Notas iniciais
Olá! Hoje não perdi a hora. O feriado da semana passada me pegou de surpresa. Eu estava lá no sol, lagarteando, com minha skolzinha gelada na mão quando... recebo um alerta no face... ué... como assim?! xD Hoje não foi preciso xD Quero mandar um abraço especial para Lys Uchiha, muito obrigada pela recomendação! Fiquei super feliz ♥ Boa leitura!

Se perguntassem, Shino não saberia dizer qual foi a festa maior: a que Akamaru fez ao recepcionar Kiba ou Kiba ao reencontrar o amigo canino. A única certeza era de ter havido latidos, risadas, ganidos e gritinhos em quantidade suficiente para colocar aquele quase mês em dia.

— Que saudades!! — ele exclamou assim que colocou os pés no genkan e calçou o surippa de inverno — TADAIMA!

Respirou fundo, reconhecendo o cheiro do lar, com a impressão de que estava ausente dali há anos. Emoção bateu forte, mas Shino apareceu do seu lado e passou um braço por seu ombro, para puxá-lo contra o peito. Não disse nada, o vínculo era suficiente.

Depois de uns segundos, foram para o andar superior. Ele apontou o quarto de hóspedes, cheio com os presentes que haviam recebido.

— Penso que é hora de mudarmos de quarto — Shino falou — Para o quarto maior, que era do meu pai.

— Tem certeza?

— Absoluta. Então adaptamos o nosso quarto para o bebê.

Kiba ofegou, o rosto esquentou um pouco. Sem perceber, levou a mão ao ventre, em busca da pequena energia já tão valiosa. Captar aquele Chacra minúsculo era o jeito que encontrara de atestar que o filhote estava bem. Apesar desse conforto, a ideia era tão... tão... assustadora? Incrível? Complicada? Linda?! Kiba não sabia explicar bem. No fim, seus pensamentos acabavam com a conclusão chocante de “tem um bebê aqui dentro. Wow”.

— Okay. B-boa ideia.

— Vou fazer algo pra gente comer.

— E eu vou tomar um banho no nosso chuveiro delicioso, no nosso banheiro, na nossa casa. Ah, caralho, não via a hora de vir embora!

— Quer que eu encha a banheira? — Shino perguntou solícito. O coração leve de alívio, porque aquela casa já não era a mesma sem o seu companheiro. Aquelas três semanas foram sombrias e pesadas.

— Não, não. Guarda o banho na banheira pra outra ocasião.

— Precisa de ajuda com alguma coisa?

Kiba balançou a cabeça, descartando a oferta. Seu corpo estava ótimo, bem recuperado da provação. Tsunade tinha a teoria de que ser Ômega e vivenciar uma gestação, além dos cuidados médicos, claro, acelerara o processo de cura.

— Não. To bem.

Shino não insistiu. Observou enquanto Kiba subia pela escada, para só então rumar para a cozinha. Como Tsunade avisara sobre a alta no dia anterior, ele aproveitou para comprar algumas coisas e abasteceu a geladeira. Tinha uma lista pregada na porta, com a dieta inicial cheia de alimentos saudáveis. Nada que ele não estivesse acostumado a cozinhar. A lista de restrições era bem pequena. Estava incluso café em excesso, álcool, chá verde, condimentos, mariscos e maionese. Chá de camomila não estava na lista, e nem precisava estar. A médica sabia que evitariam ainda que não marcasse no papel, não havia necessidade de escrever e fazê-los lembrar sempre que fossem consultar a listinha.

Enquanto picava folhas de repolho para refogar, Shino sentiu uma onda de tristeza que o fez suspirar. De vez em quando captava a emoção, porque ainda era dureza conviver com o fato de que perderam um bebezinho. E Kiba tinha essas recaídas ocasionais. Como não sabia muito bem o que dizer, já que também lidava com o próprio sofrimento, Shino não tentava levar algum consolo. Talvez prantear a perda fosse necessário para curar as feridas de vez. A cada dia doeria menos. Aquela era a esperança que tinha.

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Kiba entrou na cozinha renovado. Trouxe consigo o cheiro gostoso de sabonete, mais um detalhe que Shino sentira falta. Os olhos estavam meio vermelhos, única coisa na figura dele que traia o choro solitário.

— O cheiro tá muito bom!! — o Ômega gracejou se referindo ao jantar.

— Concordo — Shino falava de outra coisa.

