A Lenda
51 O término da lenda
Notas iniciais
Capítulo 51 – O término da lenda
Seus olhos esquadrinhavam o salão principal com nítida preocupação, via cada rostinho, prestava atenção em cada aluno que entrava pelas grandes portas e caminhavam para as mesas a fim de comer algo gostoso antes de enfrentar o dia de estudos que tinham pela frente. Sua comida apareceu em seu prato, mas ele nem ao menos levantou o garfo, não havia vontade de comer e tão pouco de beber aquele suco de abobora, a única coisa que desejava era saber onde ela estava.
– Qual é o problema Severus? – Perguntou Minerva ao seu lado na cadeira do diretor. – Faz muito tempo que não te vejo com esse olhar tão preocupado.
– Não foi nada Minerva. – Respondeu Snape secamente voltando sua atenção para os alunos, ela tinha que estar por ali.
– Foi algo entre você e seu marido? – Snape desviou os olhos dos alunos por um segundo apenas para lançar um olhar homicida na mulher que nem ao menos se incomodou com isso. – Vi que Harry saiu direto para o Ministério sem nem mesmo vir tomar o café da manhã antes. Ora não me faça essa cara, já estou mais do que acostumada com ela.
– Então deveria estar acostumada também a ficar sem resposta.
Snape não deu mais atenção para a bruxa e ela tão pouco voltou a lhe perguntar alguma coisa resolvendo que uma conversa com a professora Sprout seria muito mais proveitosa. Enquanto isso a mão de Snape ficava cada vez mais fechada em punho e sua mente quase explodia com a ruim sensação que sentia em seu peito. O último aluno entrou no salão confirmando as suspeitas de Snape, Lys não estava no salão principal. Tomado pela preocupação e fúria Snape se levantou pronto para ir atrás de Lys em todos os cantos daquele castelo, principalmente por perceber que a senhorita Morgan também não se encontrava. Fazia tempo que falava para Harry que Lys ainda estava com a ideia de que aquela menina era a guerreira das sombras mesmo que tudo indicasse que ela era apenas uma aluna qualquer como todas as outras sem nada de excepcional. Temia que sua filha tivesse ido conversar com essa aluna e talvez até mesmo ido enfrentá-la. Se Lys usasse seus reais poderes com ela então teriam um grande problema nas mãos.
– Onde vai Severus? Nem mesmo tocou no seu café.
– Isso não é da sua conta Minerva, cuide de sua maldita vida.
McGonagall abriu a boca de surpresa, fazia muitos anos que Snape não tratava ninguém daquela forma. Realmente após se mudar para Hogwarts junto com Harry e Lys ele era outro homem. Claro que ainda era o morcego das masmorras que era injusto com seus alunos e muito severo quanto ao nível de aprendizado, mas ainda assim era um homem mais tranquilo e muito menos rancoroso em relação a si e aos outros. Harry e Lys mudaram sua vida por completo preenchendo o vazio que se abriu em sua alma desde a tenra idade. Mas mesmo estando surpresa McGonagall sabia que havia um real motivo em relação aos seus modos e precisava saber o que era para evitar que o homem cometesse qualquer coisa estúpida que somente ele poderia fazer.
Snape estava mesmo prestes a fazer algo estúpido dependendo de como encontrasse Lys. Sempre fora muito claro com ela, a deixava ter seus amigos que ela não tinha. Ela tinha liberdade para sair e ir passear na propriedade ou ficar um tempo com Hagrid como tanto gostava, mas tinha que seguir as regras que eram poucas e claras entre uma delas era informar onde iria e sempre comparecer a todas as refeições. Lys jamais faltou com suas responsabilidades mesmo Snape dizendo que ela era igual a Harry no quesito querer quebrar regras. Snape não era assim tão radical com a menina, mas após a chegada da senhorita Morgan tudo ficou estranho e confuso, Lys não poderia estar com aquela menina.
– Olá professor Snape.
Devido a pressa que estava em sair do salão principal e encontrar Lys para lhe puxar a orelha Snape nem mesmo percebera que Morgan vinha em sua direção. Ao parar diante da menina sentiu um calafrio passar por seu corpo, era como se alguém assoprasse um aviso gelado em sua espinha dizendo-lhe para tomar cuidado com aquela garota. Olhou para ela novamente, dessa vez com mais atenção do que já fizera durante esse tempo em que ela era sua aluna. Parecia uma adolescente como qualquer outra, tinha o corpo em fase de crescimento e formação e até algumas espinhas no rosto. Os olhos negros se estreitaram, Snape fora o único a conhecer a guerreira, mesmo que por intermédio de uma lembrança, ainda assim se recordava todos os dias daquela imagem. Uma menina, uma criança que carregava um poder inimaginável, muito maior do que muitos bruxos que fizeram histórias em grandes batalhas e guerras. Era pequena, os cabelos eram negros e escorridos pelas costas, era mais magra e com um rosto diferente do que via quando olhava para a garota a sua frente. Eram completamente diferentes uma da outra, quem visse uma jamais relacionariam as duas, mas havia algo que incomodava Snape, por mais que não tivesse feito nada, por mais que demonstrasse claramente que era apenas uma aluna comum algo pinicava dentro de sua pele toda vez que a via.
– Senhorita Kematian, por um acaso viu a senhorita Snape por ai?
– Não, senhor. — Respondeu a menina séria sem dar um único sorriso.
Snape deu um passo a frente.
– Tem certeza?
– Sim, professor Snape. Por que a pergunta?
Snape olhou intrigado para os olhos azuis da menina, algo neles o incomodou. Eram frios e calculistas. Com rapidez e cuidado lançou um leve legilimens nela, algo sutil usado para leituras superficiais como aquela que fazia naquele momento, assim ela não sentiria o feitiço. Se estivesse mentindo ele saberia, conseguiria detectar qualquer tipo de nuance nas membranas inconscientes das recordações dela. Porém ao se ver dentro daquela caixinha mágica com imagens de minutos anteriores tudo que encontrou foram as ridículas visões de uma garota se olhando no espelho e procurando algum defeito em seu corpo recém arrumado para o dia de aula. Arriscou-se a se aprofundar um pouco mais, viu a menina franzir a testa criando leves ondulações na pele que não chegavam a afetar sua beleza. Snape caçou delicadamente, andou devagar pelas estradas antigas daquela mente, entretanto, mesmo que estivesse sedento para saber alguma coisa, descobrir qualquer informação válida que lhe ajudasse teve que enfim aceitar que Morgan era apenas uma adolescente como qualquer outra.
– Ai! — Exclamou a menina levando a mão à cabeça. — O que houve? Minha cabeça está doendo.
Sem querer perder tempo com ela e acreditando que por ser ainda uma adolescente do quarto ano, não continha o conhecimento do que era o Legilimens, virou em seus calcanhares rodopiando sua capa negra de forma teatral e seguiu a passos largos e silenciosos pelos corredores de Hogwarts sem se dar conta do sorriso que se estendeu nos lábios da menina loira que seguiu displicente até a mesa da Sonserina, iniciando seu café da manhã tranquilamente. Não havia na cabeça de Morgan nenhuma outra preocupação além de se sua torrada estava devidamente amanteigada ou se seu suco estava adequadamente adoçado. Ela cantarolava baixinho sentada no canto mais afastado da mesa, mordia sua torrada e saboreava seu salgado sabor. Alguns alunos a olhavam de soslaio não acreditando no que estavam vendo, muitas vezes nem mesmo sabiam que ela existia e quando sabiam eram severamente menosprezados por seus olhos frios. Agora ela estava ali, diante de toda a escola, cantarolando enquanto comia com um sorriso radiante no rosto. Mal sabiam os alunos que ela planejava a pior crueldade já vista desde Lord Voldemort.
