A Lenda
39 A proximidade da morte
Notas iniciais
Capítulo 39 – A proximidade da morte
Já fazia horas que estava sentado naquele chão duro, suas pernas e quadris adormeceram causando-lhe incomodo e dor. Mas nada daquilo importava, não era nada comparado com o que sentia olhando para aquela lápide e para as palavras tolamente escritas com letras garranchadas de uma pessoa em completo luto e destruição. Suspirou erguendo os dedos e tocando o pequeno monte de terra sentindo-a fria em contraste com o restante do terreno. A natureza também sofria sua perda. Visitara aquele pequeno montinho todos os dias desde que ele mesmo cavara a sepultura, não porque queria preservar memórias dele, essas já estavam muito bem guardadas e se resumiam a sorrisos e olhares gigantes, mas porque se odiava por não poder levá-lo consigo.
Sem perceber agarrou uma pedra no chão e a apertou com força sentindo sua pele ceder sob a pressão e o sangue começar a escorrer pela palma. Ah, como queria conseguir sobrepor aquela dor por outra, fazê-la diminuir a ponto de ser esquecida, mas nada funcionaria. Sabia disso. Não haveria dor física suficientemente grande que o fizesse esquecer. Poderia cortar cada pedaço de pele, quebrar cada osso e rasgar cada órgão que a dor permaneceria pulsando e vivendo dentro dele. Apertou ainda mais a pedra até abrir os dedos e deixá-la rolar para o chão. Levou sua mão até a terra fria e deixou o sangue cair em gotas que foram absorvidas pela terra que a aceitava como uma bem vinda oferenda.
- Eu prometo, eu juro. — Disse entre dentes, a raiva saindo rouca em sua voz. — Eu vou vingar você, Dobby.
Não houve uma resposta, nenhuma vozinha esganiçada lhe dizendo que era o melhor. “Não, Dobby, eu não sou o melhor” pensou Harry bufando pelas manchetes, histórias e até mesmo situações em livros sobre ele e que em nenhum lugar, além daquela lápide, haveria o nominho dele. Como poderia acontecer algo assim? Dobby sempre fora melhor do que ele em tudo. Arriscou-se avisando-o da câmara secreta no segundo ano, o ajudou com guelricho no campeonato tribruxo e salvou a todos de um castigo pior quando Umbridge descobriu a sala precisa e a A.D. Não faltava sorrisos em seu rostinho estranho e nem brilho em seus grandes olhos verdes iguais os de Harry que ele tanto venerava.
Agora estava morto, jazia embaixo daqueles palmos de terra. Não havia mais sorrisos gigantes ou tentativas homicidas de lhe manter a salvo. Não restava mais nada. Se fora como tantos outros.
- Por quê? — Perguntou baixinho para si mesmo como se conseguisse saber a resposta, ele não sabia.
- Porque ele te amava.
Harry não precisou desviar os olhos da lápide para saber que era Luna a dona daquela voz.
- Você não deveria ter ido embora? — Perguntou percebendo tarde demais que fora muito rude. — Desculpe.
- Não tem problema. — Disse Luna se sentando ao seu lado. — Eu vou para a casa da Tia Muriel daqui a pouco. Eu só queria me despedir de você e de Dobby.
Harry apenas observou a menina se aproximar da sepultura e fechar os olhos rezando baixinho uma prece que ele não conhecia. Era uma língua estranha e sem ritmo algum, provavelmente algo que aprendera com algum ser mítico e incomum que só apareciam aos olhos dos Lovegood. Era típico de Luna e tinha certeza que Dobby teria amado e que deixaria suas orelhas em pé de tanta alegria.
- Chega dá vontade de ter guardado um dos balões que ele fez com meu nome na época da A.D.
- Eu guardei um. — Disse Luna fazendo os olhos de Harry se arregalarem. — Está nas minhas coisas em casa. Eu te mando assim que der.
- Obrigado. — Disse Harry sem coragem de contar sobre a explosão da casa dos Lovegood, mesmo desconfiando que Luna já sabia.
Alguns minutos se passaram com os dois apenas olhando para a frase do elfo livre.
- Eu sei que vocês vão fazer algo junto com o duende. — Harry ergueu as sobrancelhas. — Não se preocupe, mesmo se eu soubesse o que era não o impediria.
