Notas iniciais
Então é isso. O último! Boa leitura :D

O dia oito de abril chegou com uma rapidez impressionante. Foi o dia em que Inuzuka Kiba deu entrada no hospital para as últimas verificações de praxe e se internar para o parto na manhã do dia seguinte.

Ele chegou com Shino que carregava uma maletinha com as roupinhas do bebê e foi recebido com euforia. Yamamoto san o abraçou carinhosa, apesar do jeito abrutalhado e prometeu sobremesa extra enquanto estivesse ali.

Tsunade estava radiante. Tão logo Kiba se acomodou no quarto ela veio impávida, mostrar o resultado dos exames. A cada um deles, quase brilhava de satisfação.

— Excelente, Kiba kun — ela falou ao final — Não poderíamos ter resultados melhores do que esses. O diretor permitiu que Aburame kun passe a noite aqui com você.

— Obrigado — Shino agradeceu a gentileza.

— Hn. Já te disse isso, Kiba kun. Vou repetir para tirar qualquer dúvida: o parto cesariano é um procedimento simples, dura em média uma hora. Você vai receber anestesia, mas estará consciente o tempo todo. A recuperação é um pouco mais lenta, falamos de uma cirurgia invasiva. Manterei você internado por dois dias e depois terá alta! Alguma dúvida?

— Nenhuma — Kiba respondeu com um suspiro.

— Eu estarei de plantão essa noite para acompanhá-los, qualquer coisa é só me chamar.

Após essa passagem rápida, Kiba foi sentar-se na cama, enquanto Shino acomodou-se na cadeira perto da janela.

— Esses meses voaram, não acha? — o garoto perguntou acariciando a barriga — Vou sentir falta disso...

— Hn.

— Você trouxe a listinha com os nomes né? A gente não conseguiu terminar de riscar todos, pensei em escrever em um papelzinho e fazer sorteio. Deixar a sorte decidir. Melhor não, né? Essa é a primeira decisão importante na vida da nossa filha, não podemos decepcionar.

Shino apenas ouviu a falação e a aceitou como camuflagem para o nervosismo que seu companheiro sentia e palavra alguma conseguia esconder do vínculo que os unia. Assim como sabia que sua própria ansiedade alcançava Kiba criando uma espécie de círculo vicioso. Sensações aquém do controle dos dois jovens, diante do importante acontecimento.

A certo ponto, Tsume conseguiu acesso ao quarto para visitar o filho.

— Mamãe! Hoje o Shino lembrou de te avisar, né?

— É — ela respondeu dando uma olhadinha torta para o outro garoto — Seu Alpha tá melhorando. Arrumou as coisas direito? Não ficou faltando nada? — ela parou ao lado da cama com os braços cruzados, analítica.

— Sim, o mais importante são as roupinhas, as fraldas, nossos documentos. A gente trouxe tudo pra nossa filhinha.

— Kiba... — Tsume descruzou os braços e sentou-se na beirinha do leito.

— Que foi?

— Eu sei que sua intuição é forte, mas abra o coração pra qualquer hipótese. Pode nascer um menino — ela conhecia seu filho como ninguém. Kiba botava ideias na cabeça e considerava verdades absolutas. Quando a situação não seguia o esperado era o que mais se magoava e sofria, por culpa da própria teimosia.

Mas Kiba riu, descartando a sugestão.

— Vocês não sentem o que eu sinto. Eu sei que é uma menina — deu de ombros e riu — Se preparem pra me ver acertar dessa vez.

Tsume trocou um breve olhar com Shino e não insistiu. Também por conhecer seu moleque tão bem confiava que ele não ficaria tão decepcionado assim, caso ganhasse um garoto. O amaria do mesmo jeito.

Pode ficar pouco tempo por ali, porque as regras rígidas do hospital proibiam a visita de mais de uma pessoa por turno. Já abriam exceção para que Shino permanecesse em tempo integral, na posição de companheiro e pai.

