A Lei do Amor
31 Capítulo 31
Notas iniciais

Acordar em casa fez um efeito melhor em Kiba do que todos os remédios do mundo. Ele saltou da cama bem-disposto, cheio de energia. Ao trocar o pijama, perdeu algum tempo admirando o próprio corpo no espelho da porta do guarda-roupas. Estava fascinado e curioso, buscando alguma alteração sem nada encontrar. Parecia a mesma barriga de sempre já que, conforme Tsunade explicou, o feto tinha o tamanho de um feijão. Um feijão! Que um dia teria o seu tamanho... talvez o tamanho de Shino! Talvez fosse uma garota e ficasse menor do que ele. Tantos mistérios a respeito da nova vida o encantavam.
“Não tive chance de amar seu irmãozinho, mas já amo você”, ele pensou olhando o reflexo no espelho.
Desceu as escadas de dois em dois degraus um tanto ofegante pelos saltos. A liberdade de locomoção era linda! Estar livre da cama de hospital era mais lindo ainda!
— Ohayou, marido! — foi saudando ao entrar na cozinha, irradiando energia — Teve uma boa... boa...
Shino estranhou que a alegria de Kiba mudou em questão de segundos. O ar se encheu de repúdio e consternação inesperados!
— Kiba...? — ele parou de mexer a panela com os ingredientes para fazer lamen (um dos pratos preferidos de seu companheiro) e virou-se para a porta da cozinha, apenas para flagrá-lo ficando meio esverdeado — Kiba?!
Pois o garoto levou a mão ao rosto, lutando contra uma forte onda de asco. Deu meia volta e correu para o banheiro do primeiro piso, mal tendo tempo de levantar a tampa do vaso sanitário antes de cair de joelhos no chão e vomitar líquido estomacal esbranquiçado e amargo.
— Kiba! — em um segundo Shino estava de joelhos ao lado dele, assustado com a reação — Vamos ao hospital!
Fez menção de levantar-se, mas o Ômega conseguiu segurar-lhe a manga do casaco e mantê-lo no lugar. Só não respondeu a oferta porque nova ânsia o fez contorcer-se, apesar de não ter mais nada no estomago em jejum para botar para fora.
Shino não entendeu o gesto, apenas se conformou em ficar quieto, angustiado.
Algum tempo depois, já com o estomago mais calmo. Kiba conseguiu se levantar e sentar-se no vaso. Fez um gesto de mão discreto para que Shino saísse dali para que pudesse se recuperar.
O Alpha hesitou em ceder. Só saiu do banheiro porque o elo entre eles não transmitia nada de ruim. E porque se lembrou da panela no fogo, que devia estar queimada!!
Enquanto Shino corria para fora, para ver o outro estrago, Kiba respirou fundo. Bela forma de começar o dia.
—--
— Que caralho do inferno — ele resmungou ao sair do banheiro e entrar na sala, indo logo jogar-se no sofá. Nem escovando os dentes duas vezes se livrara do gosto ruim na boca.
— Tem certeza de que não quer ir ao hospital? — Shino surgiu na porta de ligação com a cozinha. Ele transmitia pura preocupação.
Kiba deu tapinhas no acento do sofá, chamando o companheiro para ir sentar-se ali.
— Tsunade san me explicou que náuseas matinais são comuns a partir da sétima semana — Kiba falou quando Shino atendeu seu pedido, acomodando-se na beirinha do estofado — Ela falou pra não ter medo, que agora a gestação vai desenvolver normalmente. No hospital tem técnicas pra prevenir isso, porque eu tava em recuperação. Em casa não precisa mais.
— Então... — Shino não esperava pela revelação — Não tem perigo?
— Não — Kiba buscou a mão de Shino e a segurou — Tsunade san me falou que Ômegas nunca sofrem um aborto, a não ser se... você sabe, for provocado. Agora é seguro pro bebê.
— Não sabia das náuseas.
— Nem eu! Mas não sou nenhum especialista em bebês. Temos muito o que aprender — ele sorriu — Esse cheio me diz que nosso café já era...
Shino concordou com um aceno de cabeça.
— Queimou. Quer sair até o ar arejar?
— Não, não tá me incomodando.
— Vou comprar alguma coisa pra gente comer. É mais rápido do que preparar algo a essa altura.
— Não se preocupe, não to com fome. Meu estomago tá meio bagunçado ainda. Ah, mas você deve estar com fome! Então vai sim comprar alguma coisa, aí a hora que você voltar quem sabe não me deu apetite...?
Shino sondou o rosto do garoto alguns segundos, se convencendo de que era seguro deixá-lo sozinho. Por fim levantou-se do sofá e foi pegar algum dinheiro, saindo de casa em seguida.
Kiba ficou deitado, e assim continuaria por algum tempo, não fossem as batidas que soaram na porta da sala. Ele pensou em gritar para a pessoa entrar. Por sorte teve bom senso e mudou de ideia. Reuniu coragem para levantar do sofá e ir atender. Teve uma boa surpresa.
