A Lenda
46 As conseqüências da nova vida
Notas iniciais
Capítulo 46 – As conseqüências da nova vida
Harry levantou-se da cama tentando fazer o mínimo de barulho possível. Vestiu o casaco e admirou o homem deitado de bruços ao lado. Snape dormia pesado, seu torço estava nu e suas costas descobertas, via nitidamente as cicatrizes profundas de outrora, cicatrizes que amava e que sempre beijava demonstrando ao homem, ainda inseguro, que o amava por inteiro. Não querendo acordá-lo caminhou descalço até a porta e saiu fechando-a com cuidado. O chão estava frio, mas já estava acostumado e nem mesmo ligava para os arrepios que aquilo lhe causava. Passou os dedos pelas paredes até tocar na porta que levava ao quarto da menina. Não entrou, fora um sacrifício fazê-la dormir, não arriscaria acordá-la. Por isso caminhou até a sala de estar e se sentou na poltrona que Severus sempre usava colocando os pés para cima e abraçando as pernas com força.
- Senhor Potter?
- É senhor Snape e agradeceria se falasse mais baixo, meu esposo e minha filha estão dormindo.
- Peço perdão senhor Snape.
Suspirando fundo olhou para o dono da voz e viu o auror Tommy Crals o olhando atentamente enquanto segurava com firmeza a varinha em sua mão. O auror olhou para todos os lados como se procurasse alguém e no fim prendeu os olhos nos de Harry esperando uma resposta.
- Está tudo bem?
- Sim, apenas perdi o sono, nada demais.
- Se tiver algum problema estamos aqui fora.
- Não há como esquecer disso, não é mesmo? — Disse Harry irritado levantando-se e caminhando até a porta da sacada de onde podia ver o céu estrelado. — Pode deixar que eu aviso se algo acontecer, mas no momento quero ficar sozinho.
- Sim senhor.
O auror saiu do recinto fechando a porta e deixando Harry novamente sozinho na escuridão. Harry suspirou olhando para seu reflexo no vidro da porta. Parecia o mesmo de sempre, os cabelos negros estavam espetados para todos os lados, seus olhos verdes eram brilhantes e necessitavam dos óculos, a cicatriz estava no mesmo lugar apesar de não mais doer. Ainda era magro, mas conseguira alguns músculos devido o extenso treinamento a qual tivera que passar para se tornar um auror.
Tudo parecia igual, mas na verdade nada era igual.
Cinco anos se passaram desde o dia em que, com muito sacrifício, Voldemort fora morto. Os dias seguintes foram difíceis, lembrava-se muito bem disso. Além de ter ficado um mês separado de Severus enquanto lutava para inocentá-lo teve que se apresentar formalmente a diversos julgamentos de comensais fazendo o possível para que fossem presos. Alguns conseguiram pegar uma condenação leve e outros uma condenação perpétua. Lembrava-se das masmorras onde eles eram julgados e como demoravam horas para que todos fossem ouvidos e condenados. Aquilo era cansativo demais, mas acabou e Severus fora inocentado de todas as acusações chegando a receber a primeira classe de Merlin a qual ele negou dizendo que queria apenas paz.
Foi o que ambos procuraram quando começaram a busca por uma casa para morarem juntos e poderem criar Lys como deveria. Severus era a favor de algo isolado e longe do mundo bruxo que conheciam, longe de tudo que trouxesse dor de cabeça. Principalmente os repórteres que não mais os largavam, ainda mais após a notícia do casamento dos dois sair na primeira capa do Profeta Diário.
Sorrindo torto Harry foi até um armário no canto e pegou um grande livro e sentou-se novamente na poltrona apoiando o livro nas pernas cruzadas. Folheou até achar a página certa. Ali estava, a manchete que quase fez Severus ter um derrame. Harry jurava ter visto a veia da têmpora do homem explodindo. Com cuidado pegou o jornal amarelo e o abriu vendo uma grande foto sua com Severus se beijando no meio do salão principal no dia da guerra. Não podia dizer que o beijo fora feio, na verdade era muito bonito de se ver, tinha amor e paixão, mas Severus ficara tão raivoso que não queria nem mesmo lembrar daquele fato, tudo isso porque a manchete gritava em letras garrafais “Heróis do mundo bruxo declaram seu amor em momento decisivo da guerra”. Era melhor nem mesmo reler a matéria, aquilo o deixava com dor de cabeça. O fato é que depois disso não havia como não oficializar os documentos que foram secretamente escondidos do Ministério da Magia. Agora havia uma certidão de casamento oficialmente assinada pelo Ministro da Magia que dera sua benção ao casal. O nome de Harry já era citado como Snape, claro que havia alguns deslizes, mas nada que o irritasse.
