A Lei do Amor
9 Capítulo 09
Notas iniciais

Capítulo 09
O sábado chegou tão rápido que Kiba sentiu como se tivesse atravessado algum tipo de portal, mal se dando conta da passagem da quinta e da sexta-feira. A não ser pela manhã de sexta, período em que fizeram uma série de exames médicos de praxe, para verificar a saúde de ambos.
Aquele era o dia de, finalmente, lançarem o vínculo temporário e cumprirem parte do requisito da lei. O momento da audiência com o Hokage aconteceria às seis horas da tarde.
Quando adentraram o prédio do Conselho de Konoha, encontraram um casal de Betas no hall da recepção, aguardando a vez deles. Sentaram-se num espaço vago das poltronas e esperaram.
— Deve ser bem rápido — Kiba resmungou pensativo, assim que os Betas foram chamados. Retorcia as mãos e balançava uma das pernas, sem conseguir parar quieto, já que em seguida seria a vez deles.
— Questão de mera formalidade. Por isso não demora.
— Eu sei. Não é como lançar um vínculo definitivo, é só pra eles comprovarem que a gente tá cumprindo a lei... to falando besteiras — desdenhou com um gesto e levou o polegar aos lábios para começar a mordiscar a pele do cantinho.
Antes que conseguisse, Shino agiu como o verdadeiro ninja que era, segurando a mão de Kiba e envolvendo-a com a sua.
— Não são besteiras. É um dia importante para nós dois — garantiu antes de respirar fundo.
Kiba olhou para as mãos de ambos, impressionado por sentir o contato frio, ou melhor, gelado! A compreensão veio toda de uma vez: Shino não demostrava, mas estava tão nervoso quanto Kiba! Tal percepção o ajudou a relaxar um pouco. Só um pouco, até dar-se conta de que estavam de mãos dadas! De mãos dadas tipo namorados e... wow! O rosto de Kiba esquentou tanto, tanto, tanto que ele temeu parecer um tomate maduro. As marcas do Clã Inuzuka desapareceram, obliteradas pelo rubor que cobriu-lhe as bochechas. Shino notou o desconforto e fez menção de abrir os dedos e libertá-lo. Para surpresa de ambos (principalmente do próprio Kiba), o garoto impediu o gesto, mantendo a mão de Aburame presa a sua, assustado em perder o conforto que o contato lhe trouxera.
— V-você tem razão, Shino — ele sussurrou olhando para pontos aleatórios no hall — O dia é importante.
— Ainda não é tarde para mudar de ideia — Shino brincou meio falando a sério.
— Você também pode desistir — Kiba devolveu na mesma moeda. Recebeu um aperto surpreendentemente carinhoso na mão, resposta muda que disparou-lhe o coração.
Esperaram mais um tempo. Até que passos ecoaram, provavelmente do casal que entrara antes e retornava. Envergonhado pelo jeito que estavam, porém recusando soltar as mãos, Kiba apenas inclinou-se um pouco e escondeu o rosto no ombro de Shino, deixando que ele lidasse com qualquer situação que viesse.
O casal passou por eles e partiu, sem dar grande importância a cena, mergulhados no que acabaram de fazer.
— Já foram — Shino informou.
— Aff — Kiba suspirou — Ser um casal dá muito trabalho!!
Shino ergueu as sobrancelhas. O nome dos Clãs Aburame e Inuzuka foram chamados, isso lhe impediu de rebater a afirmativa quase absurda. Foi o momento que Kiba aceitou libertarem o contato, não acreditando na falta que sentiu dos dedos grandes e fortes envolvendo os seus.
A sala do Hokage continuava basicamente do mesmo jeito com que foram recebidos para saber da Marriage Law. Com o velho homem sentado atrás da escrivaninha a recebê-los com um sorriso cordial no rosto.
— Sejam bem vindos — e indicou que se sentassem.
— Olá — Kiba cumprimentou.
— Boa tarde — Shino o imitou.
— Olá, Inuzuka kun. Boa tarde, Aburame kun. Estamos aqui hoje para cumprir um mero ato de ofício em virtude da lei — ele remexeu na pilha de papeis e puxou um pergaminho — Existem duas formas de lançar um vínculo: a natural e a convencional. O que vamos fazer aqui hoje é o método que visa conveniência para a raça shifter. Justamente por isso cria laços mais fracos em razão da formalidade. E também é mais fácil de se quebrar, quando a conveniência chegar ao fim. Compreendem?
Tanto Shino quanto Kiba concordaram com um aceno de cabeça.
