A Lenda

15 Antes do Natal


Capítulo 15 – Antes do Natal

Apesar de ter passado o dia sem se alimentar por estar ocupado demais para pensar em comer, naquele momento o que menos tinha era fome. Seu corpo estava tenso demais para sentir os incômodos de coisas tão banais e comuns. Sua mente o privava de pensar em qualquer outra coisa além do menino na ala hospitalar. Nem mesmo o andar duro e firme de Dumbledore à sua frente, indicando que o ancião estava nervoso, o incomodava.

Naquele momento tudo o que importava era Potter e seu estado deitado naquela cama fria e desconfortável da ala hospitalar.

Nem mesmo soube como chegou à gárgula de fênix, seus olhos não observaram o caminho, seus pés apenas seguiram andando no mesmo ritmo como se pudesse chegar ao fim do mundo. Não se lembrava de ter descido escada ou virado em corredores. Apenas caminhou sem parar até que teve que esperar a escada de mármore aparecer.

Devagar subiu atrás de Dumbledore e entrou no belíssimo escritório fechando a porta atrás de si. O diretor se adiantou e sentou-se em sua cadeira de shintz indicando com o olhar severo que deveria sentar-se na cadeira de sempre em frente a ele.

Snape não se negou, apenas arrumou a capa e se sentou cruzando as pernas e encarando os olhinhos azuis como o próprio oceano, porém mais profundo e misterioso do que as cavernas imersas nos confins dos mares.

A princípio ninguém falou. Snape permaneceu esperando que Dumbledore dissesse algo, mas o diretor parecia querer apenas observá-lo.

- Me chamou aqui para ficar me olhando? – Perguntou Snape azedo incomodado com o olhar duro que recebia.

- Não, mas às vezes observar é muito mais construtivo do que falar.

Snape apoiou o queixo na mão e permaneceu parado. Dumbledore mexeu-se um pouco e olhou para Fawkes que abriu as asas e soltou um grito agudo e acolhedor. O mestre de poções nunca entendia o que acontecia entre os dois, mas sabia que Fawkes de alguma forma lhe passava algo que somente ela poderia sentir ou saber. Foi dessa forma que Dumbledore o olhou de volta com um pouco mais de calor em suas íris.

- Diga-me, Severus, até quando vai negar a si mesmo o que sente por Harry?

- Não sinto nada além da obrigação para com ele. – Rebateu Snape sem demonstrar qualquer reação.

Dumbledore apenas sorriu e se levantou indo até a janela. Fawkes voou de seu poleiro até o ombro do ancião e apertou suas garras de leve no homem.

- Harry está doente, Severus, e é por culpa sua.

- Explique.

- Bem. – Começou Dumbledore soltando o ar e virando-se para o mestre de poções. – Harry é o descendente da princesa da vida. Ele é, em toda a sua existência, a personificação do amor e da bondade. Por mais que tenha seus defeitos e suas outras qualidades, o que mais predomina em sua existência é a vontade de amar.

- Como sempre o amor. – Ironizou Snape.

- Sim, como sempre o amor. Pois é isso que Harry é. Sua alma é pura e necessita de amor sincero para permanecer vivo. A carência que vimos é puramente natural nele.

- Então não deveria tê-lo obrigado a se casar comigo, pois isso é o que ele não conseguirá.

- Meu caro, ele já conseguiu.

Snape estreitou os olhos e os endureceu ao olhar para Dumbledore.

- Sabe por que te escolhi para se casar com ele e ser o pai da herdeira?

- Ainda me pergunto o que se passou por sua cabeça para tomar tal decisão insana.

Dumbledore voltou a se sentar ainda com a ave em seu ombro. Lançou um olhar intenso à Snape e depois sorriu.

