A Lenda
42 O sacrifício de Alexandra
Notas iniciais
Capítulo 42 — O sacrifício de Alexandra
"Um passo após o outro, um passo após o outro. Vamos Harry, você consegue, é só não pensar, é só continuar andando. Não sinta, se sentir vai doer, apenas continue andando ou corra, sim, correr é melhor. Não se lembre, não se lembre, esqueça-o. Deixe-o ir embora, não resta mais nada. Apenas corra, apenas corra."
As frases eram pensadas e faladas em voz baixa como se fosse um mantra em que se concentrava para não deixar a dor o sobrecarregar. Hermione segurava sua mão e o puxava de volta para os jardins do castelo, nem mesmo conseguira ouvir direito o que Voldemort dissera, mas sabia que o silêncio e vazio do pátio era sinal de que alguma coisa importante foi transmitida pelo ser reptileno que arrancou de si, da forma mais bruta que conhecia, a pessoa que mais amou em todos os seus poucos anos.
"Não pense".
Harry caminhou mais devagar olhando para o chão sujo e destruído com pedras espalhadas para todos os lados. Os bancos onde outrora se sentara com seus amigos para conversarem sobre besteiras estavam agora revirados ou quebrados levando embora as lembranças mais profundas de uma juventude sem preocupações. As fontes já não mais jorravam água em danças engraçadas e belas que muitas vezes eram contempladas pelas meninas e ignoradas pelos meninos. Estava escuro, mas era possível ver o sangue derramado, sangue inocente e culpado, todos misturados em uma bagunça que confundia sua mente, era melhor não pensar nisso também.
Aos poucos e devagar subiram os degraus para a entrada do castelo e fecharam as portas duplas atrás de si. Ao dar um passo a frente Harry bambeou e não foi de encontro ao chão por Hermione segurar seu braço firmemente. A menina olhou para Rony para que o amigo a ajudasse, mas Rony só tinha olhos para a entrada do grande salão onde, pela quantidade de barulho, estavam todos que estiveram lutando na guerra e isso incluía sua família. Com pesar olhou para o rosto de Rony e o viu contrair os lábios fortemente segurando o nervoso e possivelmente o choro que queria sair.
- Vai. — Disse Hermione em um sussurro fraco. Rony olhou para ela com a testa franzida. — Vai logo.
- Mas e o Harry? — Perguntou Rony apontando para o menino que tinha a testa suada.
- É a sua família, Rony. Eles precisam de você. Eu cuido do Harry, vai logo.
Rony olhou mais uma vez para a porta do salão principal e de volta para Harry e Hermione. A menina estava suja e suada, carregava Harry pendurado em seus ombros quase não aguentando seu peso e ainda assim negou sua ajuda pelo seu bem. Em um ato de coragem que jamais imaginou ter deu dois passos a frente e segurou o rosto da menina entre suas mãos trazendo-a para perto e selando os lábios aos seus. O beijo era casto e simplório, mas ainda assim carregava o desespero do amor em meio a guerra. Hermione soltou uma das mãos que seguravam Harry e a levou até a nuca de Rony apertando-o contra si, aprofundando o beijo desejoso.
- Vai. — Sussurrou Hermione afastando-se devagar. — Eles precisam de você, vai.
O ruivo assentiu e correu em direção ao salão principal. Hermione deixou as lágrimas descerem por seu rosto devido a emoção do beijo que Rony tão idiotamente demorou para realizar, mas logo se recompôs ao ver Harry fechar os olhos e quase se entregar a dor do luto.
- Vamos Harry, precisamos chegar até o gabinete do diretor.
Não foi fácil percorrer o caminho que levaria ao gabinete de Dumbledore. Harry ainda sentia que seu corpo a qualquer momento o deixaria na mão e para que isso não acontecesse precisava continuar com seu mantra. "Não pense'. Aos poucos subiu escadas e virou em corredores que nem mesmo se lembrava. Não havia mais quadros para lhes perguntar o que aconteceu, não havia mais o burburinho de alunos andando a esmo pelos corredores conversando alto sobre tudo que não era relacionado com as matérias estudadas, alguns até mesmo planejando o que fariam para sair da sala de aula e não fazer as tarefas pedidas. Estava tudo mudado, diferente do que seus olhos verdes estavam acostumados.