- Por que não? Todos iriam querer me trancar em um quarto no alto de uma torre.
- Meu pai sempre me disse que não há força no mundo que segure um homem determinado.
- Eu acho a mesma coisa. — Disse Hermione vindo em sua direção e sentando do outro lado de Harry.
- A não ser a morte. — Disse Harry olhando para o céu da tarde.
- Acho que nem mesmo a morte impediria alguém como você, Harry. — Disse Luna se levantando e limpando a sujeira de sua calça. — Não impediu seus pais.
Sem dizer mais nada a menina acenou com a mão e desceu a encosta diretamente para o Chalé das Conchas deixando Harry atônico e Hermione com um sorriso leve nos lábios.
- Por que está sorrindo? — Perguntou Harry após alguns segundos encarando a amiga.
- Porque, por mais maluca que ela seja, Luna não tem noção da verdade que disse.
Os olhos de Hermione prenderam-se nos de Harry e por um momento ela desejou que ele fosse capaz de saber Oclumência para ter o conhecimento da verdade. Era difícil ser a única com aquele peso que Snape jogou sobre seus ombros. Assim que sairam da mansão Malfoy e se viram no Chalé das Conchas não havia nada na cabeça de Hermione a não ser o cansaço e o desgaste, além do luto por Dobby. Deixou que Rony a levasse para o chalé e que Fleur a ajudasse a tomar banho. Sua mente estava tão pesada pelos cruciatus e pelas torturas que sofrera nas mãos de Belatriz que na hora que o sono a levou, tudo que mais queria era se entregar e não acordar nunca mais.
Porém as imagens que apareceram em seu sonho só a fizeram ter mais certeza de que não poderia abandonar Harry, afinal os seus sacrifícios em nada se comparavam com o de Severus Snape. Hermione acarinhou os cabelos rebeldes do amigo e encostou sua cabeça no ombro dele deixando-se ser abraçada por seus braços.
“Ah, Harry, se você soubesse o quanto ele o ama.”
Amor, uma palavra que definitivamente não combinava com o estereotipo de Snape, mas que traduzia o seu ser em tal completude que não haveria no mundo um dicionário capaz de contradizê-lo. Uma lágrima singela escapou dos olhos de Hermione quando viu novamente aquilo tudo que ele depositou em sua mente. Os olhares, os toques, os sentimentos, a entrega e mais ainda a devoção que o homem tinha com Harry. Lembrou-se da mensagem que ele disse nitidamente mesmo que seus lábios não tenham se movimentado.
“Após ele terminar o último que está procurando, deverá matar Nagini e depois ele mesmo precisará se entregar a morte. Somente assim terá a vitória. Caso algo aconteça comigo conte à ele o que eu lhe mostrei. Deixe-o saber a verdade. Entrego nas suas mãos e sabedoria o bem mais precioso que tenho, cuide dele e de minha filha.”
Ela cuidaria, mesmo que fosse a última coisa que precisasse fazer, ela cuidaria. Fungando levantou o rosto e olhou mais uma vez para Harry sentindo o peito comprimir com a dor do saber. Snape o amava mais do que a própria vida. Ah, como deseja que o menino pudesse saber sobre Snape. Tudo o que desejava era que eles pudessem ser um do outro novamente.
- Ei. — Chamou a voz de Rony ao longe. — Vamos entrar, temos muito que conversar sobre amanhã.
Hermione sorriu e se levantou estendendo a mão para que o amigo pudesse se erguer. Ambos deram uma última olhada na lápide de Dobby e silenciosamente se despediram. Enquanto caminhavam em direção a Rony na frente do chalé, Hermione fez um juramento que dentro de si tinha mais força do que o Voto Perpétuo.
- Farei o possível para que tudo volte a ser como antes, Harry. Vou devolver a felicidade para você. Eu juro.
Harry sorriu e Hermione agarrou-se mais forte ao seu braço torcendo para que a força de seu juramento tivesse chego até o castelo de Hogwarts onde Snape estava naquele momento.
