A Lei do Amor
27 Capítulo 27
Notas iniciais

Em segundos a mãe de Kiba vinha somar sua presença junto à cama, para oferecer a melhor reação de alegria que estava ao seu alcance. Ela afastou a franja de cabelos castanhos e depositou um beijo suave sobre a testa do menino.
— Eita, moleque — resmungou baixinho. O peito explodindo em sentimentos que nem tentaria entender ou explicar. Júbilo, ternura, amor, alívio...
Kiba não disse nada. Não tinha forças nem para se impressionar com o gesto afável e atípico, nem tão pouco para se espantar com a emoção daquelas duas pessoas perto de si. Seu corpo estava moído. Talvez até mais do que naquela luta contra os gêmeos de Otogakure, quando Kankuro salvara-lhe a vida.
O desconforto físico, o esgotamento, a confusão mental... indícios de que ficara doente para valer. Ah, e a fome também. Ele tinha um verdadeiro buraco no estômago, apesar de intuir que lhe faltavam forças até pra comer.
— Precisamos avisar Tsunade — Tsume falou.
— Tem razão — Shino concordou.
Nenhum dos dois se moveu, ficando claro que não tinham intenção de sair do quarto. Tsume estufou, ofendida pela ousadia. Shino apenas teve o gesto de ajeitar os óculos no rosto, lembrando tarde demais que estava sem eles. Quando cometia essa gafe era um tanto constrangedor.
Foram salvos do impasse por um jovem enfermeiro que entrou no quarto com os braços segurando panos brancos para a troca.
— Boa noite, pessoal. Oh! Ele acordou!! Deviam ter nos avisado imediatamente!! Era só apertar aquele botão vermelho ali — explicou — Vou chamar Tsunade sama!
Deu meia volta, mas parou perto da porta, olhando para os lençóis que trazia consigo. Hesitou um pouco, regressou sobre os próprios passos achando que devia continuar a tarefa que o levara ali. Parou de novo. Reconsiderou. Talvez avisar a médica fosse mais importante! Mudou de rota a terceira vez. Provavelmente era novato ali, por isso estava tão confuso!
Por fim saiu e levou consigo os lençóis limpos.
Shino e Tsume trocaram um breve olhar, que terminou com a mulher virando o rosto, enquanto resmungava um “hunf” ofendido. E lá estava a sogra emburrada outra vez.
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Tsunade entrou no quarto e sua forte presença dominou o ambiente. Já estava recomposta, pois aproveitara um pouco daquelas horas para se alimentar direito e dormir numa das salas de repouso para os funcionários. Não precisava de muito, com apenas aquele parco tempo recuperara sua energia.
— Olá, Kiba kun! Soube das novidades e vim verificar — ela cumprimentou, expansiva — Como você se sente?
Ele até queria responder, mas não encontrou voz suficiente para nada além de suspirar.
— Imagino que sim — contra todas as perspectivas, Tsunade deu a impressão de compreender a resposta — Depois daquela festa que seu Chacra deu, não esperava esgotamento menor — ela puxou a ponta do lençol para verificar a pulsação do garoto.
Shino soltou-lhe a mão e ficou em pé, afastando-se dois passos da cama.
— Você passou por um bocado de coisas, mas não é o momento de falar sobre isso. Todas as dúvidas que eu sei que tem serão respondidas tão logo restaure as forças, está bem? Preciso insistir na importância de se alimentar bem, para ajudar a recuperar a energia que gastou...
— Não se preocupe quanto a isso — Tsume interrompeu a fala — Aposto que o apetite do meu filho continua o mesmo.
A médica encarou seu jovem paciente, tentando confirmar a afirmação de Tsume. O brilho nos olhos de Kiba foi prova mais do que suficiente. Ele não tinha forças nem para mover a mão ou mastigar, mas não custava tentar... não é?