Harry suspirou novamente dobrando o jornal e guardando na página certa antes de fechá-lo e passar a mão pela capa. Era o mesmo livro que Hagrid lhe dera no primeiro ano em Hogwarts com fotos de seus pais e dos amigos dele. Teve que enfeitiça-lo para ficar maior, pois já não cabia mais fotos e lembranças em suas folhas. Ia abrir o livro na primeira página, mas um movimento do lado de fora o fez fechá-lo e olhar rapidamente para ver o que era. Ficou feliz em ver que era apenas um dos aurores que foram contratados para cuidar da segurança de sua família e de sua casa.
Abraçando o livro foi até a sacada abrindo a porta de vidro e deixando que o vento quente do verão da Grécia atingisse seu rosto. Era gostoso. Harry decidira que o melhor lugar para se morar seria onde tudo começara. Severus fora contra a princípio, mas quando Harry o levou até aquela casa branca no alto da Grécia onde podiam ver todo o céu e a imensidão do mundo, não houve mais argumentos para dizer que aquele não era o lugar perfeito para os dois. Havia magia e amor naquele lugar, tanto amor que eles mesmos se entregaram novamente e dessa vez sem a necessidade de uma poção, era somente Harry e Severus.
Sendo assim Severus comprou a casa que antes era de Dumbledore e se mudaram alguns dias depois levando Lys para sua nova residência. Harry sorriu e abriu o livro vendo as fotos que tirou de sua família em sua nova residência. Havia todos os tipos de fotos tiradas, principalmente de Severus e Lys. Severus olhando a casa, lendo um livro sentado na poltrona enquanto Lys engatinhava no chão. Lys rindo com a boca toda suja de comida. Harry beijando a menina, Severus dando mamadeira para Lys.
- Curtindo as recordações? — Perguntou a voz arrastada que arrepiou sua nuca.
- Seria melhor se eu tivesse companhia. — Disse Harry erguendo os olhos e encontrando Severus parado no batente. — Senta aqui comigo.
Severus sorriu de canto e se sentou ao lado de Harry abraçando-o pelos ombros enquanto o menino passava as mãos nas fotos antigas.
- O que foi Harry? Por que está aqui sozinho com essas fotos? — Perguntou Snape beijando a nuca do menino.
- Nada demais, é que, depois do que aconteceu e o que conversamos ontem, me bateu uma nostalgia. Queria rever as fotos e lembrar de como fomos felizes aqui. É o nosso lar, Severus. Simplesmente não consigo aceitar que teremos que partir.
- Sabe que não poderemos ficar aqui.
- E nem juntos. Novamente vamos nos separar.
- Não. Dessa vez não será como antes. Vamos ficar separados, mas sempre vamos nos ver. Sempre vou até você e Lys, não vou abandonados.
Harry olhou para o rosto de Severus, havia algumas rugas novas, mas de resto ainda era o mesmo rosto de sempre. Os cabelos negros caiam até seus ombros como uma cascata negra, seus olhos feito túneis escuro eram penetrantes e intensos. Causava arrepio. Os lábios finos eram macios e a pele fria. Devagar se inclinou e deixou que o homem o preenchesse com seu beijo, acalentasse seu coração dolorido. Um acalento que somente seu marido poderia lhe dar.
- Você se lembra da primeira noite aqui? — Perguntou Harry afastando-se um pouco. Severus apenas assentiu. — Foi estranho, ninguém conseguiu dormir, Lys estava irritada, eu inquieto e você pensativo. Pensávamos que jamais conseguiríamos conviver nesse lugar. Eis que jamais conseguimos sair daqui. Engraçado não é?
Severus não respondeu, Harry nem mesmo se importou com isso, eram poucas as coisas que Severus achava engraçado. Muitas vezes o homem apenas ficava calado ouvindo com atenção. Como naquele momento. Mas Harry não queria mais falar, apenas se aconchegou nos braços de seu marido e continuou a folhear o livro de fotos parando algumas vezes recordando-se de momentos importantes como a primeira vez que a menina falara.
