A Lenda
47 Morri todos os dias esperando você – Parte 1
Notas iniciais
Capítulo 47 – Morri todos os dias esperando você – Parte 1
Estou aqui novamente
Milhares de quilômetros longe de você
Uma grande bagunça
Apenas pedaços espalhados de quem eu sou
Eu tentei tanto
Pensei que eu poderia fazer isso sozinho
Eu perdi tanto ao longo do caminho
Seus belos sapatos italianos brilhavam enquanto caminhava devagar por aquele corredor cheio de gente. Muitos o olhavam assustados, outros com um sorriso no rosto, a maioria nem mesmo lhe via e se via não conseguia discernir em sua mente o significado de sua presença. Não havia razão no meio da loucura, havia apenas os podres vermes rastejando em um pântano de incompreensão arregalando os olhos com a possibilidade de terem descoberto algo importante, mas logo desfazendo o sorriso bobo e voltando ao estado inóspito de loucura. Poderia ficar com pena deles, mas não havia espaço para isso quando ele mesmo teve que lutar contra sua própria alma.
Não tinha pena, tinha desprezo por aqueles seres que desistiam. Ele chegou ao abismo também, esteve frente a frente com seu demônio, o viu refletido nos olhos daquela criança que chorava em choque pelo medo do ser que o acordara no meio da noite. E então quando o demônio retirou a prateada mascara ele não fugiu, o encarou nos olhos, tremeu de medo, rosnou de raiva e gritou de precisão. Mas não fugiu, continuou em pé olhando o demônio refletido nos olhos inocentes até que aos poucos recuou saindo do abismo ao qual quase se jogara. Deu as costas ao pequeno inocente e correu pela estrada de barro.
Correu fugindo de si mesmo, fugindo de sua fraqueza. A lama salpicava sua calça, a chuva encharcou sua capa e os galhos das arvores arranharam seu rosto, ele não se importou, apenas continuou correndo até que não mais aguentou e caiu de joelhos sentindo o coração apertar-se dentro do peito. Amaldiçoava aquela necessidade de dor, de tortura. Odiava-se por querer que Harry estivesse ao seu lado para o possuir selvagemente negando-lhe o prazer e entregando apenas a dor, mas ele não estava lá, Harry estava longe, muito longe e era melhor assim. Apesar da necessidade de sua mente, o sentimento forte que sentia por ele o colocava de volta a realidade. Não podia viver daquela forma, tinha que lutar contra si mesmo para poder olhar para as esmeraldas de Potter e não mais as ver com dor, apenas com o doce sentimento que nele imperava.
Foi naquele momento, dolorido, encharcado e quase entregue ao fim que o homem arrancou forças do âmago e cavou com as mãos geladas e trêmulas, a cova onde enterrou o passado. A máscara, a capa e toda a história do comensal jazia agora em algum lugar distante e esquecido. Dois anos se passaram desde aquele dia. Dois anos em que viveu em constante medo de que não tivesse acabado e que ao se deitar com Harry algo ruim acontecesse, mas nada aconteceu. Ele era apenas Severus Snape agora.
- Senhor Snape?
A voz da mulher o retirou de seus devaneios, afastou o olhar dos loucos seres dali e encarou a senhora com o uniforme branco e máscara no rosto, ela segurava uma porta e indicava que ele deveria ir por ali. Sem demora Snape adentrou a outro corredor cumprido com diversas portas em ambos os lados, cada porta tinha uma tranca reforçada e uma janelinha de vidro para ver o que tinha após a porta. Snape passou direto por todas elas. Não lhe interessava o que havia ali, a única coisa que interessava era o caminho que a mulher agora indicava. O homem parou diante de uma porta de metal branco e a encarou com devoção. A mulher começou a falar sobre as regras de segurança que deveria ter ao adentrar ao local, mas Snape não queria ouvir aquela baboseira, discretamente apontou a varinha e recitou o Império. Imediatamente a mulher calou-se e ficou estática com os olhos vidrados.
- Fique aqui e não deixe ninguém mais entrar.
A mulher assentiu e continuou no mesmo lugar. Snape ergueu a varinha e destrancou a porta. Quase dez anos foram precisos para encontrá-la. Empurrou a porta com cuidado e pisou ali dentro sentindo o ar pesado do local. Fechou-a e se viu em completo breu. Demorou alguns segundos para conseguir visualizar alguma coisa.
- Lumus.
A varinha acendeu iluminando um quarto pequeno com uma cama de metal, um vaso sanitário, uma pia e uma pequena mesa ao canto. Havia uma mínima janela por onde o ar entrava, mas de onde não se podia obter nenhuma imagem, não se sabia se era dia ou noite, pois a posição da janela não lhe favorecia a vista do céu, só da parede do outro lado.
Snape ergueu a sobrancelha pensando não haver ninguém ali, mas assim que se virou deparou-se com a imagem do que antes fora uma mulher muito bem apessoada. Agora era apenas alguém com cabelos ralos e despenteados caindo como palha sobre os ombros. Snape ficou de frente para a mulher e estreitou os olhos vendo a marca negra dançar no braço esquerdo, por estar em um manicômio trouxa a marca apresentava-se apenas como uma tatuagem macabra, mas ele podia vê-la se mexer, sentir sua aura sombria. Afastando o olhar da marca Snape se prendeu nos olhos cinza da mulher, eles estavam apagados, havia olheiras fundas na pele pálida e os dentes estavam amarelados.
