A Lenda
41 Olhe para mim
Notas iniciais
AVISO: Capítulo tenso....
Capítulo 41 – Olhe para mim
O clarão do feitiço foi tão forte que machucou seus olhos e o derrubou no chão com um baque. Urrou com a mão diante do rosto tentando enxergar, mas era impossível, estava tudo muito claro e a luz chegava a atravessar as brechas de seus dedos. Com esforço se arrastou para longe da luz e esfregou os olhos com as mãos tentando em vão fazer voltar sua visão. Sabia que não conseguiria tão cedo, não enquanto aquela luz continuasse tão intensa. Estava realmente impressionado, jamais viu um feitiço tão forte quanto aquele, nem mesmo quando o Lord lançou seu feitiço contra as defesas de Hogwarts derrubando os esforços dos professores e alunos.
Demorou ainda alguns minutos para que a luz diminuísse e conseguisse por fim visualizar alguma coisa. Sentia o vento do poder balançar seus cabelos agora sujos e embaraçados. Levantou-se e se aproximou de uma árvore onde se apoiou e respirou fundo sentindo o corpo protestar contra a magia poderosa que se desprendia no ar. O que estava enfim acontecendo? Perguntou-se piscando com força enquanto a luz se dissipava e lhe dava completa visão do campo de batalha a sua frente.
Engoliu em seco ao olhar para a clareira que se abriu no meio das árvores que antes habitavam aquele recinto, árvores antigas e fortes que no momento dissipavam-se no ar como partículas de pó, um pó negro que grudava em sua pele suada sujando-o. Com temor deu um passo a frente e se aproximou do homem com a varinha erguida. Olhou para seu rosto e o viu talhado a ferro e lava, duro como rocha e tão penetrante e afiado como uma adaga de prata. Seu olhar estava fixo adiante, exatamente para o ponto em que sua varinha apontava. Não quis olhar para o local imediatamente, tinha até medo de saber o que havia acontecido, pois em seus anos de vida, em sua experiência de bruxo e conhecimento de magia jamais houvera um poder tão forte quanto aquele. Talvez Dumbledore ou Voldemort conseguisse, mas não se lembrava de jamais terem demonstrado tal poder.
Ao olhar mais atentamente percebeu que havia algo muito diferente no homem, o conhecia há anos, desde quando ainda era um menino mirrado que vivia maltratado por grifinórios nojentos e medíocres que não tinham nada melhor para fazer do que se mostrar para as meninas, inclusive para a menina que ele gostava. Suspirou quando os lábios finos do homem tremeram e viu pela primeira vez, ou melhor, sentiu pela primeira vez tudo que ele aguentara e passara até aquele momento pela mulher que jurara aos pés do Lord não ser nada mais do que uma trouxa imunda que merecia morrer e que agora passava com o filho dela. Sabia disso por que ele também amava, amava sua família tão fortemente que seu maior desejo era simplesmente sumir daquele local, com eles seguros embaixo de suas asas.
- Severus.
O sussurro saiu de seus lábios baixo e trêmulo. Snape ainda continuava parado com o braço esticado e com a varinha tão apertada em sua mão que seus dedos chegavam a ficar brancos. Devagar deu um passo a frente e ergueu a mão tocando com cuidado no ombro dele. Seus olhos cinzentos arregalaram-se com o nível de magia que ele transmitia em seu corpo. Rapidamente recuou a mão sentindo-a formigar, mexeu seus dedos tocando as pontas uma na outra, impressionado com o que sentia.
- Severus, o que aconteceu com você?
Snape não respondeu, apenas baixou o braço devagar com a varinha ainda bem presa em seus dedos e respirou fundo virando-se lentamente para encarar Lucius que não recuou ou virou a cabeça, apenas engoliu em seco ao olhar para o rosto com traços duros, queixo travado e lábios cerrados. Os olhos negros brilhavam e era um brilho estranho que parecia não fazer parte dele. Sinceramente sentia medo daquele Snape a sua frente com olhos infernais e extremamente perigosos. Sem dar atenção a boca aberta do loiro Snape deu um passo a frente e depois outro caminhando em direção ao meio da clareira que se abriu pelo seu feitiço. Lucius quase correu para acompanhá-lo, seus pés estavam escorregadios e suas pernas trêmulas, mas ainda assim não parou de andar.