Naquele dia Harry estivera quase o tempo todo no Ministério da Magia e Severus ficara no laboratório que construiu no porão para as remessas de poções que recebia de encomenda já que largara seu cargo de professor de Hogwarts. Lys estava aos cuidados de Winky que após a morte de Dooby resolvera ficar sobrea e tomar o lugar do irmão quanto a servir Harry. Não podiam reclamar da elfa, ela era magnifica e Lys a adorava. A criança tinha um pouco mais de um ano naquela época, mas já era esperta e muito ativa.
- Cheguei. — Disse Harry quando apareceu na lareira da sala de estar e engatinhou para fora.
- Boa noite, senhor Harry Snape. — Disse Winky deixando Lys segura na cadeirinha e correndo para retirar o casaco do mestre e o pendurar no gancho ao lado da porta. — Winky vai preparar banho do senhor Harry Snape, está com fome meu senhor?
- Muita. — Disse Harry aproximando-se de Lys e a retirando da cadeirinha. — Esse curso de auror não é tão fácil como eu imaginei.
- Então Winky irá preparar a janta de meu senhor, com licença.
- E você minha coisa fofa, como foi o dia? — Perguntou bobamente para a menina fazendo-a rir. — Aposto que bem, Winky deve ter mimado você o dia todo. Olha só o que o tio Rony mandou para você. — Harry mostrou um chocalho de bichinhos que a menina adorou e rapidamente levou até a boca mordendo e balbuciando enquanto a baba caia de sua boca.
- O que é isso na boca dela?
- Olá Severus, não queria te incomodar, por isso não desci no laboratório. — Disse Harry aproximando-se do homem e o beijando.
- Perguntei o que é isso na boca dela. — Repetiu Severus.
- Ah, é um chocalho que Rony deu para a menina.
- Isso é seguro?
- A senhora Weasley diz que é sim, que todos os filhos dela tinham um quando criança e que nada demais aconteceu com eles.
- Vindo de uma mulher que tivera quase um filho por ano eu não duvido que realmente não faça mal, ainda assim não a deixe colocar isso na boca.
- Ai, Severus, deixe de besteiras. Lys não vai se machucar por estar mordendo um chocalho.
Quase que para contrariar o que Harry disse Lys largou o brinquedo e começou a chorar alto. Harry olhou para ela e viu um filetinho de sangue sair de seu lábio. A menina se cortou com alguma parte afiada do brinquedo.
- O que foi que eu disse para você. — Disse Snape ríspido apontando para a menina que ainda chorava no colo de Harry e ficava cada vez mais vermelha. — Satisfeito?
- Pare de falar assim comigo. — Pediu Harry olhando bravo para Severus que mantinha o rosto duro e raivoso. — Acho que se soubesse iria permitir que ela se machucasse? É minha filha. Sou o pai dela.
- E eu também. Eu também sou o pai dele e como pai tenho o direito de dizer o que ela deve ou não fazer, o que pode ou não machucá-la.
- Eu também tenho o direito de deixá-la brincar. Pare de querer ser o mandão daqui. Você não é meu dono ou dono dela. Você é meu marido e pai dessa menina.
Severus virou-se de costas e respirou fundo. A verdade era que passara dos limites e dissera coisas que eram completamente desnecessárias, mas o choro da menina estava tão desesperado que o corroía por dentro. Sabia que alguma coisa poderia acontecer e por menor que fosse, mesmo um corte pequeno como aquele, causava-lhe um desconforto tremendo. O desconforto de um pai vendo um filho sofrer.
- Segure-a firme, vou curar esse corte. — Disse Snape apontando a varinha para a criança.
- Tem certeza?
Snape nem mesmo respondeu, apenas olhou torto para Harry como se ele fosse um louco por sequer cogitar a hipótese dele não ter certeza de que conseguiria curar sua filha sem machucá-la. Concentrando-se fez um feitiço mudo lançando um feixe azul que passou pela pele da menina curando e fechando o mínimo corte em seus lábios. Assim que viu a luz do feitiço Lys ficou quieta, o choro cessara e seus grandes olhos verdes escuro estavam arregalados enquanto se impressionava com a varinha que Snape apontava. Quando o feitiço terminou a menina olhou para Severus com curiosidade, Harry beijou-lhe a bochecha rosada e sussurrou que estava tudo bem. Severus apenas continuou a olhando de cima com olhos duros. Ele nem mesmo falara com ela, não a tocara, mas Lys abriu um sorriso e riu alto esticando a mãozinha até conseguir tocar em suas vestes.
