A Lenda

24 Por favor, não me ame.


Notas iniciais
Oieeeee.... quero agradecer os reviews e os vários pedidos de atualização. Aqui está o capítulo 24. Espero que gostem..... Beijos e FELIZ NATAL PARA TODOS

Capítulo 24 – Por favor, não me ame.


No final do corredor das masmorras o professor Snape acabava de sair de seu escritório onde fora buscar alguns ingredientes para poder continuar a produção de sua poção. Guardou cuidadosamente os fracos na túnica e fez uma nota mental de que deveria ir até a Casa dos Gritos naquela noite dar continuidade à ela.

Assim que fechou a porta ouviu o burburinho dos alunos que voltavam para suas salas comunais afim de aproveitar o restante daquele sábado. Sua cabeça começou a doer com as vozes altas que vinham em sua direção, mas graças a sua imagem de professor carrasco os alunos baixavam suas vozes ao percebê-lo. Porém foi no meio de um sussurro que ouviu a frase que o paralisou no meio do corredor causando testas franzidas por parte dos sonserinos.

- O que será que aconteceu com Potter para que aquele idiota gigante tivesse que carregá-lo para a ala hospitalar?

Snape permaneceu quieto enquanto sua mente absorvia as informações dos outros alunos. “Acho que ele vai morrer, já parecia um cadáver mesmo.” “Você viu como ele estava sempre longe nas aulas, deve ser alguma doença, sei lá, também não me importo.”

As mãos do professor se fecharam com força enquanto seus olhos esquadrinhavam o chão de pedra que o levaria até a entrada principal e de lá para as escadas até chegar a ala hospitalar. Ele estaria lá, deitado em uma maca, desacordado com sua filha no ventre. Por um instante ficou em dúvida se devia ir vê-la, saber se a criança estava bem, mas resolveu simplesmente girar sobre os calcanhares e rumar para seus aposentos fechando-se no agradável vazio de sua sala silenciosa.

Esvaziando sua mente de qualquer dúvida que começava a surgir, se dirigiu ao bar e pegou um copo cheio de Whisky, porém quando ia dar o segundo gole uma fênix prateada apareceu diante de seus olhos. Snape não deu a menor bola para o patrono de Dumbledore e apenas verteu o líquido pela garganta sentindo-o rasgar o caminho por onde passava.

“Venha para a ala hospitalar. Agora!”

Snape sabia que deveria obedecer a ordem dada por Dumbledore. Amaldiçoando entre dentes levantou-se e passou pelo patrono espalhando sua fumaça pelo ambiente até que não houvesse mais vestígios do feitiço quente do diretor, só havia o frio de sua solidão. Sem mais delongas saiu de seus aposentos e rumou para a ala hospitalar. Seus passos diminuíam quanto mais chegava perto da porta, com receio estendeu a mão para a maçaneta e a abriu. Assim que entrou viu o corpo do menino em uma maca ao fundo da ala. McGonagall estava na cabeceira acariciando os cabelos revoltos dele, Hagrid se afastara um pouco para deixar Madame Pomfrey o examinar, Rony estava sentado na outra maca apenas olhando, Dumbledore ficou no pé da cama e Hermione Granger olhava diretamente para seus negros olhos com um ódio vivo que jamais vira na menina e nem achava que ela era capaz de sentir. Sem se mexer um único centímetro viu a garota se levantar da cadeira onde estava e avançar dois passos antes de apontar o dedo em sua direção.

- Você! – Sibilou entre dentes. – Você é o culpado de tudo isso que está acontecendo com Harry.

- Hermione! – Exclamou Rony se levantando com os olhos arregalados de surpresa. Hermione era a última pessoa no mundo que falaria dessa forma com um professor a não ser Umbridge.

- Senhorita Granger! – Disse McGonagall olhando-a sem acreditar no que estava vendo.

Hermione não se importou com as exclamações e avançou como uma fera na direção de Snape que ainda não se mexera.

- Harry está morrendo por sua culpa, ele não come e nem dorme direito. Não tem noção do que causou a ele?

- Nem ao menos reparei. – Debochou Snape simplesmente.

Hermione sentiu as palavras atingirem seu estômago e revirarem seu almoço. Como podia aquele homem ser tão frio e sem alma? Como Harry pudera amá-lo a ponto de entregar-se por completo deixando em suas mãos sua própria vida?