Para chegar até ela foi preciso muita pesquisa em antigos livros e muita procura pelo mundo. Após a derrota de Voldemort, Snape dedicou-se a família tentando ser o melhor que Harry e Lys precisavam, ao mesmo tempo trabalhava com remessas de poções e pesquisas sobre a antiga lenda. McGonagall lhe dera permissão para pegar todos os livros de estudos de Dumbledore. Com eles pode descobrir muita coisa sobre A Lenda e a descendência da princesa da vida e da guerreira das sombras. Mas foi somente após o atentado a sua casa que se dedicou quase que completamente àquelas pesquisas, Harry e Lys foram para longe e ele voltara a lecionar poções em Hogwarts para sua proteção, já que os comensais sobreviventes queriam matá-lo pela traição.
Porém nem mesmo os pedidos de Minerva para que ficasse no castelo em segurança conseguiam segurá-lo quando descobria algo novo. Ele leu, pesquisou, escreveu e quando teve uma pista foi atrás dela arrancando a informação por legilimência ou tortura. Não importava se quase desenterrava o comensal, ele fazia. Já se esquecera em quantas mentes já entrara, quantas pistas já seguira, na verdade não interessava, pois ele não desistiria, tinha que achar o paradeiro da filha de Voldemort.
E foi após tantas buscas que conseguiu estar diante daquela mulher digna de pena. Ana Wolf não tinha grandes poderes como Alexandra, mas vinha da linhagem das Trevas e como todos os outros integrava o grupo que fora preparado para treinar e preparar a criança para seu destino. Voldemort fora procurado por ela que oferecera sua ajuda. Pouco antes de o Lord morrer Ana levou a guerreira das Trevas para longe onde jamais poderia ser achada, a recente marca negra tatuada a fogo em seu braço ajudava Voldemort a achá-la facilmente, agora servia apenas como uma lembrança, nada mais.
- Quem é você? – Perguntou a mulher com a voz rouca.
- Isso não vem ao caso. – Respondeu Snape ainda com a varinha apontada para ela e os olhos a analisando. – Por que está aqui?
- Por causa dela. – Apontou para um papel grudado na parede que Snape não havia reparado antes.
A mulher se aproximou da mesa e se sentou pegando uma folha em branco e um giz de cera azul. Com ele desenhou olhos perfeitos, pequenos, azuis como o céu e rodeados por finos cílios. Eram os mesmos cílios dos outros desenhos. Sua testa franziu ao se aproximar dos diversos desenhos, todos os olhos pareciam observá-lo, segui-lo de um lado para o outro penetrando sua carne. Estendeu a mão e retirou um dos desenhos jogando o em cima da mesinha interrompendo o desenho que ela fazia.
- Quem é ela? – Perguntou secamente.
Ana pegou o desenho, olhou-o por longos segundos, acariciou com os dedos finos e então olhou para Snape sussurrando como se tivesse medo de ser escutada.
- Ela é o demônio, é a morte, é a pior coisa que você pode querer encontrar.
- Bom para mim, pois não tenho medo do demônio. – Disse Snape sorrindo de canto. – Onde ela está?
- Não sei.
- Acho que começamos mal. – Disse Snape apontando a varinha para a cadeira da mulher a fazendo virar-se até ficarem frente a frente. Ela o olhou de baixo sem expressão, Snape a olhou de cima com nojo na careta que fazia. – Onde ela está?
- Não sei. – Respondeu a mulher tremendo ao ver o maléfico sorriso no rosto dele.
- Eu acho melhor se lembrar e rápido. Tenho um compromisso a tarde a qual odiaria ter que adiar por sua causa. Então. – Inclinou-se enfiando a varinha na garganta da mulher a fazendo engasgar. – Responda minha pergunta, eu não tenho muita paciência.
- Eu já disse que eu não sei.
Snape ergueu a sobrancelha e se afastou recuando a varinha e então a apontando novamente. Ana nem teve tempo de piscar apenas sentiu seu corpo bater com força no chão e a dor se estendeu pelos músculos. Ela gritou, mas o abafiato jogado na porta impedia que seu desespero vagasse pelos corredores. Snape sentou-se na cadeira onde ela estivera antes e apenas a observou até que achou ser suficiente e cessou o feitiço deixando-a ofegante no chão. Ana respirou e gemeu até começar a rir.
- Qual é a graça? – Perguntou Snape passando a mão pelos cabelos. – Pelo visto o lugar a contagiou.
- Estou rindo pelo seu desespero. – Respondeu ajoelhada no chão o olhando por entre os ralos cabelos suados. – Você quer tanto encontrá-la. Nem ao menos sabe onde está se metendo. Acha que é apenas uma criança? Não, ela é mais poderosa que ele, ela é sozinha. Seu poder é inimaginável, abominável. – Ana arregalou os olhos e se aproximou de Snape rosnando diante de seu rosto em pleno ápice de loucura. – Eu não sei onde ela está. Ela me usou até onde precisasse e depois foi embora. Ela não precisa de ninguém.
- Para onde ela pode ter ido?
- Você ainda não entendeu não é? – Perguntou a mulher em um sussurro. – Você jamais a achará até que ela queira ser encontrada. Terá que ter paciência.
- Não sou um homem paciente. – Respondeu Snape olhando dentro dos olhos arregalados da mulher. – Legilimens.