- Acho que alguém quer ir no colo do papai. — Disse Harry levando a menina mais perto.
- Tenho que terminar algumas poções. — Disse Snape simplesmente pegando a mãozinha com delicadeza e a afastando. — Vou voltar para o laboratório.
- Severus, não faça isso com você mesmo.
- Não estou fazendo nada.
- Está sim. Ela quer você, sente sua falta. — Lys esticava os bracinhos tentando alcança-lo. Tinha quase dois anos, seus cabelos pretos e lisos chegavam a altura do pescoço. Já tinha características próprias no rostinho gordinho. Era linda. — Por favor, pegue-a no colo.
- Não. — Disse Severus ríspido virando o rosto. — Não vou coloca-la em perigo.
- Perigo? — Exclamou Harry se aproximando. — Pelo amor de Deus, Severus, você a derrubou uma vez em cima da cama, ela nem mesmo se machucou.
- Mas eu deixei cair, ela poderia ter se machucado. Eu poderia ter machucado a minha filha. — Havia tanta culpa e dor nos olhos de Severus que doía dentro de Harry vê-lo assim novamente. — Não vou correr esse risco novamente.
Lys era inteligente e muito sensível. Sabia os momentos certos de rir e se calar e aquele momento era para se calar. Ela sentia o que Severus estava sentindo e era ruim, ela não gostava daquilo. Assim que o homem virou as costas a menina começou a chorar e esticar o bracinho em sua direção como se temesse que ele simplesmente sumisse. Severus sentiu o choro doer na alma, mas continuou a andar, iria se refugiar no laboratório, faria as remessas de poções e ganharia dinheiro para o sustento da família. Mas antes que pudesse pisar no primeiro degrau da escada ouviu aquela palavra balbuciada entre choro e baba. A palavra que lhe fez marejar os olhos.
“Papa”
- Minha filha, você falou? — Perguntou Harry olhando para a menina. Lys nem lhe deu atenção, apenas continuou olhando para Severus estacado na porta que levava ao porão. — Fala de novo.
- Papa... papa...
- Ela está te chamando Severus. Ela está te chamando de papai. É a primeira palavra dela. — Sorriu Harry feliz.
Severus não olhou para Harry, caminhou até a menina e tocou sua mãozinha com delicadeza sentindo-a lhe puxar. Ela continuou chorando e pedindo colo, mas Severus tinha tantas duvidas. Tanto medo.
- Pegue-a. — Incentivou Harry.
Severus estendeu as mãos e as encaixou debaixo dos braços da menina segurando-a com firmeza antes de tirá-la dos braços de Harry. A menina parou de chorar e olhou para os olhos negros de Severus antes de balbuciar a mesma palavra o fazendo rir. A menina se aconchegou nos braços do pai e mordeu seu cabelo como sempre gostava de fazer. A tarde passou com Severus carregando Lys para todos os lados e a ouvindo o chamar de papa. Harry tentou ensiná-la que faltava uma letra na palavra, mas não funcionou muito bem. Severus fora chamado sempre de papa.
Harry virou a página e encontrou a menina em seu primeiro passinho em pé. Severus e Harry pareciam dois papais loucos que brigavam para ver para quem a menina iria. No fim nenhum dos dois ganharam, pois Lys caminhou quase caindo em direção de Winky. Severus ficou feliz, mas rosnou durante uma semana para a elfa.
Lys crescia rápido e ficava cada vez mais linda e com uma personalidade única. Ela era pura e sensível. Aprendera a ler praticamente sozinha enquanto imitava Severus enquanto ele lia para ela antes de dormir. Com quatro anos já mostrava que sua magia era muito maior do que dos pais, era possível sentir sua aura no ar. Esse fato preocupou Severus que voltou a fazer a mesma poção que pedira para administrar na menina na época em que matara Dumbledore. Ninguém podia saber sobre o que ela era, era perigoso demais. Por sorte não houve um único atentado a família Snape durante aqueles anos e apesar de Severus dizer que isso não era bom, Harry sabia que eles estavam bem.
