A Lenda

19 Cada dia mais apegado, cada dia mais proibido.


Olá gente, quero muito agradecer a paciencia de vcs, mesmo.... eu sei que as vezes demoro para postar a fic, mas é que o tempo é curto e tenho tres fics e mais meu livro para escrever, por isso algumas vezes fico sem ideias ou então cheia delas e sem tempo, mas aqui está um novo capítulo de A lenda....espero que gostem.....obrigada pelos reviews.... bjusss


Capítulo 19 – Cada dia mais apegado, cada dia mais proibido.


Snape dormia tranquilamente naquela noite de ano novo sentindo o perfume gostoso que a pele jovem exalava, seu nariz enterrava-se inconscientemente nos cabelos revoltos deixando que aquele aroma delicioso e característico o dominasse inclusive nos sonhos, antes repletos de sombras e obscuridades de sua infância, agora apenas branco com verde. Agora não havia mais pesadelos o assolando e o obrigando a permanecer o máximo de tempo acordado atrasando o sono necessário para que as lembranças não o tomassem e não o fizessem gritar até que finalmente acordasse e tremesse de medo.

Não. Agora tudo estava perfeito. Pelo menos por enquanto.

– Severus?

A voz mole e quase adormecida o chamava baixinho enquanto a mão pequena tocava em seu braço delicadamente. Deveria acordar para saber o que era, mas o calor do corpo dele era tão gostoso e tão calmo, o fazia tão bem que não tinha a menor vontade de abrir os olhos, só aperta-lo mais ainda contra si e enterrar-se em seu sono sem sonhos novamente.

– Severus? – Chamou novamente.

– O que é, Potter?

– Faz um favor? – Perguntou o menino.

– O que você quer?

– Você fica lindo assim sonolento. – Riu Harry virando-se e ficando de frente para o homem. Apesar de estar acordado, Snape estava tão parado que parecia ferrado no sono, no entanto prestava completa atenção ao menino. – Você disse que eu podia pedir o que eu quisesse para você.

– Estou começando a me arrepender de ter dito alguma coisa. – Murmurou Snape ainda quase imóvel.

– Se não quiser fazer, não precisa. – Sussurrou Harry baixando a cabeça e olhando para o peito do homem.

– Não comece com drama, Potter. O que você quer?

– É besteira, Severus, eu tive um sonho idiota só isso. – Disse mexendo nos ralos pelos do peito do homem antes de se aconchegar em seus braços e esconder o rosto em seu pescoço exalando seu perfume de ervas. – Vamos dormir.

– Ah! Potter. – Murmurou Snape deitando Harry de costas e passando os lábios em seu pescoço. – Não sabe como essa mania de dramatizar me deixa completamente irritado e excitado.

– Severus. – Sussurrou Harry. – Dessa forma vou gozar só com suas palavras.

– Não seja apressado. – Respondeu o homem passeando a mão pelas pernas trêmulas. – Não farei nada até que me diga o que deseja.

– Já até esqueci.

– Então se lembre.

– Nesse momento não interessa muito. – Gemeu Harry mexendo o quadril.

– Pra mim sim. – Disse Snape erguendo-se nos cotovelos e olhando dentro dos olhos afoitos. – Quero fazer isso. – Franziu a testa e engoliu em seco. – Eu quero te dar o que você me pedir, comprar o que você desejar enquanto eu posso.

Harry ergueu a mão e tocou levemente o rosto dele, sentindo os pelos de sua barba começarem a nascer, Snape o olhava com apreensão, o homem não estava acostumado a dizer em voz alta o que desejava e aquela frase, aquele pedido era algo simples e ao mesmo tempo complexo. O coração de Harry estava inchado de tanto amor que sentia por ele, chegava a sangrar quando o via dessa forma, vulnerável, sentindo medo de ser rejeitado por expor seus pensamentos. Faria o possível para vê-lo sempre com a aura leve que estivera esses dias.

– Diga para mim o que quer. – Pediu Snape tocando os lábios do menino.

– Eu quero... – Sussurrou fechando os olhos rapidamente só para abri-los e se deparar com duas pérolas negras excitadas. – Cerveja amanteigada com lesmas de gelatina explosiva.

– Um desejo um tanto quanto estranho e difícil. – Comentou antes de atacar o pescoço do mais jovem com beijos. – Volto em alguns minutos.

