer o possível para não acordá-lo, se deitou na cama com o menino e apoiou a cabeça na barriga dele escutando o barulho lá dentro até que finalmente dormiu e pela primeira vez em sua vida sonhou com os olhos verdes escuros de um bebê de cabelos negros. Sua filha.
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