- Eu o escolhi, pois você era o único que seria capaz de amá-lo a ponto de negar a si mesmo. Cada um tem um destino nesse mundo, já lhe disse isso milhares de vezes, e o seu está ligado a esse menino desde que conheceu Lilian. Ele é o único capaz de completar você, pois ele o aceita por completo. Harry tem tanto amor dentro de si que não é capaz de odiá-lo nem mesmo após ler as atrocidades que você fez. Eu sei. – Disse Dumbledore quando Snape abriu a boca ameaçando falar. – Sei que ele é explosivo e que muitas vezes o olha com total desprezo pelas coisas que descobriu, mas quase imediatamente o perdoa.

Snape fechou os olhos e encostou os dedos nas têmporas, estava odiando aquela conversa e não via a hora de descer para suas amadas masmorras onde poderia se esconder no escuro de seu quarto e esquecer tudo que estava ouvindo e mais ainda sentindo.

Seu cérebro negava as palavras que saiam da boca do velho, mas sua alma as acolhia e as abraçava como se fossem uma parte de si que perderam em algum lugar. Queria que o velho se calasse e o deixasse com seus pensamentos, mas Dumbledore seguia suas próprias regras.

— Da mesma forma que sua frieza o deixa mais apegado e mais forte. Harry não precisa de alguém que o deixe em uma redoma de vidro e sim de alguém que o desafie a ser melhor, que o faça pensar em seus atos.

- Antes que continue seu monologo, responda-me uma questão que ainda não consegui compreender.

- Sim.

- Para que a princesa da vida seja gerada, é necessário que seja em completo amor entre os pais. O que te garante que não nascerá uma menina completamente normal e sem poderes extraordinários?

Snape não ficou surpreso ao ver um sorriso brotar nos lábios velhos. Quando Dumbledore quer, consegue conversar sobre milhares de coisas sem parecer um velho sonhador e louco. Mas naquele momento ele estava realmente irritando-o com seus olhares, sorrisos e palavras sem sentido.

- Ainda preciso responder? – Perguntou Dumbledore sentindo Fawkes voltar ao seu poleiro e esconder a cabeça entre as asas vermelho alaranjadas. – Você é extremamente inteligente quando quer, Severus, mas completamente obtuso quando se trata de seus sentimentos. Sua negação é o que precisa para entender tudo o que precisa saber.

- Alvo, tenho mais coisas a fazer do que ficar ouvindo suas baboseiras.

- Não irei te prender por mais tempo, mas quero que a partir de agora trate Harry com mais tato e cuidado. Ele está frágil e precisa de você, do seu carinho e compreensão. Papoula disse que os hormônios deixam Harry mais e mais sensível e que qualquer coisa pode por em risco a gravidez. Além de ser essencial que você demonstre a ele que estará sempre ao seu lado.

- Mas eu não estarei. – Disse Snape perfurando os olhos de Dumbledore. – Não é, Alvo? Por que quer que eu me entregue se minhas horas com o menino estão contadas? Por que iludi-lo se no final ele estará sozinho e me odiando.

- Sei e entendo o seu medo em se entregar devido o que lhe pedi. Mas tudo dará certo no final. Acredite em mim, Severus. Você precisa se dar isso, não negue sua vontade. Prenda-se ao que é preciso agora, o depois você lidará depois. Aproveite enquanto ainda tem tempo. Cuide de Harry.

- Farei o possível. Com licença.

Snape não esperou que Dumbledore lhe sorrisse uma última vez antes de sair, apenas ergueu-se da cadeira e se dirigiu até a porta atravessando-a com rapidez. Os degraus pareceram muito pequenos para seus pés apressados. Queria fugir da realidade, esgueirar-se pelas sombras até o fundo de sua alma e lá se prender até conseguir sumir.

Isso. Queria sumir de tudo e todos. Apenas deitar e fechar os olhos, quem sabe assim poderia ser abençoado com o nada.

Mas o nada era verde e isso o irritava. Deveria odiar verde, sua alma amava o negro e o vazio. Deveria amar.

Não deveria?

A realidade o trazia de volta aos poucos. Era estranha e embaralhada.