Snape deu um riso fraco e se levantou andando nu até o guarda roupas onde separou uma muda de roupa antes de ir ao banheiro sempre sentindo os olhos verdes observando sua nudez, admirando, quase venerando. Harry sorriu e se agarrou ao travesseiro onde antes estavam os cabelos de Severus, esparramados sobre sua fronha branca encharcando-a com seu perfume. O menino inspirou fortemente aquele cheiro e fechou os olhos sentindo-os começarem a pesar. Ao abri-los novamente percebeu que o relógio rodara quinze minutos. Severus ainda estava no banheiro.

– Severus? – Chamou Harry levantando-se e colocando o robe de seda negra de Snape, o pano arrastou no chão enquanto caminhava em direção ao banheiro. – Severus, você está bem?

– Vá dormir, Potter. – Rosnou Snape de dentro do banheiro. A voz grossa e fria de Snape fora como uma cortina se fechando perante os olhos extasiados de Harry.

– Severus, o que está acontecendo?

Harry abriu a porta do banheiro e a imagem que viu o fez enjoar, chorar e ficar completamente confuso. Snape estava nu diante do espelho, seus cabelos estavam caídos sob seu rosto tenso, seu corpo contraia-se em diversos espasmos enquanto sangue saia da tatuagem em seu braço apoiado fortemente na pia e de suas cicatrizes. O chão apresentava pequenas gotas que o mancharam de rubro.

– O que...? – Começou a dizer olhando o homem tremer.

– Eu disse para ir se deitar, Potter.

Ainda que estivesse com raiva e tentasse impor tamanha ira em suas palavras, sua voz estava quebrada e fraca. Harry viu que sua pele estava mais pálida que o normal, suor escorria de sua testa.

– Severus, o que está acontecendo? – Disse Harry exasperado se aproximando devagar. – Quem fez isso?

– Quem você acha que fez isso?

– Voldemort.

– NÃO DIGA ESSE NOME! – Gemeu Snape curvando-se enquanto mais sangue saia de seus ferimentos.

– Me diz o que fazer, Severus. – Chorou Harry aproximando-se sem tocá-lo. – Por favor, diz o que posso fazer para passar, por favor.

– Pode calar a boca. – Vociferou fechando a mão fortemente na beirada da pia. – E me trazer minha varinha.

Harry saiu correndo do banheiro e pegou a varinha em cima do criado mudo no quarto. Ao voltar e entregar a varinha para Snape se afastou e tampou a boca com a mão escondendo um soluço. Com os olhos estarrecidos de medo, viu o homem apontar a varinha para a marca e murmurar algumas palavras até que finalmente parou e ficou de olhos fechados apenas respirando.

Demorou um pouco para que Snape se mexesse e quando o fez nem mesmo olhou para Harry, apenas saiu do banheiro indo diretamente para seu guarda roupas e abrindo a porta do canto da parede, a porta que Harry desejaria jamais precisar ser aberta. Aquela porta guardava dentro de si os gritos e sofrimentos dos inocentes, era o peso dos ombros de Snape, sua sina e carma. As roupas de comensal estavam devidamente arrumadas no cabide, sua máscara ficava na gaveta junto com sua camisa e seus acessórios. Rapidamente Snape se vestiu sentindo como sua aura mudava ao enfiar-se dentro daqueles tecidos pesados e negros.

Mas era preciso.

A precisão era um fator que não deveria ser negado nem excluído, era o que movia e o que muitas vezes não o deixava desistir. A precisão de cumprir as missões postas em suas mãos, a precisão de cumprir a promessa feita à Lily, a precisão de ser o único capaz de suportar aquela vida, a precisão de proteger o máximo de inocentes que conseguisse e a precisão de proteger ele.

Sem dar atenção ao menino que continuava no banheiro, retomou ao ritmo frenético de quem corre contra o tempo e calçou as grossas botas ainda manchadas de sangue do último encontro com os comensais. Quando colocou a varinha na manga de sua capa e pendurou a máscara na calça escondendo-a dos olhos intrusos, virou-se para vagar até seu destino insólito, mas antes que saísse do quarto olhou para o banheiro, não viu Potter, mas sentiu seu espírito inquieto, sua alma assustada. No fundo sentiu uma forte necessidade de ir até lá e olhar dentro dos olhos jovens antes de beijar sua boca intensamente e levá-lo para cama, mas naquele momento não podia pensar nisso. Potter era a distração mais intensa de sua vida e a mais perigosa. Precisava afastá-lo da beira de sua mente e enterrá-lo nos confins de seu cérebro, onde não pudessem alcançá-lo. Suas defesas teriam que ser reforçadas, mais intensas e desgastantes do que as outras. Ele tinha que conseguir.