- Harry, vamos, faz um esforço, você é pesado.
Harry ouviu o pedido da amiga e se esforçou para caminhar e se erguer, mas era difícil. A dor o sucumbia, o levava embora, sua mente se desmantelava e ele sentia que a cada passo se afundava mais e mais em lama e sangue. Finalmente, após muito esforço se viu diante da gárgula de fênix que guardava o escritório do diretor. Não foi preciso senha, a gárgula apenas abriu suas asas e rodou no lugar deixando-os ver a escada circular que os levou diretamente para a porta de entrada do escritório. Harry estendeu a mão e a empurrou admirando-se por estar aberta.
Assim que entraram Hermione o largou em uma cadeira diante da mesa do diretor e apontou a varinha para os archotes para acender o fogo que iluminaria o local, porém Harry a impediu segurando em seu braço, quando a menina se virou para questioná-lo ouviu apenas um sussurro de que as sombras lembravam a ele. Não houve forças em Hermione para dizer nada sobre isso, apenas assentiu e guardou a varinha nas vestes.
- Harry. — Sussurrou Hermione se ajoelhando diante do amigo. — Sinto muito.
- Ele se foi. — Disse Harry respirando rápido. — Se foi. — Seu peito doeu e o ar faltou. — Não consigo respirar.
- Coloque sua cabeça entre as pernas. — Indicou a menina ajudando-o a se abaixar e acariciando suas costas. — Agora respire devagar. Está tudo bem Harry, vai ficar tudo bem.
Por vários minutos os dois apenas ficaram assim, Harry abaixado deixando que o ar entrasse em seus pulmões e sua mente voltasse a funcionar corretamente e Hermione acariciando lhe as costas enquanto palavras suaves e gentis saiam de sua boca. Queria muito acreditar na amiga, acreditar fielmente que tudo acabaria bem e que aquela dor iria passar, mas ela era tão grande que não conseguia acreditar nela. Aos poucos a calma tomou conta de seu corpo e ele se ergueu sentindo Hermione pousar as mãos em suas pernas e o olhar com cuidado e preocupação.
- Estou bem. — Respondeu a pergunta muda. — É só que... não consigo acreditar que ele se foi. — As lágrimas teimosas desceram por seu rosto, ele não se importava, Hermione não o julgaria, ela entenderia seu pesar. — Eu sinto tanto ódio dele, tanto. Tenho vontade de socá-lo, de cortá-lo, verdadeiramente matá-lo por tudo o que ele fez. Pelo fato de ser o assassino de Dumbledore e principalmente por me enganar. Mas eu o amo tanto que não consigo sequer imaginar que ele não está mais aqui.
- Ah, Harry, não fica assim.
- Eu preferia que ele estivesse fugindo em meio aos Comensais, fazendo coisas ruins, torturando e até mesmo matando.
- Harry! — Exclamou Hermione horrorizada.
- É verdade Hermione. — Disse Harry limpando o nariz com a manga da camiseta. — Eu não sabia que sentia isso, mas agora, agora eu sei que preferia ele sendo cruel do jeito que é, longe, não importa onde ou com quem, mas vivo. — Um soluço escapou da boca do menino e Hermione chegou mais perto segurando as mãos trêmulas dele. — Eu o amo. Ele é meu esposo, era para ele estar comigo, acordar todo dia comigo, ir dormir toda noite na mesma cama, me abraçando. — Fechou os olhos deixando a sensação das lembranças o tomar. — Ainda posso sentir o perfume da pele dele. Ervas e hortelã. Ele beijava bem, maravilhosamente bem, me levava as nuvens e quando me tocava era como se fogos de artificio explodissem dentro de mim.