Faltavam apenas algumas horas para que o dia amanhecesse e os três fossem para Gringotes em uma missão completamente suicida que tinha pouquíssimas possibilidades de dar certo, mas que era essencial. Hermione estava devidamente adormecida e Rony roncava alto, estava ciente de que Grampo estava acordado e atento a espada de Griffindor apenas esperando para ver se alguém iria roubá-la dele. Mas sinceramente nada daquilo importava para Harry. Sua mente vagava por cenas cruéis de quando estavam na casa dos Malfoy. Lembrou-se da dor e medo, não por si, mas pelos outros, por Rony e Hermione, Luna e Dino, até mesmo por Grampo e o coitado do senhor Olivaras. Poderia acontecer tudo naquele lugar, no entanto, ele estava vivo, todos estavam vivos devido a ajuda de alguém que levara Dobby até ali para resgatá-lo.
- Ah, Dobby. — Suspirou escondendo o rosto no travesseiro.
A imagem de Dobby dançou em seus olhos, o elfo estava com seus milhares de gorros na cabeça e os olhos verdes arregalados demonstrando nada mais do que devoção. Ele se aproximou aos poucos sorrindo, mas sua imagem estava diferente, ela mudou conforme os passos. De pequeno tornou-se grande, de estreito virou largo e elfo tornou-se homem. Ele se aproximou e Harry se viu diante de Snape, mas desta vez não era uma sonho, era uma lembrança, uma vivida lembrança em que ele olhava em seus olhos e lhe dizia aquelas palavras tão belas.
“Eu te amo”
Harry se sobressaltou e agarrou o cobertor com força percebendo que acabara dormindo. No fim então foi apenas um sonho, um estranho sonho vivido, mas apenas um sonho. Desistindo acabou levantando, se arrumando antes dos outros e os aguardando tentando não se lembrar de Severus e muito menos do sentimento cada vez mais de necessidade que crescia em seu peito. Por algum motivo sabia que havia algo errado em toda a história, não somente de Severus, mas de tudo. Rony se levantou algumas horas depois impedindo que Harry continuasse os pensamentos. Não havia mais espaço para pensar em Severus, pois Gringotes os esperava para ser invadido.
SSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS
Seus dedos tremeram e apertaram-se com força na superfície dura do chão tendo certeza de que continuava onde esteve aquela manhã toda. Sentia a frieza do chão de pedra do escritório do diretor e inclusive conseguia ouvir os gritos dos quadros na parede desesperados, mas ao mesmo tempo em que estava ali via-se também em outro lugar. Balançou a cabeça tentando reorganizar seus pensamentos. As imagens que passavam diante de seus olhos não pareciam ser falsas, a textura dos objetos, móveis e pessoas, assim como o cheiro e a própria presença eram quase palpáveis. Aquilo era real. De alguma forma se via diante dos Malfoy e Belatriz, não como uma lembrança, era mais como se fizesse parte daquele quadro sem que estivesse lá.
Era tudo tão confuso e a gritaria dos quadros não o ajudava em nada, ele queria que todos silenciassem para que conseguisse entender o que estava falando. Mas porque ele estava falando quando não queria dizer nada? Com esforço forçou-se a calar as vozes gritantes e pode então ouvir sua própria voz. Só que não era sua voz, era a de Voldemort. Assim como aquele corpo que não era o seu.
- Milorde?
A voz que o chamou era baixa, rouca e completamente submissa. Olhou em direção a ela e viu Belatriz o olhando com medo e preocupação.
- O senhor está bem, milorde?
Não houve resposta, nenhuma palavra saiu de sua boca, apenas continuou a olhar para a mulher, confuso. Por que ela o olhava assim? E por que Voldemort não respondia? Uma pequena dor em sua mão esquerda o fez olhá-la apenas para perceber que em sua fúria para saber o que acontecia acabou cravando a unha na própria carne provocando o sangramento que manchava a pele translúcida.
- Milorde, o senhor está sangrando. – Disse Belatriz se aproximando com a intensão de lhe ajudar.
- Não encoste em mim.