Viajar nas lembranças de Ana não era fácil, parecia um redemoinho de imagens aleatórias. Foi difícil assimila-las, mas Snape era um exímio legilimens, era capaz de manejar uma mente ao seu bel-prazer, desmontá-la e montá-la novamente. Seus olhos se estreitaram e sua mão apertou a varinha com força. Ana gritou ao senti-lo ir mais fundo, caçar os pedaços de imagens em ordem. Custou tempo, força e habilidade, Ana já estava tremula e encharcada de suor. Snape não se importou, nem mesmo com a expressão horrorizada dela, ele apenas sorriu de canto e começou a finalmente ver as lembranças da mulher.
Reviu o rosto ofídico de Voldemort com seus olhos vermelhos e pele translucida. Ele se encontrava em um local estranho, parecia algo como uma antiga taverna. Havia um balcão com garrafas e barris de bebida, mas todos cheios de poeira pelos muitos anos sem devido uso. As mesas traziam em sua superfície copos com marcas encardidas de líquidos que há muito evaporaram e o chão tinha uma camada de grosso pó. O Lord permaneceu parado no meio do local, não olhava para nada em especifico, apenas permanecia em pé até avistar a figura que entrava devagar. Ao tirar o capuz Snape percebeu que era Ana, ela caminhou até ele e o encarou fortemente nos olhos de uma forma que nem mesmo o mais corajoso Comensal tinha coragem.
- Sou um homem muito ocupado, senhorita Wolfy, espero que seja breve.
- Serei. – Respondeu a mulher empertigando-se.
- Sua carta foi bem interessante. Disse a voz rouca de Voldemort. – Estou curioso sobre o que poderia me interessar tanto para necessitar desse encontro.
- Faço parte de uma irmandade antiga, uma linhagem que descende das Trevas. – Os olhos vermelhos estreitaram-se, mas ele não a interrompeu. – Alexandra Morsteng é a última descendente das Trevas e, como membros da linhagem, sabemos que você a mantém presa e sabemos o motivo. – A mulher deu um passo a frente. – Nós sabíamos que a reencarnação da guerreira das sombras nasceria um dia para reivindicar a vingança do passado. Meu objetivo é oferecer meus serviços ao senhor, como membro honorário da irmandade fico a disposição para cuidar da criança, ensiná-la os valores e objetivos da guerreira das sombras, treiná-la para aperfeiçoar seus poderes até que esteja pronta.
- Pronta para servir. – Disse Voldemort ganancioso.
- Não, meu senhor. – Respondeu a mulher surpreendendo-o. – Como pai o senhor tem pleno direito de mantê-la ao seu lado, usufruir de seus poderes. Mas a criança tem um propósito. Seu nascimento já estava previsto independente de qualquer vontade do senhor. Seu destino é vingar vidas passadas, fazer cumprir a vontade da guerreira. – Voldemort cerrou os lábios. – Ela nascerá para matar a princesa da vida e reinar sobre um mundo de Trevas.
- Não há princesa da vida! – Rosnou Voldemort possesso de raiva avançando contra a mulher.
- Haverá. – Respondeu Ana sem se abalar. – Meus serviços estão ao seu dispor. Viremos buscar a criança após seu nascimento.
O crucio de Voldemort ricocheteou na parede no mesmo instante em que a mulher sumiu da sua frente fazendo o pó acumulado se erguer no ar. Snape conseguiu ouvir o urro de raiva de Voldemort antes da lembrança sumir. Agora as lembranças eram rápidas. Mulheres da irmandade foram até os prédios abandonados onde Alexandra fora escondida e sem nem lhe dar explicações decentes arrancaram-lhe a criança. Snape ficou o máximo de tempo que conseguiu naquela lembrança apenas olhando para a mulher deixada para trás. Alexandra estava linda e Snape sentiu que se pudesse beijaria sua mão e agradeceria o sacrifício, mas não podia, então apenas se deixou levar para as outras lembranças sendo carregado de um cenário a outro.
Viu que a criança fora levada para algum lugar estranho, era longe e frio, pois todas as integrantes da tal irmandade usavam grandes casacos de pele. Assistiu o ritual de boas vindas e os cuidados primários com ela até que tivesse idade suficiente para entender os ensinamentos antigos. A menina cresceu rodeada de mulheres frias que cumpriam o dever de desenvolver poderes para que pudesse então cumprir seu destino. Tinha cabelos escuros, levemente ondulados e olhos extremamente azuis. Ao contrário das outras mulheres ela não se protegia contra o frio, era como se o frio não a atingisse, como se ela fosse mais fria, mais dura. Snape olhou em seus olhos e sentiu que ela realmente o era.
A menina crescera com um proposito e para esse proposito ela foi extremamente preparada. Por ser uma reencarnação e fruto de dois poderosíssimos bruxos a menina detinha um poder realmente abominável, ela não tinha varinha, não era necessário. Tudo que quisesse fazer ela faria com apenas sua vontade e mente. Snape até mesmo se assustara ao vê-la tocar a mão no tronco de uma árvore causando sua morte folha por folha até que não sobrasse nada. Ela era um demônio. Um demônio poderoso e não somente treinada em poder, mas em combate.