Hermione levou a mão aos próprios olhos e secou as lágrimas, Harry continuou ditando tudo que o encantava no homem, o quanto sentia saudades das mínimas manifestações de carinho e das preocupações irritante. Apesar de estranho ouvi-lo falar sobre aquilo, não o impediu quando desabafou sobre o sexo e amor que faziam, as fantasias e loucuras. Harry precisava falar, precisava colocar para fora a dor que sentia naquele momento e Hermione pode perceber pela primeira vez que o amor dos dois era muito maior do que Snape lhe mostrara. Era mais profundo e intenso, algo intangível de tão poderoso.
O tempo passava devagar enquanto Harry terminava seus pensamentos e se entregava aos braços da amiga para derramar seu luto em seu ombro. Hermione fechou os olhos e desejou ter o poder de acabar com aquela angustia, mas sabia que não tinha tempo para isso. Harry teria que seguir em frente e enfrentar aquilo que o levaria para o fim. Nesse momento ela mesma fechou os olhos com força. Harry iria embora para sempre, morreria pelo bem do mundo. Era uma pena, mas olhando para seus olhos apagados passava por sua mente a questão se não seria realmente melhor que ele se fosse.
Seria muita crueldade pensar assim? Era errado querer que ele não sofresse? Pois sabia que vivendo ele sofreria, a cada dia, a cada hora a dor do luto o dominaria levando-o devagar para o fundo, para a escuridão e morte. Talvez Lys pudesse trazer-lhe um pouco de luz, mas no fim ele seria sempre quebrado, haveria sempre um buraco em seu interior, uma falha que não tinha conserto.
- Harry, preciso te contar.
- Contar o que?
- O que o professor Snape me incumbiu de te mostrar.
Harry olhou para ela sem entender o que a amiga estava dizendo, demorou um pouco para se lembrar do que Snape dissera a ela antes de...
- O que é para me falar Mione?
- Não há como falar, Harry. Tenho que te mostrar. Será que a penseira está por aqui?
Harry secou as lágrimas do rosto e se levantou devagar tentando se prender ao que precisava saber para não pensar no acontecido. Olhou para a sala pela primeira vez desde que a amiga o carregara para dentro. O escritório estava igual ao que sempre fora, os instrumentos estranhos de Dumbledore continuavam em cima das mesas soltando fumaça e fazendo barulhos estranhos. Os quadros estavam nos mesmos lugares, porém dessa vez as molduras estavam vazias, não havia uma única pintura lhe olhando esperando uma fofoca gostosa de se passar adiante. Mas apesar de igual, estava diferente, sabia que Snape colocara seu próprio toque naquele local, não em decorações, mas no ar. Sem perceber caminhou até o meio do gabinete e fechou os olhos deixando-se sentir a aura dele.
- Harry?
Hermione o chamou, mas Harry apenas ergueu as mãos pedindo um momento para a amiga. Ela rapidamente se calou e ficou apenas o aguardando calada no canto. Harry respirou fundo e quase conseguiu ver a imagem do homem vestido de preto andando de um lado para o outro lendo relatórios e mais relatórios. Sorriu de leve imaginando o quanto ele praguejou sobre tudo aquilo, aquela burocracia que odiava. Mas com a mesma rapidez tudo sumiu deixando-o novamente na escuridão. Hermione se aproximou por trás e o abraçou postando a cabeça nas suas costas. Abraçou-se a menina e ficou assim por alguns segundos até serem interrompidos por um dos armários que se abriu revelando a penseira com o liquido brilhante.
- É a penseira de Dumbledore?
- Sim. — Respondeu Harry se adiantando e pegando o objeto que levou até a mesa do diretor. — O que eu preciso saber Hermione?
Hermione hesitou por um segundo antes de erguer a varinha até a têmpora e puxar com uma careta um fio prateado deixando-o cair dentro da bacia. Rapidamente o liquido começou a girar e Harry se viu olhando para uma Hermione encarando o rosto de Snape.
- Mas...
- É aqui que tudo começa. Foi na mansão Malfoy que ele me mostrou toda a verdade que eu precisava saber e te passar. Vamos?