Enquanto chegava a tropeçar nas raízes das árvores, Snape, que ia a sua frente, caminhava com a cabeça erguida e os olhos fixos em um ponto a frente que ainda não tinha conseguido identificar devido a fumaça que não se dissipara. Ao chegar mais perto percebeu que aquilo não era fumaça e sim uma substância estranha e pegajosa que grudava em seu rosto e mãos deixando a pele oleosa.
- O que é isso? — Sussurrou mais para si do que para Snape erguendo a mão em frente aos olhos.
- Isso. — Disse Snape com sua voz profunda. — É Belatriz.
Lucius arregalou os olhos e baixou a mão olhando assustado para o homem que parara de andar e ficou em pé a sua frente simplesmente olhando para um ponto escuro no meio do circulo aberto. Ao desviar os olhos de Snape percebeu que havia ali um circulo perfeito originado de um ponto central marcado com uma cor preta. Devagar se aproximou daquele ponto, as árvores ao redor foram simplesmente destruídas e muitos galhos encontravam-se jogados no chão como se arrancados com brutalidade e descartados de qualquer forma. Rodou sobre os pés e procurou por todos os lados por Bela, mas a mulher não estava em lugar algum que seus olhos pudessem enxergar e nem mesmo seu nível de magia podia ser sentido.
- O que fez com Belatriz? — Perguntou voltando-se para o homem diante de si. Snape nem mesmo gastou tempo com resposta, apenas guardou a varinha no bolso do sobretudo e passou ao lado do homem seguindo o caminho para seu destino. — Ei, espere.
Lucius correu atrás do homem e ao chegar perto segurou seu braço fazendo-o virar e encará-lo. Ao contrário do que pensava, não encontrou o ódio perigoso no olhar dele, na verdade não havia nada ali para ser encontrado. Snape o olhou sem interesse e aguardou, quando Lucius não disse nada apenas puxou seu braço das mãos dele e continuou a andar.
- O que fez com Belatriz? — Perguntou novamente agora parando diante do homem e colocando a mão em seu peito para fazê-lo parar. — Responda.
O olhar de Lucius era intenso, ele exigia uma resposta e Snape não o deixou sem. Olhou de sua mão grande e suja postada em seu peito diretamente para seu rosto cansado e maltratado. Sentiu pena de Lucius naquele momento, mas não demonstrou em atos ou palavras apenas disse o que o loiro precisava ouvir.
- Ela se foi Lucius. Teve o que mereceu, Belatriz não existe mais em corpo e muito menos em alma. Vá atrás de Draco, pegue sua mulher e vão embora, ou façam o que quiser, mas não entre em meu caminho.
- Onde vai?
A pergunta que Lucius fez ao ver Snape continuar seus passos adiante foi desnecessária, pois já sabia para onde ele iria. Snape caminhava livremente para os braços de Voldemort sabendo o que o Lord faria, pois sabia em seu intimo que independente da ajuda que Snape pudesse lhe dar, aquele seria seu último encontro com o Lord das Trevas. E mesmo assim, mesmo com o conhecimento do que o homem faria após ter o que queria, ele não recuou, continuou andando calmamente, se embrenhando no intimo da floresta, em sua escuridão opressora. Severus caminhava sem medo e sem esperança. Lucius balançou a cabeça devagar.
- Não acredito que fará isso por ele.
Snape parou sua caminhada ao ouvir o sussurro de Lucius e devagar virou-se para trás olhando-o inteiramente em seus olhos surpresos e confusos. As palavras saíram tão verdadeiras de sua boca que chegou a impressioná-los por um único segundo.
- Você não sabe o que eu sou capaz de fazer por ele.