Na Lenda antiga ambas, guerreira e princesa, marcharam para o campo de batalha munidas não somente de poder, mas de armas e escudos. Lera isso ao pesquisar sobre o acontecido. Então era de se esperar que ela também dominasse armas de combate, mas era pior que isso, era como se a espada, arco e flecha e o escudo fossem parte dela. Sua frieza a deixara como uma mestra, não havia piedade apenas a precisão, domínio e mira. Snape engoliu em seco e pensou em Lys.
Aquela criança das lembranças nascera do escuro, fora gerada no ventre do mal e criada pelas sombras. Era talhada feito metal, fria feito gelo e dura como diamante. Era impenetrável em toda sua existência, não houve amor, nem carinho e preocupação, somente deveres. Ela demonstraria ao mundo o quanto era cruel.
A lembrança mudou e então estava de frente para Ana que contemplava uma crescida guerreira das sombras. Ana tentava convencê-la a ficar, mas a menina apenas arrumava a vestimenta. Tinha dez anos e trazia em seu olhar uma maldade que Snape jamais vira em todos seus anos de comensal.
- Seus serviços não são mais necessários. — A voz da menina, ao contrário do que Snape pensara, era baixa, doce e até mesmo gentil. — Nem do restante da irmandade.
- Onde vai?
- Atrás dela.
- Nem sabe onde ela está. — Disse Ana gesticulando com a mão e demonstrando seu aborrecimento. — Os comensais a procuraram anos atrás, chegaram perto de descobrir, mas a perderam, a pista que procuravam era falsa.
- Então começarei a procurar do zero.
Sem mais a menina saiu levando consigo uma mochila pendurada no ombro e uma espada na cintura. Somente quando já estava fora de vista que Snape saiu da mente da mulher e a sentiu quase desfalecer em seus braços, imediatamente a largou deixando-a cair no chão. Levantou-se com os olhos duros.
- O que você sabe da princesa da vida? — A pergunta foi calculada para que nada levasse a mulher a liga-lo a Lys.
- Só que ela existe e que logo as duas se enfrentarão.
- E quanto a pista que seguiam?
- Era falsa. Os comensais sobreviventes seguiram uma pista de uma criança que seria a possível princesa, mas foram mortos ou presos, não sei, só sei que perderam essa pista.
- Você sabe onde ela está?
- Não. — Respondeu Ana sentando-se no chão. — Apesar da tentativa inútil de encontra-la, somente a guerreira pode achá-la.
- Como? — Questionou Snape com os lábios cerrados. — Eu perguntei como. — Repetiu agarrando os braços da mulher e a levantando, Ana gemeu de dor, as mãos de Snape eram como garras. — Responda!
- Elas são irmãs. Reencarnação de almas passadas, elas sempre vão se encontrar, independentemente da procura ou não, um dia simplesmente vão se esbarrar por ai como duas estranhas, mas elas saberão que estão ligadas ainda que não saibam o motivo.
Os dentes de Snape rangeram de raiva, sua testa vincou e suas mãos a apertaram mais forte antes de a bater na parede fazendo com que a cabeça da mulher se chocasse com o concreto.
- O que mais você sabe sobre a princesa, conte tudo ou juro que espalho seus miolos por esse quarto.
- Eu não sei mais nada. Não perdemos tempo procurando-a. Só ela pode acha-la, é o destino dela, não interferimos no destino.
- Não se importaram em ajuda-la? — Os olhos de Snape eram astutos.
- Importância não era nosso dever.
Snape balançou a cabeça e a soltou, a mulher caiu aos seus pés como um verme e como um verme ficou enquanto revia todas as lembranças em sua mente. A irmandade não sabia sobre Lys, nem quem ela era e nem onde estava, elas não se importavam em quanto tempo a menina demoraria para acha-la, largaram de mão após a primeira tentativa. Ao contrário de Snape elas não pensaram na importância de se conhecer o inimigo. Pensando bem ninguém além dele e de Harry fizeram questão de procurar pela guerreira das sombras, pois somente eles a amavam o suficiente para passarem os anos necessários nessa busca. E agora a busca chegara a um ponto em que Snape se sentia estático, não havia para onde ir a não ser para o lado de Lys.
Antes de sair Snape fez a última pergunta para a mulher.
- Como veio parar aqui?
- Foi ela. Ela nos disse para não irmos atrás, mas nós fomos, tentamos fazê-la voltar, mas ninguém deve contradizê-la. Aqueles da linhagem que eram humanos enlouqueceram e aqueles que eram bruxos perderam sua magia e razão e todos viemos para cá.
- Toda a irmandade está aqui nesse hospício trouxa?
- Sim. — Respondeu Ana voltando a desenhar como se o que revelara não fosse nada de importante.
- Quantos são?
- Vinte e três. Por quê? — Perguntou Ana levantando o olhar para o homem.
- Para somar com todas as outras almas que já retirei.
- O que... — Perguntou a mulher tentando se levantar.
Mas não houve tempo, o feixe verde fez a primeira aparição naquela noite derrubando o corpo sem vida no chão.
- Uma já foi, faltam vinte e duas.
Já era quase noite quando aparatara na beira daquela estrada, teve que esperar alguns segundos até a leve tontura passar, desaparatar de uma distância tão grande exigia muita força. Após os segundos passarem o homem abriu os olhos, a estrada estava deserta como sempre. Estava calor devido o verão e uma brisa leve passava por seus negros cabelos balançando-os, retirou a capa de viagem e o blazer permanecendo apenas com a camisa branca e a gravata. Snape seguiu pela estrada por mais alguns metros e então virou-se para a direita entrando no bosque.