Lys abriu os olhos devagar, sua vista estava embaçada e por isso não conseguiu entender onde se encontrava. Piscou mais algumas vezes e se moveu, arrependeu-se no mesmo instante. A dor em sua cabeça era tamanha que parecia que alguém havia enfiado uma faca cega e tentado cortar seu crânio em dois. Devagar levou a mão a cabeça e tocou a nuca assustando-se com o líquido quente que sujou seus dedos. Devagar olhou-os, seus dedos eram como sempre brancos e delicados, entretanto agora continha o líquido rubro que escorria devagar por sua extensão. Seu sangue. Achou que iria vomitar, odiava sangue, sua cor, seu cheiro, sua textura, tudo. Contra todos os desejos de seu corpo a menina se ergueu lentamente rezando para que suas pernas não fraquejassem agora, afastou os cabelos negros do rosto e olhou em volta. Ainda estava na floresta, mas era um lado da floresta que ainda não conhecia. Era mais escura e fechada, o ar era rarefeito e ela podia sentir isso, doía o peito fazer com que o oxigênio chegasse até os pulmões, ainda assim ela os forçou a continuar funcionando.
Fechou os olhos e se recordou da voz arrastada e baixa de seu papa lhe tranquilizando após um dos seus horríveis e corriqueiros pesadelos com As Trevas. Eram os momentos mais assustadores, os momentos em que acordava gritando só para depois sentir a garganta fechar e sua voz não sair. Era desesperador tentar pedir ajuda e não conseguir, chegou muitas vezes a pensar que morreria em cima de sua cama acometida pela falta de ar, porém, sempre quando a esperança parecia mínima, seu papa chegava com a varinha em mãos olhando de um lado para o outro em busca do culpado pelos gritos que sua filha emitira no meio da noite. Papai Harry sempre estava presente também, muitas vezes com a roupa toda desarrumada, ele segurava sua mão enquanto seu papa vasculhava o quarto. Ela queria que ele pudesse ajudar, mas os olhos verdes contradiziam o que suas doces palavras diziam, as esmeraldas gritavam para si que nada ficaria bem, que elas tinham medo de perdê-la. No fim não era nos rios verdes e puros de Harry que Lys se prendia e sim nas pedras negras e sólidas de Snape. Eram as frases firmes e calmas que saiam da boca fina do homem que a faziam se acalmar e acreditar que tudo daria certo, ele tinha a segurança de quem sabe que tudo vai acabar bem.
Por isso naquele momento intenso e angustiante fez o que a voz de seu papa sempre lhe dizia. "Primeiro, se acalma. Não interessa o que aconteceu ou o que vai acontecer, apenas se acalme." Ela o fez, olhou para um buraco no tronco de uma árvore a sua frente e se concentrou em sua cor tão negra deixando que todo o resto se esvaísse de sua mente. Não havia preocupações sobre o antes ou o depois, só o momento de agora.
"Agora respire fundo, concentre-se somente nisso, sinta o ar entrar em seus pulmões, ele está entrando, sinta-o."
Sua mão postou-se em seu peito sentindo o bombear do coração, imaginou a grande mão de seu pai postada ali subindo e descendo enquanto respirava. Após alguns minutos a garganta desobstruiu permitindo que Lys respirasse fundo finalmente enchendo os pulmões de ar.
– Obrigada, papa. — Agradeceu mentalmente antes de olhar em volta agora com mais atenção prendendo-se a cada detalhe que fosse necessário. — Por que todas as árvores tem que ser iguais? — Perguntou-se olhando de um lado para o outro sem saber em que direção seguir.
Quando não havia mais para onde olhar e nem saída para procurar resolveu simplesmente seguir em frente mesmo sem saber se o caminho a levaria para o castelo, para lugar nenhum ou se a faria se esconder mais nos recantos inóspito da Floresta.
– Mas que merda é essa?
A pergunta não fora gritada, mas sua expressão de surpresa era digna de uma explosão vocal. Lys não conseguiu avançar pela sua cega caminhada, ao se afastar o que pareceu ser cinco metros do lugar onde havia acordado sentiu seu corpo bater em uma parede invisível que a jogou para o outro lado aumentando sua dor, expandindo-a para o restante do corpo. Parecia que todas as células começaram a brigar entre si, seja lá de qual feitiço aquela barreira era feita, era muito poderosa. Com dificuldade se levantou novamente. Pegou uma pedra no chão e tacou na direção da barreira, assim que a pedra a atingiu a barreira vibrou em um tom azulado e se expandiu em um círculo enorme.
– Ah, não!
A voz de Lys era baixa e denotava desesperança. Como sairia daquele lugar? Como poderia avisar seus pais, como poderia avisar qualquer pessoa sobre o que estava acontecendo? O medo começou a atingir sua mente e Lys forçou-se a ficar tranquila, não era hora de desesperos e sim de concentração, precisava sair dali.
Quando Harry aparatou diante dos portões de Hogwarts era de se esperar as exclamações do quão bom era chegar em casa e poder descansar após um tenso dia de trabalho e como estava doido para encontrar Severus. Mas a única coisa que saiu da garganta de Harry foi um nome, gritado para os ventos noturnos e solitários que em nada poderia ajudá-lo.
– Lys!
O grito não foi respondido, não houve muxoxo a sua volta, nem mesmo um único barulho dos pássaros livres voando em busca de seus ninhos, ou mesmo do vento espalhando as folhas mortas. Nada, era tudo nada. Harry queria chegar até o castelo, mas não conseguia nem mesmo colocar um pé diante do outro. A única coisa que conseguiu foi dobrar os joelhos batendo-os no chão e fechar os olhos deixando a dor aprofundar-se em suas entranhas.
– Harry?
O homem olhou para cima e se deparou com os olhinhos de besouros de Hagrid e com seu arco apontado para seu rosto.
– O que faz aqui? — Questionou o meio gigante se aproximando e ajudando Harry a se levantar com um único puxão em sua capa. — Você está horrível.
Hagrid postou as mãozonas no rosto do menino quase fazendo-o sumir entre elas. Naquele momento Harry se sentiu como um menininho de onze anos que acabara de saber que era bruxo, sentiu-se tão pequeno, tão indefeso, tão mínimo.
– Você está gelado, Harry. — Comentou o meio gigante afastando a mão e olhando desajeitado para o chão enquanto mexia sem jeito em seu arco. — Harry, tem uma coisa que precisa saber.
– Por favor, Hagrid, não me fala nada, só traz Severus, eu preciso dele.
– Mas Harry...
– Por favor Hagrid, eu não vou aguentar ouvir nada agora. — Disse Harry sentindo o abismo se abrir cada vez mais em seu âmago. — Eu preciso do Severus.
– Tudo bem Harry, fique aqui, eu vou trazer o professor Snape.
Harry assentiu e apenas esperou, nada mais, apenas ficou parado respirando e sentindo até que ouviu os passos apressados ao longe. Era mais de uma pessoa, sabia disso, mas entre todos aqueles sons ele conseguia discernir qual era o dele, era fácil, já estava acostumado a eles, fazia parte de si também.
– Harry?
Quando ouviu a voz do mestre de poções Harry se esqueceu de quantos anos tinha, esqueceu-se da maturidade que os anos, a guerra, o trabalho e mais ainda o relacionamento lhe deram. Naquele momento ele se tornou o adolescente que necessitava de Severus, que precisava de seus toques e abraços. Não interessava os olhares dos outros adultos que ali também estavam, que lhe julgassem se quisesse, a única coisa que importava era correr para os braços de Severus. Braços quentes que lhe agarraram com força e o sentiram tremer e chorar escondendo o rosto em seu pescoço.
– Hagrid! – Ralhou Snape enquanto o abraçava forte. – Eu disse para não falar nada para ele quando o visse, olha o que você fez.