Sem mais palavras Snape continuou sua caminhada para dentro da floresta encontrando sozinho o caminho que o levaria para as garras afiadas do Lord, em sua mente deixava a imagem de Lucius se desintegrar como fizera com Belatriz. Desejava que ele conseguisse encontrar seu filho e sua mulher, que fosse embora de tudo isso e conseguisse se erguer, mas no fundo na verdade não se importava com isso. Nada mais importava, nem mesmo essa guerra de merda que a cada segundo matava mais um inocente deixando seus corpos caírem ao chão sangrando. As portas do inferno foram abertas e enquanto os demônios saiam de seu lar para brincar ele adentrava ao local sem receio.
Sentiu embaixo de seus pés o assoalho velho da casa dos gritos ranger baixinho, era um som mínimo, mas que bastava para que o Lord soubesse de sua presença. Agora não adiantava tentar voltar e nem mesmo queria, não havia para o que voltar. Harry jamais seria seu até o fim daquele ser e o fim dele só se daria com o seu, então para que alimentar esperanças? Para nada. Escolheu não pensar em Harry, já havia pensado demais, deixou esquecido como se não existisse e preferiu se lembrar, ou melhor, imaginar pela última vez como seria sua filha. Seus passos eram lentos enquanto subia os degraus se dando tempo para ver em sua mente os olhos intensamente verdes e os cabelos escuros como os de Harry caindo graciosamente em suas costas, talvez até formassem alguns cachinhos. Em sua mente ela seria igual a Harry, pois ela merecia sempre tudo que fosse bom e ele não era. Sorriu de leve com o sorriso que ela lhe dera em sua mente formando covinhas em suas bochechas rosadas e o olhando com as esmeraldas enormes brilhando. Seus lábios formaram a palavra de despedida que não foi sonoramente emitida um segundo antes de colocar tudo no lugar e entrar na sala onde Voldemort o aguardava.
O Lord estava em pé diante de uma janela lacrada com tábuas, mas que tinha brechas grandes permitindo que os olhos vermelhos se deleitassem com a intensidade das luzes na escola, indicando claramente a guerra que se seguia. Ficou parado no batente da porta velha e caída, apenas aguardando que seu mestre lhe desse as ordens necessárias. Estava próximo agora, podia sentir em seu âmago que o fim sussurrava em seu ouvido e quando o Lord virou-se e o encarou teve completa certeza de que não tinha muito mais o que fazer a não ser manter-se firme até conseguir cumprir com seu dever.
Harry sentiu seu peito arder como se enfiassem uma lança em chamas por sua carne fritando sua pele, músculo e órgãos. Era assustador, conseguia ver o corredor sujo e em pedaços ao mesmo tempo que o alto da colina onde a cobra se enrolava aos seus pés chiando nervosa.
- Harry?
A voz que entrou em seus ouvidos não era a voz que pertencia ao rosto adorável de Hermione que segurava seus braços, muito menos de Rony que o olhava preocupado. Aquela voz era a voz nasalada e irritante de Belatriz. Fechou os olhos e gritou tentando expurgar de si o toque que sentiu das mãos da mulher em seu braço. Mas quem estava lhe segurando era Hermione, sua amiga, não podia sentir nojo dela. O que estava acontecendo? Seu grito saiu alto e sua cabeça latejou até que finalmente as imagens cortantes acabaram e o deixaram sozinho naquele corredor com Rony e Hermione o olhando preocupados.
- Harry, o que houve?
- Ele sentiu. — Ofegou recompondo-se e se levantando. — Quando destruímos a última Horcrux, ele sentiu.
- Então conseguimos? — Perguntou Rony.
- Não, ainda falta a cobra.
Hermione olhou para Harry com a culpa visível no olhar, mas logo tentou disfarçar. Ainda não era a hora de contar a ele sobre o que deveria fazer, Snape foi bem claro de que só deveria contar quando Nagini estivesse morta, somente nesse momento ele deveria saber. Mas como contaria? Não havia um modo fácil de virar para seu amigo e dizer que ele precisaria se matar, ou pior, se sacrificar. Será que um dia as palavras sairiam de seus lábios? A resposta não era fácil de encontrar. Não sabia se conseguiria dizer-lhe o que deveria fazer, mas precisava. Precisava contar com toda a coragem Grifinória que o chapéu seletor viu nela.