Seus passos eram lentos e precisos, não havia raiz ou galho que o atrapalhasse. Fazia tempo se desfizera do comensal, mas não de suas habilidades, seu jeito de andar em completo silêncio, se embrenhar nas sombras, aquilo fazia parte dele e sempre fariam. Não demorou muito para chegar a frente ao velho portão de ferro com grades grossas e impenetráveis. Seu coração deu um salto involuntário dentro do peito quando o portão se abriu ante sua presença. Agora estava perto, só mais alguns passos e poderia ver novamente, após mais de um ano distante, as duas pessoas mais importantes de sua vida. Snape sorriu ao ver a imagem deles em sua mente e se entregou a ansiedade digna de uma criança que corria em direção a uma mesa de doces.
SSSSSS
Eu morri todos os dias esperando você
Amor, não tenha medo
Eu te amei por mil anos
Eu te amarei por mais mil
Harry respirou fundo tirando a capa de viagem. Estava cansado, aquele dia não fora fácil, nada fácil. Harry agora trabalhava para o Ministério da Magia. Formou-se em Londres com grande louvor, mas escolhera exercer sua função de auror em outro país, distante o suficiente para que Lys fosse devidamente protegida. Após o ataque em sua residência na Grécia, Harry e Lys se mudaram para Roma deixando Snape em Hogwarts, pois os comensais ainda podiam rastreá-lo através da marca e ali era o lugar mais seguro para ele. Harry ainda se lembrava da dor em seu peito ao abraçá-lo fortemente nas portas de entrada do castelo, pegar uma Lys adormecida no colo e se afastar em direção aos portões de Hogwarts de onde poderia desaparatar.
Era cruel ficar separado, mas era necessário para a devida segurança de sua filha, Lys precisava ser escondida e ensinada. Os dois foram para um local no interior da Antiga Roma, parecia uma pequena cidade escondida, mas era um instituto antigo que servia de moradia, escola e centro de treinamento, era muita coisa em um único lugar, mas ali foram acolhidos pelas então intituladas guardiãs. Harry ficara desconfiado a princípio, mas Severus o tranquilizara de que elas eram quem realmente diziam ser, aquelas que preparariam Lys para seu destino. O lugar em que morariam dali para frente parecia um antigo castelo de reis com grandes muros e uma arquitetura que competiria com Hogwarts. Ali não viviam outras pessoas que não fossem da linhagem da princesa da vida. Havia idosos, adultos e crianças. Homens e mulheres. Todo o tipo de gente.
Ali Harry descobrira que os descentes da Luz não eram exatamente da mesma família, ou Lilian Evans seria descendente também, mas que havia seres especiais da linhagem que nasciam com os genes da Luz e por isso eram os predestinados a gerar a reencarnação dela. O ex grifinório franziu o rosto ao ouvir as explicações, mas não desrespeitou, apenas aceitou que ele era o único descendente em muitos anos e de alguma forma todos ali eram seus familiares. Algo que ele não queria assimilar. Aprendera também que desde a existência da princesa da vida e a guerreira das sombras, as guardiãs existiam e esperavam o momento do renascimento delas. No fim do dia Harry tentou esquecer tudo que disseram e apenas aceitar que ali seria seu novo lar por um tempo indeterminado.
Lys, ao contrário do que pensara, não virara uma maquina de combate, pelo contrário, ela sabia regras de combate, fora ensinada a manejar armas brancas, a enfrentar obstáculos naturais e a controlar sua magia, mas também obtivera vasto conhecimento em culturas diversas, dominava idiomas e já sabia muito sobre a história do mundo mágico, mas ainda não fazia uso de seu sangue mágico devido sua tenra idade. Mas fora todo esse estudo ela era uma criança como qualquer outra que brincava, tinha manhas, fazia coisas erradas e levava broncas. Pelo instituto acolher as famílias da linhagem, havia muitas crianças com idade parecida com a de Lys e assim a menina cresceu criando laços de amizades. Era fácil se cativar com ela e apesar de aprontar e por vezes até ficar de castigo, Lys era cativante e encantava quem a conhecesse.
Harry tinha muito orgulho de sua filha, principalmente de sua humildade perante quem era. Quando foram levados de Hogwarts para o instituto romano pela guardiã mestra todos a tratavam como uma verdadeira princesa, cheia de mimos e não me toques. Ela era pequena, não entendia direito aquele tratamento, mas aos poucos fez todos entenderem que ela não gostava daquilo e finalmente, após muita resistência do povo, ela finalmente fora tratada como uma criança igual a todas as outras. Mas Lys sabia que não era igual. Harry lhe contara toda a verdade no primeiro dia após a menina chorar por saber que teria que ficar longe de seu papa. Fora difícil, mas no fim ela aceitara quem era e o que precisava fazer assim como os sacrifícios que seus pais faziam por sua causa. Por isso se empenhava o máximo nas aulas que recebia de manhã na escola romana com as outras crianças e de tarde sozinha com as guardiãs enquanto seu pai cumpria seu dever de auror em um escritório do Ministério que tinha na cidade.