- Seu miserável! – Gritou a menina batendo os pulsos no peito de Snape e o fazendo dar um passo para trás antes de agarrar os pulsos dela e os prenderem com força. – Você não merece estar com ele, não merece receber o amor de Harry. Ele te deu tudo e em troca você apenas o observa morrer, seu desgraçado.

- Olhe seus modos, Granger! – Disse Snape entre dentes. – Não vou tolerar essa sua petulância, não é minha culpa se o idiota de seu amigo não coloca a comida necessária na boca.

- ELE É SEU ESPOSO! – Estourou a menina. – Você deveria cuidar e zelar por ele, protegê-lo de tudo, até dele mesmo ou de você. Ele está morrendo porque ama você, bastardo!

- Alvo, faça alguma coisa! – Exclamou McGonagall.

- Deixe-a, algumas verdades devem ser ouvidas e nem sempre sou eu que tenho que dizê-las.

- Já chega, Granger. Uma única palavra a mais e a Grifinória perderá todos os pontos. – Disse Snape.

- Eu estou pouco me lixando para esses pontos. Ao contrário de você eu coloco Harry na frente de qualquer dessas coisas. Mas você não pode fazer isso, você tinha que se dominar por um ciúmes infantil e patético fazendo com que o menino que carrega o seu filho caísse em desgraça, e pior ainda, por uma coisa que ele não fez. Será que não entende? Harry só tem olhos para você. Gina não é nada para ele, nunca aconteceu nada entre eles. Eu juro, professor Snape, que se algo acontecer com Harry...

- Senhorita Granger, já chega. — Dessa vez a voz veio baixa e rouca, era a voz cansada que Dumbledore trazia naqueles dias. Imediatamente Hermione se livrou das mãos de Snape e se dirigiu porta a fora. – Devido as circunstância nenhum castigo será dado para a menina, porém sugiro que vá encontrá-la senhor Weasley, acho que ela precisará de seu apoio.

Rony concordou com a cabeça e saiu atrás de Hermione pelos corredores do castelo pensando que finalmente ela perdera completamente a cabeça. Dentro da ala hospitalar Dumbledore olhava intensamente para Snape que se aproximou devagar sem olhar para o menino uma única vez.

- Peço que todos saiam, por favor.

- Certo, vamos Hagrid. – Chamou McGonagall para o meio gigante que hesitou olhando para o menino. – Vamos, eu o manterei informado de como ele está.

- Tudo bem.

Hagrid saiu na frente da professora, mas não pode evitar lançar um olhar duro e indignado para Snape. McGonagall fechou a porta e Dumbledore permaneceu olhando para Snape até que Madame Pomfrey se aproximou.

- O menino está bem, foi só uma perda de sentidos devido o estresse e má alimentação. Claro que poderia ter sido bem pior, mas graças a Deus os dois estão bem, a criança está se desenvolvendo bem e deverá nascer daqui a umas cinco ou seis semanas.

- Que bom. – Disse Dumbledore aliviado.

– Que bom mesmo, mas ele está em uma situação emocional delicada e precisará de cuidados. – Nesse momento a enfermeira se virou para Snape e balançou a cabeça. – Pensei que fosse mais responsável, Severus. Estou extremamente decepcionada com você.

- Não ligo a mínima para o que sente, Papoula, você não está aqui para sentir, está aqui para tratar pacientes.

- Chega. – Disse Dumbledore. – Agradeço pela avaliação e os cuidados, Papoula, mas peço que me deixe sozinho com Severus, por favor.

- Claro diretor. – Disse a enfermeira antes de virar as costas e entrar em sua sala.

Dumbledore lançou um feitiço silenciador no ambiente e aguardou um pouco antes de voltar seu olhar para Snape. Ao observá-lo pode ver nitidamente o quanto ele se concentrava para manter a máscara de indiferença enquanto ainda fingia que o menino não estava ali. Lembrou-se das palavras duras que ele lhe jogara na cara quando todo esse sofrimento começou.

“Nunca mais me faça acreditar em suas palavras, Dumbledore. Elas são falsas. Fique com o seu amor, eu ficarei com minhas obrigações.”