— Ótimo. Aqui está o contrato nupcial com todos os termos e requisitos a serem cumpridos. Gostaria que lessem — estendeu o pergaminho para os garotos. Kiba pegou o papel e o posicionou de modo que Shino também pudesse ler.
Em resumo da ópera, falava de tudo que o Hokage já tinha explicado antes. A questão do tempo mínimo de um ano, prorrogável por mais um ano supervisionado. A imposição de gerar um filhote, as penas para qualquer tentativa de burlar as regras e descumprir a lei. Finalizava com uma lista exemplificativa de possibilidades para quebrar o contrato antes do tempo mínimo. Tudo escrito em linguagem formal, mas não rebuscada. De modo que entenderam fácil os termos usados.
— Alguma dúvida? — ouvindo a pergunta do Hokage, Kiba levantou a mão — Pois não, Inuzuka kun?
— O que significa “incompatibilidade física com resquícios mensuráveis através de exames especializados”? Tá como possibilidade de quebrar o contrato e é a única coisa que eu não entendi direito — sentiu um friozinho chato na boca do estomago, só de pensar que aquilo podia separá-lo de Shino tão já — Quer dizer... eu não to procurando desculpas pra fugir da lei, nem insinuando nada. Eu só.. bem... tipo... se a gente for incompatível fisicamente eu vou ter que me vincular a outro? — a possibilidade o deixou um tanto quanto desesperado, a ponto de confundir-se todo e soar pouco coerente.
— Tudo bem, Inuzuka kun. Um vínculo, ainda que temporário, é algo sério. Não pode assiná-lo com dúvidas sobre o que quer que seja. Confie em mim, não creio que vocês vão passar por qualquer tipo de incompatibilidade física.
— Mas do que se trata o termo? — Shino indagou franzindo as sobrancelhas. Pareceu-lhe nítida a tentativa do Hokage de fugir a resposta. Sentiu-se curioso a respeito.
O velho homem respirou muito fundo, recostando-se contra a cadeira de alto espaldar.
— Alguns shifters tentam dominar o parceiro ou parceira usando meios pouco convencionais. A lei não previa proteção contra violência física. Considero esse inciso uma grande vitória.
Fazia muito tempo que não clamavam a lei para o bem da espécie. Mas o número de relatos sobre agressão entre casais obrigados a se unir era assustadoramente alto. Esperava que tais estatísticas não se repetissem com a geração atual.
— E não era melhor colocar as palavras verdadeiras sem tentar deixar bonito? — Shino questionou. O termo usado soava algo muito diferente de “você não precisa ficar com alguém que te bate”.
Kiba ouviu a questão, no fundo, um bocado aliviado. Com toda a certeza do mundo, pelo que conhecia do futuro marido provisório, nunca sofreriam daquele tipo de incompatibilidade física.
— De longe seria a melhor opção, jovem Aburame kun. Luto todos os dias contra os legisladores do conselho, homens apegados a tradições arcaicas e injustas. A nossa sociedade está evoluindo, mas a passos muito lentos. Temos uma lei ideal? Não. Precisamos mudá-la? Sim. Com tenacidade e persistência. O inciso incluído camufla algo horrível com palavras bonitas, mas nós sabemos a verdade por trás dos termos. E nenhum shifter dessa geração vai sofrer em nome do bem social. Isso eu prometo.
Shino balançou a cabeça indicando que aceitava a promessa e o pequeno discurso do Hokage.
— E agora? — Kiba perguntou, meio sufocado pelo clima estranho que se formou.
— Aceitam as imposições da Marriage Law? — ambos os garotos anuíram em um aceno de cabeça — Então coloquem o polegar sobre o pergaminho, onde está escrito os nomes de vocês.
Shino obedeceu, pressionando o dedo na ponta inferior esquerda. Kiba o imitou, descansando o dedo sobre o canto inferior direito. Em segundos sentiram a pele esquentar de leve, e uma dorzinha inesperada os pegou de surpresa. Afastaram a mão, descobrindo que receberam um corte e sangue fluíra para o pergaminho, marcando as digitais em vermelho vivo.
— É um jutsu de compromisso. Parabéns, vocês estão oficialmente vinculados. Quando cumprirem a lei, o pergaminho será queimado e vocês estarão livres das obrigações.
Os garotos trocaram um olhar, sem saber como lidar com a simplicidade do ato. Esperavam algo muito distinto. Que sensação engraçada!