Confusa.

Mas ainda assim forte, fazendo-o começar a sentir-se parte desse mundo novamente. Não queria. Onde estava era bem melhor. Lá só havia o nada e a sensação maravilhosa do vazio.

Aquela sensação de não sentir nada, não esperar que os sentimentos dolorosos fossem reconhecidos e aceitos. Não havia motivo para desejar a reciprocidade, pois não havia o que sentir.

Era um abismo negro onde se deixava cair e flutuar para sempre pelo negrume do ar. Era onde se deixava de existir.

Harry queria permanecer lá, mas a realidade, a cruel realidade não aceita ser contrariada, ela queria e desejava que ele permanecesse no presente. Harry não queria.

Assim, sentiu-se chateado quando suas pálpebras forçaram-se a abrir deixando a claridade preencher sua visão. Aos poucos sentia seu corpo reagir a pequenos impulsos como contrair os dedinhos do pé ou esticar as pernas desamarrando-se do inconsciente.

Seus olhos se abriram por um instante mínimo e visualizaram a imagem de Snape. Imediatamente se fecharam e Harry soltou um suspiro alto.

A imagem de Snape fizera arder dentro de si a dor da rejeição. Era cruel demais que sua mente o torturasse com ilusões do homem que fizera nascer dentro de seu peito o sentimento mais complexo que existia.

O amor.

Um amor idiota que não entendia como ou quando crescera, mas que agora não o permitia ser livre. Um amor que o aprisionou à imagem nítida do rosto pálido, magro e frio. Que o fez desejar as mãos grandes, finas e firmes. Que o deixou sonhar com os momentos de ternura com seu marido.

Marido, uma pessoa com quem teoricamente deveria poder compartilhar suas vitórias, conquistas, sentimentos, desejos e as tristezas. Mas que na verdade não conseguia arrancar de sua boca nada mais do que injurias e humilhações.

Como odiava o amor que o fazia se arrepiar embaixo do lençol por querer que ele realmente estivesse ali, preocupado com sua saúde, querendo saber como estava e quando iria poder voltar aos seus braços.

Loucura. Snape não perderia seu tempo consigo.

No entanto, ao abrir seus olhos novamente para deixar a tristeza escapar de seu corpo, ele ainda estava ali.

Snape permanecia sentado na mesma cadeira dura que vira antes, seu corpo não se movera um único centímetro, suas mãos estavam juntas embaixo do queixo enquanto seus olhos estavam fixos em si. Parecia uma estátua, permanecera imóvel durante os curtos minutos que Harry gastou apenas olhando-o. O homem parecia igual à sempre, não havia uma única ruga diferente. Mas havia algo mudado nele. Podia sentir isso enquanto o observava.

De repente ele percebera, eram os olhos. Os antes frios e vazios olhos negros, agora estavam repletos de sentimentos contraditórios brigando para tomar a frente. Era uma tempestade confusa e cruel. Franziu a testa tentando entender aquele olhar, mas era tão difícil.

O homem parecia lutar contra algo que não conseguia ver. Algumas vezes via a comum raiva e fúria, as vezes era somente vazio e pouquíssimas vezes aparentava ter um calor no fundo de suas íris, algo que podia queimá-lo vivo.

Harry levantou um pouco a cabeça e olhou-o. Snape parecia estar fechado completamente em seus pensamentos. Isolado do mundo atrás daquelas cortinas manchadas da ala hospitalar. Talvez ele nem tivesse percebido que Harry acordara.

- Severus? – Chamou Harry sentindo a garganta seca.

Ao som da voz de Harry, Snape piscou e voltou a apresentar um olhar firme e impossível de se ler, olhou para o menino e falou com calma pousando a mão nos joelhos.

- Como se sente?

Harry o olhou com surpresa, mas não comentou nada que estava em sua cabeça, achou melhor apenas responder a pergunta simples e comum.

- Bem.