Seus olhos arregalaram quando seus pensamentos foram ditos em voz alta. Seus pensamentos e não os do Lord. Respirando fundo forçou seu corpo para frente, apenas um passo, um único passo. E para sua completa surpresa o pé de Voldemort moveu-se para frente. Snape ofegou com a surpresa e se dirigiu ao espelho ao lado de uma mesa com um vaso e olhou seu reflexo. Quem retornou seu olhar intrigado fora Voldemort com suas íris verticais e vermelhas e fendas no lugar do nariz. Não havia mais cabelo e nem suas roupas tradicionais. Em uma última tentativa de provar que estava errado levou a mão até a superfície do espelho e a tocou com a unha descendo-a com força e vendo a linha vertical que ficava no caminho como a cicatriz que passava por suas costas.
Foi então que entendeu, ele não estava compartilhando uma memória com o Lord e nem apenas assistindo pelos bastidores o que ele fazia. Não estava dividindo a mente como Harry, estava dominando a mente e o corpo de seu mestre de uma forma que o feitiço Imperius jamais seria capaz. Demorou alguns minutos para entender a conclusão a qual acabara de chegar e pareceu que Voldemort também demorara o mesmo tempo, pois assim que fechou os olhos e respirou fundo sentiu uma dor intensa na cabeça que o fez apertar os dedos sentindo hora na superfície da mesa, hora no chão de pedra. Assim que abriu os olhos encontrou-se diante do reflexo de Voldemort, mas dessa vez era ele quem dominava aquele olhar.
- Seja lá quem for. — Disse Voldemort entre os dentes cerrados. — Saia de mim.
A força que Voldemort usou foi tão intensa que o levou ao chão fazendo Snape sentir o joelho batendo com força antes de abrir os olhos e se deparar com o tão conhecido escritório. Com esforço se virou de bruços e forçou seus braços a erguê-lo, mas estavam tão trêmulos que o derrubaram arranhando seu queixo. Os quadros gritavam e não era possível entender o que diziam.
- Calem a boca. — Gritou finalmente silenciando todos eles. — Dobby! — Chamou esperando que o elfo aparecesse ao seu lado e o ajudasse a se levantar, mas o elfo não apareceu. — Dobby! — Chamou novamente sabendo que só havia uma razão para o elfo não se apresentar. — Droga. Graty! — Instantaneamente um elfo da escola apareceu ao seu lado.
- Chamou, senhor diretor? — Perguntou o elfo fazendo uma reverencia.
- Claro que chamei, elfo idiota. Ajude-me a levantar e sentar na cadeira, estou sem varinha.
- Sim, senhor diretor.
O elfo estralou o dedo e Snape sentiu o corpo levantar e flutuar até a cadeira onde o elfo o ajudou a se sentar direito. Conforme pediu Graty pegou sua varinha e a entregou antes de ser dispensado. Snape rasgou a calça na altura do joelho e o viu inchado e machucado, no mesmo instante olhou para a palma de sua mão e o corte estava ali, o sangue estava seco, mas o corte estava ali. Então não fora um sonho ou algum delírio, por algum motivo conseguia dominar o corpo e a mente do mestre, porém de alguma forma tudo que acontecia ao corpo do Lord acontecia ao seu também. Após curar o joelho e fechar o ferimento da mão com um feitiço olhou para o quadro de Dumbledore e o encontrou observando-o curioso. Sabia que ele estava ávido por informações.
- Acho que temos um problema, Alvo.
Durante vários minutos e enquanto arrumava alguns papéis que havia derrubado na queda, Snape contou que sentiu a marca arder e a raiva do Lord era tão grande que desejou poder dominá-lo para fazê-lo parar com a dor, foi quando se viu na sala de estar da mansão dos Malfoy em meio ao discurso sobre a fuga de Harry no Gringotes.
- Eu sabia que Harry gostava de dragões, mas não sabia que era tanto assim.
- Acho que o desagradável gosto de Potter por bichos de estimação seja descartável perante o que lhe contei. Ou será que a morte afetou sua capacidade de ouvir e entender?
- Não seja tão ranzinza, Severus. Eu apenas comentei algo interessante antes de conversarmos sobre o que aconteceu.
- E?
- E tenho uma teoria.
- Isso eu já sei, Alvo. Você sempre tem uma teoria. Diga logo o que sua brilhante mente achou disso antes que eu me canse de seu papo furado.
