A Lei do Amor
24 Capítulo 24
Notas iniciais

Capítulo 24
— Sinto muito — ela fechou as mãos em punho e abaixou a cabeça — É minha culpa. É tudo minha culpa! Não pensei que depois de... o... chá... o chá de camomila... esse tempo todo... estive fazendo Kiba beber...
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Shino não compreendeu por que algo assim seria grande coisa. A resposta descartando o pedido de desculpas veio à ponta da língua e ali ficou.
— Camomila?! — Tsume e Tsunade perguntaram ao mesmo tempo, antes que o Alpha pudesse falar. Para que, em seguida, a médica repetisse, tensa: — Camomila...?
— Desculpa... — Ino continuou chorando.
— Desde quando? — Tsunade voltou sobre os dois passos que dera, sua mente trabalhando sagazmente e somando todos os pontos.
— Desde antes do vínculo deles. Na primeira vez que eu fui visitá-lo.
— Garota... você fez de propósito?! — Tsume não acreditou no que ouvia.
— Sim, mas... eu não pensei que aconteceria algo assim!
Shino olhava de uma para a outra daquelas três mulheres sem compreender o ponto. Tsunade foi a primeira a notar não apenas a confusão do Alpha, mas todas as implicações por trás da confissão de Yamanaka Ino.
— Camomila é uma erva inofensiva, no geral. Mas contém componentes extremamente abortivos. Quando ingerida no início da gestação, em altas doses e com frequência, induz ao aborto. Claro... — Tsunade ofegou — Desde antes do vínculo?! Por isso a adaptação corporal foi tão dolorosa e ele sofreu tanto daquela vez! Porque o Chakra de Kiba tentava seguir o fluxo da essência Ômega e preparar o corpo dele para engravidar, enquanto a camomila forçava o contrário.
Shino foi bombardeado por uma sensação de irrealidade sem precedentes. Estaria preso em um tipo de pesadelo, onde coisas sem lógica aconteciam? Era difícil assimilar as informações.
— Por quê? — ele se ouviu perguntando — Por que você faria algo assim?
Ino encolheu-se um pouco, ainda de cabeça baixa. As lágrimas pingavam e iam somar-se no chão de piso branco.
— Eu nunca quis cumprir essa lei, nem ter um filho com Shikamaru. Pedi umas dicas pra minha mãe e ela me falou sobre a camomila. Se eu tomasse sempre, chá bem forte, provavelmente não engravidaria — ela passou o braço pelos olhos, para afastar as lágrimas — Então eu pensei... pensei que seria tipo um meio preventivo, como usar camisinha. E se eu desse pro Kiba também, ele e o Shino não teriam filhos e não continuariam com o vínculo depois de dois anos...
— Ino... — Aburame ainda não via o ponto. Qual o objetivo de se agir assim? Para que planejar algo que envolvia duas outras pessoas, para que fazer mal ao casal que a considerava amiga?
— Desde que... desde que me salvou na guerra eu percebi que você é incrível, Shino. Lembra? Você salvou mais do que a minha vida — Ino soluçou — Eu comecei a gostar de você. Pensei que estava se vinculando ao Kiba por amizade, para protegê-lo. Dai, depois que acabasse a imposição da lei, vocês se separariam e eu tentaria te conquistar.
O impacto das palavras atingiu a todos ali. Até mesmo a recepcionista, paralisada atrás do balcão, acompanhando o desenrolar sem outra opção. Que plano articulado e complexo Ino bolara, camuflado atrás de seus gestos de amizade!
— Mas... depois de um tempo eu percebi que era muito mais do que simples afeto, Shino. Eu percebi que o vínculo de vocês tornou-se sincero. Então eu me afastei e pensei que o chá não faria mais efeito depois que Kiba parasse de tomar. Estou tão arrependida!
— Kiba está lutando pela vida por sua culpa — Shino sintetizou em uma frase o principal do que compreendera, finalmente pondo sentido nas palavras iniciais que ela dissera.
Ino apenas balançou a cabeça. Vergonha e culpa corroeram cada fibra de seu ser. Era incapaz de encarar qualquer um ali nos olhos. Nunca imaginara que causaria uma tragédia tão grande!
Tsume foi a primeira a notar. Era uma mulher de agir rápido, mas aquela garota, quase uma criança, confessando um plano para prejudicar seu filho teve o efeito de anestesiá-la. Apenas um instinto muito forte de sobrevivência a fez baixar os olhos para as mãos do Alpha e notar a trilha de insetos que se agitava sobre a pele. Trocou um olhar significativo com Tsunade, antes de recuperar o controle sobre suas ações.
Adiantou-se um passo e tocou o ombro de Shino.
— Sua dor é grande, ninguém entende melhor do que eu. Mas mantenha a cabeça no lugar, Kiba precisa de você.
Tudo o que não necessitavam era do hospital sendo invadido por insetos. A situação exigia calma. Mesmo alguém intempestivo e impulsivo como Tsume percebia isso.