Harry assentiu e se debruçou sobre a bacia fechando os olhos quando o rosto tocou a superfície para logo abri-los quando caiu ao lado de Mione na sala da mansão Malfoy. Hermione rapidamente segurou sua mão entrelaçando os dedos e suspirando enquanto via a si mesma ajoelhada no chão e diante de si um Snape aparentemente cruel e perigoso que apontava a varinha para seu rosto.
- Ele estava me pedindo para me concentrar, ele me pediu uma coisa e me mostrou suas memórias.
- O que ele pediu? — Perguntou Harry evitando olhar para o homem.
- Você já irá saber. — Respondeu Mione com a voz quebrada um pouco antes de todas as imagens se dissolverem e eles se encontrarem agora em um campo em meio a um verão recém-chegado. — Essa é a infância de Snape e aquela ali. — Apontou adiante onde duas menininhas brincavam em um balanço. — Ela é a sua mãe.
Harry não sabia se ficava encantado, triste ou angustiado com as imagens que passaram aos seus olhos. Viu-se refletido nos olhos verdes da pequena Lilian Evans assim como o pequeno Snape que se apegava com todas as forças a amizade que nascia daquele misero sorriso que a menina deu a ele. Seu coração apertou enquanto os via no parquinho, sempre brincando e conversando, sempre se entregando a inocência da infância que Snape só teve ao lado dela.
Foi com um pesar que se viu na estação de embarque para Hogwarts com a locomotiva vermelha soltando fumaça ao lado igual quando ele mesmo estava naquele lugar. Snape se juntou a Lilian em uma cabine onde se encontravam os marotos. Naquele momento Harry apertou a mão de Hermione e afastou o rosto arrastando-a para fora onde apenas permaneceram parados esperando a imagem mudar. Hermione não entendia o que havia com ele, aqueles eram James, Sirius e Lupin, os marotos, as pessoas que ele tanto amava, seu pai, padrinho e amigo.
Harry nem ao menos tentou explicar para Mione o que ele estava sentindo, como é que se explica que se sente uma alegria e tristeza ao ver seu próprio pai. Alegria por ser James, ali pertinho de si, tão moleque quando ele era ao se sentar no mesmo lugar. Claro que sentia euforia por vê-lo, mas ao mesmo tempo seu coração se apertava por ser ele o culpado por tanta amargura que existia em Snape. Ainda se lembrava nitidamente do que viu na penseira do mestre de poções em seu quinto ano, se recordava de seu pai dizendo que a implicância era mais por ele ter nascido.
Tudo era tão confuso. Amava seu pai do fundo de sua alma, mas não conseguia impedir que o ódio o esquentasse ao se lembrar das coisas que ele e os amigos disseram para seu marido, para o homem que amava mais do que a própria vida. Independente do que ele fosse ou fizesse, dos erros que cometeu e injurias que proferiu, Snape era seu e não admitiria insultos a sua pessoa ou, como seria de agora em diante, sua memória.
Foi difícil assistir as lembranças até o fim, ver o quanto ele sofreu na infância com os pais que tinha. Odiava os Dursley, mas pelo menos não era espancado daquela forma, não daquela forma. Lembrou-se quando diversas vezes o homem lhe dissera que poderia lhe contar o que sofria nas mãos do tio porque ele entendia, mas não acreditava nele, em sua cabeça não havia outra pessoa no mundo que sofria a mesma coisa. Estava enganado, havia alguém no mundo que sofria muito mais. Fechou os olhos quando viu o motivo da cicatriz que tanto amava beijar bem nas costelas. Quase chorou ao ver o quanto o adolescente se segurava para não aparentar fraqueza e o quanto se prendia mais e mais ao mundo mágico e à Lilian Evans que agora já não falava mais consigo pelo erro que cometera.