- Acho que isso tem haver com Alexandra. — Disse Alvo fazendo Snape franzir a testa intrigado, seu corpo ainda doía. — Acredito que ela tenha lhe dado esse poder e que tenha conseguido dominar justamente a mente de Voldemort com facilidade por ela uma vez estar ligada a ele, enquanto acasalavam.
- Deixando de lado a vida sexual do Lord. — Disse Snape andando de um lado para o outro. — Se Alexandra tinha tal poder para dominá-lo, então por que não fez isso? Por que se submeteu a ficar presa em um lugar tão deplorável como aquele prédio e se deitar com ele a fim de gerar uma filha?
- Não podemos esquecer que ela estava presa e que ele a ludibriou com promessas de liberdade e poder. Acredito que se ela resolvesse dominá-lo não conseguiria nem uma coisa nem outra. Provavelmente esperou que Voldemort desse o que prometeu, mas só percebeu que sua ilusão havia ido longe demais quando você jogou a verdade nela e mostrou que nada do que ela fizesse, nenhum tempo que ela esperasse seria suficiente. Ele jamais cumpriria com sua palavra. Desiludida e sabendo que não teria nenhuma chance de liberdade e sim de morte resolveu então fazer o que poderia para garantir que sua vingança fosse feita. Deu a você os poderes que ela tinha, transferiu para você o desejo de se ver vingada.
Dumbledore sorriu como se tivesse ganhado na loteria e nada mais importasse. Seu pupilo tinha nas mãos um poder único que já se provou ser verdadeiro. Porém ele não se atentou aos pontos a qual Snape se prendeu. Seu joelho e mão, por mais que já estivessem sarados, ainda traziam o formigamento dos ferimentos recém-feitos. Se machucasse a mão de Voldemort, machucaria a sua também, se caísse seu corpo também doeria. Mas e se morresse? Não gostava nem de pensar nisso.
Os próximos minutos passaram-se em silêncio enquanto pensava no que tinha acontecido e tentava planejar em sua mente o que faria com isso. Sabia alguns passos do Lord, principalmente o colar, e sabia o que poderia fazer. Agora era somente pensar como colocaria aquilo em prática. Bebeu um copo de FireWhisky e o bateu com força sobre a superfície plana da mesa quando uma labareda verde apareceu no ar deixando cair um pergaminho chamuscado na mesa diante de Snape. O mestre de poções pegou o pergaminho nos dedos e o analisou com cuidado.
- O que foi? — Perguntou Dumbledore.
- O Lord tem que sair para verificar algumas coisas. Informa que talvez Harry Potter apareça na escola hoje e que estou encarregado de segurá-lo e o chamar imediatamente se isso acontecer.
- E o que acha disso?
- Que Potter é inconsequente o suficiente para fazer exatamente o que o Lord diz.
O pergaminho foi amassado e jogado em cima da mesa, Snape se levantou e foi em direção a janela. O dia estava lindo, a luz do sol resplandecia sobre o gramado verde e a água do lago negro. Seus olhos negros brilharam com aquela imensidão tão perfeita ao mesmo tempo em que um arrepio cruel passava em sua nuca. Com dificuldade afastou o olhar da bela paisagem e olhou para o escritório. A mesa do diretor estava no mesmo lugar de sempre com suas tranqueiras em cima compartilhando espaço com os pergaminhos que Snape sempre tinha que analisar e assinar. Atrás dela descansava a cadeira de Dumbledore e na frente sua própria cadeira onde se sentava por horas e ficava ali pensando, conversando ou simplesmente respirando.
- O que foi, meu filho. — Perguntou Dumbledore preocupado.
Snape não lhe respondeu, nem mesmo trocou olhares com ele, apenas continuou a contemplar aquele lugar. Um santuário onde se conservava as maiores e mais profundas confissões de seu âmago. O local onde, com dificuldade, se deixou ser segurado pela mão forte que o tirou da lama e o introduziu ao mundo. Caminhou devagar até a mesa com o sistema solar flutuando e tocou com a varinha um dos pequenos planetas. Não podia negar que era maravilhoso vê-los voarem pelo ar em círculos como se ele mesmo fosse o próprio sol.