- Você está pensativo. — Disse Harry fechando o livro de recordações e o colocando ao lado. — O que foi? Ainda está preocupado?
- Eu sempre estou preocupado.
- Eu sei.
Severus respirou fundo e olhou para Harry. O amava tanto. O menino que sobreviveu, o menino de ouro, o eleito. Harry Potter. Em pensar que ele era apenas um adolescente de merda que não fazia nada além de ser insignificante em sua existência e agora era seu esposo e a pessoa mais importante em sua vida. Ainda tinham seus momentos de estranheza quando o menino fazia algo que para si era considerado idiota, ou quando o ciúme o corroía por dentro, mas ainda assim um completava o outro. Ambos sabiam que não tinha como ficarem separados.
- Preciso de você.
O sussurro fez Harry fechar os olhos e entortar a cabeça quando o homem enterrou os dedos em seus cabelos. Sabia o quanto Severus necessitava sentir aquele amor, pegar a verdade daquele relacionamento nas pontas dos dedos. Controlar a situação como sempre fez. Harry beijou a palma da mão de Severus e se ajoelhou antes de passar a perna pela cintura do homem e sentar em seu colo. O mestre de poções fechou os olhos e suspirou passando a mão nas coxas de seu esposo parando ao chegar no elástico do pijama. Harry fechou os olhos e escondeu o rosto na curva do pescoço do outro quando o pijama foi baixado o suficiente para que Snape pudesse invadi-lo.
Aqueles momentos eram corriqueiros na vida de Harry desde que Voldemort fora morto e Snape deixara de ser um comensal. Ou melhor, parara de ser um comensal. O homem tinha suas próprias necessidades, as vontades incontroláveis que sua mente lhe pedia para serem saciadas. Severus precisava de controle, precisava sentir em seus dedos que ele estava no controle de tudo, mas não havia um tudo para controlar. Já não havia mais motivos para exercitar a mente, esconder segredos ou burlar os planos assassinos de um bruxo maluco. Severus perdera aquilo que fora sua vida por anos. Ele perdera o chão.
Harry sentiu a invasão bruta em seu corpo, apertou os ombros do homem com força e o sentiu puxar seu cabelo para trás obrigando-o a olhá-lo. Havia dor, sempre houve dor naqueles momentos, mas sabia que deveria ficar calado, era o momento dele. Severus levou o dedo aos próprios lábios e fez o sinal de silêncio que era totalmente desnecessário, Harry sabia que tinha que ficar calado ou sofreria.
Mas apesar da dor que sentia enquanto Severus se movimentava entrando e saindo com brutalidade, Harry não se arrependia de nenhum segundo em que se permitia possuir. Severus perdeu tudo, seu mundo virou de cabeça para baixo, não havia mais culpa e nem ressentimento quanto a Lilian, mas também não havia mais nada. Lys fora, por algum tempo, a única que conseguira preencher um pouco do vazio, mas depois de alguns meses nem mesmo ela conseguia. Severus definhava na própria liberdade. Foi então, em uma noite de fortes trovoadas que Harry o encontrou na beirada do penhasco próximo a casa. Ele vestia suas antigas vestes de comensal.
O vento era cruel, mas não tão cruel quanto os olhos que cravaram em sua face. O comensal estava ali. Acordara no meio da noite e tomara conta de Severus.
“Severus não faça isso” pediu Harry gritando em meio ao vento. “Eu preciso” respondeu Severus antes de voltar o olhar para o abismo. “Eu não aguento mais, pensei que conseguiria, mas sou fraco perante ele.” Harry sabia que Severus falava do comensal que fora, a personagem macabra que era obrigado a ser quando estava no ciclo de comensais de Voldemort. Aquela mascara fora usada tantas vezes que se camuflara no homem, já fazia parte de sua vida. Mas aquele ser vinha com tortura e morte, ele gostava disso, gostava de sangue e grito. O homem ergueu o pé pronto para saltar. “Faça comigo” o grito ecoou pelo vazio das montanhas. “Faça o que precisar fazer, mas não vai embora”. Harry nem mesmo viu o homem se aproximar, só sentiu seu corpo cair na lama e a dor da mordida em seu ombro. Ele gritou, mas teve a boca tapada pela mão forte do comensal. Houve lágrima e dor, Severus o invadiu e maltratou sem pudor, sem se lembrar ou ligar para o dono dos gemidos doloridos e quando tudo acabou, quando o comensal saciado foi embora sobrou apenas Severus agarrado fortemente a um tremulo Harry, ambos seminus sentindo a fria chuva lavar o sangue do ato.