O menino tossiu pela rouquidão e se ergueu em busca da jarra d’água, mas Snape levantou-se primeiro e pegou a jarra servindo um copo com a água refrescante. Para surpresa de Harry o professor se sentou ao seu lado na cama e o ajudou a se erguer para tomar a água que ele mesmo dera em sua boca.

Queria perguntar a ele o que acontecera, qual era o motivo de estar agindo daquela forma, mas achou melhor engolir a pergunta. Talvez ele se assustasse se fosse questionado sobre suas intenções. Snape parecia ser aquele tipo de pessoa que está tão acostumada a agir de uma forma que quando age de outra fica apreensivo pensando que poderia ser condenado por aquilo. Nesses casos era melhor tratá-lo como se isso fosse natural.

Jamais diria que estava agindo errado, Harry jamais o condenaria, não conseguiria fazer tal coisa independente do que ele fizesse, por mais que odiasse e sentisse repulsa. Snape era pai de sua filha e, mesmo que tentasse negar para si mesmo evitando assim se machucar, alguém muito importante em sua vida. Por isso permaneceu calado quando ele o ajudou a se deitar novamente e não saiu de seu lado na cama.

Por um momento ninguém disse nada. Mas logo Harry estendeu a mão e tocou a de Snape trazendo-a para mais perto onde poderia sentir seu gostoso e estranho calor gelado.

O professor não puxou a mão de volta.

Sorrindo um pouco Harry entrelaçou suas mãos e lhe olhou.

- Por que estou na ala hospitalar?

- Você passou mal no campo de quadribol. Trouxeram-no para cá.

Harry franziu a testa lembrando-se um pouco do ocorrido. Parecia ser a séculos atrás.

- Foi Gina quem me trouxe, não foi?

A mão de Snape deu um leve aperto nos dedos de Harry, mas logo relaxaram e se deixaram ser abraçados pela mão pequenina do menino.

- Sim.

A resposta fora seca e curta. Algo incomodava Snape, mas Harry estava cansado demais para entender, talvez se tivesse a capacidade de ler as entrelinhas dos olhos do mestre de poções, conseguisse compreender o que tanto o deixava inquieto e evitaria um complicado futuro. Mas naquele momento ele só piscou lentamente e se esquivou de qualquer análise do homem a frente.

- Quanto tempo faz que estou aqui?

- Dois dias. Era para ter saído ontem, mas Papoula achou melhor deixá-lo mais tempo de repouso.

- E como ela está?

Snape não precisou olhar para a mãozinha em cima do ventre liso para saber que Harry não falava da enfermeira. Demorou um pouco para que pudesse lhe falar sobre sua condição. Harry pensou ver uma ruga em sua têmpora enquanto o homem pensava no que poderia dizer.

O silêncio o incomodava, era uma pergunta tão simples. Estava bem ou não.

- Nossa filha está bem, não está, Severus?

Snape olhou para os olhos verdes assustados por um momento antes de lhe falar baixinho.

- Sim, está tudo bem. Foi só um mal estar.

- Que bom.

Harry se arrumou um pouco mais na cama sem soltar a mão de Snape. O professor continuou a olhá-lo intensamente e o menino viu a tempestade começar a se formar em seus negros olhos.

- Você está bem? – Perguntou Harry.

- Estou. – Respondeu Snape após alguns segundos em que a frieza voltou.

Harry sorriu de leve e olhou para o lado vendo um pequeno vasinho com flores e uma caixinha de chocolates colocados ali provavelmente por Rony e Hermione. Embaixo da caixa de chocolates havia um jornal dobrado. Devagar estendeu a mão e pegou-o tomando cuidado para não derrubar os chocolates no chão.

Snape franziu a testa quando Harry abriu o Profeta Diário na primeira página, mas não o impediu de ler a manchete do dia anterior. Nem ao menos pensou em interromper a leitura. Só ficou observando-o. Ele saberia de qualquer forma qual fora a vila atacada dessa vez, quantas crianças e inocentes foram torturados e mortos, muitos por sua própria mão enquanto era assistido por Belatriz ou outros Comensais esfomeados por morte.