- Ache-o, Harry. — Escutou Rony falando. — Ache-o e acharemos a cobra, assim poderemos matá-la de uma vez e então acabar com tudo isso.
Harry não queria fazer aquilo, doía e o deixava esgotado, mas sabia que precisava encontrá-lo e que somente ele conseguiria isso então apenas fechou os olhos e liberou sua mente. Quase no mesmo instante visualizou aquele local tão degradado e esquecido, quase pode sentir o cheiro de mofo e o quanto o ar era abafado ali por causa das madeiras que fechavam as saídas e janelas. Lembrava-se nitidamente de como era aquela casa, tão velha e marcada pelas garras de Lupin que conseguiam arrepiar sua pele. Sua nuca arrepiou ao ouvir a voz dele, a imagem era desfocada e distante, mas ainda assim foi possível distinguir a figura de Voldemort andando de um lado para o outro enquanto observava o próprio braço.
Assistiu com o coração acelerado o tapa que Malfoy sênior levou em seu rosto cansado com barba para fazer, Voldemort dava-lhe uma ordem clara que não conseguiu ouvir. Suas mãos fecharam-se em punho com a força que fazia para adentrar mais ainda na mente dele e conseguir ouvi-lo enquanto falava com Malfoy. Seu corpo arqueou-se com o máximo de força que fez, doía, mas pelo menos deu o resultado que desejava, as imagens ficaram nítidas e era possível ver a gota de suor que descia do rosto de Malfoy enquanto seus olhos se arregalavam ao pedido de seu mestre.
- Traga-me Severus, agora.
- Não!
- Harry, calma.
Rony lutava com o menino enquanto Harry se debatia e gritava dividido entre a sua mente e a mente do Lord. O ruivo teve que segurar fortemente seus braços para trás para que Harry parasse de se mexer.
- Harry, escuta minha voz. — Disse Hermione desesperada segurando a cabeça do amigo com as mãos e o forçando olhá-la. Ele ainda gritava. — Harry, estamos aqui com você. Não vamos te deixar, volte para nós, você não é Voldemort.
Aos poucos Harry acalmou-se e deixou o corpo amolecer até que não fosse mais preciso sustentá-lo. Hermione ainda segurava seu rosto e afastava os cabelos de sua testa. Seus olhos castanhos fitavam os verdes com intensidade questionando-o o que acontecera, mas Harry não tinha forças para lhe contar. Com esforço deixou escapar de seus lábios um lamento chorado e desesperado que fez Hermione engolir em seco e franzir a testa em clara angustia.
- Ele quer Severus.
Rony não tivera tempo de entender o que o amigo falou antes de ter que sair correndo atrás dele cuidando para tirar de seu caminho todos os comensais que tentavam acertá-lo. Hermione estava mais atrás dando cobertura para os meninos, sabia que Harry não tinha cabeça para nada mais do que correr atrás dele. Seu coração apertou, saber a verdade era mais do que crueldade, ser portadora disso e encarregada de contar era demais, nunca deveria ter permitido que aquele homem incumbisse essa tarefa para si. Nunca. Mas pensando bem, com quem ele iria contar para passar adiante uma informação tão valiosa?
Um feitiço passou raspando sua orelha, mas antes que pudesse revidar Rony já tinha derrubado o comensal, por isso nem mesmo parou de correr apenas pulou as pedras no caminho e se abaixou nos momentos precisos até que conseguiram sair do saguão principal e sentir o ar gelado da noite bater em seus rostos. Ali fora a guerra estava, se é que era possível, pior, havia gigantes, aranhas, comensais e outras criaturas que nem mesmo conseguia classificar. Viu as estátuas e armaduras de Hogwarts lutando e enfiando suas espadas nos comensais matando-os e empurrando seus corpos malditos para o canto distante sujando o chão com seu sangue.