– Ele não disse. – Soluçou Harry se afastando o suficiente para olhar o rosto de seu marido que gentilmente enxugou suas lágrimas apenas esperando-o falar. – Eu sei, Severus, eu soube o dia todo que algo estava errado. Desde o horário do café da manhã quando eu falei com ela alguma coisa aqui dentro gritou que havia algo errado. Eu deveria ter ficado, mas não fiquei e o dia todo a minha cabeça ficou confusa, fora do ar. Teve uma hora que eu senti uma dor forte no peito, foi há pouco tempo. Era algo tão ruim, me queimava, ardia, parecia como se algo estivesse abrindo um buraco dentro de mim. Eu sabia Severus, eu sabia que Lys estava em perigo. Hagrid não precisou dizer nada.
– Harry, eu não vou mentir para você. – Disse Snape arrumando os cabelos bagunçados do homem. – Desde o café da manhã que a Lys sumiu. Ela não apareceu no salão principal e nem nas aulas, falei com todos os professores e alunos que poderiam tê-la visto, mas ninguém se lembra de tê-la visto hoje.
– Por que não me disse, me mandasse uma mensagem, um patrono, eu voltaria do Ministério na mesma hora. Por que não me falou?
– Porque poderia ser muita coisa como também poderia ser nada, eu não iria te deixar desesperado apenas para descobrir que era uma brincadeira de menina. Estamos fazendo uma busca pela propriedade e por Hogsmead também. Vamos encontrá-la, entendeu? – Perguntou segurando seu rosto que ao contrário do que aconteceu com Hagrid, se moldou completamente naquelas mãos. – Eu vou encontrar nossa filha. Eu juro. Confie em mim.
– Eu confio Severus, eu confio. Só quero nossa menininha de volta.
Harry selou o pedido com um beijo necessitado. Enquanto sentia os lábios de seu amado Snape soube que jamais poderia falhar. Acharia Lys e a traria em segurança para seus braços e de Harry.
– Lys?
A sonserina olhou na direção do chamado e viu Morgan caminhar lentamente em sua direção, ela vinha com um sorriso torto no rosto e uma bandeja na mão.
– Trouxe para você, deve se alimentar, não vai querer ficar fraca logo agora não é mesmo.
Por mais que soubesse que não deveria Lys rezou para que Morgan fosse lançada longe quando encostasse na barreira, mas a menina apenas continuou andando tranquilamente até a alcançar e estender a bandeja de forma simpática como se aquela fosse a melhor coisa a se fazer da vida. Lys não virou a bandeja na cara dela como queria, mas tão pouco aceitou. Apenas virou o rosto para o outro lado e cruzou os braços em frente ao peito. Morgan suspirou, colocou a bandeja no chão e se agachou perto de Lys. A loira estendeu a mão tocando os cabelos negros de sua prisioneira que se esquivou de seu toque.
– Não toque em mim. – Disse a garota se levantando com os dentes cerrados.
– Não vou machucá-la. Não ainda pelo menos.
– Então o que quer? – Questionou Lys se aproximando de Morgan com a testa franzida e os olhos verdes escuros profundamente afiados. – O que quer de mim?
– Vingança.
– Você me tem aqui, indefesa, até minha varinha você tirou. Eu estou presa em uma barreira que demonstra o quão mais poderosa você é. Por que não me mata de uma vez?
– Seria muito fácil e pouco satisfatório. – Respondeu Morgan andando em círculos ao redor da menina. – Faz muito tempo que planejei um fim digno para você, ou melhor, para nós duas. Faz anos que tramo a forma de te destruir.
– O que...?
– Isso mesmo que você ouviu Lys Prince Snape, há anos venho te seguindo, te observando, te conhecendo. Desde quando você saiu da barra da saia daquelas malditas guardiãs. Você era apenas uma criança enclausurada em um lugar distante, seria muito fácil destruir você, era nítido que eu era mais poderosa, que eu te venceria facilmente. Porém as guardiãs tem armas e feitiços antigos que iriam me parar como fizeram com minha mãe Alexandra Morsteng e sinceramente não estava nada afim de ficar enclausurada por anos em uma caverna nojenta que me tiraria todos os poderes e te dando tempo para fugir para bem longe. Por isso permaneci por perto, fiquei na surdina apenas assistindo a pequena criança crescer.
Lys ouvia tudo com atenção e abriu a boca ao ouvir a narrativa de seus treinamentos saírem dos lábios dela. De nada adiantaram aqueles anos todos aprendendo a portar armas brancas, a fazer feitiços poderosos, nada adiantaria com aquela menina. Morgan era como o pai, frio, sem coração e sem amor e quando não há amor só há espaço para ódio, raiva, rancor e todos os sentimentos e lembranças que ruminam na alma até se tornarem apenas vazio. Ela, por sua vez, não tinha nada que ajudasse a igualar-se com Morgan. Tinha o amor, isso era verdade, nascera do amor de duas pessoas impossíveis, o amor que se mostrou mais forte do que a própria vida, mas o amor não lhe ajudaria contra aquele poder tão negro. Não havia modos de se ganhar aquela batalha, não quando havia medo e desesperança. Ela não era a princesa da vida como todos pensavam, podia sim ter vindo dessa linhagem, ter nascido com o propósito de matar a guerreira da sombra. Entretanto a verdade era que ela era apenas uma adolescente de quatorze anos que deveria apenas ficar preocupada com as espinhas que nasciam em seu rosto e se conseguiria chamar a atenção de algum menino da escola afim de finalmente ganhar o primeiro beijo.
Ela era uma farsa.
Sentindo vergonha por saber a verdade de si mesma Lys baixou a cabeça e olhou para o chão, não sabia o que Morgan planejava para si, mas sabia que era algo muito ruim e que não conseguiria fugir. Mentalmente pensou em seus pais e entes queridos que ousaram acreditar nela para um dia salvar o mundo onde viviam. Foi ali que tomou uma decisão. Poderia enfim não honrar a linhagem da Luz, mas honraria seu sangue, não morreria de cabeça baixa como qualquer covarde faria. Levantou a cabeça e olhou no fundo dos olhos azuis de Morgan com a determinação daqueles que sabem que irão morrer e se era para morrer, então faria isso lutando por aqueles que ama.
– Lute comigo.
– Não.
Lys quase não teve reação perante a recusa, sua mente só conseguia pensar que aquela loira aguada era louca ou simplesmente retardada.
– Não vou lutar com você, Lys, não agora. – Continuou Morgan. – Te matar só faria com que outra princesa nascesse daqui a não sei quantos anos e então eu ou qualquer outra guerreira teria que fazer tudo de novo. O segredo para derrotar você é te quebrar, te corromper lá dentro em seu âmago, no fundo da sua alma. Retirar de dentro de você a sua luz amada. – Ela sorriu de canto e se aproximou de Lys a ponto de seus narizes encostarem e terem que ficar vesgas para se olharem. Ela segurou o queixo de Lys com força quase machucando-a. – Eu quero te fazer uma proposta.
– Que proposta?
– Eu posso matar todos nessa escola, todos da sua família, todos os seus amigos, todos. Seu querido papa sabe do que eu estou falando, ele já viu isso, nas lembranças de uma mulher idiota que eu errei em deixar viva. Ele sabe que eu tenho poder o suficiente e eu sei que você acredita fielmente nele. Então eu te proponho a matar seu querido papa e salvar o restante do mundo.
– Você é maluca! – Gritou Lys empurrando Morgan que deu dois passos para trás e riu das tentativas inúteis da garota de se jogar contra a barreira tentando sair.
– É inútil Lys, essa barreira só poderá ser desfeita por mim. Você só conseguirá ser jogada e jogada novamente e outra vez no chão quebrando todo seu corpo. Vamos Lys, pense um pouco, não estou pedindo nada absurdo, uma vida por milhares, uma só.
– Você é louca! Jamais farei isso, nunca.
– Então terá que ver todos morrerem. Inclusive eles.
– Não...