Conforme os olhos do grifinório devoravam as letras da manchete, a mão quente que segurava a sua foi esfriando e soltando. Os olhos verdes traziam o brilho das lágrimas que se acumulavam e a indignação com o que liam.

No final da leitura Harry dobrou o jornal com cuidado devolvendo-o ao lugar onde estava antes. Reservou-se a ter alguns segundos em que tentava controlar a dor em seu peito.

- Você estava lá? – Perguntou olhando-o firmemente.

- Sim. – Respondeu Snape sem uma única sombra de arrependimento.

Harry balançou a cabeça e limpou os olhos com a manga do pijama.

- Tudo bem. – Disse por fim. – Eu estou cansado. Acho que vou dormir mais um pouco. — O menino se deitou de lado e fechou os olhos, mas não conseguiu impedir as lágrimas de saírem. – Você vai ficar aqui? – Perguntou com a voz fraca.

- Não.

Ele balançou a cabeça novamente e cerrou os lábios tentando impedir o soluço de sair enquanto sentia uma dor tamanha em sua alma.

Devagar Snape se levantou e se dirigiu até a porta. Cada passo tornava-se mais frio e pesado, chegava a ser incomodo. Ao estender a mão para a maçaneta e encostar os dedos no metal frio ouviu no fundo de sua mente a voz de Dumbledore reverberando como veneno, destruindo os alicerces de seu controle.

“Aproveite enquanto ainda tem tempo.”

Tempo.

Restava-lhe tão pouco.

Logo toda aquela segurança estaria ruída e desmoronada aos seus pés. Estaria em fim a mercê das mãos do Lord para ser usado ao seu bel prazer.

Na verdade naquele momento aquela futura situação não lhe dava calafrios, começava a ser bem vinda, visto que o ódio que receberia quando sua tarefa imposta por Dumbledore fosse finalmente cumprida, seria mais devastador do que qualquer castigo do senhor das trevas.

“Aproveite enquanto ainda tem tempo.”

Talvez devesse fazer isso, talvez devesse se deixar levar pelos seus desejos uma vez e sentir seu coração voltar a bater com força sem medo de ter que recuar.

Talvez devesse.

Harry encolheu-se em posição fetal tentando proteger-se do frio desconsolado da solidão sentida cruelmente. O rio cristalino que seu coração fizera jorrar em seus olhos ainda seguia com seu fluxo interminável rastejando pelo rosto tão sofrido que parecera envelhecer dez anos em apenas trinta minutos.

Estava convencido de que precisaria passar aquele momento sozinho e abandonado. Iria usar esse momento em que estava isolado para começar a erguer de novo as paredes que teimava em destruir liberando a entrada para sua alma. Tentaria ser forte por ele e por ela. Não iria mais fraquejar perante as palavras duras e atos impensados.

Não.

Iria resistir a todas as investidas de crueldade vindas dos lábios finos e doces.

Faria por ela.

Aos poucos foi se acalmando enquanto pensava como seria seu futuro. As vezes via um sorriso brincalhão em um rosto infantil. Aquilo lhe trazia um calor gostoso. Mas esse calor fora, de repente, substituído por dedos gelados que lhe apertavam a palma com força.

Harry abriu os olhos e viu Snape parado ao seu lado na cama segurando sua mão com força e o olhando com aquela tempestade presente em seus olhos. Ele parecia desolado como se tivesse acabado de voltar de uma exaustiva guerra onde acabara perdendo a batalha.

Era mais um daqueles momentos em que somente Harry via a luta que ele travava entre si mesmo tentando se libertar das amarras das obrigações e tentando se prender cada vez mais forte para que não corresse o risco de se machucar com as expectativas da liberdade.