Obrigações que estavam cada vez mais perto dele. O nascimento de sua filha e o cumprimento da missão de Draco. Dumbledore deu um passo a frente e tocou em seu rosto com a mão doente. Snape franziu as sobrancelhas enquanto os olhos azuis o esquadrinhavam. Odiava quando o diretor fazia aquilo, sabia que o sábio homem veria muito mais do que sua perda de peso e olheiras fundas. Antes de falar Dumbledore acariciou o rosto do homem e lhe sorriu fraco.

- Não sabia que ele havia penetrado tão fundo em sua alma.

- Isso não importa mais. – Sussurrou Snape. – Logo tudo estará acabado.

- Então aproveite enquanto pode.

- Esse é o problema, eu não posso.

- Severus, meu filho, não estrague a oportunidade que você tem, o pouco tempo que tem. Eu sei o que é ter que afastar-se de quem se ama e o quanto dói.

- Basta! – Disse Snape entre dentes. – Sinto muito Dumbledore, não posso fazer isso. Não posso.

Snape deu as costas para seu mentor e saiu da ala hospitalar pisando duro no chão de pedra rumo ao jardim. Ao chegar no primeiro andar avistou Rony e Hermione conversando baixinho, a menina fez menção de lhe dirigir a palavra, mas Snape se adiantou sem nem mesmo parar de andar.

- Melhor segurar a boca grande de sua namoradinha, Weasley, se não quiser que ela se arrependa mais do que sua irmã.

O homem viu pelo canto dos olhos o ruivo afastar a menina tentando acalmá-la. Sem se importar com eles ou com qualquer um que aparecesse na sua frente, Snape rumou pelo jardim até o salgueiro lutador. Com habilidade o paralisou e se esgueirou pela entrada indo parar no túnel úmido e estreito que o levaria diretamente para o andar térreo da Casa dos Gritos. Ao pisar na madeira podre daquele casarão velho sentiu o peso do ar abafado e abraçou a solidão que fizera-lhe companhia durante essas últimas semanas em que manteve-se distante dele segurando a tentação de se aproximar.

Sem pressa dirigiu-se para o canto de sempre e se sentou no chão sujo ao lado do caldeirão fumegante que infelizmente ainda não estava pronto. Mas estaria, faltava pouco tempo agora. Respirando profundamente encostou a cabeça na parede e fechou os olhos se atrevendo a relembrar as últimas semanas. Ali, sozinho e longe de tudo e de todos, ele poderia afogar-se nas dúvidas.


Forgive Me (Me perdoe)

Can you forgive me again? (Você pode me perdoar novamente?)

I don't know what I Said (Eu não sei o que eu disse)

But I didn't mean to hurt you (Mas eu não pretendia magoar você)

I heard the words come out (Eu ouvi as palavras saírem)

I felt that I would die (Eu senti como se fosse morrer)

It hurts so much to hurt you (Dói tanto magoar você)

Then you look at me (Então, você olha para mim)

You're not shouting anymore (Você não está mais gritando)

You're silently broken (Você está silenciosamente magoado)


Viu nitidamente as imagens de Potter chorando ajoelhado aos seus pés implorando perdão. Lembrou-se do ódio que sentiu pela humilhação falsa, recordou suas palavras ferinas mandando-o se afastar. Lembrou-se de tudo isso e se arrependeu.

Três dias após o acontecido Harry parou de pedir seu perdão, ele apenas sentava perto de onde estava e o olhava com lágrimas nos olhos até que adormecesse ou que o visse se levantar e ir embora. Sabia que ele não estava comendo, o via todos os dias no salão principal e por mais que desse apenas pequenas olhadas aparentemente insignificantes conseguia ver mais do que queria. Com o passar dos dias Harry tornara-se nada mais que um ser sem alma que respirava por que era necessário e somente por isso. Não havia mais cor em seu rosto, só palidez, seus olhos viviam perdidos e sem rumo, apenas duas bolas verdes e opacas.

Tinha vezes em que quisera lhe chacoalhar os ombros e pedir que acordasse e percebesse que tudo aquilo no fim iria ser para seu bem. Mas não fez nada, apenas o assistiu definhar bem na sua frente em um pedido mudo de ajuda. Ele o deixou ir.

- Ah, Potter, se você soubesse.