Snape era apenas um ser esquecido, largado de mão e maltratado por aqueles que não o compreendiam e mais ainda por aqueles que deveriam dar-lhe a segurança que faltava, o acalento que lhe faltava para evitar o erro que se seguiu. Não foi surpresa vê-lo se alistar no ciclo de Voldemort, não por já saber que ele era um comensal, mas por saber que a solidão, desprezo e mágoa do amor perdido o levariam, uma hora ou outra, para o lado errado. Será que se houvesse algum indicio por parte de sua mãe, qualquer que fosse, o homem seria salvo de seu destino? Queria pensar que sim, mesmo que isso pudesse resultar no fato dele mesmo não ter nascido e nunca encontrar Severus em sua vida, não podendo assim ser o portador de suas tantas primeiras vezes, seus carinhos e amores.
Mas isso não aconteceu. Aconteceu apenas o que tanto já sabia. Voldemort matou seus pais e tentou matá-lo, mesmo após os pedidos de Snape para o Lord, mesmo após o homem implorar de joelhos para Dumbledore que os protegessem, a todos, mesmo após todo o seu sacrifício. Eles morreram. Com pesar reviu a casa que outrora fora sua, estava destruída, mas aparentava a beleza e simplicidade de Lilian em suas paredes claras e decoração singela, uma beleza que o homem ao seu lado admirava com os olhos brilhando. Snape estava parado, seu rosto era mais jovem, seus cabelos mais curtos, mas já trazia a velhice nas íris negras e agora conseguia entender o motivo do enorme abismo que sempre avistava em si. Devagar caminhou ao lado dele não querendo perde-lo de vista, mesmo que tivesse medo do que visse. No fim desejou que tivesse continuado do lado de fora da casa, assim não veria o corpo de seu pai estirado na escada e nem o de sua mãe jogada de uma forma estranha no meio dos escombros do que um dia fora seu quarto.
Ouviu o grito que saiu da garganta de Snape e deixou que suas lágrimas caíssem derradeiras pelo seu rosto quando, quase desmaiando de tristeza o homem se adiantou e pegou a mulher nos braços olhando em seu rosto morto e beijando pela única vez na vida os lábios inertes. Snape chorou como jamais imaginou que ele fosse capaz. Chorou pela morte dela, chorou pela sua vida, chorou por tudo que havia acontecido e mais ainda pelo destino que se seguiria sem a presença de Lilian Evans no mundo.
Hermione lhe abraçou fortemente o puxando para esconder o rosto na curva de seu pescoço tentando escondê-lo daquela visão, mas nada adiantava, ela ainda estava em seus olhos, dançava em suas íris mostrando a si aquele horror. Foi somente quando desejou sair dali que sentiu seus pés deixando a casa de seus pais, deixando o corpo de James e Lily e mais ainda um Snape que perdera sua alma. Foi difícil permanecer nas lembranças de Snape, mas conseguiu manter-se o tempo que foi preciso para vê-lo prometer protegê-lo de tudo e de todos os males que pudessem acontecer. Viu, com grande surpresa, o quanto ele estava vigiando nas sombras cada passo seu. Jamais imaginou que ele ficasse atrás de seus atos e sempre desse um jeito para que de uma forma ou de outra ficasse bem. Percebeu o quanto tomava seu tempo, o quanto seus olhos negros aparentavam exaustão enquanto o observava de longe questionando-se o que estava aprontando.
Descobriu quantas vezes os dementadores foram afastados de si no terceiro ano pelo patrono que ele conjurava escapando-lhe apenas aquelas vezes que os seres malditos o atacaram. Como fora tolo de o julgar, idiota de jamais abrir os olhos para o que agora estava mais do que claro vendo-o ser torturado por Voldemort após sua volta e sempre mantendo-se fiel a sua palavra.
- Eu sou um idiota. — Sussurrou ao voltar das lembranças e se deixar deitar no chão rústico olhando para o teto cru.
Nunca fora ele, ou James ou mesmo Lilian. Não era Dumbledore, Hermione ou Rony. Não. Tudo era Snape, todos eram Snape. Estava vivo por causa dele, porque ele se arriscou, porque ele se manteve fiel a palavra dada para a mulher que lhe virou as costas há tantos anos.