A casa dos Malfoy mais uma vez aparecia a sua frente mostrando a impotência que Snape descartava de bom grado. A frieza de suas paredes refletia-se nos habitantes na sala de estar, mais uma vez espalhados esperando uma ordem do mestre. Apenas seus servos mais leais estavam naquele recinto, as outras centenas de comensais e seres imundos que o Lord juntara para servirem a si estavam espalhados pela Inglaterra, divertindo-se em Gales, estuprando na Escócia ou bebendo em Nottingham. E ele estava ali, de frente ao mestre em seu trono, vitorioso, glorioso.

– Vejo que recebeu meu lembrete. – Disse a voz rouca.

– Sim, milorde. Vim o quanto antes.

– Vejo bem. – Comentou o homem acariciando a cabeça de sua cobra.

Snape estava ajoelhado diante de Voldemort, tomava cuidado para não olhar diretamente para os olhos vermelhos, mantinha a cabeça levemente abaixada e suas mãos nas costas. Esperava pelas ordens, comentários ou simplesmente vontade de castigar que viesse do mestre, mas ao contrário disso encontrou apenas um sorriso que o deixou completamente consternado. Voldemort estava feliz por algo que Snape não sabia ao certo e que o assustava. Assustava o fato de poder ser qualquer coisa, mas que era muito importante. Voldemort não sorri, não sente alegria, no entanto, naquele momento, os dentes nojentos arregalavam-se em clara felicidade.

– Meus planos estão caminhando muito bem, Severus. Mesmo com sua pouca ajuda e suas informações deveras desgostosas, estou conseguindo chegar ao meu objetivo maior. O menino Malfoy está se saindo bem apesar de estar atrasado. Meus servos aumentam a cada dia e meus poderes se intensificam enquanto o relógio anda. Tic Tac. Mas você, meu caro, está me falhando muito.

Snape não se mexeu, mas apertou levemente os dedos um no outro. As épocas de férias e feriados sempre foram repletas de castigos devido sua falta de informações importantes. Já sabia que o Lord estava muito bravo por seus relatórios não conterem nenhuma novidade, principalmente por Dumbledore não estar na escola e ele não saber o seu paradeiro.

Dor.

Ela já era esperada e quando o feitiço saiu da varinha branca e rumou rapidamente em sua direção atingindo-o com força, a recebeu de bom grado, doeria mais se resistisse. Caiu aos pés do mestre e tremeu sentindo como se cada movimento fosse uma carga elétrica intensa, seus ouvidos estavam completamente sensíveis, até mesmo seu respirar o deixava praticamente surdo. Seus olhos ardiam com as luzes das chamas que as velas continham. Ainda assim agüentou. Mesmo gritando e sentindo como se a morte fosse uma companheira desejável, permaneceu acordado e agüentando.

Quando tudo acabou e seu coração pulava de desespero dentro do peito, levantou-se e novamente se ajoelhou perante seu algoz.

– Espero que me traga noticias na próxima vez que nos virmos, Severus. Sua voz calada me deixa completamente desgostoso.

– Sim, milorde.

– Pode ir, não queremos que algum daqueles professores xeretas conte que você estava fora de Hogwarts enquanto tudo acontecia. Nessa época seus álibis são muito fracos. Vá e lembre-se de minhas ordens.

– Sim, milorde.

Snape levantou-se e saiu rapidamente daquele lugar sem se importar com os chamados de Belatriz ou com os olhares de Draco que acabara de sair de seu quarto. Apenas continuou andando e aparatou assim que possível. Quando abriu os olhos viu-se parado no meio de uma praça trouxa e vazia. O local estava completamente escuro e tenebroso, mas para ele era o paraíso. Isolado, abandonado e esquecido. Respirando fundo para conter os espasmos retirou a máscara e a colocou em cima de uma mesa onde se deitou olhando para o céu. Era madrugada de uma noite fria e estrelada. O vento batia em seu rosto e algumas vezes até o arranhava com sua raiva, ainda assim continuava lá olhando para elas.

Precisava apenas desligar-se.