Kiba estranhou um pouco, seu companheiro não era o tipo que se gabava das coisas que fazia, nem mesmo do mais delicioso jantar. Apesar disso, não contestou. Ao invés de prolongar o assunto, foi até a geladeira. Ao lado da lista de recomendações, pregou outro papel com um imã. “Gestação não é doença. Vivencie sem medo.”, dizia na letra rebuscada de Tsunade. Claro, apesar desse conselho, ela marcara consultas preventivas semanais pelo próximo mês, só por garantia. Embaixo da frase de incentivo, Kiba fizera sete risquinhos sequenciais. O tempo de desenvolvimento do bebezinho, conforme os exames detectaram. Bem, se fosse levar ao pé da letra, Tsunade explicara que pela oitava semana o embrião virava um feto. Mas só conseguia pensar nele (ou nela) como “bebê”! Durante as orientações, a médica também falara uma série de mudanças que seu corpo sofreria, pra já ir se preparando. Dava um pouquinho de medo, não negava. Enfim, aquele era o objetivo mor da Marriage Law, não? E, a esse ponto, Kiba não se enganava mais: não agia obrigado pela lei. Talvez até começara assim, uma união por força de lei. Mas agora já não via mais as coisas de tal jeito.

— Caralho... — acabou deixando escapar ao se sentar a mesa. Shino já arrumara a louça, antes que viesse do banho.

— O que foi?

— Ah, eu só tava pensando nessa loucura toda. Quando o Hokage chamou pra conversar eu pensei que tava enrascado. E olha só quanta coisa a gente passou e quanta coisa mudou. Tenho até uma alma gêmea — estendeu a mão para roubar um rolinho primavera, porém mudou de ideia e resolveu esperar para comer junto com Shino.

— Eu me sinto muito abençoado — Shino veio trazendo a panela de arroz fumegante — Pensei que teria esses dois anos como a melhor época da minha vida... que bom que não precisa acabar.

— Que merda, Shino — Kiba tentou disfarçar o constrangimento enquanto aceitava a tchawan com arroz — Você é muito descarado!

O Alpha apenas ergueu as sobrancelhas. O que tinha de descarado na sua frase? Já estavam bem avançados no relacionamento para manter esse tipo de pudor, não?

— Itadakimasu! — Kiba exclamou antes de atacar o arroz — Huummm! Comida caseira é boa! Mas a comida caseira do Shino é a melhor! — elogiou com a boca cheia, antes de atacar os rolinhos primavera.

— Itadakimasu — Shino repetiu, dando inicio a refeição com menos voracidade do que Kiba, embora com igual felicidade e satisfação.

— Hum... — o garoto deu uns soquinhos no peito, quando uma porção de arroz desceu meio torto — To pensando em arrumar um emprego de meio período. Algo para compensar as missões.

— Se Tsunade san achar prudente... não é melhor esperar um pouco mais?

— Vou perguntar na próxima consulta. Também quero perguntar algumas coisas que nem pensei na hora. Acho melhor perguntar pra ela do que pro Iruka sensei, não é? Será que ele vai ficar chateado se eu fizer perguntas sobre filhos?

— Não. Ou ele não te ajudaria com as explicações se tivesse um tema desconfortável.

— Ah, tem razão. Eu só quero juntar dinheiro pra pagar o hospital. Não deve ter ficado barato... o que foi? — no meio da frase Kiba sentiu apreensão fluir do Alpha — Shino... ficou tão caro assim?! Sem desespero, eu arrumo emprego integral e...

— Não. Não é isso. O tratamento já foi pago.

— Já? Você tinha dinheiro guardado? Ou foi a minha mãe?

— Foi a família Yamanaka — Shino resolveu contar de uma vez.

Kiba quase derrubou o par de hashi.

— Quê?

— Fui conversar com Tsunade san e ela me contou.

Inuzuka Kiba precisou de alguns segundos para se recuperar do baque.

— Eu... eu... preferia não... dever nada pra eles... se importa se... — tentou perguntar e, apesar da dificuldade em articular as palavras, Shino conseguiu compreender a mensagem.

— Tudo bem. Vou falar com Yamanaka san, só me dá um tempo. Não vou conseguir amanhã ou depois — ter que encarar a família da pessoa responsável por tanta dor não era fácil nem para alguém tão ponderado quanto Shino.

— Tranquilo — Kiba nunca exigiria nada em sentido contrário.

O Alpha observou que era a terceira ou quarta vez que Kiba mergulhava o mesmo pedaço de rolinho primavera no molho shoyu, de modo distraído.

— Se preferir posso pedir para um adulto intermediar com os Yamanaka. Amanhã eu...

— Não! — Kiba cortou a oferta fazendo uma careta — A gente é adulto agora, marido. Temos que resolver nossos problemas como uma família, não?

Lá estava aquele jeito direto Inuzuka que acertava que nem punhal, trazendo consigo verdades e maturidade inesperadas.