Sentiu-se uma criança excitada com um novo brinquedo e logo se repreendeu por isso. Ele não tinha tempo para sentir-se criança ou agir como uma ou amar como uma. Não havia espaço para isso, muito menos agora que Harry estava vindo para Hogwarts. O arrepio o assolou novamente como se não estivesse sozinho e realmente não estava, sabia disso, sentia em cada poro de seu corpo, em cada pelo arrepiado e respiração gelada. Sabia que havia alguma coisa ao seu lado apenas espreitando, o analisando, observando cada passo prestes a estender a mão e o aguardar.
Snape se virou e ergueu os olhos para Dumbledore. O velho mago pôs a mão no coração como se conseguisse sentir dor mesmo sendo uma pintura. Seus olhos azuis transmitiram tanta doçura e amor que chegava a ser piegas, mas Snape aceitou de bom grado guardando aquele olhar em seu baú de segredos. O silencio perdurou mais alguns minutos enquanto apenas se encaravam, não era preciso dizer nada, tudo estava explicito no ar.
Aquilo era um adeus.
Não um adeus como quando teve que matar Dumbledore, não como quando teve que sair de Hogwarts, aquele era o adeus definitivo. Depois disso não haveria volta, não haveria Dumbledore ou Hogwarts para acalentá-lo. Não teria Harry e nem sua filha. Não haveria nada. Uma lágrima escorreu dos olhos de Dumbledore e correu por seu rosto escondendo-se em sua longa e vasta barba branca quando finalmente leu ali a cruel realidade do que ele faria, do ponto crucial em que Snape chegaria. Inconscientemente Snape se aproximou e ergueu o braço tocando a tela áspera como se conseguisse assim tocá-lo de fato. Dumbledore esticou a mão e a deixou tocar os dedos frios de Snape, não se podia sentir nada, era apenas uma tela, nada mais do que isso. Dumbledore não estava ali de verdade. Mas ainda assim o mestre de poções fechou os olhos com força entregando-se ao peso que carregava a mais de um ano, o peso da morte de seu mentor.
- Me desculpe, Alvo.
Com essa frase o homem foi ao chão, despedaçado e quebrado de tantas formas que virara pecado. Apertando os dedos com força em sua capa deixou que todo o ar saísse de seu pulmão ao mesmo tempo em que as lágrimas deslizavam velozmente por sua bochecha encontrando-se no queixo e caindo no chão. Os soluços vieram depois fazendo-o sacudir os ombros com força. Dumbledore tapou a boca com a mão. Snape guardara aquele sentimento por meses, remoeu dentro de si a culpa por sua morte, escondeu-a até que não fosse mais possível e quando chegou esse momento retirou forças impossíveis e a segurou novamente impedindo que escapasse. No entanto não havia mais porque lutar contra isso, não tinha motivos para se negar a deixar sair. Por que se esconder quando seria a última vez? Por que negar-se a entrega do luto se depois não haveria mais nada. Não haveria mais dor.
- Não foi sua culpa, Severus. Não foi.
Snape levou a mão ao rosto e o escondeu tentando controlar os soluços e lágrimas. Seu peito e garganta doíam com a força que fazia para acalmar-se, mas foi somente após muitos minutos que conseguiu se erguer nas pernas trêmulas e caminhar até a porta. Quando fora a última vez que se sentira assim, destruído? Quando Lilian morreu ou Harry foi embora? Talvez tenha sido quando o viu no sonho, quem sabe...
Não importava, não interessava se fora há vinte anos ou vinte minutos. O que importava era que as palavras que o quadro proferiu ao abrir a porta e olhar para fora o atingiram como um projétil explosivo que destrói cada órgão com seus estilhaços afiados.
- Eu te amo, meu filho. Adeus.
- Adeus, Alvo. — Disse com uma voz tão baixinha que tivera receio de que ele não ouvisse antes da porta se fechar para nunca mais abrir aos comandos de sua vontade.
Reservou alguns segundos para se recompor. Com as costas das mãos limpou o rastro de lágrimas e respirou fundo diversas vezes antes de descer as escadas para o corredor da escola. A gárgula girou assim que saiu do último degrau e quando olhou não havia mais o caminho que o levaria para o escritório do diretor e nem para os olhares calmos e as palavras acalentadoras de Dumbledore Agora lhe restava ir em frente. Pé ante pé. O tempo passava e se esgotava rapidamente. Tinha muito o que pensar ainda antes do fim.