Enquanto estivesse preso e amarrado em seu controle e conhecimento do caminho a ser andado, não tropeçaria. Mas a partir do momento em que a corda se soltasse, possibilitando seus movimentos livres, o desconhecido se faria presente e ele era temeroso, pois não se sabe até onde pode ir sem se ferir.

Snape estava odiando estar se soltando das amarras. Mas seu tempo estava se esgotando. Logo aqueles olhos verdes não mais brilhariam de luxuria e compreensão. Eles se fechariam para si e nunca mais se abririam com a ternura que recebia naquele momento.

Harry sentia o peso da vulnerabilidade de Snape naquele momento. Ele podia ser um desgraçado que o humilhava e o tratava como um verme, mas era também apenas uma criança indefesa que não sabia lidar com nada que viesse espontaneamente como a vontade de se deitar junto com alguém e abraçá-la esperando o carinho que o levaria para o sono quente, confortável e seguro.

Harry poderia ser um menino que carregava o peso do mundo nas costas, mas Snape era o homem que carregava a dor da solidão e abuso. Ele era merecedor de pena.

Com calma, como sempre faz quando o encontra pisando na linha de dúvida, puxou-o para si e foi um pouco para o lado fazendo-o se deitar na beirada da estreita maca. Com carinho acariciou o rosto magro. Snape estremeceu com o toque, jamais se acostumara com esses atos de afeto. Mas Harry jamais desistiria, ele iria mostrar que o homem era merecedor de preocupação e carinho.

- Eu vou cuidar de você. – Disse Harry encostando a testa na testa dele.

- Por quê? – Perguntou Snape postando a mão na cintura do menino.

- Porque sou seu esposo e eu...

- O que? – Questionou Snape olhando-o com um fio mínimo de expectativa atrás do medo e da tristeza.

Harry não lhe respondeu, apenas trouxe seu rosto para mais perto e o beijou.

Aquele não era o momento certo para dizer algo assim, era melhor apenas demonstrar, um dia o mestre de poções acabaria descobrindo, por conta própria. Harry só não sabia que não poderia esperar muito.

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- Harry, você prometeu ao professor que não iria fazer mais nada em relação à Malfoy.

- Eu sei, Hermione. Mas não é fácil ver que ele está mais uma vez no andar da sala precisa e não fazer nada porque Severus me proibiu.

- Mas se você disse que ele o proibiu de correr atrás do Malfoy porque está tomando conta de tudo, então acho que não precisa se preocupar com isso. – Comentou Rony arrumando a mochila nas costas enquanto rumavam para a aula de DCAT.

- Isso é muito irritante. – Comentou Harry por fim antes de entrarem na sala.

Quando Snape entrou na sala Harry sentiu um frio na barriga que nada tinha haver com o olhar homicida que o professor jogava gratuitamente para seus alunos grifinórios e sim com o fato de que nesses dias Snape quase não o deixara dormir por tomá-lo horas a fio e beijá-lo como se fosse o fim do mundo.

Claro que não reclamava por isso. Estava gostando e muito daquilo. Podia sentir o desespero do homem em tê-lo em seus braços e mãos enquanto seus lábios o devoravam e o marcavam como dele, só queria entender o que o fizera agir daquela forma. No fundo tinha medo pelo que via nos olhos negros, mas sempre achou melhor esquecer aquilo, era só impressão sua.

Porém a dúvida imperava em sua mente, ninguém muda simplesmente de um dia para o outro. Quem sabe um dia ele descobriria. Mas naquele momento só queria tentar prestar atenção na aula.

Por sorte Snape passou um feitiço relativamente fácil e o colocou para treinar com Neville. O menino era muito mau e ficava mais nervoso ainda tendo o professor caminhando pela sala e aparecendo rasteiramente perto dos alunos que lançavam os feitiços. Mas no fim da aula Neville recebia suas palmas por conseguir executar o feitiço corretamente duas vezes, as únicas duas em que precisou se defender.