– Eu disse que não vou matar você, eu vou te destruir. – As linhas da boca de Morgan tornaram-se duras e retas, suas belíssimas feições totalmente desfiguradas ante sua ira. Os olhos de Lys se arregalaram, Morgan se tornara a mulher de seus pesadelos, a personificação das Trevas. – Ou você mata seu amado papa e vive apenas com a morte dele em suas mãos ou então ficará corroendo a morte de todas essas almas. A escolha é sua Lys, sempre foi unicamente sua.
– Não pode fazer isso comigo. — Sussurrou Lys no chão.
– Eu posso e vou. Inclusive estou indo buscar seus queridos pais para verem sua amada filha fazer sua escolha, ou um ou milhares. Fique a vontade para pensar.
Snape caminhava com os olhos atentos pela floresta, seus ouvidos estavam a postos para captar qualquer som mínimo que identificasse onde sua filha poderia estar, sua mão apertava com força a varinha já pronta para lançar um feitiço em qualquer ameaça que visse. Seus pés eram silenciosos em meio a raízes velhas, folhas secas e galhos caídos, sua capa ondulava em seus tornozelos como a aura espectral de um fantasma. Ele se moldava ao escuro, escondia-se nas sombras e vivia na noite. Mas apesar de sua aparência fria e controlada Snape gritava de desespero por dentro. O medo imperava em suas células, medo de perder sua menina, de nunca mais olhar em seus lindos olhos ou...
“Ou nada, ela está bem, eu vou salvá-la.” Pensou Snape fechando os olhos com força e respirando fundo.
– Eu não contaria com isso.
O feitiço lançado iluminou a área e quebrou o galho a qual atingiu lançando-o longe. Snape rosnou correndo até o local e constatando que não havia nada além de vento onde deveria haver o corpo estuporado do ser que falara com ele.
– Vai ser meio difícil me estuporar.
Ao se virar novamente com a varinha apontada diretamente para a pessoa Snape deu de cara com os olhos azuis profundos e frios de Morgan displicentemente encostada a uma arvore com os braços cruzados e um sorriso irritante nos lábios. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto e sua roupa não era mais o uniforme da escola e sim uma veste negra de duelo.
– Pode rosnar quanto quiser, professor Snape. Isso não irá adiantar nada.
– Então era você o tempo todo.
– Muito mais tempo do que você pensa.
– Onde ela está? – Perguntou Snape cerrando os dentes. – Onde está minha filha.
– Não se preocupe, Lys está segura, pelo menos se seguir o que eu disse, caso ela tente fugir eu não me responsabilizo por qualquer dano a aquele corpinho.
– Não vou me repetir.
– Não vai mesmo, pois não é necessário. Eu não irei dizer onde ela está, não sou idiota. Mas vou levá-la até você. – Disse dando dois passos em direção ao homem colérico com olhos injetados. – Encontre-me em uma hora no campo de quadribol, leve toda a escola, todos os alunos e funcionários. Não se atrase, eu gosto de um espetáculo.
Com um sorriso cínico nos lábios a menina passou ao lado de Snape esbarrando em seu braço. O ex comensal quase quebrou sua varinha tamanha a força que exerceu sobre ela ao virar-se respondendo unicamente ao ódio que explodiu em seu peito. O feitiço verde ganhou o ar e voou em direção a ela, mas no ultimo instante, antes de encostar em suas costas a menina fez o que jamais fizeram, o que era impossível. Morgan virou-se e recebeu o feitiço da morte diretamente em seu peito. Snape prendeu a respiração aguardando o momento em que o corpo jovem cairia no chão escuro e ali jazeria, porém o que viu foi inconcebível aos seus olhos. A guerreira ergueu a cabeça, respirou fundo, sorriu e abriu os olhos que brilharam vermelhos antes de tornar-se azul novamente.
– Você não pode me matar Snape. Ninguém pode. Eu sou destinada a um único destino vinculado a uma única pessoa. – A bolsa que ela carregava foi jogada no chão enquanto caminhava lentamente em direção ao homem. – Sua filha.
Morgan ergueu a mão em um movimento brusco e Snape sentiu o poder o atingir com força lançando-o dez metros para dentro da floresta e o batendo em um velho tronco. Uma risada foi ouvida ao longe quando caiu violentamente no chão rolando sobre as raízes. A dor atingiu seu corpo já velho e deteriorado pelo tempo e esforços de um mundo de guerra. Gemeu ao se mexer e rosnou de raiva. Seus cabelos grudaram na testa junto com terra e folhas secas. Seus olhos piscaram vendo estrelinhas a sua frente. Ao fundo sentiu a enorme vontade de se entregar ao inconsciente, mas não podia, precisava continuar acordado, não poderia jamais dormir, pois dormir significava perder Lys. Tinha que se esforçar e mandar seu velho corpo obedecê-lo, levantar e continuar andando. Precisava chegar até o campo de quadribol. Tinha uma hora e o relógio não parava.
– Vista isso. – Ordenou Morgan jogando a bolsa no chão onde Lys estava ainda deitada olhando para o alto como se conseguisse ver o céu. – E rápido.
Lys não obedeceu, apenas permaneceu olhando para cima e piscando lentamente. Seu corpo ainda estava mais do que dolorido, quase não conseguia se mexer e seus pensamentos confusos estavam perdidos em meio ao caos de seus sentimentos adversos.
– Anda, levanta.
– E se eu não quiser levantar? E se eu não quiser fazer nada mais do que ficar aqui?
– Sabe eu pensei que a princesa seria alguém fútil e nojenta com quem poderia lidar facilmente. – Relatou Morgan tirando de dentro da bolsa uma espada e a cravando na terra ao lado de Lys. – Depois descobri que você até era interessante, mas agora só penso o quanto você é irritante. Levante-se agora mesmo ou faço seu querido papa descobrir quanto poder ainda guardo.
– O que você fez? – Questionou Lys levantando-se de um pulo esquecendo-se da dor.
– Calma estressadinha, não fiz nada com seu queridinho. Só dei um empurrão nele que de tão velho caiu de maduro. – Riu-se a garota olhando para como Lys cerrava os lábios. – É o seguinte. Você vai se vestir adequadamente, nós iremos para o campo de quadribol e lá você fará a sua escolha, não estou com muita paciência para o seu lenga lenga então apenas faça o que eu disse e rápido.
Não havia muito o que escolher então Lys apenas obedeceu vestindo o que parecia uma veste de duelo, era igual ao que a loira usava porém da cor branca ressaltando a diferença entre as duas.
– Isso agora vamos embora logo, temos alguns minutos até chegar ao campo de quadribol, não quero me atrasar, seria realmente muito ruim a anfitriã da noite chegar atrasada, não é mesmo? Pode ir à frente.
– Como irei na frente se nem ao menos sei o caminho?
– Como você é irritante. – Disse Morgan lançando um feitiço que Lys não conhecia e que traçou uma linha azul por onde deveriam caminhar. – Agora vai.
Demorou muitos minutos para finalmente chegarem até o campo de quadribol. As torres do campo estavam iluminadas, Lys descobriu que já era muito tarde, a lua já estava alta no céu e as estrelas eram intensas. Morgan caminhava atrás de si com a varinha devidamente apontada para suas costas levando-a pelos arredores do campo. Era possível ouvir o barulho das vozes lá dentro. Lys engoliu em seco ao se aproximar da entrada do campo, sentia a apreensão crescer em si. Quando enfim postou seu pé no campo e olhou para a multidão que ali estava não acreditou na loucura que Morgan estava planejando. Ela realmente queria que escolhesse o destino de todos aqueles estudantes? Aquelas crianças tinham em seus rostos o medo de não saber o que estavam fazendo aquela hora no campo de quadribol com todos os funcionários e professores presentes. Via nitidamente os olhos ainda sonolentos vagarem de um lado para o outro procurando alguém responsável por lhe dar a resposta que ansiavam. Eram tão jovens, não somente os do primeiro ano, mas até mesmo os do sétimo ano que estavam prestes a sair definitivamente da escola e ganhar a liberdade que a vida adulta lhe dava. Eram jovens por ainda não conseguirem saborear os prazeres que a vida pode dar. Muitos ainda não sabiam o que era a beleza do amor, o prazer da paixão, a alegria da família, a responsabilidade do trabalho. Eram jovens, eram vidas e estavam em suas mãos.