Aos poucos os espasmos pararam, seu coração normalizou e sua mente clareou novamente trazendo a tona tudo que havia escondido e a primeira imagem que viu fora os olhos verdes intensos e desejosos lhe querendo. Quando um último espasmo quis tomar-lhe o corpo em dor, prendeu-se na imagem do menino sorrindo para si, sorrindo verdadeiramente para si, por própria vontade, lhe entregando seu sorriso intenso e amável. O espasmo passou sem causar-lhe dor, pois a lembrança o cobria e o protegia de todo o mal que o assolava e que o rondava. O menino sempre fora a chave para a salvação do mundo bruxo, para a derrota de Voldemort. Mas era mentira, ele era a sua salvação, sua base e seu alicerce. Era seu e somente seu, mesmo que por aquele pequeno tempo.

Aparatou novamente em outra vila, dessa vez bruxa e passou em alguns lugares necessários antes de aparecer na fronteira da escola e rumar pelo jardim até a entrada do castelo. Seus aposentos estavam da mesma forma que antes. Nada fora tirado de seu lugar, parecia não haver ninguém mais naquele local, mas era mentira, pois Harry Potter estava parado no batente de seu quarto olhando-o com a tez franzida. Snape colocou algumas coisas na poltrona próxima e retirou a capa deixando-a jogada na sala antes de olhar novamente para o menino.

– Você está bem? – Perguntou Harry baixinho.

Snape assentiu sem dizer nada. Harry balançou a cabeça e os dois permaneceram dessa forma, apenas olhando-se enquanto o tempo passava.

– Eu vou preparar um banho para você.

Harry sumiu dentro do quarto novamente. Snape fechou os olhos e sentiu o peso do cansaço em suas costas, estava esgotado. A reunião parecera demorar apenas alguns minutos, mas passaram-se duas horas em que fora submetido àquela tortura apenas por prazer do ser a qual era obrigado a chamar de mestre e seguir seus mandos e caprichos causadores de mortes e sofrimentos. Seu corpo reagiu ao frio que o acertou ao se lembrar e sentir as dores que já causara e que já o fizeram sofrer, mas a escuridão não o cobriu como sempre fazia após seus mergulhos no negro de sua alma. Um calor era sentido a sua volta fazendo aquilo tudo se afastar rapidamente e o preencher. Ao abrir os olhos viu Harry parado a sua frente estendendo uma toalha branca.

– Seu banho está pronto e sua cama também. Provavelmente você vai querer ficar sozinho hoje. Vou dormir no meu quarto. Se precisar de algo pode me chamar.

O menino o deixou sozinho e rumou para o outro quarto, o quarto que fora esquecido durante esses dias, aquele que não era mais habitado pelo menino por agora ele fazer parte de sua cama, esquentar o lado que ficara sempre frio. Snape franziu a testa para a toalha e se dirigiu ao banheiro onde se despiu e entrou embaixo do chuveiro quente sentindo as gotas baterem em sua pele fria e causarem arrepios dolorosos. Seus músculos ainda doíam, mas aos poucos foram relaxando enquanto se ensaboava e tirava de si o aspecto negro do Lord. Quando sua pele estava completamente limpa e até mesmo vermelha, apenas se deixou ficar parado e sentir a água vagar pelo seu corpo levando todo o peso que carregava, aos poucos esvaziou sua mente liberando as grades tão fortemente fechadas e derrubando um pouco de seus muros fortemente levantados.

Tic Tac.

O barulho do relógio em seu quarto era como um feitiço antigo que o fez relembrar o passar desse ano. O como sua vida transformara-se completamente quando o menino fora obrigado a casar-se consigo. Um jovem assustado que não sabia nada da vida adulta e que deveria continuar a ser irresponsável juntamente com seus amigos, mas que fora colocado ao seu lado e a si dedicava momentos importantes como o desejo de sua gravidez, os medos e receios e também a felicidade com coisas tão pequenas e insignificantes como ao dar de Natal um colar com pingente pequeno de esmeraldas. Ah, o brilho naquele olhar! Como era lindo, a simplicidade de seus atos, o carinho dispensado sem reservas e sem pedidos, a dedicação com sua saúde e bem estar e o fato de ficar mesmo quando o medo o assolava. Tudo era Potter. A entrega de seu corpo, alma e coração. Ele lhe dera tudo. Snape olhou para sua mão e sentiu como se pesasse com tudo aquilo ali, tudo seu. Seu. E seria tudo perdido, esquecido. O amor que lhe fora entregue seria pisado, acabaria. Tudo terminaria.