Seu corpo tremeu quando fechou os olhos e recordou com força as últimas imagens que viu. Passara meses junto dele, dormindo com ele, gemendo em seus braços, beijando, o aceitando e jamais conseguira ver tamanho amor que ele sentia. Foi somente dentro das lembranças da menina que agora estava sentada ao seu lado que compreendera os sentimentos verdadeiros de Snape. Ele matara Dumbledore, mas morrera dez vezes por isso, por ser o culpado de mandá-lo para o outro mundo, ficar sem as palavras irritantes do único homem que ficara ao seu lado todo o tempo e ainda assim, com todos o condenando, com a distância o engolfando e com o próprio marido jurando-lhe a morte, ele continuou onde estava, cumprindo agora o juramento feito em silêncio no batente da porta de seus aposentos quando pela primeira vez disse que lhe amava.
Mas agora poderia se juntar a ele, poderia ficar junto e talvez conseguisse lhe pedir perdão mesmo sabendo que não merecia ser perdoado. Tudo acabaria em breve e a dor em seu peito diminuiria. Ele seria eternamente de Snape se ele o aceitasse. Esposos entrelaçados em suas almas. Poderiam vigiar Lys de onde estivessem, a protegeriam de tudo que fossem capazes. Sempre disseram que os espíritos dos entes queridos nos observavam e nos guiavam cuidando de nossos passos. Eles fariam isso, juntos. Lys ficaria bem sem eles. Tinha certeza que Tia Petúnia e Duda cuidariam bem dela até que Hermione ou Rony pudessem pegá-la para dar-lhe o devido estudo e treinamento que precisasse para seu destino.
- Eu vou encontrá-lo, Hermione. — Disse Harry abrindo os olhos e olhando Hermione assentir pesarosa.
- Eu sei que vai. Queria muito poder impedi-lo, mas sei que você é cabeça dura. — A menina soluçava enquanto Harry se levantava aos poucos tocando-lhe a face molhada. — Eu quero ir junto.
- Não. — Disse o menino com uma calma que pertencia somente aqueles que aceitavam seu caminho. — Você precisa ficar. Sabe o que deve fazer. Precisa matar a cobra e depois matá-lo. Sei que será capaz disso, mesmo com o colar que vi nas lembranças de Severus.
- Não Harry, não quero deixar você. Eu não sou capaz.
- Mas vai deixar e é completamente capaz disso. Você é a melhor Hermione, vai saber o que fazer e preciso de você viva por mim, por Rony, por Lys, seus pais. Todos.
- Você também. Todos precisamos de você. Por favor, Harry, vamos achar um jeito. — Hermione chorava copiosamente agarrando-se com firmeza nas mangas do casaco do menino. — Por favor.
- Sabe que não tem outro jeito. Eu preciso ir. Preciso terminar logo com isso antes do fim. Não quero mais mortes por minha culpa. Já chega.
- Mas Harry...
- Eu estou quebrado, Hermione. Não vou conseguir seguir em frente.
- Mas e a Lys? Sua filha, Harry, ela precisa de você.
- Não, não de mim. Ela precisa de amor e carinho. Sei que ela vai encontrar tudo isso em você ou qualquer outra pessoa. Ela é especial e capaz de encantar a todos. Lys não ficará desamparada e tenho certeza que você não a deixará na mão.
- Nunca, nunca. Eu vou cuidar dela Harry, eu vou. Juro.
- Então estamos conversados. — Disse Harry dando um leve sorriso para a amiga que não retribuiu. — Agora precisamos ir andando. O tempo se acaba, Voldemort não gosta de esperar e eu não posso mais ficar aqui dentro sentindo-o em tudo.
Hermione assentiu e se levantou dando um forte abraço em Harry antes de sair do escritório e descer as escadas da gárgula. Andaram em silêncio até o começo do corredor principal. Foi ali que o menino retirou sua capa de invisibilidade e a arrumou na mão, mas antes de sumir virou-se para a amiga, afagou suas bochechas coradas, deu um beijo em sua testa e lhe deu os últimos avisos.