Harry negou todos os pedidos de perdoes e olhares aflitivos do homem, mesmo mancando e dolorido o menino garantia que tinha feito aquilo por que queria, pois perde-lo seria muito pior. E assim Snape sempre o procurava quando sentia que necessitava dele para satisfazer seus desejos mais obscenos.
- Harry! — Gritou Snape empurrando o corpo de Harry fortemente para baixo sentindo seu membro entrar completamente no menino que abriu a boca em um grito mudo. Snape puxou o cabelo dele enquanto se desmanchava em seu corpo.
Demorou alguns minutos para que conseguissem abrir novamente os olhos, Snape foi o primeiro e o que viu o devastou, como todas as outras vezes. Harry apoiava-se em seus ombros, estava suado e com os olhos fortemente franzidos. Respirava forte enquanto mexia devagar o corpo retirando Snape de dentro dele.
- Harry, por favor, me...
- Não. — Interrompeu Harry abrindo os olhos. — Eu estou bem, só preciso de alguns segundos.
Snape assentiu e enquanto Harry se arrumava em seu colo subindo o pijama ele apenas acariciava seu rosto e limpava suas lágrimas. O jovem auror o abraçou forte e beijou seu ombro.
- Não fique assim, sabe que não ligo, prefiro essa dor do que te perder. Não posso viver sem você.
- Queria não precisar fazer isso.
- Mas precisa e eu estou aqui para te dar o que você precisa. Mas agora me conta o que está incomodando você.
- Descobri porque invadiram nossa casa.
- Como assim descobriu? — Perguntou Harry saindo do colo do homem e se levantando. Snape se levantou também e arrumou a roupa. — Os aurores disseram que era por vingança da morte de Voldemort.
- Desde quando os aurores tem competência para descobrir alguma coisa?
- E o que você descobriu?
Snape passou as mãos pelo cabelo e se aproximou da sacada olhando a escuridão no horizonte onde o mar dormia. O vento era gostoso batendo no rosto e balançando seus cabelos. Harry se aproximou e tocou em seu braço o fazendo se virar.
- O que você descobriu?
- Eles estavam procurando pela Lys.
- O que? — Perguntou Harry incrédulo. — Por quê? A poção que você fez deveria protegê-la. Mascarar o nível de magia, eles nem mesmo deveriam saber que ela existe para esse propósito.
- Mas sabem.
- Quem te contou?
- Draco.
- Ainda não consigo confiar completamente nele, mas o que mais ele te contou.
- Draco descobriu sobre a descendente das trevas e me disse que ela é fortemente guardada por uma comensal marcada apenas para isso. Não sei quem ela é e nem onde está. A marca dela é diferente da minha, não tenho como rastreá-la nem mesmo com um feitiço poderoso. Mas seja lá quem for sabe que Lys existe e que elas tem um futuro entrelaçado, por isso invadiram nossa casa, estavam atrás dela.
- E por isso temos que ir embora.
- Sim, nós temos que...
Qualquer coisa que Snape fosse dizer para Harry foi engolido novamente. Um grito atravessou as paredes e portas chegando a Severus que imediatamente ergueu a varinha na mão e correu em direção ao som acompanhado pelos aurores que avançavam em seu encalço, Harry vinha logo em seguida. Severus abriu a porta do quarto de Lys procurando pelo invasor. Sua mente trabalhava em cada segundo que passava, sentia a vibração da adrenalina em seu corpo assim como também o medo de que algo estivesse acontecendo com ela. Por sorte quando entrou no quarto da menina a única coisa que encontrou foi Lys gritando e esperneando na cama em meio a um sonho.
Enquanto os aurores vasculhavam o quarto e o restante da casa Harry tentava acordar a menina. Lys chorava copiosamente e falava palavras que Harry não conseguia compreender. A menina acordou aos poucos, olhou para Harry e se jogou em seus braços o apertando com força.
