A Lei do Amor
32 Capítulo 32
Notas iniciais

O mês de outubro foi um período de adaptações e novidades para o jovem casal. Repleto de situações inusitadas que um dia se tornariam memórias maravilhosas.
Kiba tinha as consultas semanais preventivas, em que Tsunade confirmava a cada vez a recuperação completa e desenvolvimento saudável do futuro bebê. Ele e o companheiro também recebiam visitas ocasionais do pessoal do hospital, que cumpria a palavra dada.
As náuseas matinais continuaram por todo o mês. E Kiba descobriu, para seu desgosto, que o prato preferido era o que mais lhe causava repúdio. O cheiro de lamen lhe era insuportável, a ponto de ser banido da casa (pelo menos durante o período de gestação).
Mudanças repentinas de humor se tornaram mais pontuais e inesperadas. E eram a parte mais difícil para Shino, que muitas vezes não sabia o que fazer para dar conta das situações. Em contrapartida, essas crises emocionais ajudaram em uma questão espinhosa na relação: a forma como lidavam com os sentimentos. Pois quando o humor de Kiba o deixava deprimido e choroso, ele conseguia falar mais fácil das angústias e aflições que o oprimiam. E, para mostrar que ele não estava sozinho na dor, Shino também falava do que sentia, notando como se expressar ajudava a ambos. Quanto mais falavam, menos o passado machucava.
E, obviamente, havia os... desejos.
Tudo começou em uma noite especialmente fria daquele meio de outono. O jovem casal estava deitado no sofá, assistindo um programa qualquer, com Kiba quase cochilando acomodado sobre o corpo de Shino, embaixo de um grosso edredom, quando a vontade apareceu.
— O que foi? — Shino perguntou. Kiba estava se remexendo inquieto.
— Sei lá. Vontade de comer takoyaki...
— Takoyaki?
— De brócolis...
— Brócolis? — Shino estranhou — Você detesta brócolis.
— Desculpa querer comer algo que eu não gostava antes — Kiba rebateu meio mal-humorado. Não queria ser rude com o companheiro, mas seus hormônios andavam uma bagunça. Ele não se controlava.
— Vou ver se acho pra...
— Não! Não precisa. Tá frio lá fora, logo a vontade passa.
— Tem certeza?
— Sim. Tenho sim.
Pois a tal certeza não durou muito. Nem dez minutos. Kiba gemeu sofrido e começou a traçar desenhos imaginários com a garrinha sobre a blusa flanelada do pijama que Shino vestia.
— Marido... acho melhor você comprar sim. Eu to que não me aguento de vontade de comer takoyaki de brócolis. E a Sakura me disse que se a gente ficar passando vontade a criança nasce com a cara do que deu o desejo. Eu não quero que o nosso bebê fique com cara de takoyaki. Já pensou como vão zoar na escola?!
— Tudo bem, Kiba. Nosso filho não vai nascer com cara de takoyaki — Shino rebateu muito solene.
— Não adianta ficar sério assim! Pelo vinculo eu sinto que está debochando de mim, maldito!
— Desculpa — o Alpha respirou fundo, já se movendo para levantar, tirando Kiba de cima de si — Vou comprar o takoyaki — ele garantiu, apesar de não saber onde ia achar takoyaki de brócolis! Se fosse de polvo ou de camarão...
— Obrigado! Se agasalha bem que lá fora deve estar frio pra caralho.
Shino suspirou. Apenas vestiu um grosso casaco por cima do pijama de flanela (quem diabos ia perambular pela noite gelada no fim das contas?) e partiu para cumprir a promessa.
Não foi nada fácil. Não conseguia encontrar uma barraquinha ou restaurante abertos àquela hora. A última (e desesperada) opção foi bater na porta do Ichiraku, cujo dono demorou um pouco para atender; mas riu bastante quando Shino explicou o motivo de estar ali.
— Bem-vindo à vida paterna, Aburame kun — Teuchi san falou saudoso, lembrando de quando sua esposa estava grávida — O que o seu Ômega quer comer?
— Takoyaki de brócolis...
— Ah, que sorte a sua — o homem voltou a rir — Minha mulher só queria comida estrangeira. Era um transtorno achar... entre, Aburame kun. Não podemos deixar seu bebê nascer com cara de takoyaki, não é?
Shino agradeceu, dando início a tradição que durou pelos próximos meses. Sempre que Kiba tinha aqueles desejos estranhos, independente da hora em que se manifestavam, ele corria para o Ichiraku, pois o dono se colocou a disposição para ajudar quando necessário. E assim facilitou e muito a vida daqueles seus dois clientes.
Valeu a pena correr tanto e passar o sufoco, ao voltar para casa com a montanha de bolinhos e ver a felicidade com que foi recebido. Acabaram comendo juntos, sentados no sofá e envoltos pelo edredom felpudo. Kiba espetava dois no palitinho e devorava. Em seguida espetava um e levava até os lábios de Shino. Troca muito justa na opinião do garoto.