Sussurrou Snape lembrando-se do momento em que deu uma detenção para Gina Weasley e a levou para o armário de estoques a fazendo lavar todos os potes como Harry fizera, porém dessa vez obrigara a menina a limpar sem as luvas dia após dia até que tudo ficasse limpo a seu gosto. Sentia euforia quando ela o olhava com ódio após alguma ofensa feita gratuitamente e por vezes sentiu medo vindo do corpo dela. Gostava disso, sentia prazer em tê-la em suas mãos. Quando não havia mais o que usar para quebrá-la resolveu atacar da forma que mais gostava.

- Senhorita Weasley se aproxime, preciso de sua ajuda.

Gina olhou de soslaio para Luna com clara preocupação, sabia que não tinha nada bom lhe aguardando, muito menos com Snape sorrindo-lhe. Porém engoliu o medo e se adiantou com a varinha nas mãos.

- Pode guardar a varinha, não vai precisar dela.

- Quero ficar com minha varinha, senhor.

- Você não tem querer na minha sala.

- Ainda assim quero ficar com ela. Ei! – Exclamou a menina quando sua varinha voou diretamente para sua mão.

- Vinte pontos a menos para a Grifinória por sua petulância. E não se preocupe com sua varinha, devolverei, assim que...acabar com a senhorita.

Assim que a menina se aproximou Snape tratou de informar aos alunos que a aula seria sobre as maldições imperdoáveis. Uma delas claramente não poderia ser ensinada, mas poderia demonstrar os efeitos das outras duas. Sentindo sua mão coçar com ansiedade Snape apontou a varinha para a menina e saboreou o doce gosto da maldição.

- Crucio!

Os alunos exclamaram quando Gina Weasley caiu no chão se contorcendo e gritando. Ah! Como era doce o sabor da vingança. Os olhos negros brilharam ao sentir a maldição se intensificar conforme descontava na garota toda a dor que ela lhe causara. O alívio apareceu quando sentiu que a menina estava perdendo os sentidos, rapidamente cessou a maldição da dor e recitou a outra.

- Império!

Com gosto fez a menina se levantar e parar na sua frente. O olhar dela era de pura exaustão, mas Snape ainda precisava de mais uma coisa. Aproximou-se devagar e sussurrou a ordem.

- Agora se ajoelhe e me peça perdão.

Gina não se deteve e embaixo de exclamações indignadas, se ajoelhou perante Snape.

- Peço se perdão, senhor.

- Acho que não ouvi, senhorita Weasley.

- Peço seu perdão, senhor.

Snape sorriu de canto ao se abaixar próximo a menina. Seus olhos ferviam de satisfação por vê-la tão a sua mercê, tão acabada e humilhada. Sem emitir um único som cessou o feitiço e sibilou em seu rosto.

- Eu não a perdôo.

A menina o encarou com ódio e se levantou. Snape ouvia as exclamações indignadas dos alunos e não ligou para as ameaças de que iriam contar a Dumbledore. Sabia que a menina Weasley era orgulhosa demais para deixá-los contar algo.

- Classe dispensada. – Disse Snape antes de sair da sala.

Dito e feito. Gina não contara a ninguém e fez todos os alunos prometerem não abrir a boca quanto ao ocorrido. Ela não passaria por fraca, mesmo que aquela tortura a fizesse ter pesadelos e dormir muito mal. Sabia que Dumbledore teria conhecimento disso, mas se teve mesmo então estava ocupado demais para dar atenção. O tempo estava acabando.


I'd give anything now (Eu daria qualquer coisa agora)

To kill those words for you (Eu mataria aquelas palavras para você)

Each time I say something I regret (Cada vez que digo alguma coisa de que me arrependo)

I cry, I don't wanna lose you (Eu choro, eu não posso perder você)

But some how I know (Mas de alguma maneira eu sei)

That you will never leave me, yeah (Que você nunca vai me deixar)

'Cause you were made for me (Porque você foi feito para mim)

Some how I'll make you see (De algum modo eu farei você ver)

How happy you make me (O quanto você me faz feliz)

I can't live this life (Eu não posso viver essa vida)

Without you by my side (Sem você ao meu lado)

I need you to survive (Eu preciso de você para sobreviver)


Acabando e passando rápido demais como percebera naquela noite ao voltar para seus aposentos. Após sua vingança algo fora embora, o deixou, algo que o nublava e o deixava cego para tudo que não fosse seu ódio e sua sede de vingança. Agora a vingança fora feita e o ódio se dissipara. Quando adentrou os aposentos sentiu o quanto ele estava frio e silencioso mesmo com Harry sentado no sofá. Aquela fora a primeira vez que reparara em seu real estado, foi ali que viu o estado cadavérico a que o menino se encaminhava.