Hermione não teve tempo de sentir nojo quando o sangue de um comensal abatido pela armadura do terceiro andar espirrou em seu braço, apenas continuou a correr até que a guerra ficou para trás e seus pés chegavam a Orla da floresta. Sua respiração estava pesada e seu coração parecia querer abrir sua caixa torácica para se ver livre. Estava cansada e com dor no corpo, mas não podia parar, não podia parar porque Harry não parava, ele corria em direção ao salgueiro lutador e seria capaz de se jogar em sua entrada sem nem mesmo parar os galhos violentos.
- Imobilos. — Gritou Hermione parando os galhos fortes.
Sabia que o feitiço não tinha efeito duradouro sobre a árvore e que o certo era acertar o nó da raiz, mas não tinha tempo para isso, apenas se deixou escorregar para dentro da passagem sentindo o chão tremer quando a árvore voltou a se mexer. Rony estava a sua frente e segurava Harry com firmeza, pois se dependesse do Grifinório ele correria diretamente para Snape e consequentemente para a morte. Hermione se adiantou e segurou o rosto do amigo entre suas mãos sentindo um aperto forte no peito pelo desespero dele.
- Harry. – Sussurrou a menina. – Eu sei que você quer ir para ele, mas não dá, pense, pense no que ele diria se você fizesse isso, se você estragasse tudo. Pense.
Harry continuou se debatendo nas mãos de Rony até que finalmente parou, realmente deveria se controlar, Severus não gostaria nem um pouco de vê-lo nesse desespero todo podendo estragar seus planos como sempre faz. Com dificuldade tentou se controlar e sentiu Rony o soltando somente quando prometeu que não faria nada impulsivo. Foi então que os três escondidos pela capa de invisibilidade caminharam juntos pelos corredores. Hermione conjurara um feitiço que abafava seus passos e assim não precisavam se preocupar com qualquer barulho que os denunciaria.
Enquanto subiam as escadas o coração de Harry ficava menor, menor e menor como se em um instante pudesse sumir de seu peito. Ele sentia a presença dele em seus poros, a magia que desprendia dele o atingia como um raio de sol que queimava sua pele. Ele estava ali, junto ao Lord, estava diante dele, atrás daquelas paredes onde se agacharam e apenas assistiram a cena macabra atrás de um caixote que escondia um buraco. Lord Voldemort falava qualquer coisa para Snape que permanecia parado apenas olhando para Nagini protegida em uma bolha no alto.
Queria tanto correr para ele, o odiava, sentia isso dentro de si, sentia em seu peito o ódio inflar suas veias e dilatar seus olhos, mas mesmo odiando-o queria se atirar em seus braços. Ah, como desejava entregar-se ali mesmo ao seu marido, na frente de quem fosse, entregar-se de corpo e alma e senti-lo fundo em si. Harry balançou a cabeça. De onde vinham esses desejos estranhos? Não que fosse completamente estranho, ele sabia o quanto o homem era um objeto sexual intenso e que já vivera e fizera muitas coisas com ele, mas sabia também que ele era o comensal mais fiel de Voldemort e que matara Dumbledore. Fechou os olhos por um instante, estava muito confuso.
Mas qualquer confusão que o atacasse deixando-o zonzo não chegava aos pés de sua completa surpresa quando o Lord falou o que ele pensou ouvir. Era isso mesmo? Não podia ser. Sentiu a mão de Hermione segurar fortemente seu braço e um feitiço passar por ser corpo imobilizando-o. Queria entender porque Hermione fez isso, mas soube assim que viu as lágrimas em seus olhos que era tarde demais para o professor e que a menina só podia fazer o que estivesse ao seu alcance para protegê-lo de Voldemort descobrir os três ali tão perto.
Era tarde demais.