- Não se esqueça de tirar o colar dele, matar Nagini e depois o matar. Ele não é invencível. Diga para o Rony que eu amo aquele cabeça dura e para a senhora Weasley que ela é a mãe que todos desejam.
- Tudo bem, eu direi. Harry...
- Eu te amo Hermione. Adeus.
Hermione pediu para ele esperar, mas Harry já estava longe naquele momento, corria com seus pés atrapalhados em direção a floresta negra, corria em direção ao destino que lhe foi atrasado por dezesseis anos. Corria para a morte com um sorriso no rosto, pois corria diretamente para os braços de Severus.
SSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS
Não haveria nada para sentir, nada para cheirar ou provar. Seus dedos não mais tocariam superfícies, não sentiriam texturas ou calor, nem mesmo frio. Seus olhos estariam cegos, totalmente fechados, cobertos de penumbras, mas ele ouviria, seria eternamente acompanhado por aqueles sons de que tanto queria fugir. Sua mente estaria presa nas lembranças abstratas o fazendo temer e ai sim sentir.
Era para ser assim, era para viajar no limbo sem existir em meio ao nada. Sendo apenas uma molécula voando no espaço, presa a lembranças tortuosas. Era para ser assim. Por que não era? Deveria se lembrar dos momentos mais frios de sua existência, daqueles que o fizeram desistir, do desespero que uma vez o forçou a rasgar a carne do pulso deixando jorrar o sangue rubro para o chão, ai então o corte fecharia, pois a dor de continuar com o coração batendo era maior. Ele deveria gritar de horror, sentir seus ossos serem triturados, os músculos rasgados e a pele queimada. As lembranças deveriam fazer isso. Mesmo que de verdade seu corpo não sentisse, a mente deveria ser atormentada, maltratada.
Então por que não era? Por que não havia dor? Ele queria dor, aquele era o sentir mais próximo do viver. Ele queria dor, o máximo que pudesse infringir em si. Desejava ouvir os lamentos dos inocentes, o grito dos puros, o pesar dos condenados. Apertou os olhos querendo que ardessem e por eles saíssem lágrimas de sangue, pois elas não seriam suficientes mesmo sendo o máximo que poderia dar de si naquele momento. Seu corpo não se mexia, apenas permanecia quieto sem se mexer, sem sentir, sem nada.
- Por que!
Foi somente quando o grito saiu de sua garganta, impulsionado pela raiva, que percebeu que podia ouvir o som do vento a balançar as reles cortinas esfarrapadas e antigas. Podia cheirar o odor opressor de sangue e sujeira antiga. Mexeu seus dedos devagar tremendo-os ao encontrar na ponta deles a superfície rústica daquelas madeiras podres. Suas unhas rasparam a madeira devagar e gemeu quando uma farpa adentrou sua carne. Seus olhos arregalaram, estava ali, a dor que queria estava ali. Seus olhos se depararam com o teto vagabundo e remendado.
Então aquilo era o inferno, uma repetição de sua morte. Talvez fosse melhor do que o nada. Pois ali ele sentia, ele poderia sofrer, ele merecia sofrer, precisava sofrer. Quase ao mesmo tempo que seu pensamento seus dedos rasparam o chão novamente deixando as farpas adentrarem sua carne. Quase conseguiu sorrir, mas quando os lábios iam se mover ouviu o barulho que o intrigou. Virou a cabeça devagar para o lado e avistou o que não se encaixava em nada ao seu sonho.
Em sua direção vinha um par de pernas devidamente vestido com meia calça preta delineando seu formato sedutor. Os pés traziam sapatos de saltos altos preto com detalhes em prata. Aqueles pés caminhavam lentamente em sua direção fazendo o barulho alto dos saltos reverberar pelo ambiente, menos quando pisavam displicentemente nas poças de sangue, seu sangue, abafando o barulho. As pernas se aproximaram devagar até diante de seu rosto, até parar obrigando-o a virar o rosto novamente e sentir dor pelo movimento.