— Volto amanhã pela manhã — Tsume falou em despedida.

— Até amanhã.

— Vai correr tudo bem, garoto. Não fique tão nervoso — ela se permitiu abraçá-lo, num gesto atípico. Terminou passando a mão com carinho pela barriga de Kiba, pela primeira e única vez — Me abençoe com essa menina linda! E que ela venha com a sua cara, porque de sem sal já basta a fuça do Alpha ali.

Kiba riu da alfinetada, grato pela tentativa de sua mãe de animá-lo.

— Sim, senhora — assistiu enquanto ela saiu do quarto, e então se virou para Shino — Mamãe tem um jeito engraçado de demonstrar preocupação, mas já me acostumei.

— Eu não.

— Você terá tempo pra isso, prometo. Eu nem vou dormir essa noite. To muito ansioso. Você não tá? Claro que tá, já senti pelo vínculo. Vai correr tudo bem. É o que está todo mundo dizendo. Vai dar certo, não vai, Shino?

O Alpha levantou-se da cadeira e foi abraçar seu companheiro que aproveitou o gesto para começar a chorar baixinho.

— Vai dar tudo certo.

— Minha cabeça sabe disso, mas meu coração tem um pouco de medo. É normal, né? Ficar com medo? Não é tipo intuição nem nada... mas a gente... só quero que nosso bebê nasça direitinho, seguro!

Shino o abraçou com um pouco mais de força, apenas permitindo que ele colocasse para fora todas as fantasias ruins que assombravam sua mente. Amaldiçoou Ino e o legado que lhes deixara, transformando com seu plano algo que deveria ser natural e lindo em um momento de receio de passar pela perda de um bebê pela segunda vez. Medo ilógico, pois tinham garantias absolutas de que tudo daria certo, embora não infundado. O casal já provara na pele um sofrimento sem igual.

Ignorando todas as regras do hospital, o Alpha ajeitou-se no leito e trouxe Kiba para deitar-se ao seu lado, do jeito que a barriga permitia e fosse confortável, quietamente colhendo todas as lágrimas que regavam seu ombro. Palavras não adiantariam de nada, diferente do consolo que tentava fazer fluir através do vinculo.

Funcionou algum tempo depois, quando Kiba se acalmou.

— Dessa vez meu nariz não escorreu na sua blusa. Funguei bastante.

— Meu ombro está a sua disposição sempre que quiser.

Kiba ia agradecer quando a porta se abriu e um funcionário entrou com o jantar dos pacientes. Era um senhor de meia idade e deu um sermão de quase quinze minutos sobre acompanhantes se deitarem no leito dos pacientes, envergonhando tanto Shino quanto Kiba. Antes de sair, entretanto, entregou um potinho extra de pudim, seguindo orientações da colega Yamamoto san.

A refeição elevou ainda mais o animo de Kiba. Comer é o melhor remédio em (quase) todas as ocasiões. Era a última que faria, porque o parto exigia um jejum mínimo de oito horas antes do procedimento.

Logo depois do jantar, enquanto Kiba estava no banheiro se ajeitando para dormir, Sakura se esgueirou pela porta do quarto. Ela tinha uma aparência muito melhor, seu corpo voltara quase ao normal de antes da gestação, com exceção dos seios que estavam maiores.

— Yo, Shino Kun — ela acenou para o Alpha.

— Olá.

— Consegui escapar do meu quarto. Já tive alta hospitalar, mas preciso ficar aqui até Yume completar o tempo certo.

— Ela está bem?

— Se recuperando rápido! Obrigada.

— Ee!! Sakura? — Kiba voltou para o quarto e surpreendeu a amiga.

— Yo, cara de cachorro — ela notou os olhos avermelhados, mantendo discrição e não comentando sobre eles — Vim desejar boa sorte amanhã! Não precisa ficar assustado, cesariana é uma prática normal até mesmo entre shifters fêmeas.