— Tem razão — anuiu.

Kiba sorriu. Aparentemente seu apetite deu sinal, pois ele voltou a comer sua refeição, que já começava a esfriar. Shino o imitou, dando o assunto por encerrado.

Depois do jantar, Shino se prontificou a cuidar das louças e ajeitar tudo. Kiba não reclamou, pelo menos no primeiro dia de regresso deixaria que o companheiro o mimasse daquele jeito. A partir da manhã seguinte, retornaria a rotina. Repousara demais no hospital, não aguentava mais ficar sem fazer nada. Por hora conformou-se em ir colocar um pijama limpo e fechar a casa para que pudessem dormir.

Ao fim da arrumação, Shino foi tomar banho e também se trocar para dormir. Fez tudo muito depressa, pois sentia ansiedade e nervosismo dimanando através do vínculo. Alguma coisa estava incomodando Kiba, queria ir logo oferecer algum conforto.

Assim que entrou no quarto, as emoções ruins que fluíam se dissiparam, como se não tivessem existido. Foi recebido por uma sensação tão boa quanto o sorriso que Kiba lhe enviou.

— Você não imagina como eu senti falta da nossa cama!

— Ah, eu posso imaginar sim — Shino largou a urgência de lado, indo acomodar-se sob as cobertas que já estavam quentinhas graças ao calor do corpo de seu companheiro. Calor que o atingiu diretamente quando o Ômega veio deitar-se sobre seu peito.

— Como a vida é engraçada! — Kiba suspirou — No começo, na primeira noite que eu vim pra cá, minha cabeça estava cheia de fantasias meio assustadoras sobre dormir na mesma cama que você. E nesses dias no hospital, eu só queria voltar logo pra cá e poder ficar assim...

Shino anuiu de leve, passando os braços pelas costas de Kiba numa espécie de abraço.

— Nem na guerra tive tanto medo. Pensei que fosse perder você.

— Não tenho esse sentimento, porque eu tava inconsciente e sem noção de como a situação ficou ruim. Depois vocês me contaram, mas não é a mesma coisa, né?

— Não, é um pouco diferente.

Kiba silenciou. Foi quando aquela sensação inicial de nervosismo e desconforto voltou. O Alpha esperou, porque conhecia bem seu companheiro. Pressionar não adiantava nada, ele acabaria falando quando estivesse pronto.

Nesse clima estranho, Shino não sentiu a primeira lágrima, nem a segunda ou a terceira. Só foi percebê-las quando caíram em quantidade suficiente para transpassar o tecido do pijama e atingir sua pele.

— Kiba...

— Eu sou tão burro assim? Não desconfiei de nada, Shino! De nada! Eu não devia ter... sei lá...? Um instinto ou intuição? Achei que a Ino era nossa amiga... ela até me dava dicas pra ajudar!

Shino respirou fundo e o abraçou com mais força.

— Então devo ser mais burro que você. Porque eu confiei em deixá-los sozinhos. Não fazia ideia de que vencemos todos os inimigos vindos de fora, mas o pior inimigo é quem menos desconfiei — ele hesitou alguns instantes — Havia algo estranho nela, todas as vezes. O jeito como não me encarava e não falava direito comigo não era o normal. Mas... eu pensei que era por causa do que aconteceu na guerra. Pensei que ficar longe seria mais confortável para ela. E no fim... — o sentimento de falhar era latente. Que piada de Alpha se tornou! Um Alpha incapaz de proteger o companheiro dentro da própria casa.

— Não foi culpa sua! — Kiba exclamou depressa com a voz tremendo pelo pranto, querendo afastar aqueles pensamentos de Shino, assustado com a intensidade da sensação que o atingiu. A responsabilidade que Shino sentia era imensurável. Então as próprias palavras ecoaram em seus ouvidos — Não foi minha também. Foi culpa dela, só dela.

— Hn — Shino concordou, aliviado porque o pior parecia estar passando. Algum tempo depois, sussurrou: — Obrigado.

— Pelo quê? — a voz de Kiba veio cheia de sono.

— Por não chorar sozinho. Eu estou aqui com você, Kiba. Dói quando me põe de lado.

— Desculpa, marido — ele bocejou — Esse negócio de relacionamento é complicado. Mas até que eu aprendo rápido. Prometo que vou tentar encher sua blusa de ranho mais vezes, tá bom?

Shino suspirou baixinho e não respondeu. Soube pelo vínculo que o outro acabara de adormecer. Também se envolveu naquele silêncio caloroso que eram as noites entre ambos e se rendeu ao sono.

Ainda era tempo de curar as feridas. E, nesses casos, diálogo era um bom remédio.

Notas finais
Até sexta! ♥