Desviou seus olhos quando o menino o encarou, mas não foi rápido o suficiente, ele viu o quão fundo era o buraco negro que e abrira em seu olhar enterrando o calor que antes o tomava. Harry permaneceu sentado apenas o olhando sem se mexer ou falar, às vezes nem sabia se ele estava respirando. Sua mente trabalhava com a tentativa de não ligar para ele, apenas permanecer duro e frio, mas quando a imagem antiga do sorriso simplório que ele lhe entregava sem um real motivo escapou de sua fortaleza e adentrou sua mente causando-lhe saudade do calor dele, Snape quase saiu de sua poltrona para abraçá-lo e o beijar, mas no último segundo antes de perder o controle seu braço ardeu indicando que necessitava encontrar seu Lord. Assim como entrou, ele saiu, calado e frio.

Quando voltou já era de manhã, o café já havia acabado. Harry não estava em seus aposentos, provavelmente se preparava para a primeira aula. Snape se arrumou e rumou para a sala de aula. Os Grifinórios do sexto ano estavam todos devidamente sentados e aguardando. Ao entrar seus olhos esquadrinharam a sala e o encontraram na última carteira, ao lado de seu amigo ruivo e atrás da sabe-tudo. Sem interesse algum passou feitiços avançados para os alunos e os mandou praticarem, como sempre Harry continuou sentado em sua carteira no fundo, mas ao contrário de antes seu olhar não estava mais atento e brilhando de orgulho pelos amigos, agora ele era perdido e vazio.

Snape tentou não olhar para o menino, ele lhe dava raiva, pois não era para ser assim, ele deveria ficar com raiva do que acontecera, talvez tentar uma reconciliação no começo apenas por obrigação e então desistir e voltar a ser um garoto petulante, mas ele somente ficava estático e sem ação. Suas palavras eram cruas e sua atenção, dispersa. Harry Potter definhava e caminhava para a morte. E tudo isso bem na sua frente.

Mas por quê? Se era falsidade ele deveria apenas desistir. A não ser que...

- Não. – Disse pensando alto. – Não pode ser. – Completou lembrando-se da reunião na noite anterior.

Apenas mais duas semanas para que Draco terminasse o que estava fazendo e o obrigasse a finalizar sua obrigação e perdesse Harry assim que o Voto Perpétuo não fosse quebrado.

Snape ficou em seu laboratório o restante da tarde terminando as poções que Pomfrey lhe dera. Quando saiu de perto dos caldeirões fumegantes já havia passado e muito da meia noite. A sala estava vazia.

- Dobby.

- Chamou, mestre Snape? – Perguntou o elfo que apareceu a sua frente com diversos gorros em sua cabeça que quase caíram ao fazer sua reverência.

- Sim. Ele dormiu?

- Sim, meu senhor. Dobby deu a poção para que Harry Snape dormisse assim como o senhor ordenou e depois fiz massagem nos pés de Harry Snape para que desinchassem. Harry Snape está dormindo pesado, meu senhor.

- Ótimo, pode ir, quando eu precisar o chamarei.

- Sim senhor, mestre Snape.

O elfo sumiu em um estralo de dedo, Snape ainda permaneceu um segundo parado antes de se adiantar e entrar no quarto do menino. Mais uma vez sentiu frio, um frio que não vinha do quarto e sim do próprio garoto que naquele momento estava dormindo sentado devido a grande barriga que o atrapalhava. Devagar se aproximou e se sentou ao seu lado. Antes de qualquer coisa que pudesse pensar sua mão se adiantou para a testa dele e afastou uma mecha atrevida que voltou para o mesmo lugar. Desistindo desceu o dedo pelo rosto magro e sentiu o quão funda estavam suas maçãs do rosto. Prestou atenção às olheiras negras e as odiou, manchavam a perfeição daquele rosto. Olhando para aquele menino adormecido, entrelaçando seus dedos aos dele e encostando seu rosto em sua bochecha fria, Snape abriu todas as trancas de suas lembranças e as deixou invadi-lo.