E foi assim que Aburame Shino salvou o filhotinho de nascer com cara de takoyaki...
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Outubro também foi o mês em que eles mudaram a disposição dos quartos. Foi num dia atipicamente mais quente do que os outros, onde o sol vencera o marasmo de outono e conseguira aquecer um pouco o clima.
O casal estava discutindo sobre trocar os móveis de lugar, quando batidas na porta interromperam o impasse.
Kiba foi atender e deu de cara com Naruto.
— Yo, Kiba! Vim ver como está — e já passou o braço pelo pescoço do outro, puxando-o para uma chave-de-braço de brincadeira, em que aproveitou para bagunçar-lhe os cabelos.
— Me larga, Naruto idiota! — quando conseguiu se soltar estava ofegante. Cedeu passagem para o amigo, que entrou sem pedir licença. Ainda deu uma espiadinha lá fora, mas Naruto estava sozinho.
— Yo, Shino! Tudo bem com vocês?
— Tudo bem — Kiba respondeu antes do companheiro, com um bico, passando as mãos pelos cabelos castanhos, tentando arrumar um pouco. Não que estivessem lá muito alinhados antes... Então indicou o sofá — Senta, fica a vontade.
Naruto obedeceu.
— Eu não vim antes porque eu não sei o que falar nessas situações — ele revelou meio sem jeito, então coçou a nuca — Fiquei chateado por tudo o que passaram, espero que estejam bem de verdade. Ah, o Sasuke também ficou abalado, mas ele morre antes de demonstrar qualquer sentimento. Ele é muito cabeça dura.
— Obrigado — Kiba não esperava menos do que sinceridade nua e crua daquele amigo. Acabou por sentar-se ao lado de Naruto, enquanto Shino acomodava-se na poltrona — A gente ta bem. No começo foi um lance meio fodido, mas a gente tá acertando o passo, né, marido?
— Hn — Shino concordou.
— E parabéns por... parabéns por — Naruto apontou a barriga de Kiba — Isso!!
— “ISSO”?! Não chama meu filho assim, maldito!
— Mas é muito estranho — Naruto gargalhou — Desculpa, cara! Você é a última pessoa de Konoha que eu imaginei nessas condições! Agora que aconteceu mesmo é muito chocante.
— Chocante?!
O visitante fechou os olhos e balançou a cabeça com força duas vezes.
— Hn, hn. Espero que ele seja forte como o Shino, esperto como o Shino e tenha a cara do Shino. Porque senão... pobre criatura!!
— OE! — Kiba acertou um tabefe bem dado na nuca de cabelos loiros — Você tá dando em cima do meu marido, desgraçado?! E que história é essa de “pobre criatura”?! Eu tenho um monte de qualidade que meu filho vai herdar.
— É — Naruto esfregou a nuca dolorida — As marcas do seu Clã são bem legais. Mas o resto...
— Shino! Olha o Naruto me zoando! Que tipo de visita é essa?! Nem trouxe nada pra gente comer!!
Nesse ponto Naruto ficou sério.
— Posso? Eu tive um pouco de receio...
A informação deu um baque em Kiba. Claro que o outro rapaz teria aquilo em mente. Ele dividira a visita com Ino em mais de uma ocasião. O assunto desconfortável tornou o clima estranho. Mas o Alpha agiu rápido para dissipá-lo.
— Sim, pode trazer sim. Depois eu te mostro a lista de restrições.
Naruto deu um sorrisão:
— Okay! Se precisarem de alguma coisa é só falar. Qualquer coisa mesmo.
— Que bom que ofereceu — Shino começou, porém foi interrompido por Kiba.
— Nem pense nisso, Shino — o garoto se arrepiou que nem cachorro bravo. E foi lindamente ignorado.
— Se puder ajudar a mudar os móveis de lugar eu agradeceria muito — Shino explicou — Pensamos em fazer uma mudança, mas sozinho eu não consigo. E não acho que seja indicado que Kiba fique pegando peso...
O Ômega cruzou os braços, emburrado.
— Gravidez não é doença — ele resmungou.
— Posso ajudar sim — Naruto aceitou depressa. Ele concordou que depois de tudo o que tinha se passado, era melhor não dar bobeira.
Depois disso, Shino e Naruto se concentraram em trocar alguns móveis de lugar, para melhorar o quarto que seria do casal. Sob coordenadas de Kiba arrastaram o grande guarda-roupas e trocaram a cama de casal que era do pai de Shino e foi desmontada, pela cama que eles usavam atualmente e ainda estava muito boa. O quarto que seria do bebê continuou com o guarda-roupas menor e espaço para o futuro berço.
A certa altura, Kiba os largou cuidando de tudo e foi comprar alguma coisa para comerem. Demorou um pouco pra voltar, porque algumas pessoas o paravam na rua para perguntar como ia sua saúde e a saúde do bebê.
Retornava com grandes porções de yakisoba e uma montanha de takoyaki de brócolis numa sacola, quando viu Sasuke perambulando pela rua.