– Lys.
A voz de seu pai chegou ao seu ouvido forçando-a a olhar para o pequeno grupo aglomerado do outro lado do campo. Ali estavam alguns aurores, professores e a diretora. McGonagall tinha em seu rosto a clara incompreensão do que estava acontecendo, ao seu lado Snape olhava para Lys de uma forma que a menina não conseguia entender, seus olhos negros eram um misto de raiva e preocupação, havia outras coisas no fundo de suas íris que eram impossíveis de se compreender. Harry estava ao seu lado apertando forte sua mão, trazia em seus olhos verdes as lágrimas do desespero.
– Senhorita Kematian! – Exclamou a diretora se aproximando alguns passos. – O que pensa que está fazendo?
– Estou apenas seguindo meu destino diretora. E agradeceria que ficasse ai atrás mesmo, tenho algumas palavras para falar com todo mundo. – A loira sorriu e fez um gesto com a mão indicando que a diretora deveria ir para trás. Quando McGonagall obedeceu Morgan agarrou Lys pelo braço e a levou para o meio do campo. Harry fez menção de ir em sua direção, mas Snape segurou seu braço com força fazendo-o ficar no mesmo lugar. – Muito inteligente, professor Snape. – Disse Morgan fazendo Lys ajoelhar-se ao seu lado. – Agora quero que me escutem com atenção.
Usando um feitiço para aumentar o volume de sua voz Morgan pediu silêncio a todos e conforme desejava todos se calaram, a tensão era gritante, se via o medo e angustia nos olhos de todos, os menores se abraçavam entre si e os maiores e mais velhos seguravam suas varinhas com força.
– Meu nome é Morgan Kematian. Podem dizer que sou da Sonserina, mas sou muito mais do que isso. – Ela se dirigia a todos ali presente, sua voz prendia a atenção deles. Ela andava displicentemente de um lado para o outro olhando para todos os rostos, seus cabelos balançavam levemente com o vento fraco da noite. – Há muito tempo, mais tempo que a própria existência, houve A Luz e As Trevas. Ambas eram irmãs, ambas eram donas da vida. As Trevas sempre demonstrou o quanto era melhor, mais poderosa e mais querida do que A Luz. Todos diziam que eram adeptos da Luz, que amavam o bem, mas no fundo, lá dentro, todos carregavam as Trevas, todos clamavam por ela, pediam por seu auxilio e no fim diziam-se bons, dignos do perdão divino. Mentirosos! – Gritou ao mesmo tempo em que um trovão ribombou no céu. – As Trevas ficou tão irada, tão raivosa, ela queria destruir A Luz, mostrar que ela não era digna das aclamações do povo. Mas como irmãs elas não poderiam se tocar. Jamais. Era uma lei divina. Foi então que nasceu a Guerreira das Sombras, a destinada a aniquilar a fé da Luz. Porém essa também teve uma filha, a Princesa da Vida. Ambas lutaram e infelizmente minha ancestral foi derrotada. – A atenção estava redobrada na menina. – Outras vieram após elas e durante anos todas lutaram, guerrearam. Todas falharam.
– Se todas falharam, o que lhe garante que você então vá conseguir vencer. Talvez essa luta seja inútil.
– Talvez, querida diretora. Mas eu conto com vantagens que minhas ancestrais não contavam.
– O que, por exemplo?
– A minha origem, por exemplo, ao contrário das outras guerreiras que nasceram com a linhagem e poderes vindos unicamente de suas mães, eu fui gerada por aqueles que um dia a terra temeu. Alexandra Morsteng, descendente direta das Trevas e da linha do próprio Mérlin, uma bruxa tão poderosa e cruel que foram necessários feitiços antigos para anularem seus poderes. E do próprio Voldemort. – Muitos levaram a mão a boca e sussurraram entre si tremendo perante a verdade que lhes foi jogada na cara. – Acho que nem mesmo preciso dizer quem ele é. Vocês sentiram o poder do meu pai, sabem do que ele era capaz, eu sou mais poderosa do que ele, detenho em meu sangue um poder que nenhum de vocês conseguirá lutar contra. Podem pegar suas varinhas neste momento e me lançarem quaisquer feitiço que quiserem, você não irão conseguir.
Dito e feito, todos os alunos, aurores e funcionários ergueram suas varinhas mirando na menina loira, muitos feitiços foram proferidos, mas nenhuma luz foi vista. As testas se franziram, xingamentos foram emitidos e perguntas foram lançadas ao vento que agora balançava as capas e sobretudos com mais força.
– Eu disse. – Sorriu Morgan de canto. – Outra da minha vantagem é que essa menina. – Apontou para Lys. – Jamais chegará aos pés de qualquer outra Princesa que existiu. Ela é fraca, é covarde e medrosa. Se quisesse matá-la eu teria feito há muito tempo. Mas... a minha maior vantagem, aquela que vai me garantir a vitória, é que eu sei como derrotá-la. Matar seria fácil, mas nada adiantaria, ela nasceria novamente e o ciclo recomeçaria. O que eu tenho que fazer é destruí-la por dentro. Mostrar a ela e a vocês também que não importa quanto amor vocês possam pensar ter dentro de vocês, ele não vence, nunca. Sempre haverá o negror para corroê-los e ele é mais forte.
– Por favor, não faça isso. – Pediu Lys com os olhos marejados.
– Pode implorar quanto quiser. Eu nasci com um propósito e vou conseguir o que quero. Eu dei a ela uma escolha, essa escolha vai decidir a vida de vocês, de todos vocês.
– Que escolha? – Perguntou Harry ainda segurado por Snape.
– Ou ela mata o professor Snape e eu deixo todos livres para irem para suas casas ou eu mato todo mundo.
– Não, não, você não pode fazer isso. – Exclamou Harry pondo-se a frente de Snape. Os aurores se aproximaram do ex comensal e ergueram suas varinhas novamente, mas de nada adiantou. – Não vou permitir. Eu matei seu pai, vou matar você também.
– Eu sei que você matou meu pai, o grande Harry Potter, agora Harry Snape. Eu pesquisei sobre você e o que aconteceu, eu sei como os fatos seguiram-se e sei que você não é tão poderoso assim como pensa, sua vitória contou com a sorte e auxilio de amigos e da Varinha das Varinhas. Você não é nada Harry Potter e agradeceria se saísse da frente, está me atrapalhando.
– Não, você não irá tocar nele. – Gritou Harry com os lábios cerrados. – Eu não vou permitir, terá que passar por mim primeiro.
– Tudo bem então. – Concordou a menina erguendo a mão.
– Não! – Dessa vez foi Snape quem gritou, sua voz arrastada e rouca reverberou pelo estádio. – Eu vou até você.
– Severus, não. Você não vai. – Pediu Harry olhando para ele. – Eu não vou deixar.
– Não estou pedindo sua permissão Harry. Você não pode com ela e precisa cuidar de nossa filha. – A voz de Snape era seca enquanto falava. Não houve despedidas, não houve mais palavras, apenas um aceno para Hagrid que segurou Harry enquanto caminhava em direção a Morgan. – Muito bem senhorita Kematian, faça o que quer fazer. Porém há algo que precisamos fazer antes.
– E o que seria?
– Um voto perpétuo. Acho que deve saber que seu poder não é páreo para as regras mágicas do Voto. Independente de quanta magia poderosa há em seu sangue se você não respeitar o Voto, morrerá.