– Não. – Sussurrou Snape para si mesmo sentindo a dor da perda, uma dor tão intensa que o fazia clamar por mais uma tortura de seu mestre. Os feitiços cruéis eram mais misericordiosos do que a verdade da perda. – POTTER!

Ao ouvir o grito Harry pulou da cama onde estivera deitado agarrado em seu travesseiro e correu para o quarto de Severus. Ao chegar ao banheiro com o coração na mão temendo que algo tivesse acontecido encontrou o homem nu embaixo da água quente. Por um momento deu graças a Deus por ver que ele estava bem, mas no outro quis morrer por ver tamanha dor vagar em seus olhos tristes.

– Severus... – Sussurrou Harry aproximando-se.

Se Harry tivesse esse poder transportaria a dor daqueles olhos para si, o suportaria em dobro para que não visse o homem tão quebrado e vulnerável como um menino abandonado. Sempre quisera ver a verdade daqueles olhos, encontrá-los sem barreira, totalmente verdadeiros para si, mas agora que os via tinha medo deles, medo do que a dor poderia causar nele.

– Eu preciso de algo. – Disse Snape baixinho e para horror de Harry lágrimas saíram de seus olhos misturando-se com a água quente. – Preciso de você.

Harry sentiu que não conseguiria respirar, sua mente mal conseguira processar as palavras confessadas e seus braços já estavam jogados em torno dos ombros fortes enquanto seus lábios atacavam a boca trêmula. A água quente molhava seu corpo vestido, mas não se importava, precisava estar com Severus, mostrar que estava ali para ele e que se precisava de si, jamais o abandonaria.

– Eu preciso de você, Potter. – Disse Snape novamente se afastando para olhar nos olhos do menino. – Preciso que afaste meus pesadelos, que esteja ao meu lado, que nunca me abandone. Não me deixe, Potter. Não me deixe.

– Não vou deixar. – Respondeu Harry secando as lágrimas que caiam do rosto do mais velho. – Jamais te abandonarei, eu te amo, eu amo você, Severus. Sou seu marido, estarei sempre ao seu lado, em qualquer circunstancia, eu sempre estarei aqui com você. Acredita em mim?

– Sim. – Disse Snape antes de se abraçar fortemente ao menino sentindo as mãos pequenas acariciando suas costas e cabelos.

Snape nem mesmo soube como, mas logo estavam os dois na cama com seus corpos entrelaçados entregando-se ao momento de paixão que tomava suas almas. Sua mente não pensava em nada além de Potter, seu amor e sua entrega. Tinha Potter em suas mãos, podia tocá-lo, beijá-lo, enterrar-se em seu corpo profundamente sentindo o calor que emanava dele. Podia ter Potter e seu sorriso bobo ao chegar ao ápice do momento, podia ouvir a doce voz gritando seu nome enquanto derramava-se. Tinha aquilo e por mais pouco que fosse, naquele momento era o que precisava para preencher o vazio. Naquele momento, antes de escorregar ao inconsciente, Potter era seu tudo.


Ao acordar sentiu-se um idiota. Era a palavra mais rápida que conseguia pensar para o espetáculo que fizera no banheiro. Um completo idiota. Por isso não deixava os sentimentos tomarem conta de seu corpo e mente, eles eram incontroláveis e por vezes levavam pessoas a tomarem decisões precipitados ou agirem idiotamente enquanto tomavam um banho.

Suspirou ao abrir os olhos e não ver ninguém no quarto. A parede estava ali, lisa e feia como sempre fora, sempre sua companheira solitária e calada. Não, nem mesmo a parede era sua companheira, ela ficava ali sem se importar com nada, muito menos com ele. Mais uma idiotice, ficar pensando em paredes enquanto tentava arrumar uma desculpa para seu descontrole.

Sem conseguir uma resposta para seus questionamentos virou-se e se deparou com Potter deitado ao seu lado, apoiado no cotovelo e olhando-o com carinho. Todas as reclamações sobre algo que fizera foram deixadas de lado. Ele estava ali, seu sorriso estava ali, seu carinho estava ali.

– Você está aqui. – Disse Snape baixinho.

– Eu disse que não o abandonaria. Eu sempre estarei aqui por você, Severus.

Harry sorriu novamente e se curvou dando um selinho nos lábios finos. Snape abrira sua alma e o deixara ver sua fragilidade e o quanto dependia de si, jamais teria coragem de lhe abandonar, independente de qualquer coisa que acontecesse.