Apesar de tudo estar indo muito bem Harry sentia falta da vida que levava na Grécia, além de ter sua família ao seu lado, ele tinha seus amigos. Como sentia falta de Rony e Hermione, dos outros Weasley e de seus amigos. A localização de Lys era secreta então as visitas precisavam ser feitas esporadicamente, sem alarde e principalmente sem que outra pessoa do Ministério soubesse, a não ser Quim a quem Severus confiou o segredo pedindo ajuda para proteção e coisas burocráticas como termos de sexo no contrato de casamento que foram devidamente anulados. Era ele o responsável por escolher os aurores que fariam a guarda dos encontros de Harry e Lys com familiares e amigos.
Ainda sentado em sua cama com a capa de viagem na mão Harry sorriu ao recordar a última vez em que os visitara, há muitos meses. Ao saber da visita a senhora Weasley juntou a família toda, os Weasley estavam em peso, os pais, os filhos, os netos e até mesmo Luna e alguns amigos como Hagrid e McGonagall. Ah, Madame Pomfrey também fora, Severus soube da visita por meio de uma carta criptografada que trocara com Harry e no mesmo instante fora até a ala hospitalar dizer para a enfermeira que fosse a festa também, Severus a mandara para que visse a pequena Lys, o homem jamais confiou em qualquer outra pessoa para cuidar da menina. Esses dias eram regados a muita festa, risadas e presentes para Lys que era o centro das atenções quando não estava aprontando com as outras crianças. George sempre disse que ela era a sucessora de Fred. Apesar dos reencontros serem deliciosos, duravam dois dias no máximo, o primeiro de festa, o segundo para Lys desgonomizar o jardim junto com os Weasley, uma tarefa que ela fazia questão de fazer antes de ir embora sob protestos de uma senhora Weasley que a enchia de doces.
Havia só mais um lugar que Harry passava antes de voltarem para Roma. A casa de seus tios. Valter Dursley não era mais tão gordo, após muitos pedidos de Tia Petúnia e Duda o homem entrara em um regime perdendo alguns números em seu manequim, ainda assim trazia uma pancinha e a mesma bigodeira densa. Tia Petúnia continuava a mesma coisa, apenas com algumas rugas a mais no rosto de cavalo. Quem mudara realmente fora Duda. O menino gorducho tornara-se um homem bonito de porte atlético. Formou-se como advogado e se casou com uma colega do trabalho com quem teve uma filha. Ainda que passasse muito tempo sem vê-la Duda sempre recebia Lys com beijos, abraços e muita atenção, ele realmente a amava. Tia Petúnia era neutra e Tio Valter ainda não gostava da menina, nem ela dele. No fim do dia os aurores deixavam Harry e Lys em um ponto especifico de Roma através de uma chave de portal e de lá os dois desaparatavam para o instituto. Lys capotava na cama cansada e com a barriga cheia de doces, mas Harry ia para seu quarto, tomava banho e se deitava de costas na cama encarando o teto e remoendo a falta que Snape lhe causava, ele nunca ia nesses encontros, achava arriscado demais. Ele aparecia de surpresa quando achava seguro. Ambos trocavam muitas cartas, mas doía a ausência do marido que ficava semana, meses ou anos sem aparecer.
Esfregando o rosto Harry saiu do quarto tentando esquecer a saudade esmagadora. Foi para o jardim tentar esvaziar a mente até a hora do jantar. O jardim tinha uma grama bem verde e alguns bancos estrategicamente colocados onde tinha sombra. Se sentou em um deles e olhou para o sol se pondo atrás das árvores que rodeavam a entrada do instituto, fechou os olhos curtindo o mormaço, uma leve brisa bagunçou seus cabelos, pendeu a cabeça para o lado e respirou fundo curtindo aquele solitário momento. Solitário até que abriu os olhos e o viu ao longe.
O tempo todo eu acreditei que te encontraria
O tempo trouxe o seu coração ao meu
Eu te amei por mil anos
Eu te amarei por mais mil
O sol agora tinha apenas sua borda a mostra e seus raios tingiam o céu de vermelho em volta da imagem do homem que se aproximava a passos firmes e apressados. Trazia em sua mão uma capa de viagem, as mangas da camisa estavam arregaçadas, a gravata frouxa e os primeiros botões abertos. Os cabelos negros balançavam conforme andava, alguns fios grudavam em sua testa, mas os outros emolduravam seu rosto adulto com traços finos e marcantes. Os olhos negros estavam fixos nos seus e Harry mesmo assim não conseguia decifrá-los, pois seu coração desesperado queria apenas sentir que ele estava realmente ali. Levantou-se e deu dois passos lentos antes de apressá-los na direção do outro e se atirar em seus firmes braços sentindo os finos lábios reivindicando os seus.
- Senti tanto sua falta, Severus. — Disse Harry beijando o rosto do mais velho antes de abraçá-lo com força querendo senti-lo.
Snape sorriu e apertou Harry contra si colocando naquele abraço toda a saudade que sentira durante todo o tempo longe do único homem que se aprofundara em sua vida, atingira seu coração e alma, marcara-o a fogo e proporcionara a si os momentos emocionantes que jamais imaginou que um dia seria merecedor.
- Faz tanto tempo que não te vejo, meu amor. — A voz de Harry era chorosa em seu ouvido. — Por que demorou tanto? Mais de um ano Severus.
- Eu não podia vir. — Respondeu Snape se afastando um pouco para poder olhar os lindos olhos verdes de Harry. — Não podia arriscar sua segurança, eles ainda estavam atrás de mim. Depois de tantos anos aqueles malditos comensais ainda queriam me matar, mas agora eles se foram. Os últimos se foram.