Faltavam poucos minutos para o fim de mais uma aula, por isso caminhou rapidamente pelos corredores ignorando armaduras, quadros e pichações apoiando Potter, ainda que tudo ficasse em sua mente, gravado como uma lembrança para ser recordada em um momento de solidão. Era inútil, mas ainda assim foram guardadas. De repente ouviu passos a sua frente e ergueu a cabeça para ver quem era a pessoa que estava em seu caminho. Identificou imediatamente os cabelos de fogo de Gina Weasley. A menina caminhava distraída lendo um pedaço de jornal e não viu quem estava a sua frente, por isso acabou trombando no professor que não se moveu quando seu corpo caiu com força no chão.
- Ai. — Exclamou a menina piscando para entender o que havia acontecido. — Professor?
- O que faz fora da sala de aula, senhorita Weasley? — Perguntou cruzando os braços em frente ao peito e sentindo-o se encher com adrenalina. — Dez pontos a menos para a grifinória.
- Mas eu não estava fazendo nada que fosse ilegal! — Exclamou Gina se levantando. — O professor Flitwick pediu que eu fosse pegar alguns formulários na sala da professora McGonagall.
- E para isso é necessário estar com o nariz sardento em cima desse jornal?
Com um sorriso sádico arrancou a folha do jornal e o ergueu aos olhos para conseguir ler a manchete que o Profeta Diário rapidamente incluiu em seu exemplar e mandou para seus clientes.
“Harry Potter invade Gringotes e foge em um dragão.”
- Que decepção, senhorita Weasley. Que decepção. O que diriam seus pais se lhe vissem agora, infringindo uma lei tão importante como o de não ser aceitável a leitura de nenhum outro material que não o da escola?
- Nada, eles não diriam nada, pois não estou errada. O senhor está bravo por que é sobre Harry e ai não mostra que ele morreu e sim que saiu ileso. — Gritou a menina no corredor. — Tudo o que o senhor queria era apenas que ele estivesse morto e agora está com raiva porque ele não está.
Gina virou o rosto com tudo para o lado, seus cabelos riscaram o ar com violência quando o tapa fora proferido contra sua bochecha deixando-a quente e vermelha. A menina olhou para Snape com os olhos arregalados e raivosos, mas nada se comparava com a ira que saia pelos olhos negros de Snape. Ele se aproximou e pegou Gina pelos braços levando-a com força para a parede e batendo seu corpo contra ela.
- Cale a merda da sua boca, desgraçada. Você não sabe de nada.
Os braços da menina ardiam drasticamente, sentia que logo ele os quebraria, mas não estava nem ai para isso, o que precisava era encará-lo com força, informar a ele que não iria desistir, que seria resistente e não cederia aos seus caprichos. Snape apertou mais ainda a mão nos braços da menina e rosnou entre os dentes enquanto a encarava. Gina por sua vez quase não conseguia pedir por perdão, o aperto estava muito forte. Estava realmente doendo. Com dificuldade mexeu as mãos em direção ao bolso da calça onde guardava a varinha e quando finalmente conseguiu pegá-la apontou para os olhos negros e esperou que o mestre de poções a largasse, mas ele não se moveu. Continuou olhando para ela com raiva, apenas parado, apenas respirando como se aguardasse alguma coisa.
A varinha tremeu em suas mãos, estava pronta para desferir um feitiço. Por que ele não se movia, por que apenas continuava apertando-a e olhando-a. Por quê?