– Vamos tomar café, você deve estar com fome e os alunos chegam em uma hora. — Snape franziu a testa. – Hoje é o primeiro dia de janeiro, os alunos voltam para a escola nessa manhã. Se esqueceu?

– Você bagunça minha vida, Potter.

– Um pouco de bagunça nunca é demais. – Sorriu o menino o puxando para que fosse tomar um banho para acordar.

Logo os dois estavam de banho tomado e arrumados. Harry não citou o que aconteceu na noite anterior e Snape agradeceu por aquilo, apesar de estar muito mais a vontade com o menino, era constrangedor lembrar-se de suas lágrimas e seus pedidos carentes. Por sorte Harry apenas dava a si o que precisava sem fazer perguntas. Ele apenas o amava.

– Eu me esqueci de lhe entregar uma coisa. – Disse Snape pegando a sacola que deixara na poltrona.

Harry abriu a sacola e abriu a boca. – Não acredito! – Exclamou ao retirar uma garrafa de cerveja amanteigada e um potinho de lesmas de gelatina explosiva. – Até tinha esquecido. Pensei que não fosse trazer e deixei pra lá.

– Você disse que queria e eu disse que queria te dar o que você desejasse.

– Você está começando a se tornar um príncipe.

– Não vamos exagerar.

– Verdade, você é bem melhor como morcego das masmorras e falando nisso, como ficamos agora?

– Como sempre. – Disse Snape. – Por quê?

– É que sabe que para todos da escola nós nos odiamos e não nos suportamos. Em sala você me humilha e é injusto comigo. Como poderei ficar calado enquanto você fala coisas ruins sobre mim?

– Controle, senhor Potter. Use esses momentos para treinar sua Oclumência. Você precisará fechar sua mente para tudo o que eu disser, deverá deixar para fora de seus pensamentos, ouvir sem arquivar.

– Parece fácil quando você diz assim.

– É fácil.

– Sei. – Disse Harry colocando a capa do uniforme e indo até a porta. – Os alunos devem estar entrando no jardim, vou sair primeiro para encontrá-los, verei você depois. – Girou a maçaneta e olhou para o corredor antes de se virar e olhar para Snape com suas habituais vestes de professor. – E voltamos ao que era antes.


Realmente tudo voltara a ser como era antes, a única exceção era Snape dentro de seus aposentos. Ali ele ficava solto, leve, até mesmo esboçava alguns mínimos sorrisos enquanto falava coisas banais de seu dia. O sexo era cada vez mais intenso assim como os beijos roubados durante uma leitura ou antes de ir para o banho. Seu quarto agora servia apenas para guardar suas coisas, pois Snape não permitia que dormisse em outro lugar que não fosse ao seu lado agarrado em si. Harry poderia até mesmo dizer que o homem tornara-se um pouco grudento, não meloso romântico, nunca mais dissera nada amoroso como no dia do banho, mas sempre queria estar perto do menino. Não se chateava com isso, sabia que era a primeira vez que Snape deixava alguém entrar assim em sua vida e depositava no menino toda a sua esperança de carinho e afeto. Não iria decepcioná-lo, porém algumas vezes o professor ficava controlador demais.

Fora isso tudo estava igual, Rony e Hermione ainda brigavam entre si, principalmente por causa de Lilá que não largava de Rony, mesmo esse tentando evitá-la a qualquer custo. As aulas continuaram difíceis e por mais incrível que parecesse a mais fácil era de DCAT, pois era proibido de executar os feitiços com alunos de grande poder como Hermione ou Gina, precisava sempre duelar com Neville ou algum outro aluno que não lhe causasse nenhum dano. Só tinha que se concentrar de verdade quando tinha algo teórico para escrever ou apresentar. Snape nunca o ajudava em suas lições, pelo menos não diretamente. Ele o questionava sim, sobre diversos assuntos fazendo-o pensar e analisar os fatos com mais clareza. Tinha que confessar que suas notas aumentaram depois de Snape fazer pressão para que lesse mais e mais as matérias. Talvez não virasse uma Hermione, o dom dela era natural, mas poderia ganhar boas notas para seus NIEMs.

Os únicos fatos que ainda incomodavam Harry eram as lições de Dumbledore com as lembranças de Voldemort, sua missão de pegar a lembrança perdida com o professor Slughorn, a desconfiança com Malfoy e o quadribol.