Levou sua mão até o rosto dele e acariciou a bochecha corada. Harry era um homem agora e ainda que trouxesse o semblante do jovem apanhador, seu rosto demonstrava a sabedoria dos anos pós batalha. Snape sempre o encontrava um pouco mais mudado, a pele, os traços, o queixo e sempre se apaixonava novamente pelo homem que via.
- Seu cabelo está grande. – Comentou Snape enterrando os dedos levemente nos cabelos dele.
- Achei interessante deixá-lo um pouco maior. – Respondeu Harry ronronando e aproveitando a caricia em sua nuca.
- Humm, interessante. – Disse o mais velho em sua habitual voz arrastada dando um fraco puxão no cabelo dele, fazendo a cabeça pender levemente para trás. – Talvez eu me acostume. – Completou trazendo-o para si e beijando seus macios lábios com carinho, Harry rodeou sua cintura apertando-o sem parar o beijo até que o fôlego os obrigou a se separarem.
- Não deveria me beijar dessa forma, senhor Snape, pode ser perigoso. – Disse Snape traçando os lábios de Harry com a língua.
- Você é que não deveria me beijar dessa forma, Severus. Assim não vou deixá-lo ir embora depois. – Os olhos de Harry perderam um pouco o brilho. – Quando você vai embora?
- Vamos conversar sobre isso depois. Eu quero vê-la.
- Ela sente muitas saudades suas.
- E eu a dela. Onde ela está?
- Deve estar se preparando para o jantar.
- Então vamos entrar.
Harry assentiu e pegou a mão de Snape entrelaçando seus dedos. Apesar de não gostar e evitar qualquer demonstração pública de carinho, Snape não soltou sua mão da dele. Seu tempo sempre fora muito curto e qualquer carinho naquele momento era válido e preciso.
Pararam diante da porta que levava a sala de jantar. Ao contrário de Hogwarts que tinha quatro mesas compridas, ali a sala de jantar era mais parecida com uma sala de jantar familiar com mesas redondas espalhadas, cada mesa com cinco ou seis cadeiras onde sentavam-se as famílias para se servirem nos recipientes deixados a um canto. Severus sempre vira as famílias jantando juntas, mas jamais fizera o mesmo, as poucas vezes em que aparecera fora de manhã e ia embora assim que o sol baixava.
- Ela já deve chegar. – Disse Harry sorrindo de leve.
Assim que Harry terminou de falar ouviram o barulho de passos vindo pelo corredor. Várias crianças apareceram. Os meninos primeiro, todos vestidos adequadamente com roupas sociais para jovens, as meninas vieram depois conversando entre si e dando risadinhas bobas enquanto apontavam para algum menino a frente. Snape revirou os olhos quando elas se aproximaram com seus vestidos rodados.
- Espero que ela ainda não tenha chego a essa época. – Comentou Snape fazendo careta para o grupinho de garotas.
- Você quer dizer a época de gostar de garotos? – Perguntou Harry rindo. – Calma Severus, sua filha ainda não tem interesse por meninos, digamos que ela é realmente única e me lembra um pouco a Luna.
Severus teve receio referente a última frase de Harry, não queria sua filha como tantas outras adolescentes que preferiam suspirar por um estúpido moleque do que obter conhecimento sobre algo útil, mas também não a queria como a senhorita Lovegood. Da última vez que vira Lys ela acabara de fazer nove anos e era ainda dependente das escolhas dos pais para vestimentas, penteados e qualquer outra coisa, mas ao avistar a menina que vinha andando pelo corredor lendo uma revista percebeu que a menininha de vestidinha branco, cabelos longos e presos em uma trança que carregava um ursinho para lá e para cá, agora era uma pré adolescente de tênis, calça jeans e blusinha branca. Os cabelos estavam na altura do ombro e eram tão negros quanto dos pais, os fios escorridos emolduravam um rostinho redondo com bochechas salientes. Sua pele era branca e corava facilmente.
Entendera então o que Harry queria dizer com ela ser igual a Lovegood, Lys Snape era autentica e de nenhuma forma parecia pertencer aquele lugar. Ela realmente era sua filha. A menina estava tão concentrada na revista que nem percebia que estavam a poucos metros dela então Snape pegou a varinha e fez a revista saltar de sua mão. A menina olhou a revista se erguer no ar e as folhas se soltarem. Assim como uma típica Snape ela cerrou os dentes e praguejou.
- Ora essa, quem foi o engraçadinho que... – A frase foi interrompida quando avistou no fundo do corredor os dois homens de mãos dadas. – Papa?
- Eu nunca fui um homem conhecido por ser engraçadinho. – Disse Snape sorrindo de canto.
- Papa!
A revista fora esquecida. Lys correu pelo corredor com um sorriso no rosto e os braços estendidos, pela primeira vez desde que chegara ali Severus largara a mão de Harry para pegar a menina que pulou em seu colo abraçando-o com força. Snape a levantou deixando-a cruzar as pernas em sua cintura e a apertou. Ela estava ali, em suas mãos, sentia seu corpo quente, seu coração batendo, a respiração em seu pescoço. Sua pequena estava bem e todo o sacrifício que fizera, os anos longe, as longas e perigosas buscas por respostas valeram então a pena. Severus passou a mão pelas costas da menina ao senti-la tremer. Se abaixou colocando-a no chão e delicadamente soltou os bracinhos dela fazendo-a olhá-lo. Os belos olhos verdes escuro da menina estavam brilhosos pelas lágrimas que caiam por seu rosto.