Seus olhos piscaram diversas vezes enquanto tentava se lembrar quem era a bela mulher que o olhava de cima. Não se recordava dela. Franziu a testa tentando encontrá-la em suas memórias, mas estava tudo confuso.
- Quem é você? – Perguntou com a voz rouca e engasgada devido o sangue que ainda tinha na boca.
- Ora, ora, ora. – Disse a mulher em tom de gozação. – Mesmo me tendo dentro de você não consegue se lembrar de mim? Que pena.
A mulher se abaixou devagar tocando em suas mãos machucadas. Cada toque era uma dor prazerosa e bem vinda. Mas logo a dor passou quando devagar ela aproximou sua mão do rosto e beijou-lhe a palma. A dor foi embora assim como os machucados. Ela sorriu em meio ao seu olhar confuso e surpreso, ainda assim não parou o que fazia, pegou sua outra mão e a beijou fazendo com que a dor sumisse.
- Não. – Rosnou Snape com a garganta dolorida.
- Shh, acredite em mim. Você não vai querer estar machucado e eu preciso de você inteiro.
Snape queria impedi-la, queria que ela parasse com aquilo, mas não havia forças para dizer nada, apenas a deixou abrir suas vestes e tocar seu corpo com as mãos e lábios que faziam sumir a dor e os machucados. Não, aquilo não estava certo, ele não queria se curar, precisava sofrer, precisava da dor. Quando ela se aproximou de seu rosto não houve rapidez em suas mãos para impedi-la, apenas fechou os olhos com o tocar macio dos lábios dela aos seus e a língua atrevida a sua. Ele deveria pará-la, não podia beijá-la. Ele era de outra pessoa, inteiramente dela. Mas não conseguiu afastá-la, o beijo era acalentador e gostoso, transmitia para si uma força que jamais sentiu. A mulher embrenhou os dedos em seu cabelo e o puxou para si erguendo seu tronco do chão e devorando seus lábios que correspondiam com total euforia.
Foi somente quando ela o libertou, quando seus lábios se afastaram que percebeu que o ar entrava em seus pulmões com violência. Respirou fundo sentindo o peito comprimir e doer. Ela acariciou seu rosto com cuidado fazendo sumir dali o sangue seco que manchava sua pele. Postou suas mãos em cima das dela e a olhou assustado. Tudo era demais, o ar, o bater de seu coração, a vontade de seu corpo de viver.
- Eu morri.
- Sim, morreu. Mas eu não seria a descendente das trevas se não pudesse ao menos trazer alguém de volta a vida. Claro que isso requer um sacrifício de minha alma que agora estará em frangalhos do outro lado, mas eu tinha esse poder, então usei-o a meu favor. Mas terá que tomar cuidado, essa foi a única vez que consegui fazer isso, não poderei te ajudar uma próxima. Em resumo, não morra.
- Por que?
- Porque preciso de você para minha vingança. Não me sacrifiquei e dei a você minha magia e poder para deixá-lo morrer nessa casa fedida e podre.
- Mas, você é a descendente das Trevas, vem da linhagem de Merlin. Fez coisas que nem mesmo o Lord fora capaz quando ainda era criança. Você é ruim, por que está me ajudando? – Perguntou ofegante.
- É, ajudar os outros não é nada do meu feitio. Eu gosto de fazer as pessoas sofrerem, é interessante e mais ainda quando eles são culpados por alguma coisa, mas, como eu já disse, preciso de você para minha vingança contra aquele que me enganou me iludindo com a liberdade. Você está mais forte agora, sinta meu poder em suas veias, correndo, sinta-os se misturando aos seus, tornando-o um só, me sinta dentro de si. Então, viva Severus Snape e faça o que eu não fui capaz de fazer, mate aquele desgraçado maldito do Lord Voldemort.
Um sorriso se ergueu nos lábios de Snape enquanto admirava a bela mulher de cabelos loiros e olhar intenso, ela também sorriu para si, mas com um sorriso cheio de intenções e malicia. Ela sabia o que queria e sabia que iria conseguir.
- Seu pedido é uma ordem, Alexandra Morsteng.
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