As aulas com Dumbledore eram interessantes, sempre ficava conhecendo mais do bruxo com quem deveria lutar no final da história, conhecer suas raízes e seus comportamentos, sua maneira de pensar e de agir. Dumbledore era muito inteligente e conseguia analisar a cena que viam com detalhes que aos olhos de Harry passavam despercebidos, mas que aos do diretor eram primordiais para o desenvolvimento do ser que causaria tanto sofrimento ao mundo. Por vezes, ao final da reunião, Dumbledore lhe fazia perguntas sobre seu casamento e sua gestação, lembrando-o sempre que deveria fazer visitas constantes à Madame Pomfrey e tomar sua poção para esconder a barriga que agora começava a aparecer através das roupas.

Sua missão de pegar a lembrança com o professor não era tão fácil assim, Slughorn não estava mais interessado em Harry, não o parabenizava pelo sucesso com as poções e nem mesmo conversava sobre seus alunos preferidos, não havia mais reuniões do Clube do Slugue, o que dificultava ainda mais a sua vida. Snape sempre o questionava sobre as reuniões com Dumbledore e o motivo de querer tanto falar com Slughorn, mas mesmo querendo contar tudo para o homem que o olhava com devoção, tinha que lhe omitir aquilo, eram ordens de Dumbledore. Por sorte Snape sempre o respeitou e jamais o obrigou a dizer algo, nem mesmo utilizou de legilimencia para arrancar-lhe a verdade.

O campeonato de quadribol agitava a escola naqueles primeiros meses do ano, nem mesmo o dia dos namorados com seus anjinhos e coraçõezinhos deixaram os alunos menos excitados para os próximos jogos. Sonserina estava na frente e Grifinória precisava ganhar o próximo jogo para ir a final com a sua grande rival. Seria um grande jogo e todos estavam dando o melhor de si, até mesmo Harry, que precisava tomar grandes cuidados com sua gestação enquanto estava em cima de sua vassoura. Snape não estava nada feliz com seus treinos e por vezes acabavam brigando pelas ordens dadas pelo professor, porém Harry insistia que a enfermeira lhe dera um aval para jogar, no entanto que tomasse as poções receitadas nos horários certos e tomasse muito cuidado. Snape não lhe abraçava nessas noites.

Malfoy já era um caso sério que lhe causava muita dor de cabeça. Fizera uma promessa para Snape, não iria mais pensar nisso e nem mesmo perderia tempo indo atrás do loiro, mas as suspeitas eram cada vez maiores. Sabia que o sonserino estava fazendo algo muito perigoso e que logo logo isso se tornaria um problema grande. Precisava ficar de olho nele, em certo momento Draco acabaria vacilando e lhe dando a chance de confirmar suas suspeitas.

Esse momento chegou quando Catia Bell voltara de ST’Mungus. A escola estava alvoroçada com seu retorno, além de uma ótima estudante muito querida pelos alunos e professores, Catia era uma ótima jogadora e daria chance para que Grifinória fosse para a final. Mas Harry abriu um sorriso por outro motivo, assim que viu Catia lembrou-se do que Liane disse ao voltar para o castelo após a amiga ser amaldiçoada pelo colar. Catia havia entrado no banheiro feminino do Três Vassouras sozinha e sem nada na mão, porém voltou com o embrulho dizendo que precisava entregar ao professor Dumbledore. Ela talvez se lembrasse quem estava dentro do banheiro.

– Não, Harry, me desculpe. Eu não me lembro.

A frase da amiga o deixou desconcertado, acreditara fielmente que a grifinória daria o nome de Malfoy, porém, quando ia saindo desanimado, os olhos da menina arregalaram-se olhando para um ponto fixo na porta do salão principal. Ao olhar Harry deparou-se com os olhos preocupados e assustados de Draco Malfoy. O nervosismo era visível no corpo trêmulo do sonserino enquanto saia dali empurrando as pessoas.

Harry nem mesmo despedira-se de Catia, apenas seguiu pelo caminho por onde Draco passava até o encontrar debruçado na pia do banheiro, chorando. O choro de Malfoy o pegara de surpresa, jamais imaginara que o sonserino fosse sequer capaz de chorar, quanto mais de lamentar por algo que não conseguira fazer. Provavelmente ele falava de sua missão, talvez algo estivesse saindo errado e Voldemort estivesse muito bravo com ele por isso. Talvez...Não deu para pensar muito sobre o que Malfoy conseguira ou não fazer, pois ao abrir a porta mais um pouco o sonserino o avistou e sem hesitar lançou um feitiço em sua direção quase acertando sua cabeça. O duelo que se seguiu fora quase surreal, Harry estava com a mente em acertar Draco e proteger seu bebe. A raiva subiu por seu corpo quando um feitiço passou raspando seu braço. Em um ato de ódio se lembrou do primeiro feitiço que veio em sua mente.