Os olhos de Harry se arregalaram e ele queria gritar quando a cobra avançou contra o corpo de Snape furando sua carne com seus grandes dentes afiados. Viu Snape cair para o lado desabando perto de onde estava e a cobra dar o bote novamente e de novo e de novo enquanto seu dono apenas a observava deleitando-se da vitória. Agora ele era o Senhor da Varinha das Varinhas. Que se foda esse senhor maldito, pensou Harry enquanto via o sangue começar a escorrer pelo chão de madeira.
Hermione chorava silenciosamente ao seu lado e Rony não tinha ações ou palavras, mas ele tinha, tinha palavras e ações que não puderam ser executadas pelo feitiço que a menina jogara nele, então só poderia unicamente ficar olhando enquanto Snape recebia o último golpe da boca da cobra e se tremia no chão.
Voldemort foi finalmente embora levando sua cobra com ele e Hermione retirou seu feitiço. A princípio Harry pensou que sairia correndo em direção a Snape, mas na verdade, mesmo que essa fosse sua vontade, não conseguia mexer um único músculo, apenas ficou olhando a bota dele tremendo. Um soluço saiu de sua garganta quando conseguiu, após segundos e mais segundos, se mexer e afastar a caixa que bloqueava sua entrada. Hermione segurava sua capa e segurava Rony que queria impedir Harry de se aproximar de Snape.
Mas não havia como os separar, Harry estava hipnotizado pela imagem que via a sua frente e apenas seguia seu instinto se aproximando aos poucos sem realmente perceber que fazia isso, sua mão tremia e seu coração começava a parar de bater com a dor que o sangue onde pisava causava-lhe. Evitou olhar para o rosto dele a princípio, observou o corpo a começar pelos pés que recebiam espasmos fortes, então para as pernas abertas de uma forma estranha. Ajoelhou-se diante do corpo e sentiu uma mão fraca tocar-lhe a face. Ainda assim não o olhou.
De verdade, tinha medo do que iria ver. Esticou a mão e tocou o tecido da calça do homem no meio da coxa, seus dedos tremeram com o contato e seu coração pulou com as lembranças de um momento em que estavam na mesma posição e seus dedos tocavam a coxa nua subindo devagar para a virilha fazendo o homem estremecer em cima do tapete diante da lareira de sua sala. Fora tão bom aquele dia, um entregar gritante de prazer e amor. Assim como aquele dia seus dedos subiram até o abdômen e ali se detiveram brincando com os pelos negros que desciam até sua masculinidade. Dessa vez eles pararam ao tocar o liquido vermelho que vertia do corpo dele.
Os dedos em seu rosto acariciavam sua bochecha que o faziam chorar com intensidade enquanto a verdade caia em cima de si ao mesmo tempo em que seus dedos alcançavam o tórax ensopado e então o pescoço dilacerado. Foi então que seus olhos encararam os olhos profundos do homem e sua boca franziu em uma careta horrível. Snape o olhava intensamente como se a dor que sentia ou o sangue que vertia não fossem nada se comparado com o fato de poder olhá-lo uma última vez antes do fim. Os dedos do homem se embrenharam em seu cabelo bagunçado e devagar o puxaram para si trazendo seus lábios para os seus e tocando-os com leveza e medo.
Medo pela possibilidade de ser rejeitado naquele momento, não queria que Harry o tratasse como um lixo que era, não naquele momento em que os olhos verdes eram as últimas coisas que veria, não quando poderia ir embora sabendo que ele estava ao seu lado. Tocou-lhe os lábios com um pouco mais de força sentindo que aquele mínimo esforço o deixava mais fraco, não se importava, Harry estava ali com ele. Harry tremeu em suas mãos e então subiu seus próprios dedos para o rosto do homem moribundo emoldurando o rosto manchado de vermelho com suas mãos possibilitando beijá-lo como deveria ser feito.
Sua língua sentiu o doce sabor da língua jovem e atrevida de Harry e não pode deixar de pensar que aquela era uma boa maneira de morrer, nas mãos e na boca de seu amado. Quantas vezes pensara na forma em que finalmente iria se entregar a morte, quantas vezes se imaginou sozinho, simplesmente indo embora, deixando para trás toda a merda da sua vida. Em nenhuma das vezes sequer cogitou a hipótese de morrer nos braços que agora o erguiam levemente do chão e o abraçavam.