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— Não me sinto nadinha de nada diferente — Kiba ia dizendo enquanto caminhavam pela rua, observava as mãos com atenção, não vendo nada estranho a não ser o polegar vermelho e um pouco inchado — E você? Se sente vinculado? Minha mãe vivia dizendo como fez um vínculo incrível com meu pai e blá, blá, blá. Cadê que não to sentindo? Será por causa de ser provisório? Eu tava com umas expectativas engraçadas. Você não? Sei lá. Me sinto meio bobo.
As palavras vieram em uma enxurrada quase sem pausa para respirar ou para ouvir respostas de Shino. O rapaz não deu grande importância a tagarelice, algo a que já estava acostumado.
Para comemorar a nova condição, passaram em um restaurante e fizeram uma deliciosa refeição. Como o lugar estava cheio, demoraram um pouco para conseguir a mesa. Era perto das nove horas quando saíram de lá.
Por todo o tempo do jantar e por todo o caminho de volta ao lar, Inuzuka Kiba tagarelou sobre sua decepção em não ter as expectativas imaginárias atendidas.
Só parou de falar quando chegou em casa e foi tomar um banho para extravasar a frustração. Assim que ele liberou o banheiro, Shino também foi lavar-se e preparar-se para a noite. Depois daquele longo e tenso dia, seu corpo reclamava algum descanso.
Vestindo apenas uma calça de moletom, com a toalha jogada displicente sobre o ombro desnudo, ele foi para o quarto. Geralmente tomava um gole de sake ou sentava-se na sacada, admirando a noite de modo a dar tempo para que Kiba se ajeitasse na cama e adormecesse antes, rotina a que ambos estavam acostumados.
Qual foi sua surpresa ao entrar no aposento e encontrar Kiba sentado na cama. Uma das pernas balançava, traindo-lhe o nervosismo. Assim que notou Shino parado na porta, o garoto acertou dois tapinhas no joelho, ganhando um ar descontraído que não enganou Shino nem por um segundo.
— Então, né...? Estamos vinculados agora, hehe. Você quer... você vai... essa noite... nós... nós... — a medida que as palavras saiam atropeladas, e o rubor cobria-lhe as faces, Kiba desistiu da pose displicente, mostrando como estava assustado.
Shino entreabriu os lábios confuso com a atitude inexplicável. De onde saíra todo aquele desespero?
— Kiba...?
— Porra, Shino. Não se faça de besta! V-você sabe! Aquilo que os... casais... hum... fazem! Maldito.
— Sexo? Você tá falando de sexo?
Pois a palavra teve um efeito mágico sobre Kiba. Em segundos grossas lágrimas escorreram dos olhos enormes na face pálida, obrigando-o a cobri-los com uma mão, numa fraca tentativa de não se sentir tão exposto.
— Não fale assim... tão descarado! É... constrangedor!
Só então toda a tagarelice fez sentido. Claro, Shino sabia que ele estava incomodado com alguma coisa. Só não fazia ideia sobre o quê!! Respirou fundo tentando pensar em como resolver a situação.
— Kiba... — chegou a dar um passo a frente, mas paralisou-se quando o outro descobriu os olhos e o mirou.
— Tudo bem! Eu sabia disso... só... tá tudo bem... vamos... somos vinculados agora e... é normal. Podemos apagar a luz e... caralho... me desculpa, eu to nervoso.
— Kiba! — Shino usou seu tom mais firme, aquele que usava quando estavam em uma missão e Kiba parecia prestes a se precipitar e fazer uma besteira — Fazermos sexo essa noite sequer passou pela minha cabeça.
— Não...? — ele indagou em um fio de voz — Mas não é o normal?
— Não é normal fazer sexo com alguém que sente medo. Ou desconforto. Eu nunca pediria algo assim, sei como se sente — Shino foi explicando e aproximando-se da cama para sentar-se ao lado do Ômega — Vamos fazer sexo sim, mas quando for o momento certo pra nós dois.
O tom paciente e o jeito calmo trouxeram uma nova enxurrada de lagrimas, que deslizaram pela face tracejando as marcas do clã Inuzuka.
— Desculpa! Eu só... só to nervoso! Nunca pensei em fazer... isso... com outro cara e...
Nesse ponto Shino passou o braço pelos ombros de Kiba e o puxou de encontro ao peito.
— Sou eu quem tem que pedir seu perdão, Kiba. Nunca pensei que se sentiria assim tão acuado. Vi uma chance de me aproximar de você, foi a decisão mais egoísta que já tomei na vida — ele disse a um folego só — Não quero que sofra e que faça nada doloroso demais. Posso pedir a anulação do vínculo, se for impossível para você continuarmos a nossa união.
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