– Sim eu sei. O que quer que eu jure?
– Que se Lys me matar você deixará todos em paz e dará sua vingança como cumprida indo embora desse mundo.
– Acredite, professor Snape, se minha vingança for cumprida estarei mais do que satisfeita. Eu quebrarei o coração dela de uma forma que jamais irá se juntar novamente. Eu farei o Voto com a professora McGonagall. Pegue sua varinha, por favor.
A menina se aproximou de Minerva que a olhava como se olha para a pior escoria do mundo. Se os olhares tivessem poder a diretora teria matado aquela garota infernal naquele mesmo momento. Morgan ergueu a mão e segurou o punho da diretora como mandava os termos do Voto.
– Você Morgan Kematian jura que se Lys Snape cumprir a ordem de matar Severus Snape irá embora e nunca mais perturbará a paz do mundo bruxo ou trouxa?
– Eu juro.
Uma fina linha dourada saiu da ponta da varinha de Snape e enlaçou a mão de Minerva e de Morgan, era quente e ardida. Logo a linha sumiu no ar e Minerva retirou sua mão olhando raivosamente para Morgan.
– Eu tenho nojo de você.
Morgan não respondeu, apenas acenou para Snape andar. Levantou novamente a mão movendo-a levemente jogando longe a varinha que Snape carregava. Ela o forçou a ir a frente controlando seu corpo. Ao chegar diante de Lys o homem foi forçado a se ajoelhar de frente para sua filha e olhar para seus olhos assustados, estavam grandes e brilhosos, suas pupilas dilatadas deixando-os negros como os seus. Os cabelos pretos de Lys voavam com o vento forte assim como o seu também, eles arranhavam seus rostos, mas nenhum dos dois ligou para isso, só o que importava era se olharem e dizerem silenciosamente o quanto se amavam. Snape viu as lágrimas caírem por aquele rosto jovem e sentiu-as queimar seu coração.
– Papa. – Sussurrou a menina com a mão na boca, as lágrimas desceram vorazmente por seu rosto manchando-o. – Eu não posso.
– Pode sim. – Disse Snape baixinho. – Você é minha filha, você é forte e conseguirá fazer.
– Não papa, não posso, eu não farei.
– Fará sim, é a única saída que temos. Você precisa.
– Eu não vou matá-lo.
– Se não me matar, ela matará todos nós e te deixará com a culpa corroendo você. Eu já vivi muito Lys. – Os olhos negros de Snape eram límpidos para Lys, ela via o amor que ele mantinha ali dentro, aquele que muitas vezes ele não conseguia expor. – E eu sou agradecido por poder viver o suficiente para ver o quanto você cresceu e se tornou essa garota linda que é. Eu amo você Lys.
– Por favor, papa. Não faz isso comigo. – Soluçou a garota.
– Me matar não vai te deixar com a culpa. Porque eu estou aqui, eu quero que faça isso. Já sujei muito minhas mãos, o sangue dos inocentes ainda corre nelas, eu sei como é ter que conviver com isso e não quero isso para você. Faça.
– Isso mesmo Lys, faça. – Disse Morgan erguendo a menina sem se importar se machucou ou não. Lys sentiu que ela colocava algo pesado em sua mão, mas não conseguia sequer pensar no que era, seus olhos só conseguiam olhar para seu papa ajoelhado a sua frente esperando o momento em que ela tiraria sua alma. – Presta atenção! – Ralhou Morgan fazendo-a finalmente desviar o olhar de seu pai. – Faça rápido.
Foi quando a loira se afastou que Lys percebeu que em suas mãos estava sua espada dada pela guardiã mestra, a mesma espada que passou pela linhagem das princesas, a espada forjada pela própria Luz. Era pesada, mas se encaixava perfeitamente em sua mão. A lamina era brilhosa e ao ser erguida diante de seus olhos refletiu sua imagem mostrando o quanto parecia derrotada com os olhos vermelhos e o rosto manchado pelas lágrimas. Os cabelos negros grudavam na testa e emolduravam o rosto redondo. Enquanto olhava para si mesma percebia a semelhança com seus pais, a linha dos lábios iguais os de Harry, os traços do queixo como Snape e os olhos que mesclavam os dois. Mas acima de tudo ela viu a semelhança com ela mesma, com a Luz dentro de si. Viu-se única. Ela era única.
– Vamos Lys. – Disse Morgan segurando sua própria espada e mostrando o metal negro para a menina. – Se você não fizer eu mesma farei. Ande logo. Nem ao menos tem o que pensar. Olhe para ele. – Lys baixou a espada e deu um passo a frente olhando para Snape no fundo de seus olhos. – Ele é digno de morte. Sabe quantos inocentes ele já matou? Sabe quanta crueldade seu papaizinho querido já fez na vida?
– Eu sei. Nunca houve mentiras entre nós. Eu sei de tudo.
– Não de tudo não é mesmo? Você não sabe os reais sentimentos de seu querido papa quando você foi concebida. – Snape virou o rosto para a menina e seus olhos arderam de raiva, ele gritou, ele pediu para que ela não dissesse aquilo, mas nada seguraria a crueldade de Morgan. – Você não sabe? Snape foi obrigado a se casar com Potter a fim de ter você, era um casamento arranjado, tudo armado por Dumbledore para que você nascesse. Você foi nada mais nada menos do que uma arma, um brinquedo nas mãos desses bruxos. Snape te odiava, ele não queria saber de você e até mesmo Potter sofreu por isso, amando aquele que não queria nem mesmo tocá-lo, que odiava beijá-lo, que sentia asco ao se deitar com ele. Esse é o seu querido paizinho.
– Não. – Sussurrou Lys. – Ele me ama.
– Ele te enganou todo esse tempo. Ele não te ama, nunca te amou de verdade, você sabe que só foi gerada para me matar, esse é seu propósito, seu destino. Sempre foi, você sabe disso. E agora vocês todos sabem disso. Esse homem não merece a misericórdia de vocês. Digam-me, Lys deve manter esse ex comensal da morte vivo e deixar que vocês morram no lugar dele?
As palavras ardilosas de Morgan deram o efeito desejado. Enquanto Lys olhava para Snape com dor pelas verdades jogadas a sua frente os alunos se revoltavam na arquibancada pedindo a morte de Snape. Morgan sorria em meio ao caos, ela se preenchia com as palavras cruéis que eram lançadas ao vento. Uma chuva forte começou a cair encharcando o corpo enquanto a raiva começava a subir por suas entranhas. Lys segurou o punho da espada com força e cerrou os dentes. O ódio ardia em suas veias e queimava sua carne. Seus olhos se fecharam com força e um grito gutural rasgou sua garganta fazendo todos se calarem.
– Isso garota. – Vibrou Morgan. – Sinta o ódio, o rancor, a ira consumir você e tirar de dentro todas as coisas boas que foram frutos de mentiras.
Lys abriu os olhos e sentiu Morgan perto de si, mas seus olhos estavam grudados em Snape. A água caia com violência neles. Sentia seu corpo ficar mais pesado e ainda assim ergueu a espada no ar segurando com firmeza e determinação. Seus olhos injetaram-se com o negror do ódio, seus músculos se tencionaram, podia sentir até mesmo que estava maior, mais alta, mais poderosa. Ela não viu quando Harry tapou a boca com as mãos e caiu de joelhos no chão sentindo em seu peito a dor da iminente morte de seu marido. A espada finalmente parou na altura certa, seria um corte em diagonal, um único golpe rápido e pronto. Seus dentes ainda estavam cerrados e a saliva da raiva misturava-se com a água da chuva. Snape não emitiu um único pedido de misericórdia, apenas olhou no fundo dos olhos de sua filha, lembrou-se de todos os momentos bons que tivera com ela, deixou seu coração ser preenchido com todo o amor que poderia ter e sussurrou um eu te amo antes de fechar os olhos e estender o pescoço para que o golpe fosse certeiro. Morgan vibrou de felicidade e Lys sussurrou duas palavras que fizeram o coração de Snape quase parar.