- Está tudo bem, filha, está tudo bem. Calma, papai está aqui.
- Não deixa ela me pegar papai. Por favor, não deixa.
- Ninguém vai te pegar meu amor, de quem você está falando?
- Da mulher nos meus sonhos.
- Shh, já passou. – Disse Harry tentando acalmá-la. – Já passou. Ninguém vai te pegar.
Harry olhou para Severus por cima do ombro da menina e esperou que ele dissesse alguma coisa, mas Severus apenas continuou olhando para Lys com a testa franzida até que os aurores retornaram informando que não havia ninguém na casa. Snape assentiu e se afastou para falar com o auror Tommy.
- Está tudo seguro. – Disse Snape quando Harry saiu do quarto e o encontrou sentado na poltrona com um copo de Whisky na mão. – Como ela está?
- Assustada. Acho que consegui que ela se acalmasse um pouco, mas ela fica repetindo que uma mulher quer pegá-la. Sabe o que é?
- Não, e não vou entrar na mente dela. Seria arriscado demais. – A voz de Snape estava fria como o copo que segurava, sua mandíbula estava cerrada com força. Ele estava nervoso. Trazia nos olhos a ira de outrora.
- Severus?
- Você e Lys irão embora hoje. Vão para Hogwarts e de lá para o local que conversamos mais cedo.
- Aquele lugar? Mas você apenas comentou que poderia ajudar e que poderíamos conhecer qualquer dia, não citou que teríamos que nos mudar.
- Eu menti. Disse que vocês ficariam na TOCA com os Weasley e eu voltaria para Hogwarts, mas vocês vão para outro lugar.
- Não, Severus, é muito longe. Não quero ficar tão longe de você.
- Precisa. – Disse o homem tomando o restante do liquido em um gole e olhando para Harry. – Não sabemos praticamente nada sobre a filha do Lord e nem como será quando finalmente elas tiverem que se encontrar. Precisa treiná-la de todas as formas que puder.
- Ela tem seis anos. Apenas seis anos.
- E tem mais magia do que Dumbledore. Lys não é normal, Harry, e como tal precisa de um treinamento a altura.
- Supondo que eu aceite isso. Quem vai treiná-la?
- A descendente antes de você. Ela sentiu o poder de Lys e entrou em contato comigo me oferecendo ajuda. Eu fui até ela e testei se ela falava a verdade e ela falava. Ela pode treinar a mente e o corpo. Deixá-la pronta.
- Pronta para o que? Guerra?
Não houve resposta. Severus afastou o olhar e o prendeu no copo vazio, sabia o que Harry estava pensando, ele mesmo pensava isso. Jamais desejou desistir de Lys daquela forma. Afastar-se para lhe dar maior chance na guerra.
- Papa.
Snape respirou fundo e olhou para a menina que caminhava devagar em sua direção. Lys se parecia muito consigo, seus cabelos negros eram escorridos e caiam em suas costas. Ela era pequena para sua idade, seu rostinho continuava gordinho, o que a deixava mais linda e graciosa, ainda mais quando tinha os olhos arregalados e se abraçava ao ursinho de pelúcia. Harry não tentou pegar a menina no colo, sabia que quando ela dizia papa, queria dizer papai para Severus.
- Oi filha. – Disse Snape colocando o copo no chão e estendendo a mão para a menina. – O que foi?
- Não consigo dormir, estou com medo.
Lys subiu no colo de Severus e abraçou seu pescoço, o homem acariciou suas costas com carinho. Desde pequena o único que conseguia acalmá-la era Severus. Independente do que fosse ela só se acalmava quando o homem estava ao seu lado.
- A mulher do sonho disse que logo logo vai me pegar. Não deixa ela me pegar papa.
- Ninguém vai pegar você. – Disse beijando a cabeça da menina. – Eu vou te proteger.
- Eu te amo papa.
Lys se ergueu um pouco e beijou o pai na bochecha antes de se aconchegar em seus braços e adormecer logo em seguida sabendo que nos braços de Severus ela estava segura. Snape olhou para Harry que apenas respirou fundo, assentiu com a cabeça e caminhou lentamente até a porta de seu quarto.
- Vou arrumar nossa mala. Vamos para Hogwarts.
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