— Perfeito — Tsunade riu. Poucos pacientes saiam da enfermidade com apetite! De algum jeito, o carinho que começara a sentir pelo Ômega aumentou — Estive estudando alguns livros, creio que consegui fazer um cardápio nutritivo e seguro. Tive ajuda do enfermeiro-chefe e do chefe da cozinha, claro. Os especialistas que solicitei da Vila da Areia estão quase aqui. Por sorte superamos o pior, mas pedirei que avaliem a condição de Kiba kun, por via das dúvidas. Agora vocês precisam me dar licença para fazermos alguns exames de rotina e darmos sequencia nos procedimentos padrões... aproveitem essa noite para ficar ao lado dele. Conversei com o diretor do hospital e ele aceitou por essa vez permitir que Aburame kun e Inuzuka san fiquem aqui. Também concordou com internação vinte e quatro horas acompanhada, mas vocês precisarão se revezar a partir de amanhã.
Ao fim do longo discurso, Tsunade foi fazendo gestos para que ambos saíssem do quarto, momento que o jovem enfermeiro que esperava lá fora entrasse com os lençóis limpos.
Já no corredor, Shino e Tsume se encararam. Decidir os turnos de revezamento não seria nada fácil!
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O banho foi restaurador. Deu a Kiba uma aparência muito melhor, não tão doentia. O jantar enviado para ele foi muito apropriado: caldo encorpado cheio de nutrientes. Foi Tsume quem o ajudou a se alimentar, sentada ao lado da cama para dar as colheradas com paciência, apenas para que o filho engolisse.
Estava mais emburrada do que nunca. Perdera uma disputa no Jo Ken Po, e lhe restara ficar no turno da noite! Passaria a maior parte do tempo assistindo o menino dormir. Shino ficara com a melhor parte. Sortudo do inferno.
No dia seguinte, Tsume saiu cedo do hospital, antes que Kiba acordasse de seu sono reparador e tranquilo. Ela garantiu a Shino que voltaria cedo também! Não permitiria que o Alpha atrevido aproveitasse de todo o tempo consciente de seu filho.
Seguindo orientações de Tsunade, ele avisou a equipe no mesmo instante em que Kiba acordou, os olhos não estavam mais tão fundos, nem a pele tão pálida. Não teve chance de tentar conversar com seu companheiro, o quarto foi invadido pela médica (parecia que ela acampava no hospital, não ia embora pra nada!) que vinha acompanhada por uma mulher desconhecida, que ostentava uma bandada da Vila da Areia.
Expulso do quarto, Shino decidiu ir comer alguma coisa na cantina. Já bem acostumado em vagar por aquelas alas. No caminho encontrou com Sakura e Rock Lee. A menina estava com uma aparência ruim, sofrendo de náuseas matinais. Trocaram cumprimentos e informações, antes que se separassem rumo a objetivos diferentes. Sakura e o marido foram atrás de atendimento; Shino, da primeira refeição.
A cantina estava quase vazia naquele horário. Poucos familiares tinham permissão de passar a noite, a não ser que o caso fosse muito grave, ou acompanhassem crianças ou idosos.
Comeu com apetite pela primeira vez desde que dera entrada no hospital. Na verdade, dizer que sentiu apetite não fazia justiça. Shino devorou a porção de yakisoba. E ainda repetiu, gesto que não era de seu feitio. A negligencia com a alimentação veio cobrar o preço. A fome bateu forte. Os músculos reclamaram de toda a tensão, teve certeza de que ia deitar a cabeça no travesseiro aquela noite e dormir todo o sono acumulado!!
Ainda fez hora pela cantina, observando um ou outro acompanhante surgir para comer. Queria dar o tempo necessário para que Tsunade e a especialista da Vila da Areia fizessem todos os procedimentos necessários.
Por isso, quando voltou para o quarto, não as encontrou por lá. Mas flagrou um grupo de quatro enfermeiras ao redor de Kiba, visivelmente mimando o Ômega. Uma lhe afofava o travesseiro, outra ajeitava e desajeitava o lençol, procurando cobri-lo melhor, a terceira equilibrava um grande copo de suco de laranja para que Kiba bebesse pelo canudinho, a última segurava um cachecol, esperando para enrolar no pescoço dele.
Ao notar a chegada do Alpha, as meninas se apressaram em terminar tudo e escaparam do quarto rapidinho! Shino assistiu, boquiaberto. Então encarou Kiba, que sorria.
— Você está bem...? — Shino soou incerto.