- Por que está chorando? – Perguntou Snape limpando as lágrimas dela com cuidado. Harry ajoelhou ao seu lado e acariciou seus cabelos que ela fizera questão de cortar igual ao de Severus. – Me fala.
- Porque eu senti sua falta. – Dizia a menina soluçando e formando um biquinho gracioso nos lábios. Lys ergueu a mão e tocou o rosto de Snape como se quisesse ter certeza de que ele estava realmente ali. – Estava com saudades, pensei que não gostasse mais de mim.
- Que história é essa? – A testa de Snape franziu e seus olhos se voltaram para Harry exigindo uma explicação. – Quem colocou isso na sua cabeça?
Harry queria que a menina não falasse, pois sabia que isso iria dar problema depois, mas Lys sempre fora muito verdadeira, principalmente com Snape, a pessoa com quem ela tinha uma ligação tão forte que por vezes deixara Harry com ciúmes.
- Foi o Fred, ele me disse que o senhor não gostava mais de mim e por isso que só nos visitava de vez em quando.
Harry fechou os olhos por um instante e assim como havia imaginado, ao abri-lo viu o negro olhar de Severus sobre o seu. Sabia que ele iria questionar depois.
- Lys Snape, quero que me escute com atenção. – Disse Snape segurando o rostinho da menina e limpando suas lagrimas que ainda caiam. – Primeiro pare de chorar. – A menina respirou fundo e engoliu o choro sentindo que aos poucos as lágrimas cessavam. – Isso, agora eu quero que você nunca duvide de que a amo, você é minha filha, meu bem mais precioso e se for necessário ficar dez anos longe para que você fique segura, então eu ficarei. Entendeu?
- Sim, papa, desculpa.
- Tudo bem, só não dê ouvidos ao que seus primos lhe dizem, lembre-se do que eu disse uma vez. "Só acredite nas palavras de seus pais..."
- "Todas as outras são dignas de dúvidas." – Completou a menina. – Eu me lembro.
- Que bom, então agora vamos jantar. – Lys sorriu novamente ao saber que seu pai jantaria com ela, imediatamente pegou sua mão puxando para a sala de jantar. Snape caminhou até lá, mas antes de entrar no local olhou para Harry com um de seus famosos olhares homicidas. – Me lembre de ir ao próximo almoço dos Weasley.
Harry nem falou nada, não adiantaria, Snape ainda era o mesmo homem teimoso. O jantar se deu maravilhosamente bem, a comida era ótima, as pessoas devidamente educadas, mas o mais gostoso para Snape foi ficar de mãos dadas com Harry na mesa enquanto Lys contava como fora sua vida durante todo esse tempo em que estivera longe. A menina tinha tanto para contar que ela ainda não tinha terminado quando foram para seus aposentos que fora devidamente decorado para parecer os aposentos das masmorras. Snape se sentou na poltrona e Lys, após escovar os dentes e colocar o pijama sentou em seu colo e terminou seus relatos. Quando terminou de falar a menina deitou sobre o peito de Snape descansando a cabeça em seu ombro. Com a outra mão segurou um punhado do cabelo negro de Snape e ficou mexendo até que o sono veio e junto com as caricias do pai em suas costas a levaram para um sono tranquilo. Harry estava no outro sofá apenas admirando-a, quando o sono profundo chegou Severus se levantou com ela em seus braços e se dirigiu ao quarto da menina. Harry afastou o lençol e ajudou Snape a deitá-la, Severus foi deixado sozinho com ela e ficou por um tempo apenas a observando até que deu um beijo em sua testa e foi para o quarto de Harry.
O quarto de Harry não era tão grande quanto o de Hogwarts, mas era simples e bonito. Harry estava na janela e quando o viu fechar a porta foi em sua direção lhe abraçando e dando um selinho.
- Alguma coisa te preocupa.
- Acabou Harry. — Disse Snape baixinho. — Não há mais busca.
- Você a encontrou?
- Não. Encontrei a comensal que cuidava dela. — Demorou alguns minutos para Snape terminar de relatar sobre toda a procura. — Ela foi embora.
- Então Lys precisa de mais proteção, você disse que essa menina é poderosa, Lys precisa ficar mais poderosa que ela.
- Ela não ficará. — Disse Snape surpreendendo Harry. — Não há como evitar, Harry.
- Você está desistindo dela?
- Não, nunca. Mas entenda, eu cheguei até o limite das minhas buscas e Lys, segundo a guardiã mestra, já aprendeu tudo que precisava. Lys ficará mais poderosa do que é agora, mas o desenvolvimento dela acontecerá com o tempo e com o amadurecimento. Ela é inocente e pura, para ficar como a guerreira é necessário romper a alma, é pura magia negra.
- Lys jamais aprenderá magia negra. — Disse Harry cruzando os braços. — E agora o que fazemos? Esperamos?
- O encontro das duas acontecerá independente do nosso querer. Pode ser hoje, amanhã ou daqui a muitos anos. Agora só podemos viver e deixa-la aprender com o que já tem. Os comensais foram finalmente exterminados. Está na hora de voltarmos a ser uma família. Quero meu marido e minha filha ao meu lado.
- Não sabe quantas vezes sonhei com isso.
Notas finais
E ai gostaram?
Falta só mais um pouquinho...
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