No final os alunos escreveram o que precisariam fazer de dever e se arrumaram para sair o mais rápido que pudessem.

- Você fica, Potter.

Harry hesitou e devolveu a mochila para a mesa pedindo que seus amigos não o esperassem. Hermione e Rony acenaram e disseram que o esperariam na sala comunal. Assim que a porta se fechou Harry viu o brilho dos feitiços de tranca e silenciador. Snape estava sentado em sua cadeira atrás da grande mesa velha.

O menino se aproximou aos poucos e esperou que o homem finalizasse a correção de um teste que estava a sua frente. Quando a nota T foi posta no canto superior do pergaminho, Snape descansou a pena e retirou um frasco de poção de uma gaveta que colocou na frente de Harry.

- O que é isso? – Perguntou o menino.

- É a poção que você começará a tomar para disfarçar a barriga enquanto estiver nos períodos de aula. Pelo que Papoula me disse, sua barriga deve começar a crescer um pouco depois do ano novo.

- Mas eu só terei dois meses. – Comentou Harry antes de ver o olhar intenso de Snape. – Já sei, gravidez bruxa é diferente de gravidez humana. Mas afinal, quanto tempo de gestação eu terei?

- Nove meses. Nascerá provavelmente no final de julho.

- Então acho que até lá teremos bastante tempo para aproveitarmos juntos, não é. – Disse Harry se aproximando e tirando a capa de seu uniforme antes de abrir os botões de sua camisa. – Sabe, as vezes eu gosto dessas coisas de hormônios, me deixam louco por você.

Snape não teve tempo de responder, Harry sentou-se em seu colo e lhe beijou os lábios com vontade mordendo-lhe o lábio inferior e chupando sua língua. As mãos pequeninas desabotoavam seu sobretudo enquanto o quadril provocador mexia-se em suas pernas.

- Potter, tenho que dar aulas. – Disse Snape entre os lábios de Harry.

- Você tem um tempo livre que eu sei. – Respondeu o menino mordendo seu queixo e lambendo o caminho até seu lóbulo. – Por que você me chama de Potter?

- Não irei te chamar de Snape.

- Me chama de Harry, seria delicioso ouvir meu nome saindo de seus lábios. – Sussurrou no ouvido do mais velho.

- Não farei isso. Agora pare.

Harry sentiu-se ser afastado pelas mãos de ferro de Snape e saiu de seu colo vendo-o ajeitar o sobretudo.

- Tenho que terminar de corrigir os trabalhos. Não posso ser interrompido.

- Está bem. – Respondeu Harry abotoando a camisa novamente. – Vou deixá-lo sozinho.

Snape suspirou ao ouvir a voz fraca e quebrada do menino. Harry estava novamente prestes a chorar. Os hormônios o atacavam com violência deixando-o tão sensível e frágil quanto a gota do sereno que se pendura na ponta de uma rosa.

Harry se afastou e pegou sua mochila em cima da mesa antes de se dirigir para a saída, mas a porta permanecia fechada. O menino tentou abri-la duas vezes, mas desistiu e apenas baixou a cabeça sentindo-se cansado.

- Deixe-me sair, não quero te incomodar.

Logo que acabou de dizer isso sentiu a mão de Snape o puxar fazendo-o se virar de frente para ele. O homem estava sério, mas tinha um toque de compreensão.

- Eu não o estou negando. Só não posso lidar com você agora. Nos veremos a noite.

- Tenho a festa do professor Slughorn.

Snape franziu o nariz. Era de conhecimento de todos que ele odiava esse tipo de confraternização.

- Então nos veremos depois da festa.

- Está bem. – Disse Harry antes de abrir a porta, já sem feitiço, e caminhar para a sala comunal onde se reuniria com os amigos.

À noite, Harry terminou de arrumar sua veste de gala e saiu de seu quarto sem ver Snape. Deveria estar em seu laboratório, ou então em seu quarto. De um jeito ou de outro só o veria quando voltasse, sendo assim foi em direção à torre da Corvinal onde encontraria Luna. A menina estava com um vestido prata que seria muito bonito se não estivesse com bolas de natal enfeitando sua barra.