— Sim — Kiba conseguiu responder, diferente do que ocorreu no dia anterior. A voz dele causou arrepios em Shino. Que falta lhe fizera a tagarelice do companheiro! Venceu a pouca distância que o separava do leito. Em silêncio reajeitou o travesseiro de Kiba, assim como os lençóis. Até mesmo o cachecol azul no pescoço do garoto, de um jeito que achou melhor. Então sentou-se na cadeira ao lado da cama, satisfeito com seu companheiro ficar bem confortável. Nem ele compreendeu os próprios gestos. Apenas seguiu um impulso.
O Ômega tampouco compreendeu. Não percebeu ciúmes através do vínculo, apenas preocupação. Vai entender esses Alphas.
— Sua mãe vem ficar a noite — Shino informou meio a contragosto. Se pudesse ficava ali vinte e quatro horas. Desconfiava ser um de seus direitos como Alpha e companheiro vinculado ao Ômega. Porém, separar mãe e filho não seria justo nem com Kiba, nem com Tsume. Nunca exigiria algo assim apenas para satisfação própria — Precisa de alguma coisa?
— Não — Kiba balançou a cabeça. A médica da Vila da Areia lhe dera uma medicação com gosto horrível, que começava a fazer efeito. Sentia-se mais recuperado do que ao acordar da primeira vez, ainda que a letargia continuasse rondando. Falar já não era penoso.
Tsunade não detalhara o seu quadro de saúde, comentando superficialmente uma ou outra coisa. Ela insistira que o ponto principal era sarar por completo. Kiba não rebateu, mas não ficou satisfeito. Queria saber o que tinha acontecido e causado o colapso. Se fosse outra daquelas adaptações de Ômega ele ficaria mal-humorado do resto da vida. Okay, nem tanto.
— O que aconteceu comigo? — ele se ouviu perguntando baixinho — Só lembro de encontrar... com a Sakura ontem... a gente brigou... — suspirou — Dai... tudo fica... confuso.
Shino segurou a mão dele entre as suas, entristecido.
— Não foi ontem. Foi a alguns dias atrás.
— O quê? — a voz saiu falhada, sem que pudesse acreditar no que ouviu.
— Sim. O seu Chacra estava tão desequilibrado que você ficou entre a vida e a morte, Kiba — doía relembrar esse fato.
— Caralho, marido — apesar de moído, sequer desconfiava que tantos dias tinham se passado. Agora o jeito terno de sua mãe fez sentido — Desculpa... causar preocupação.
— Não precisa pedir desculpas por nada, Kiba.
Ele afundou o corpo contra o travesseiro macio. Precisou de alguns segundos para mensurar a situação. Sua mente tinha memórias claras do encontro com Haruno Sakura. Depois, pingavam resquícios sobre sentir-se mal, e... tinha a impressão de chegar a ver Shino retornar da missão. Reinando, no fim, apenas confusão mental.
— Ser Omega é... uma bosta — Kiba resmungou desanimado. Todo mundo tinha razão, ele fazia parte da casta mais fraca. Não conseguia nem passar por mudanças corporais sem ter um surto de energia descontrolada...
— Eu diria justamente o contrário — Shino suspirou de leve. Seu companheiro não fazia ideia da força que demonstrara, a ponto de impressionar a própria Tsunade.
Kiba exibiu um sorriso, conquanto sorrisse diferente do usual: com tristeza e desanimo. Sentia-se um peso para os outros. Ainda assim, sabia que coisa nenhuma mudaria o fato de ter nascido Ômega. Então... vida que segue.
— Diga lá, marido. Depois de... tantos dias, o que foi... que eu perdi?
A pergunta que tentava soar descontraída atingiu Aburame no peito, como a ponta afiada de um punhal. Sim. Kiba não desconfiava de nada, absolutamente nada! Nem da traição de Ino, do processo de aborto. Do bebê que sobrevivera e ainda levava no ventre.
— Shino...? — assustou-se quando o Alpha puxou-lhe a mão e a encostou contra o próprio rosto. Desespero, medo, raiva... milhões de sentimentos fluíram através do vinculo e desnortearam Kiba. Tão chocantes, intensos e irracionais que o paralisaram — Shino?! O que foi...?
Ele meneou a cabeça, incapaz de oferecer qualquer outra resposta. Aquele pobre garoto... ainda não sabia de nada.
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