— Obrigado — Kiba sentou-se na cama — Eu queria não ficar nervoso, mas não consigo controlar.

— Eu sabia, você é muito passional. Isso não é ruim, só devia entregar a preocupação pro seu companheiro e ir pra sala de operação de coração leve.

— Viu, marido? Você vai ficar responsável pelos meus medos!! — o garoto gracejou.

Shino ergueu as sobrancelhas. Kiba nem precisava pedir uma coisa dessas. Era o que pretendia fazer naturalmente.

— Ne — Sakura falou — Nem todos os Ômegas macho desenvolvem as glândulas mamarias para alimentar o bebê. Se for o seu caso, eu ficaria muito feliz em dar de mamar para o seu filhote.

— Obrigado — Kiba agradeceu com sinceridade, tentando disfarçar o embaraço. Alguns assuntos ainda eram complicados para ele e seu jeito meio inocente.

Sakura ficou algum tempo no quarto, saindo apenas para evitar que algum enfermeiro a flagrasse ali. Desejou boa noite ao casal apesar de intuir que seria difícil para ambos adormecer. E Kiba realmente demorou para dormir, mas o cansaço venceu a ansiedade e o tornou sonolento.

— Você deve saber disso já, mas nesses meses teve hora que... caralho — foi falando baixinho — Queria que esse dia chegasse logo...

Shino percebeu a hora em que ele deslizou para um sono um tanto agitado, talvez povoado de sonhos não muito agradáveis. O Alpha não se permitiu cair no sono, ficando a noite toda como um guardião, protegendo o que de mais preciso tinha na vida.

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Por volta de nove horas da manhã a equipe responsável pelo parto veio buscar Kiba para levá-lo para a sala de operação, onde Tsunade já cuidava dos instrumentos e instruções.

— Então é isso, marido. A gente se vê em breve — Kiba gracejou enérgico. Não enganou Shino em momento algum — Não fique muito preocupado.

Shino aproximou-se para ajudá-lo a subir na maca. Sentiu que a mão de Kiba tremulava e suava frio.

— Amo você — falou baixinho, na certeza de que o Ômega escutaria.

Kiba apenas balançou a cabeça, com os olhos marejados e a garganta apertada. Não era covarde, mas da última vez em que estivera na sala de operações, saíra de lá sem um dos bebês. Era impossível não ficar assustado. Shino assistiu em silêncio, sem poder fazer mais nada para aliviar tais medos e anseios.

Contendo a própria angustia, Shino saiu do quarto e foi para a sala de espera, imaginando que encontraria Tsume por lá. E encontrou, embora a mulher não estivesse sozinha. Naruto, Sasuke, Hinata, Chouji, Rock Lee e o gentil casal Shiroyama estavam por ali também, para lhes dar apoio naquele instante tão importante.

— Vai dar tudo certo, Shino kun — Hinata falou baixinho, sentada em uma poltrona. A barriga estava grande, arredondada. Chouji, parado ao lado dela, devorava um saquinho de petiscos.

Tsume, mais afastada, somou encorajamento de seu jeito peculiar. Com um aceno de cabeça e uma expressão selvagem no rosto, que serviu para lembrar Shino de como seu pequeno Ômega era bravio e de como já superara uma situação que parecia perdida. Se havia alguém naquele mundo capaz de lutar até o fim, esse alguém era Inuzuka Kiba.

— É agora, hein, Shino — Naruto acertou um tapa sonoro nas costas do rapaz — Acabaram-se as noites de gandaia — e gargalhou.

Apesar da face séria, tomada de indiferença e da falta de resposta, Shino estava grato pela presença dos amigos.

—--

Quase duas horas depois, Tsunade apareceu no final do corredor e acenou chamando por Shino. O rapaz olhou ao redor, buscando um derradeiro apoio na figura daqueles que o acompanhavam e seguiu na direção da médica.