- Olá Harry. – Cumprimentou Luna sorridente.

- Boa Noite, Luna. Vamos?

- Claro.

Enquanto caminhava, Luna falava sobre banalidades estranhas de seu mundo fantasioso. Harry a ouvia com atenção, apesar de não puxar assunto para que ele não rendesse. Gostava de ficar um tempo com Luna, ela não o julgava por seus comportamentos estranhos devido seus hormônios e talvez fosse a única pessoa que não o julgaria se soubesse a verdade. Mas apesar de gostar muito da corvinal, não podia contar à ela sobre seu atual estado. Casado e grávido do mestre de poções da escola.

Harry até mesmo sorriu um pouco mais ao perceber que aquela situação era engraçada. Com esse mesmo sorriso se apresentou na festa onde fora bajulado e mostrado pelo professor Slughorn aos seus amigos. Dançou um pouco com seu par até que ela se embrenhou em uma conversa interessante com a professora Trelawney, uma conversa que realmente não queria participar. Então, foi em busca de ajudar Hermione com seu par irritante e pegajoso. Não via a hora dela e Rony se ajeitarem e pararem de fingir que não se amavam.

Mas de toda a festa o que mais lhe chamou a atenção fora a figura de negro que estava parada em um canto da sala apenas observando os visitantes sorrirem uns para os outros. Harry riu com a cara de entediado que Snape fazia, só não entendia o motivo dele estar ali.

Não demorou muito para descobrir quando os olhos negros fixaram-se em uma figura que entrava sendo arrastada pelo zelador. Malfoy novamente. Por mais que tentasse ficar longe do loiro ele sempre aparecia lhe causando dúvidas em mente.

Tentando não ser visto saiu da festa e se escondeu ouvindo a conversa entre Snape e Malfoy. Quando o loiro passou por si e foi para as masmorras enquanto Snape voltava para a festa, Harry achou melhor sair daquele lugar. Daria desculpas à Luna no dia seguinte.

Ao chegar aos seus aposentos retirou a capa e sentou-se na poltrona de Snape olhando as labaredas da lareira. Demorou um pouco para que Snape voltasse. Quando o mestre de poções entrou na sala parou no batente da porta vendo Harry sentado displicentemente em sua poltrona. Seus olhos observaram o corpo tenso e descaradamente provocativo com as pernas abertas e camisa fora da calça apertada.

Uma tentação para um dia estressante.

- Onde esteve?

- Voltei mais cedo da festa.

- Por quê?

- Nenhum motivo. – Disse Harry dando de ombros. – Tive vontade de voltar.

- Eu fui lhe procurar. – Disse Snape sentando no sofá ao lado.

- Você foi me procurar? Tem certeza?

Snape não respondeu, apenas observou o menino respirar fundo e voltar seu olhar para a lareira.

- Tenho um recado a lhe dar. O diretor estará viajando durante esse feriado e não poderá se encontrar com você até a volta.

- Tudo bem.

Harry fechou os olhos e encostou a cabeça na poltrona abrindo os primeiros botões de sua camisa. Queria apenas dormir, estava cansado demais.

- Amanhã será a visita a Hogsmead e no domingo os alunos irão para casa passar o feriado.

- Eu sei.

- Me avise se for para a casa dos Weasley.

Harry se levantou e se aproximou do homem. Estava bravo pelo que havia escutado entre ele e Malfoy. Mas não podia imaginar-se indo para a Toca e deixando-o sozinho durante todo o feriado.

- Você é minha família, Severus. – Disse passando a mão no rosto do mais velho e se abaixando até estar a centímetros de sua boca. – Não vou deixá-lo aqui sozinho. Esse Natal você vai passar comigo. – Finalizou selando seus lábios aos dele.