A Lei do Amor
8 Capítulo 08
Notas iniciais
Capítulo 08
— Não fique nervoso. Minha mãe parece brava, mas... hum... ela é brava. Principalmente comigo. Então você pode ficar tranquilo. Vai correr tudo bem.
Shino, sentado sobre a cama, observou enquanto Kiba gesticulava e andava de um lado para o outro, no quarto em que dividiam.
— Mamãe diz que a melhor forma de conquistar alguém é pela barriga e ela adora comida estrangeira. Shino cozinha bem, ela vai te aceitar! Acredite.
O outro balançou a cabeça, sem estar realmente nervoso. Sentia um pouco de ansiedade? Com certeza. Mas a estoicidade era marca registrada de seu clã. Não seria um verdadeiro Aburame se as emoções dominassem suas ações e controlassem seus pensamentos. Talvez por isso admirasse tanto Kiba, a ponto de desenvolver um forte sentimento romântico pelo garoto. Ele era pura emoção, era intenso e sincero em tudo o que dizia e fazia, exposto como um livro aberto, simples de ler, encantador.
— Eu estou calmo.
— Não entendo você! Se fosse eu já estaria surtando.
— Você está surtando, Kiba.
— Bem, alguém desse casal tem que ser normal, né? — ele resmungou, parando de dar voltas no quarto e cruzando os braços, irritado.
Shino sorriu. Ele levantou-se da cama e aproximou-se de Kiba, que apenas acompanhou o movimento com os olhos. Com cuidado, Shino arrumou-lhe a gola da camisa social que entortara na andança sem rumo.
— Sabe por que eu estou tão calmo? — perguntou. A resposta de Kiba foi balançar a cabeça de um lado para o outro, com o coração estranhamente acelerado — Porque toda mãe quer o melhor para o seu filho. E eu quero o melhor para você. Inuzuka san vai perceber isso muito rápido. Podemos ir?
Kiba piscou algumas vezes, assistindo enquanto Shino se afastava, os olhos cravados nas costas largas do rapaz. Era a primeira vez, desde que a situação entre eles mudara de amizade para futuro vínculo, que Shino invadia seu espaço pessoal, ainda que para ajeitar-lhe uma parte da roupa. O coração estava disparado, a boca seca e os pensamentos tornaram-se confusos. Não fora uma invasão ofensiva e assustadora. Fora um gesto tão íntimo e pessoal, um cuidado sutil, como se Shino quisesse mostrar com gestos, a preocupação com seu bem estar que permeara as palavras tranquilizadoras. Diferente do cuidado materno que Tsume oferecia, algo um tanto ríspido e selvagem, condizente com a personalidade pouco afável; ato que deixou Kiba um tanto emocionado. Nunca experimentara tais delicadezas, nem sabia que eram possíveis entre duas pessoas!
— Kiba...? Vamos? — Shino perguntou, parado na porta do quarto.
O chamado trouxe o garoto de volta a realidade. Deu-se conta de que estivera viajando em pensamentos, com os dedos tocando de leve o tecido da gola da blusa. Sentiu o rosto esquentar, mas tentou em vão disfarçar.
— C-claro!
Tratou de seguir o outro, para que terminassem de pegar as coisas e sair de casa. A ocasião os obrigara se vestir com menos informalidade do que de costume. Por isso os trajes sociais. Além disso, não era apenas um acordo de negócios, mas a celebração de um vínculo que uniria duas famílias e daria início a uma nova, ainda que por um período temporário.
O percurso começou em silêncio, fato mudado a medida que se chegavam a antiga casa de Kiba. O nervosismo foi voltando aos poucos. Sem que se desse conta, o garoto recomeçou a matracar sobre vários assuntos, aleatoriamente, até mesmo tópicos sem sentido.
Shino alimentou o diálogo do seu jeito de sempre. Um monossílabo aqui e ali. Uma frase mais longa acolá. Divertia-se assistindo Kiba extravasar a ansiedade com tanta peculiaridade.
A noite estava agradável e fresca. Algumas pessoas aproveitavam-se disso para passear e descansar dos trabalhos do longo dia. Depois da guerra aprenderam a valorizar momentos como aquele, apenas saborear a paz em Konoha.
Não encontraram com nenhum conhecido. Logo chegavam a residência Inuzuka. Kiba nem se fez de rogado. Foi abrindo a porta e entrando, porém hesitou no gekkan, sem saber como se anunciaria. Como visita ou como morador?
Dúvida que não durou muito. A casa de sua mãe sempre seria o seu lar.
— Tadaima!! — disse alto.
— ‘Kaeri — a resposta não demorou para ser ouvida, na verdade, veio tão rápido que deu a impressão de que a mulher já estava na espera — Kiba! — saudou descendo a escada de ligação com o segundo andar.
— Mamãe! — Kiba tirou os sapados e calçou o antigo surippa. Emprestou um par para Shino, mesmo sabendo que ficaria um tanto pequeno. Shino não apenas era mais alto e mais forte, ele também tinha pés maiores — Chegamos.
— Boa noite — Shino cumprimentou com polidez.
— Boa noite — Tsume devolveu no mesmo tom, não se impedindo de dar uma boa olhada no rapaz, de cima a baixo.
— Espero que não se importe — Aburame estendeu o embrulho que trouxera como cortesia.
— Domo — a mulher aceitou a oferta, aproveitando para farejar o ar de leve e tentar descobrir do que se tratava. Graças a dica de Kiba, Shino sabia que a futura sogra temporária gostava de iguarias estrangeiras e preferia alimentos salgados a doces — Entrem de uma vez. Kiba, cadê sua educação?