– Eu sei.
O barulho da lâmina cortando o ar chuvoso misturou-se com o grito de Lys quando a menina desferiu seu golpe. Snape esperava a morte rápida onde seria levado desse mundo sendo impossibilitado de sentir, mas ele sentia a chuva ainda bater em seu rosto, sentia o vento açoitar sua pele, ouvia os suspiros surpresos dos alunos nas arquibancadas. Temeu que Lys não tivesse coragem de fazer, mas ao abrir os olhos se deparou com a imagem mais impressionante que já vira em toda a história bruxa. Lys resplandecia luz e fúria. Seus olhos estavam raivosos e firmes. Todos os indícios de fraquezas foram embora, não havia medo ou dúvidas nos traços daquela mulher. Lys se transformara na sua frente, não era mais a sua filhinha indefesa, era a própria princesa da vida. A lâmina que retiraria sua vida rasgou o céu, mas não foi em sua direção, ela batera com força na espada que Morgan usara para se defender. Lys não o mataria, ela lutaria.
– O que pensa que está fazendo?
– Estou seguindo meu destino e ele não é ficar encolhida com medo de você.
– Sabe que não tem chance contra mim, Lys. Sabe que sou mais forte que você.
– Você não é nada. Eu entendi tudo errado. – Disse Lys forçando a espada para baixo fazendo com que Morgan usasse mais força para se defender. – Eu tive medo de te enfrentar, pois achei que a raiva que eu sentia era ruim, que eu não deveria me ater a esses sentimentos cruéis que nasciam em mim. Eu tinha medo de deixá-los me controlar, mas quando mandou que eu matasse meu pai eu percebi que jamais conseguiria fazer, porque independente do que você dissesse, mesmo que sendo a verdade, ele me ama e eu o amo. Mas também não poderia deixar que matasse todas essas pessoas. O destino delas está em minhas mãos e a decisão não é através da morte do meu pai, mas sim da sua. Então eu senti raiva, eu senti ódio, porque eu tenho eles dentro de mim.
– Sim e eles irão te consumir, e você será destruída por seus próprios sentimentos.
– Não, você está completamente errada, você também entendeu errado. Eu sempre tive esses pensamentos e sentimentos dentro de mim. Eu nasci assim, eu sou assim. Mas tinha que direcioná-los para as ocasiões certas. Não é ruim ter raiva ou ódio, é normal, é da nossa humanidade, mas não posso deixar que isso se torne motivo para cometer atos cruéis como você faz. A minha raiva me deixa mais forte porque é o que me dá coragem, a sua raiva te deixa mais fraca porque é o que te destrói.
– Então você quer brincar. – Zombou Morgan levantando-se com força e empurrando Lys que se afastou alguns metros.
– Eu não vou brincar, eu vou te matar.
Snape nem mesmo soube quando Lys fizera aquilo, mas sentiu o poder emanar dela e o empurrar pelo gramado para longe de onde as duas começaram o embate. Com os olhos arregalados viu quando sua menina pulou no ar e desferiu um golpe perfeito em Morgan que mais uma vez teve que se defender. O poder que tanto fizeram para disfarçar em Lys, que tanto temiam que ela perdesse o controle finalmente fora liberto e fazia com que todos sentisse-o comprimir seus peitos causando falta de ar. Era algo tão poderoso que chegava a ser fatal.
– Tire os alunos daqui Minerva. Rápido! – Gritou Snape.
Rapidamente os professores e aurores correram em direção as saídas ajudando os alunos a fugirem daquele local. Harry permaneceu com Snape apenas olhando para as duas que lutavam entre si levantando as espadas no ar e desferindo golpes cada vez mais e mais poderosos. O som das espadas se encontrando em pleno ar era ensurdecedor.
– Desista Lys, eu sou mais poderosa que você. E vou te matar, mas só depois de matar seus pais e agora vai ser por puro prazer.
A raiva ardeu mais uma vez no coração de Lys, a garota correu com a espada na mão, apertou a base com força e gritou ao pular em direção a Morgan. Ninguém jamais encostaria em seus pais. Harry gritou quando a luz branca quase o cegou forçando-o a fechar os olhos com força, ele se abraçou a Severus e os dois se agarraram sem saber o que estava havendo. Enquanto isso Morgan que se defendia do golpe poderoso de Lys e arregalava os olhos para a aura que expandia-se ao redor da garota, era branca e poderosa. Algo jamais visto. Por um segundo a guerreira temeu o poder da princesa e esse momento de fraqueza fora o suficiente para que Lys a desarmasse e a jogasse pelo ar fazendo com que seu corpo batesse violentamente no chão. Morgan gemeu de dor e tentou se levantar, mas Lys, em um último ato de coragem correu em sua direção e jogou-se em cima de seu corpo. A espada estava pronta para ser cravada fundo no peito da guerreira mandando sua alma de volta para o inferno, porém houve um relance no olhar de Morgan que fez a lâmina parar no ar a menos de um milímetro da pele dela. Havia algo atrás de suas íris, algo que entrou em Lys como uma adaga afiada cortando-a em pedaços. Uma lembrança. A lembrança escolhida pela guerreira para se segurar antes da morte.
Lys viu a lembrança, entrou nela, sentiu como se fosse sua. Ela estava lá, viu-se como se fosse a própria Morgan pequena ainda, não mais do que quatro ou cinco anos. Viva em um instituto ou que fosse mais parecido com aquilo. Viu-se em um quarto grande com uma cama, um guarda roupa e uma cômoda com espelho. O quarto era escuro, não havia detalhes coloridos, nem fotos penduradas nas paredes ou mesmo flores para alegrar o quarto. Era seco e rústico, trazia a impressão de frieza e dureza igual a ela mesma que se olhava no espelho. Era linda, seus cabelos eram pretos e longos, seus olhos de um azul que resplandecia em seu rosto. Estava vestida com algum uniforme pesado e que caia perfeito em seu corpo magro. Mas apesar de criança seus traços da face eram tão frios e seus olhos tão gelados que nem mesmo pareciam pertencer a uma criança.
– A mestra quer vê-la.
A frase veio de uma mulher de traços rudes e nariz franzido que nem mesmo fez questão de olhar para a menina ou a acompanhar, apenas entrou, falou e saiu como se Morgan fosse nada mais do que um enfeite cru do quarto. Ainda no corpo dela Lys caminhou pelo casarão sem dizer uma única palavra, sua cabeça estava erguida ao passar por todas as mulheres que ali estavam, ninguém lhe dirigiu uma palavra, um olhar. Nada.
– Mandou me chamar? – Disse ao entrar em uma grande biblioteca.
– Sim. – A voz era rouca e velha, vinha da mulher sentada em uma poltrona de shintz atrás de uma mesa grande de madeira rústica. – Ouvi a senhora Previ dizer que seu desempenho tem sido insatisfatório.
– Estou fazendo o melhor que...
– Não é suficiente. – Cortou a mulher grosseiramente. – Você tem que ser melhor, tem que se esforçar. Precisa entender que seu intuito é apenas ser melhor que todos para no fim poder matar a princesa.
– Sim senhora.
– Então você vai melhorar seus treinamentos.
– Sim senhora. Posso ir?
– Não, você terá que limpar os banheiros para saber o que suas falhas causam. E não me culpe, a culpa disso tudo é da princesa, da maldita princesa que irá nascer. Culpe-a pelos banheiros que terá que limpar, culpe-a pelas suas falhas.
– Sim senhora.