A resposta veio na forma de um lampejo em sua mente quando olhou no fundo dos olhos dele. Viu-se em algum lugar. Estava amarrada. Gina gritou, sua cabeça ardeu com os flashs. Estava escuro e agora ela estava caída no chão, estava frio e quente ao mesmo tempo. Ela tremia, estava com medo. Havia alguém ali, alguém que a maltratava, a torturava. Seu peito ardeu e a respiração falhou. Não havia ar para entrar, não conseguia puxá-lo. O desespero a dominou no exato momento em que viu os olhos negros acima do sorriso homicida. Era ele. Balançou a cabeça com força tentando respirar e se concentrar. Havia algo mais ali. Sentiu a dor passar pela extensão de sua espinha, seu corpo pendurado, sangrando, maltratado. Gritou novamente, mas dessa vez não pela dor, mas pelos flashs que a atacavam rapidamente, flashs sobre Harry e Snape. Respirou rápido, não havia ar. Se desesperou e antes de desmaiar abriu os olhos a procura dele, mas Snape já havia ido embora deixando-a com a verdade destruída batendo na janela de sua mente. A verdade queria sair e atacá-la. Deitou a cabeça no chão e sentiu o corpo tremer, estava exausta e com uma enorme vontade de se entregar e dormir, mas no fundo sabia que não podia, no fundo tinha certeza que a verdade de Snape era sua por obrigação e ela iria se lembrar.
Snape quase correu pelos corredores indo diretamente em direção as masmorras. Fora tolo, quisera maltratar a grifinória, deixá-la desestabilizada, apenas sentir a adrenalina de ameaçar um cabeça oca atrevido antes do fim e acabou sendo ele a vitima. Viu em sua mente as cenas daquele dia, da tortura infringida a ela e da verdade que mostrou claramente aos olhos da menina. Sabia que estava voltando, que ela logo recordaria, mas não importava, afinal, logo logo tudo estaria terminado. Rapidamente abriu a porta de seus aposentos e a fechou com um estrondo.
Sua cabeça doía, seus olhos ardiam e por vezes ficavam fora de foco como se tudo que visse fosse idiota demais para dar alguma atenção. Já era tarde, quase noite. Ele se aproximava, sabia disso pelo fato de que a própria morte estava mais perto, podia senti-la quase o tocar no ombro com dedos longos e finos, mas bonitos. Tremeu, estava frio ali, de uma forma que jamais estivera antes ou não tivera a sensibilidade para perceber. Há quanto tempo estava escorado na porta apenas olhando para a sala vazia? Não se lembrava nem mesmo de ter entrado ali, quanto mais de quando, a única coisa que sabia era que aquela masmorra, aquele aposento suntuoso e espaçoso não mais lhe dera o preenchimento que esperava sentir, estava vazio, oco. Seus passos fizeram barulho ao caminhar passando a mão em seus livros, no console da lareira e pelo sofá e poltrona. Com um aceno de varinha conjurou um copo de Whisky que levou a boca sorvendo o liquido forte sentindo-o descer rasgando a garganta como brasa. Com uma força desnecessária deixou o copo no bar e se dirigiu até seu laboratório.
As poções estavam devidamente arrumadas, arrolhadas e catalogadas por si mesmo. Havia caldeirões vazios e ingredientes guardados em vidros e caixas. Tudo esperando que começasse a usá-los como um mestre de poções deveria. Mas não havia mais mestre de poções ou caldeirões para Snape. Seus dedos rasparam pela beira dos caldeirões em uma despedida muda antes de sair de seu laboratório trancando a porta para nunca mais voltar. Apertou os olhos, mais um buraco se formou em seu peito. Será que iria demorar demais para morrer? Estava doendo muito.
Ninguém respondeu sua pergunta, por isso passou para a outra porta e estacou, já fazia tanto tempo que estivera ali, respirara o ar, tocara nos moveis simples que jamais foram mexidos e ainda conservavam as coisas dele. Tanto tempo que se esticara naquela cama e depois se encolhera apertando-se junto ao corpo dele até os dois adormecerem. Fazia tanto tempo. Snape fechou os olhos apertando o lençol em seu rosto. Nem mesmo percebera que já havia deitado.
E agora era somente aguardar, pensar, lembrar e aguardar.
Um sorriso irônico nasceu em seus lábios ao pensar que tantas vezes desejara a morte do menino e agora morreria por ele. Suspirou pensando que ao nascer fora fadado a cumprir missões que destruiriam sua vida, como essa. Mas era necessário. Pensara muito nisso desde que dominara a mente de Voldemort. Sabia dos planos dele, do colar que impediria Harry de o matar. Não havia outra maneira. Então era isso. No fim a promessa de Lilian não consentia se apenas a protegê-lo do mal, mas morrer por ele. Morrer para que ele vivesse. Pensando bem até que seria uma morte digna.
Fale com o autor