— Ah, vem Shino. Fica a vontade!
Os dois entraram na casa e se acomodaram na sala de estar. O ambiente era rústico, Tsume preferia móveis antigos feitos artesanalmente, decoração que dava um ar exótico ao ambiente. O ar de limpeza e organização era impressionante para a família de alguém como Kiba, que adorava rolar pelo chão e pisar descalço na lama entre outras traquinagens.
Não era a primeira vez que Shino ia ao lar Inuzuka. Ambos eram amigos desde a infância. Apenas as condições do atual encontro diferiam das visitas anteriores.
Segundos depois Tsume retornou à sala e acomodou-se em uma das poltronas, de frente para Shino e Kiba, sentados lado a lado. A mulher cruzou os braços e respirou fundo.
— De todos os futuros que eu imaginei pro meu filhote, esse não é um deles. Se bem que sempre achei esquisito o jeito que olhava pro meu menino — lançou para Shino, sem se preocupar com cortesia — Também farejava uns hormônios estranhos, mas Alpha na adolescência é complicado, então deixei pra lá...
— Mamãe! — Kiba resmungou. Não entendeu bem como sua mãe podia desconfiar dos olhares de Shino se o cara vivia se escondendo atrás dos óculos de sol. Intuição materna, talvez?
Tsume enviou uma mirada de alerta para o filho, que apenas se encolheu um pouco.
— Estamos aqui agora por causa da lei. Então não é simplesmente um cortejo tradicional. Vocês não são as únicas vítimas na história, apesar disso espero que enfrentem a situação de cabeça erguida — ela continuou dizendo — Uma pessoa obrigada a fazer algo em razão da lei nem sempre fica feliz. Por isso não vou exigir que faça meu filho feliz. Mas você, Aburame, escolheu esse caminho. O mínimo que exijo é que trate Kiba bem e com respeito. Porque eu sei que ele vai te respeitar do jeito que eu ensinei.
Kiba engoliu em seco com as palavras ditas de forma clara, direta e sem floreios. Grande parte do jeito bravio e honesto de Kiba viera pelo exemplo da mãe. Shino sabia disso. Assim como sabia de todas as verdades imbuídas no pequeno discurso.
Tsume, como mãe, deixava claro que queria o melhor para o filhote. Mas mantinha o pé na realidade. A mulher não acreditava em contos de fada, exigia o mínimo para o bem estar de Kiba e a base disso era a questão do respeito. Já perdera uma criança na guerra, sua primogênita. Não estava disposta a ver o filho que lhe restara sofrendo nas mãos de um Alpha por qualquer motivo que fosse. Pelo que conhecia do clã Aburame, pelo desempenho de seus shifters na guerra, sabia que eram pessoas de valor e bom caráter. Só queria deixar tudo às claras, porque ela era assim.
Em seguida Tsume recostou-se no estofado e sorriu um tanto afável.
— É cedo, muito cedo. Mas ser avó não é uma ideia assim tão ruim — ela riu ao notar que seu filho enrubescia e até o outro rapaz, muito controlado até então, ficava igualmente sem jeito. Naquele momento não havia óculos para esconder-lhe o desconforto — Hana ficaria feliz.
Ouvir o nome da irmã trouxe certa emoção a Kiba. Ele sentiu a garganta apertar e os olhos arderem de leve. Hana e ele sempre tiveram um laço muito forte, um relacionamento de irmãos que se amam, se apoiam e se ajudam. Sentia tanta falta dela...
Antes que a sensação aumentasse, Shino aproveitou a deixa.
— Tenho sentimentos por Kiba, não vou negar. Aconteceu antes mesmo da guerra. Não tenho intenção nenhuma de obrigá-lo a nada que não esteja previsto em lei — ele tentou passar confiança na voz — Também não vou negar que a chance de ter um laço com ele na forma de um filho é uma grande felicidade. Só não é maior do que a esperança de que os sentimentos dele mudem um dia.
— Shino... — o garoto sussurrou. Como aquele cara falava coisas tão embaraçosas de um jeito tão tranquilo?!!
— Então você pretende propor a continuidade do vínculo ao final da previsão da lei? — Tsume já desconfiava daquilo.
— Sim. Minha intenção é manter uma família com Kiba. Mas isso é algo pra se considerar no futuro. No momento ele não corresponde meus sentimentos e eu não vou forçar o que sinto.
Tsume sorriu torto. Pelo jeito encontrara um oponente a altura. Não no sentido de competição, mas no sentido de honestidade e de falar diretamente, sem rodeios ou floreios. Porém, diferente dela própria, de atitudes mais selvagens e intempestivas; o rapaz Aburame agia de forma controlada, comedida, quase fria. Oposto a seu menino em muitos sentidos. Contrários. Equilibrados. Harmônicos. Como Alpha e Ômega.
— Gostei de você, moleque. Tem um voto de confiança — o sorriso tornou-se maior — Sinta-se bem-vindo na minha família, como um filho. E nunca se esqueça: se fizer meu bebê sofrer, eu trituro as suas bolas.
— Mamãe! — Kiba soou horrorizado, ainda que feliz pelo cuidado.
— Sim, senhora — Shino assentiu, tranquilo. Um tiquinho pálido apenas, sem nenhuma mudança na postura confiante a não ser a gotinha fria de suor que escorreu pela fronte.
— Então vamos comer! Aquela torta de carne parece uma delícia!
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