A menina saiu sem revidar uma única vez e Lys sentiu dentro de si o ódio que ruminava naquela criança. Ela trancou-se dentro de si, guardou aquele ardor em seu âmago e o deixou ferver com raiva. Sem reclamar pegou os produtos de limpeza e foi para o primeiro banheiro, o do último andar. Quando já estava no terceiro banheiro e sua testa pingava de suor viu uma mulher chegar perto de si, era uma senhora de idade e ao contrário das outras mulheres aquela trazia em seu rosto uma feição amigável.
– Minha querida, o que está fazendo?
– O que acha que estou fazendo, velha? Estou lavando esses malditos banheiros como ordenou a mestra. – Lys ouviu aquelas palavras saírem de sua boca, mas não houve reclamação por parte da senhora, ela apenas riu e tirou o esfregão da mão da menina.
– Descanse um pouco, precisa disso.
– Preciso terminar minha tarefa.
– Você precisa é de um banho.
– Está me chamando de fedida?
– Sim, estou.
– Ora essa, sabe quem eu sou por um acaso?
– Eu saber ou não quem você é não interfere no fato de você estar fedida, precisa de um banho urgente e também de descansar. Vou te ajudar com esses banheiros, depois prepararei um bom banho para você e um chocolate quente.
Lys franziu a testa não entendendo o que aquela senhora queria, mas preferiu apenas aguardar e ver o que aconteceria. A Lys de verdade olhou para Morgan com a própria testa franzida, não entendia o porque Morgan escolheria aquela lembrança antes de morrer. Sem esperar voltou para dentro daquela lembrança e viu quando a senhora guardou os produtos de limpeza e caminhou ao lado da menina até seu quarto onde a deixou sentada na cama e ligou a torneira da banheira. O cuidado que a mulher tinha com a menina era algo a qual ela não estava acostumada e era visível seu desconforto perante os bons tratos da velha. Morgan foi banhada com carinho, teve leite quente ao seu dispor e uma cama feita por outras mãos que não as suas. A senhora a cobriu e beijou sua testa, mesmo depois de Morgan se esquivar de seus toques.
As lembranças mudaram, mas sempre foram a mesma coisa, a velha senhora ao seu lado, sempre preparando seu banho, fazendo leite quente e a cobrindo antes de dormir, os beijos na testa já não eram mais estranhos e nem mesmo os carinhos em suas costas quando o peso de seu destino a deixava destruída. Houve momentos de cuidados quando se machucava e algumas conversas soltas sobre banalidades. Lys se surpreendeu em como a menina que crescia cercada de frieza e normas, treinamentos e dureza abria o coração para aquela senhora. A velha teve seu cantinho na alma de Morgan que nunca soube se o que sentia por ela era amor, e nem mesmo teve tempo para descobrir. A velhice é uma praga que traz consigo as mais diversas doenças e fraquezas. A velha fora tomada por uma delas e enfim se entregou a morte deixando a menina sozinha com seus nove anos de idade. Aquela fora a única vez que Morgan chorou, depois disso nunca mais houve leite quente ou beijo ao dormir. O cantinho da velha fora fechado com concreto em seu coração. E então ela fora embora daquele instituto. Seguiu seu destino solitária se amargurando a cada vez que via o amor direcionado a Lys.
A espada foi afastada da pele de Morgan e jogada no chão, Lys suspirou fundo olhando dentro dos olhos dela, sua mão ainda estava postada em seu pescoço e suas pernas ao lado dos seus quadris.
– Você amou. – Disse Lys para a menina que segurava sua mão tentando afastá-la. – Você amou.
– Sim, eu amei, eu amei e ela morreu. – Gritou Morgan. – Que bem me fez amá-la, que bem me fez querer que ela ficasse o resto da minha vida ao meu lado. Hein? Me responde grande princesa. Ela foi tirada de mim e eu fiquei sozinha. É isso que você chama de amor? Pois então eu prefiro não amar.
– Mas amou e por mais que doa ela ter ido embora ela fez os seus anos ao lado dela os melhores que você já teve.
– Isso não importa, esses anos se foram. Eu não sou mais aquela criança idiota que eu era. Eu tenho um único propósito que é matar você e eu farei isso.
– E depois você fará o que? O que há depois de tudo isso Morgan? Nada, não haverá nada. Qual a razão disso? Vamos guerrear e nos matar por causa de uma guerra tão antiga quanto o próprio pensamento? Essa guerra não é nossa.
– Nós nascemos para isso.
– Nos fizeram para isso, mas não necessitamos disso. Você não conseguiu compreender ainda? Eu não sou Luz, eu não sou pura, eu odeio também, eu sinto raiva e muitas vezes quero xingar o mundo inteiro por tudo que sinto. Acha que não quero socar a cara dos idiotas com quem vivo na escola, eu quero, e por pior que seja isso já quis desejar a morte de muita gente. Eu sinto isso, porque eu sou humana, assim como você. Você não é só ódio Morgan, há mais em você, eu sei disso.
– Você não sabe nada. – Rosnou Morgan deixando a saliva misturar-se com a chuva grossa que ainda caia. Raios caíram na Floresta Negra e o vento açoitava as árvores com grande violência. – Eu posso ter amado um dia, mas não há mais amor aqui dentro, só ódio. Não há espaço para mais nada além de raiva.
– Há sim. – Sussurrou Lys. – Nunca se deixa de amar alguém, ainda mais um amor como o seu onde só houve aquela pessoa na sua vida. Alguém tão importante como aquela senhora jamais seria despachada de seu coração. Ela ainda está ai dentro. – Lys falava olhando para o peito da menina e tateando seu colo até finalmente achar o ponto onde se podia sentir o bombear do coração. – Eu vou te fazer lembrar-se do amor dela.
– O que? – Perguntou Morgan arregalando os olhos. – Não!
Lys prendeu seus olhos aos de Morgan enquanto sentia seu poder minar para seus poros esvaindo-se pelo ar. Morgan arqueou as costas e gritou com desespero quando sentiu o poder de Lys entrar por sua pele e perfurar sua carne até atingir seu coração. A alguns metros de distância Snape e Harry, continuavam abraçados para proteger-se das magias desprendidas dos corpos daqueles seres fantásticos.
– Ela estava prestes a matá-la. – Disse Harry. – E então tudo acabaria, por que ela não a matou?
– Porque ela é melhor do que isso. Ela é a própria Luz.
Uma luz resplandecente que explodiu quando a casca do coração de Morgan foi enfim quebrada. A noite virou dia, a chuva cessou e o vento deu trégua. Harry abriu os olhos devagar quando a luz diminuiu e olhou para a menina em pé no meio do campo de quadribol. Lys respirava fundo sentindo o cansaço bater em seu corpo, seus olhos estavam presos na outra menina desacordada no chão respirando com dificuldade. Harry se levantou junto de Snape e ambos caminharam até Lys abraçando-a com força.
– Pensei que iria perdê-los.
– Estamos aqui meu amor. – Disse Harry abraçando-a com força. – Estamos aqui.
– Papa, eu não podia. Eu não conseguiria fazer.
– Eu sei. Não se preocupe com isso.
– O que você fez com ela? – Perguntou Harry olhando para Morgan.
– Eu devolvi o que jamais deveriam ter arrancado dela. Mostrei que não há luz sem sombra, nem noite sem dia. Eu a completei.
– E o que fará agora? Ela vai tentar te matar novamente.
– Não vai não.
– Como sabe?
– Eu sei. – Sorriu Lys se agachando ao lado da menina e tirando os cabelos loiros do rosto dela. – Tudo será melhor agora.
– Então acabou?
– Por enquanto papai, por enquanto.
As nuvens negras no céu se afastaram deixando que a lua alta brilhasse com esplendor banhando Lys e Morgan. Lys olhou para a menina loira e acariciou a bochecha dela agradecendo pela dádiva dada não somente a si, mas a todos os seres agraciado com a vida.
– Eu te perdoo, minha irmã. – Disse Lys selando o fim daquele destino com um beijo na testa da guerreira que dormia com a cabeça no colo da princesa.
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