– SECTUSEMPRA!

O sangue que jorrou do corpo de Draco o fizera enjoar, aquele cheiro metálico subia por seu nariz e o engolfava completamente. Segurando a respiração e tremendo dos pés a cabeça, se aproximou e se ajoelhou ao lado do menino murmurando desculpas e lamentos enquanto Draco agonizava de dor. Sem conseguir segurar virou-se para o lado e vomitou, sua barriga doía e sua mente estava casada.

– O que você fez?

Seu coração congelou ao ouvir aquela voz tão perto de si, Snape estava parado na porta do banheiro olhando de Draco para Harry com um misto de preocupação e raiva pura. O homem deu dois passos e o puxou pelo colarinho trazendo-o para bem perto de seu rosto.

– Severus... – Engasgou Harry.

– Cale-se. Traga-me seu livro. Agora.

Harry não hesitou, assim que as mãos de ferro se abriram ele saiu correndo, em poucos minutos estava de volta com o livro de Rony em suas mãos. Claro que Snape não acreditaria nele, mas não tinha como provar que aquele livro não era seu. O seu agora estava perdido em algum lugar na sala precisa. Nem mesmo Harry sabia como encontrá-lo novamente.

Após não conseguir comprovar o que precisava com o livro Snape o expulsou do banheiro fazendo-o ir diretamente para seus aposentos enquanto cuidava de Malfoy. Harry sentiu que iria desmaiar ao sentar-se no sofá e respirar fundo. O cheiro de sangue ainda estava impregnado em si devido a roupa manchada. Rapidamente retirou sua capa e a colocou para lavar, sentou-se novamente e esperou o momento em que o homem entraria por aquela porta vociferando grosserias e humilhações. Tudo bem, dessa vez ele merecia.

Mas Snape não gritou com ele quando voltou. Apenas o olhou com profunda decepção. Harry preferia que ele gritasse do que agisse daquela forma, olhando-o como se fosse um verme que não deveria estar vivo devido a falha que cometera, um delinqüente que precisava se afastar por ser perigoso. O homem rumou para o laboratório e se trancou lá dentro. Harry sabia que ele estava bravo demais e que era melhor deixá-lo se acalmar. Naquele momento Harry queria um abraço dele mesmo bravo.

Demorou algumas horas para que Snape saísse do laboratório. Quando sentou-se na poltrona em frente a Harry e olhou em seus olhos não sabia ao certo o que dizer. Precisava controlar sua raiva.

– Você me desobedeceu, Potter. – Falou baixinho causando arrepios em Harry. – O mandei se afastar de Malfoy e, no entanto, você correu atrás dele. Sua falta de senso e seus atos inconcebíveis o deixaram com cinqüenta pontos a menos para a grifinória, uma detenção na próxima semana junto com Filch e sem quadribol até o final do campeonato.

– O que? Severus, não pode me tirar do quadribol.

– Posso e vou. Não se esqueça que sou seu professor e acima de tudo seu esposo, tenho autonomia para dizer o que você deve ou não fazer.

– Não pode mandar em mim só porque estamos casados.

– A partir do momento em que lhe deixar livre e sem regras ocasione o fato de sair cortando alunos com feitiços que nem mesmo conhece eu tenho o direito de mandar em você. Não vou mais discutir, não quero ouvir uma única palavra sobre isso. Vou me deitar, estou cansado.

Harry não se mexeu, apenas ficou ali, sentado e de boca aberta enquanto Snape se aprontava para dormir. Após alguns minutos Harry também se levantou e foi para o quarto, deitou-se ao lado do homem e o abraçou pela cintura, Snape não se mexeu como previra.

– Me desculpa. Fui muito irresponsável. Não farei de novo, e obedecerei suas ordens.

Uma pequena mentira nunca era demais, precisava deixar o homem em paz e fazê-lo acreditar que estava tudo bem era o primeiro passo. Não podia prometer tudo, o campeonato de quadribol estava logo ali e precisaria jogar. Poderia prometer qualquer coisa naquele momento menos que não iria jogar. Dormiu ouvindo a platéia o ovacionando, logo logo ouviria aquilo pessoalmente.


N/A: Olha posso garantir que os dois proximos capítulos terão momentos de muita tensão......