- Harry. – Sussurrou levemente sentindo o veneno correr em suas veias.
- Por favor, não fala, poupe suas energias. – Disse Harry liberando seus lábios e o olhando com medo visível para seus ferimentos.
Snape gemeu quando as mãos de Harry tocaram os locais das mordidas procurando estancar o sangue, mas não adiantaria, sua morte era certeira naquele momento, a única coisa que podia fazer era usar o tempo que lhe foi dado para passar adiante tudo que ele precisava saber. Com esforço tentou retirar de sua mente todas as lembranças que ele precisava ver, todos os sentimentos que ele precisava entender, tudo o que Harry necessitava, mas nada saia. Seus olhos arregalaram-se quando percebeu que não poderia passar para ele as informações necessárias, a sua verdade. Por sorte ouviu um soluço mínimo no fundo da sala e viu Hermione Granger abraçada com Ronald Weasley enquanto assistia sua morte e chorava copiosamente.
Devagar ergueu a mão em sua direção e a menina entendeu, deu um passo a frente e mais outro, mas sentiu seu braço ser segurado por Rony que a olhava sem entender o que estava fazendo.
- Não, Mione, ele é um assassino.
- Ronald, me solte. – Disse a menina tentando desvencilhar-se das mãos de Rony.
- Não vou deixar que chegue perto dele. Ele matou Dumbledore e com certeza matou muito mais amigos nossos na guerra.
- Você não sabe de nada, agora me larga.
- Senhorita Granger. – O sussurro veio fraco até os ouvidos da menina. – Rápido.
Hermione deu um tranco na mão de Rony e se soltou dele caminhando rapidamente até o homem e se ajoelhando diante dele. Suas lágrimas voltaram a cair nervosamente quando viu os olhos angustiados do homem encarar seu rosto, o dedos de Snape fecharam-se levemente em sua mão. Estavam frios.
- Passe para ele a verdade.
- Sim senhor, eu farei isso. Não se preocupe, professor. Poupe suas energias.
- A senhorita é inteligente. – Disse o homem afastando o olhar ao elogiar pela primeira vez a menina. – Sabe que não há mais chances. — Fechou os olhos por um instante antes de abri-los e voltar a falar com fraqueza. — Há um colar, precisa tirá-lo do Lord antes que Harry precise fazer. — Hermione assentiu entendendo as palavras do professor. — Faça o que te pedi, confio na senhorita.
Hermione postou a mão na boca e chorou silenciosamente enquanto se afastava até deixar que os braços de Rony a acalentassem. Harry voltou a segurar a mão de Snape e a chorar.
- Olhe para mim. – Pediu Snape.
Os olhos verdes estavam cristalinos e temerosos, sua mão tremia. Snape percebeu que já não sentia mais suas pernas e sabia que o veneno começava a fazer efeito, logo chegaria ao seu peito fazendo seu coração parar de bater e consequentemente sua vida se esvair como o sangue que continuava a jorrar. Não havia mais tempo para nada, então apenas se prendeu ao importante. O verdadeiro último adeus.
- Eu te amo. Não me arrependo de casar com você. Queria ter podido te fazer feliz. – Disse com a última gota de força que tinha trazendo o menino para perto e olhando profundamente em seus olhos. Queria morrer encarando aquelas esmeraldas, lembrando-se dos momentos que tiveram juntos, desde o inicio, o primeiro beijo, até a última entrega. Se era para morrer, então que fosse mergulhados nesses lembranças.
Harry chorou, sentiu suas mãos agarrando o manto ensanguentado, mas não conseguia vê-lo direito, ele estava se afastando, sumindo de sua visão. Ouviu ao longe um grito e um lamento, mas estava distante demais para alcançar. Sua mão caiu para o lado sem forças para se mexer, sentiu minimamente o abraço apertado de Harry em seu corpo e os lábios desse encostarem aos seus no mesmo instante em que seus olhos se fecharam para todo o sempre.
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