Harry assustado no estoque de poções, atordoado ao saber do casamento, os olhos trêmulos ao caminhar para o altar, o primeiro doce toque em seus lábios e então Grécia. Lembrava-se nitidamente do desespero dele em sua primeira vez e como sua própria pele arrepiou ao invadi-lo. O desejo que tanto tentava esconder enquanto Harry cavalgava em seu colo, o como achou que sua mão encaixava-se perfeitamente em seu traseiro macio.

Tudo chegava em enxurradas.

O sorriso gratuito, a preocupação com seu bem estar, os braços quentes após o pesadelo e o amor que tanto lhe demonstrou e provou com sua dor, o amor que o fez sofrer e definhar.

- Não me ame, Potter. – Sussurrou afastando o rosto para vê-lo adormecido. – Porque eu não posso te amar.

Com carinho levou seus lábios até a testa marcada pela cicatriz em raio e a beijou suavemente.

- Sinto muito.

Após suas palavras pararem de reverberar nas paredes cruas Snape desceu sua mão para a barriga do menino e quase imediatamente a sentiu mexer, um pequeno e fraco chute que fez sua mão tremer.

- Me desculpe também. Não poderei continuar, mas você ficará bem. – Disse aproximando-se do local chutado. – Eu não serei bom para você, eu não sou bom para ninguém. Adeus.

Saindo de seus devaneios e voltando ao mundo real, Snape olhou para o caldeirão já faltando pouco tempo para sua conclusão. Por sorte a teria engarrafada no dia. Sabia que não poderia vê-la crescer, não estaria lá quando seus olhos se abrissem, não ouviria suas primeiras palavras ou a seguraria quando caísse ao tentar andar. As divindades da infância de sua filha não lhe pertenciam. Não poderia ficar ao seu lado e a proteger do mal que tanto assombra o mundo, mas poderá ao menos presenteá-la com a poção. Seria pouco, mas é o que podia dar à ela.

Piscando forte levantou a manga de sua camisa e viu a marca negra nítida e forte demonstrando o quanto Voldemort estava feliz.

Uma semana, apenas mais uma semana.

Uma semana que passou extremamente rápido. Harry saiu da ala hospitalar embaixo de broncas de Promfrey e McGonagall. Acabou jurando que se alimentaria bem e não voltaria a ficar daquela forma, mas era difícil cumprir com sua palavra quando continuava sendo ignorado por Snape que fazia o possível para não ficar no mesmo ambiente que Harry. Pelo menos não até o dia em que Dumbledore lhe chamara em sua sala para lhe dizer que sairia com Harry no dia seguinte e que deveria se preparar.

Naquela noite, após sair do escritório de Dumbledore, Snape rumou pelos corredores vazios. Sua mente entrava em colapso. Faltavam menos de vinte e quatro horas para que fosse embora, para sempre. Seus passos vacilaram quando passou na frente de uma sala onde fodera Potter nos míseros cinco minutos antes do almoço. Ao parar diante dela e tocar em sua superfície com a ponta dos dedos sentiu a vibração gostosa das lembranças daquele corpo.

O lábio inferior de Snape foi fortemente mordido enquanto se amaldiçoava por descobrir aquela brecha no contrato nupcial que permitia não ocorrer o coito no período de gravidez ou em caso de traição. Se não fosse idiota de se fechar para o ódio perceberia que o menino não tinha culpa e que nunca houve uma traição, e então poderia ter desfrutado mais das caricias dele.

Sua boca secou com a sede de sua pele, lábios e...

Precisava dele uma última vez, precisava tê-lo antes de tudo acabar.


So stay with me (Então, fique comigo)

You look in my eyes (Você olha nos meus olhos)

And I'm scream ing inside (E eu estou gritando por dentro)

That I'm sorry (Que eu sinto muito)

And you forgive me again (E você me perdoa de novo)

You're my one true Love (Você é meu único amor de verdade)

And I never meant to hurt you (E eu nunca pretendi machucar você)


Notas finais
Feliz Natal!!!!!!!!!!