— Ei! — gritou e foi ignorado. Insistiu — SASUKE!!
Recebeu um olhar mortal de volta, mas o outro rapaz parou de andar.
— O que você quer?
— Um pouco de educação?! — Kiba se aproximou, mal-humorado. Sasuke fez menção de voltar a andar, por isso o Ômega emendou rápido: — Espera! O Naruto tá lá em casa... quer ir pra lá?
— Não.
— Você é muito cuzão — desistindo de tentar ser social, Kiba deu meia volta para retomar o caminho. No entanto, o gesto brusco lhe deu uma espécie de vertigem. Só não caiu porque Sasuke foi muito rápido e o segurou pelo braço.
— Oe... — ele exclamou mais por instinto do que por outra coisa.
— To bem... minha pressão que oscila às vezes... já, já melhora.
Apesar da afirmação, Sasuke o arrastou para uma das lojinhas abertas, onde uma das funcionárias correu para oferecer uma cadeira e um copo de água. Kiba aceitou os cuidados meio envergonhado. Detestava dar trabalho.
Vendo que Sasuke ainda estava por ali, pensou que era melhor deixá-lo livre para ir embora se quisesse.
— Obrigado, não precisa se...
— Preocupar? Não mesmo, nem um pouco — Sasuke cortou a tentativa de paz, falando apenas a verdade.
Pois não fez nada diferente do usual. Mas, por algum motivo, aquela resposta atravessada lembrou Kiba das patadas que Ino lhe dava, mesmo quando se aproximaram mais e o coleguismo ganhou ares de amizade. E isso acabou trazendo lágrimas aos seus olhos e um nó na garganta. Começou a chorar sem poder se controlar.
Sasuke pareceu consternado. Piorou quando as vendedoras que os rodeavam e algumas clientes soltaram exclamações indignadas, desaprovando a atitude do rapaz. Não parecia certo que alguém maltratasse um Ômega naquele estado! Principalmente por ser aquele em especial, que já passara por tantas dificuldades.
— Oe... — Sasuke tentou remediar a situação, embora não soubesse o que fazer.
— Não liga pra mim — Kiba passou a mão pelo rosto para secar as lágrimas — Meus hormônios estão fora de controle — então devolveu o copo vazio para a funcionária — Obrigado. Já me sinto melhor agora.
Inclinou-se para pegar a sacola com a comida, mas Sasuke acabou pegando primeiro.
— Levo isso — resmungou.
— Pensei que não se importasse — Kiba não resistiu a alfinetar, enquanto se levantava e agradecia a vendedora com uma breve vênia.
— Tsc — Sasuke saiu da loja, obrigando o outro a segui-lo — Não me importo. Estou procurando o Naruto.
— Que bosta, Sasuke. E por que ficou fazendo graça aquela hora?! Falasse logo!
— Cuidado com a pressão — ele rebateu provocando, mas conseguiu o efeito de fazer o outro calar-se. Kiba adiantou um passo e foi mostrando o caminho pisando duro, meio irritado.
Como Naruto podia se envolver em um relacionamento assim? Ele não se via brigando com o Shino o tempo todo, mesmo com temperamentos tão diferentes a relação deles era bem tranquila. Claro, brigavam as vezes, como todo casal. Discussões ocasionais apareciam como exceções, não como regra.
Ao chegar em casa, viu Shino e Naruto parados na porta da frente. Logo captou pontinhos de preocupação através do vinculo, deduzindo que Shino sentira pelo menos um resquício do momento em que passou mal.
— Não faça essa cara, marido. Eu to bem — foi dizendo ao alcançá-los — O Sasuke me ajudou — explicou com simplicidade, daquele jeito de sempre.
Shino adiantou-se para pegar a sacola com a refeição e foi guardá-la na cozinha, sem insistir em querer detalhes. Através do vinculo não fluía mais nada de errado ou estranho.
— Entrem, vamos comer. Comprei bastante coisa — Kiba convidou.
— Só vim buscar esse idiota — Sasuke recusou a oferta. E já virou as costas para sair dali.
— Outro dia a gente volta e almoça junto, Kiba — Naruto ofereceu um sorriso, antes de colocar a mão sobre o ombro do garoto e apertar de leve — Sasuke só faz aquela cara quando ele se arrepende de algo. Sinto muito pelo que quer que seja. Jaa ne.
Kiba observou o casal se afastando, com Sasuke distante pelo menos três passos de Naruto, que o seguia com as mãos cruzadas na nuca. Tão diferente dele e de Shino, que só andavam lado a lado...
Enfim, as pessoas eram diferentes. E precisavam de coisas diferentes. Ele não estava em posição de julgar sua relação com Shino como melhor ou pior do que as outras. Somente podia alardear uma certeza: aquele Alpha era tudo o que precisava.
— Oe, Shino! Os takoyaki são meus! Não vá comer, maldito!! — alertou, nem um pouco ameaçador, antes de entrar em casa e fechar a porta.
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