— Demoramos um pouco mais, grande parte do inchaço na barriga de Kiba kun era por causa da retenção de líquidos, nesse caso temos que drenar tudo antes de suturar — foi explicando — O procedimento foi um sucesso, ambos estão muito bem! Dei tempo para nosso garoto se recuperar da anestesia, antes de chamar você. Espero que me perdoe por isso.

— Hn — Shino não estava no humor para bate-papo, preferindo ouvir informações a respeito de seu companheiro e do bebê.

Tsunade parou em frente uma porta e fez um gesto de mão.

— Essa é a sala do pós-operatório. Kiba kun ficará um pouco aqui, por simples precaução. É praxe para todos que passam pela cesariana. Então ele irá para o quarto e nós liberamos as visitas. Agora vá lá, sua família está esperando.

Shino engoliu em seco e obedeceu. Entrou no quarto e a primeira coisa que notou foi Kiba recostado no leito, com uma aparência cansada, mas um sorriso imenso nos lábios, olhando encantado para uma trouxinha nos seus braços. O barrigão havia sumido.

— Yo — falou baixinho.

Kiba ergueu o rosto e o sorriso aumentou.

— Marido! Venha cá ver!!

A frase tirou Shino da letargia. Ele avançou até sentar-se na beira da cama. Kiba lhe estendeu a bolinha de pano, e ele aceitou pegar com certa relutância. Parecia algo tão frágil!

— Conheça sua filha — Kiba falou cheio de orgulho — Agora são dois Alphas na minha vida! To lascado!!

— Você sempre soube — ele deu o braço a torcer, encantado admirando a filhotinha em seus braços. A menininha possuía abundantes cabelos negros e bochechas bem gordinhas. Os olhos fechados deixavam claro que ela ainda estava alheia ao novo mundo ao seu redor, a espera de ser desbravado — Ela é perfeita — Shino falou emocionado.

— Masako. O que acha?

— Não estava na lista — Shino constatou o óbvio, sem desviar os olhos da filha.

Kiba riu baixinho e recostou-se melhor contra o leito. Começava a sentir o desconforto e as dores abdominais, conquanto soubesse que era normal. Tsunade explicara bem.

— Não estava na lista, mas eu olhei para ela e o nome veio por instinto.

— É um lindo nome.

— Aburame Masako — Kiba falou baixinho — Soa muito bem!!

Então Shino estendeu um pouco os braços, deixando a filhinha ao alcance de seu companheiro.

— Ela também é uma Inuzuka. Deixe isso claro.

Kiba balançou a cabeça concordando. Tocou a bochecha da nenê e instantes depois manipulou o Chacra dela, fraquinho ainda, para desenhar duas marcas vermelhas em seu rosto. Até que Masako dominasse a própria energia, Kiba era o responsável por manter os triângulos característicos de seu clã.

— Bem-vinda a nossa família! — ele gracejou. Felicidade pura vibrou pelo vínculo e encontrou reflexo em Shino.

— Obrigado — foi tudo o que pode dizer.

Kiba sorriu de leve, emocionado por ver as lágrimas deslizarem pelo rosto daquele Alpha. Até então o vira chorar apenas em momentos de sofrimento. Era a segunda vez que presenciava seu pranto de alegria, graças ao sopro de esperança que carregava nos braços.

— Não agradeça a mim. Agradeça à lei.

Se não fosse a Marriage Law, talvez nunca ficassem juntos. A união feita por obrigação os guiara através de desencontros e desilusões, decepções e a mais dolorosa traição. Mas também os levara por um caminho ladeado de alegrias e vitórias. Iluminado por vida nova que vinha acrescer a família que ambos começaram.

Abençoada Lei do Amor.

Notas finais
Masako: https://i.imgur.com/4Vv1JRC.png —--- Sábado tem o epílogo! Não perca :D