— Iruka sensei! — recebeu o professor com um sorrisão.
— Vim ver como está. Me desculpe não visitá-lo no hospital, achei mais apropriado esperar que se recuperasse e voltasse para casa.
— Obrigado pela consideração — Kiba cedeu passagem, abrindo mais a porta.
Iruka pediu licença e deixou os sapatos no genkan, para calçar um surippa de inverno. Ele fez uma cara engraçada para o calçado, embora não dissesse nada sobre os enfeites.
— Tomei a liberdade de trazer um lanche — estendeu a cestinha que tinha nas mãos. Kiba aceitou, feliz.
— Obrigado! Vem comigo, Iruka sensei. Não se espanta com o cheiro, a gente teve um acidente e o café da manhã meio que queimou — Kiba foi dizendo enquanto caminhava em direção à cozinha.
— Acidente?
— Nada demais. Só tive... hum... náuseas matinais... — o garoto explicou sem jeito.
— Está melhor agora?
Kiba puxou uma cadeira para o professor se sentar. Era a segunda vez que recebia ele assim em casa! Sentiu-se importante pela visita inesperada. Em seguida correu para abrir mais a janela e a porta que dava para o quintal do fundo. Teve que fechar a porta, porque Akamaru já veio correndo para invadir a cozinha.
— Esse cachorro! — praguejou — Desculpa, Iruka sensei. Ele não tem bons modos! Quer um pouco de suco?
— Aceito sim — Iruka sorriu com gentileza.
Kiba afobou-se para pegar copos, tão estabanado que um deles escapou-lhe da mão e quase foi ao chão, mas ele agiu com bons reflexos e o pegou antes que acontecesse o pior.
— Ops! — ele riu — Sou um desastre!
Iruka riu concordando.
— Não se apresse, Kiba kun.
— Aqui — finalmente ele pegou uma caixa de suco de tomate na geladeira e trouxe para a mesa, servindo ambos os copos logo após se sentar — Fique a vontade, Iruka sensei! Shino foi comprar nosso café da manhã, logo ele volta.
Ao explicar puxou o guardanapo que cobria a cestinha, descobrindo uma montanha de mochi coloridos, confeitados com carinhas sorridentes. Os olhos selvagens brilharam. Estavam todos lindos e apetitosos.
— Itadakimasu! — não se fez de rogado, atacando os bolinhos.
— Como vocês estão, Kiba kun? — Iruka voltou a perguntar, dando um gole no suco — Pensei em ir ao hospital, mas soube que estavam recebendo muitas visitas. E esse era o conforto que precisavam no momento ou Tsunade sama teria me chamado. Achei melhor esperar para vir aqui.
O garoto passou as costas da mão pelo canto dos lábios, para limpar um pouco de farelo.
— Obrigado, sensei! A gente vai levando. Voltar pra casa ontem foi uma das melhores coisas. Mas é meio fod... complicado. É meio complicado, o que aconteceu fica dando voltas na minha cabeça. O Shino tem me apoiado bastante, só que...
— Também é doloroso para ele.
— Sim. Acho que pra ele é até pior... porque eu tava inconsciente e lutava entre a vida e a morte sem saber. Ele que aguentou tudo sozinho. Ele e a minha mãe.
Iruka balançou a cabeça.
— Kakashi vai conversar com ele. Um Alpha entende bem o outro, falar com alguém de fora ajuda bastante.
Kiba olhou para a metade restante do mochi em sua mão, meio desinteressado de continuar comendo.
— O que mais perturba a minha cabeça é o porquê. O senhor sabe de tudo, né? Konoha inteira já sabe... e eu não entendo porque a Ino faria isso. Ela não é má, só meio grossa. E quando ela começou a me tratar bem pensei que a gente era amigo. O Shino me contou sobre ela gostar dele e tal, eu até entendo essa parte. Só não entendo como é que se conquista alguém fazendo mal pras pessoas — ao final da enxurrada de palavras ele estava meio sem fôlego, por se abrir e contar aquelas coisas. Só o fazia de forma tão espontânea por sentir coisas boas vindas de Iruka, coisas que não saberia nomear, mas o acalentavam e o acolhiam sem restrição, dando alento a sua alma. Seria a “coisa de Ômega” de Iruka sensei? Era danado de bom.
— Kiba...
A palavrinha teve tão somente a intenção de servir como incentivo, para que o garoto não se sentisse tímido ou arrependido ao se expor. Funcionou bem, pois o Ômega ergueu um braço e cobriu parte do rosto, para esconder as lágrimas, a outra mão segurou o bolinho com força, esmagando-o sem se dar conta. Uma vez abertas as compotas, seria impossível refrear:
— Eu quero falar essas coisas com o Shino, mas ao mesmo tempo não quero. Ele ficou com a pior parte, lá no hospital, porque eu nem vi nada. Agora a gente tem o vínculo e eu consigo sentir que ele fica triste às vezes. Ele fica tão triste às vezes... não é como se eu pudesse despejar mais tristeza em cima dele. Mas aí o Shino diz que eu o deixo de lado e eu não sei o que fazer. E eu também fico com um monte de coisa na cabeça por causa do futuro... fico pensando no bebê que vai nascer... toda vez que eu olhar para ele vou lembrar que deveria ser dois... será que vai doer? Ou será que um dia a dor passa? Todo mundo diz que passa, mas não é o que parece agora...
Iruka respirou fundo, emocionado pela tristeza de seu aluno. Já viera preparado para receber o profundo sofrimento, embora não fosse fácil encontrar palavras certas para servir de consolo. Talvez não existissem palavras certas, e por isso Ômegas não precisavam falar para compartilhar alívio. Apenas a presença deles era suficiente. E, ainda assim, Iruka queria ter algo certo para dizer.
— Shino kun fala sobre essa tristeza com você? — Iruka perguntou com suavidade.
— Não — a resposta veio rápida — Ele não fala nada. Deve ser coisa de Alpha.
— Será? Ou talvez ele tenha o mesmo pensamento que você, Kiba kun.
A sugestão intrigou Kiba, que acabou baixando o braço e mostrando os olhos vermelhos e cheios de lágrimas.
— Não entendi.
— Talvez Shino kun sinta a sua tristeza e não queira colocar mais peso em seus ombros. Do mesmo jeito que você faz. Quem sabe se der o primeiro passo e contar um pouco de cada vez, Shino kun também comece a compartilhar os sentimentos?
— Oh... nunca pensei por esse lado...
— Se ele contar as tristezas para você, vai sentir como se recebesse mais peso em seus ombros?
— Não! Claro que não!
— Então as suas tristezas não serão um peso para os ombros de Shino kun, percebe?
— Faz sentido, sensei! Que cara... caraca...
Iruka sorriu.
— Sobre o futuro... talvez você tenha a resposta bem diante dos seus olhos — o professor soou descontraído e misterioso, de um jeito que trouxe confusão ao rosto de Kiba — Sua mãe. Inuzuka san deve ter muitas boas lembranças sobre você e sua irmã crescendo juntos. Hoje ela olha para você e sabe que deveria ter dois filhotes, mas um foi roubado pela guerra. A tristeza por isso sempre existirá. Assim como a felicidade pelo outro que conseguiu. O outro que sobreviveu e pode viver plenamente.
— Caralho, Iruka sensei — Kiba nem se preocupou com o palavrão — Vou chorar de novo... não sabia que eu era tão mole assim!
— Calma, Kiba kun, você não é mole! Um pouco disso vem da mudança hormonal. É muito comum oscilação de humor durante a gestação, não se assuste.
O garoto passou a manga do casaco pela face e secou as lágrimas. Deu uma risadinha fraca.
— Pelo menos meu nariz não escorreu. Ele sempre escorre e é constrangedor. Olha só amassei o mochi todo... — levantou-se da mesa para ir lavar as mãos — Ne, Iruka sensei... eu senti o lance Ômega hoje! To sentindo ainda...
— Hn. Imaginei que precisaria de algo assim. Ômegas podem não ser fortes como Alphas ou Betas, mas em momentos de maior necessidade, nós podemos dar força pra eles, e para outros Ômegas também, quando parece impossível seguir em frente.
— Obrigado, Iruka sensei. É bom poder falar, dá um alívio.
— Sempre que precisar é só me procurar. Agora a dor parece invencível, mas ela passa. Todo mundo que te diz isso vivenciou o sofrimento em algum ponto da vida e o venceu. Não se apresse, Kiba kun. Sinta a dor, viva a dor e então supere a dor. O que aconteceu com vocês foi terrível e não vai simplesmente desaparecer. Mas também não pode tirar o brilho de tudo o que ambos têm pela frente. E o mais importante: parabéns pela gestação! — sentia o Chacra pequenino, habilidade inerente a todos os nascidos Omega. E pouca coisa nesse mundo era tão bonito quanto a energia de uma vida desabrochando.
Inuzuka sorriu de satisfação. Ia responder, no entanto aconteceu algo que o distraiu e atraiu seus olhos para a paisagem vista pela janela. Ele captou, fraquinho na distância, um quê de alegria fluindo pelo vínculo. Fosse o que fosse que Kakashi sensei conversava com Shino estava dando muito certo. Aquela mínima manifestação diferente da preocupação e agonia dos últimos dias, trouxe igual alegria para Kiba. Mais um passo certo na direção da cura.
Quando virou-se de novo para a cozinha, flagrou Iruka sorrindo e lhe estendendo um novo mochi. Sorriu de volta e aceitou, não apenas pela comida; e sim pelo cuidado e amizade que o professor lhe ofertava.
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