— Pelo menos sabemos o que aconteceu — Tsunade respirou fundo, virou-se para a recepcionista: — Avise o Conselho, quero uma autoridade aqui o quanto antes. Agora sei que tipo de substância está no corpo de Kiba.
Ela deu as ordens, pegando a deixa que a fala de Tsume proporcionara. Não podia perder tempo ali, ouvindo os planos sonhadores de uma quase adolescente. As consequências desse mesmo plano explodiam em suas mãos! E o cenário mostrou-se o pior possível: camomila era algo natural, o organismo shifter não reconhecia como toxina. E se Kiba vinha bebendo aquilo sem saber por um longo tempo, haveria uma quantidade acima da média para se eliminar. No fim, não se resumia a um remédio ingerido, o que seria fácil exterminar, desde que soubessem exatamente do que se tratava.
Tsunade não fazia a menor ideia de por onde começar. Mas não podia transparecer isso. Deu meia volta e regressou pelo corredor para as salas internas do hospital.
— Shino, me perdoa — Ino falou baixinho, rouca de tanto chorar. Planejava evitar que Kiba tivesse filhotes, sim. Mas gostava do garoto. Se afeiçoara a ele e tão logo compreendera que o relacionamento entre Alpha e Ômega não acabaria no decorrer de dois anos, ela conformou-se em desistir do que sentia por Shino e se afastara para deixá-los ser felizes. Não calculava que os efeitos maléficos da camomila durariam tanto tempo!
— Perdoar? Perdoar? — Shino deu a impressão de que perderia o controle. Mas era um Aburame, afinal. Acabou por levar uma mão ao rosto, cobrindo os olhos para esconder as lágrimas — Você matou o meu filho.
Tsume encerrou a pouca distância que a separava do Alpha e o abraçou, incapaz de permitir que Shino chorasse sozinho. Aquela dor ela entendia, já sentira na pele uma vez. Corria o doloroso risco de sentir novamente.
Shino aceitou o abraço. O choro silencioso traindo a verdade sombria que rodeava a ambos. Se eles perdessem Kiba, perderiam tudo.
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O ocorrido foi tão atípico que o Hokage em pessoa veio apurar o que estava acontecendo. O diretor do hospital teve a delicadeza de oferecer uma das salas de consulta vaga para que tivessem privacidade. Tsume se encarregou de explicar o que sabia, e entregar Ino à custódia do velho homem.
O clima ruim tornou-se pior com a partida do Hokage e de Ino. Ao regressar à recepção, Shino estava tão abatido que condoeu o coração de Tsume. Ela sofreu tanto por ele quanto pelo próprio filho.
— Precisa comer alguma coisa, garoto — ela falou a certo ponto da tarde.
— Não sinto fome — a resposta veio apática. Shino estava sentado numa das poltronas, a cabeça inclinada até encostar a nuca na parede, os olhos fixos no teto.
Não sentia fome, nem sede. Na verdade, não sentia nada além de uma decepção enorme, a sensação de ser traído por alguém a quem se considera amigo. E raiva. Uma raiva tão grande que ameaçava tragá-lo para a escuridão. Ao mesmo tempo em que ficava feliz por ter se controlado, também se cobrava. Deveria ter se vingado de Ino? Devolvido com igual moeda? Olho por olho? Ou se segurar era o caminho certo?
Como Ino conseguira ter tamanho sangue frio? Ser bem recebida na casa deles, tratada com tanta consideração, enquanto tramava prejudicá-los da forma mais baixa possível, com uma crueldade que Shino se considerava incapaz de mensurar.
No fundo sabia que controlar-se era a melhor opção. A única opção. Tsume tinha razão, não podia tomar para si a retaliação contra Ino. Não viviam em uma sociedade bárbara. Se atacasse Ino naquele hospital, colocaria a segurança de todos os pacientes em perigo. E depois viriam as consequências. Implicações que talvez o afastassem de Kiba.
Shino nunca permitiria que as ações de Ino os prejudicasse ainda mais. Portanto se segurar e entregar o futuro ao Conselho de Konoha era a única solução cabível.
O dia escurecia rumo a segunda noite que passariam no hospital, quando Tsunade surgiu no fim do corredor. Sua presença colocou Shino e Tsume em alerta imediato. A médica estava acabada. Visivelmente exausta.
Ela veio caminhando devagar e sentou-se na poltrona, aproveitando o espaço vago ao lado de Shino. A recepção estava vazia naquele momento. Todos os pacientes que procuraram o hospital tinham sido atendidos e liberados ou internados. Quem estava no atendimento agora era um rapaz, que teve presença de espírito o bastante de sair de trás do balcão e afastar-se, sussurrando algo sobre buscar um pouco de café.
— Vamos conversar na minha sala — Tsunade falou depois de alguns segundos. Ponderava como começaria a dar as notícias.
— Não se preocupe com privacidade — Tsume cortou. Àquela altura Konoha inteira já deveria estar a par do drama — Como meu filho está?
A médica meneou a cabeça.
— Sinto muito. As perspectivas não são animadoras.
— Mas você já descobriu o que ele bebeu — Shino levantou-se da poltrona — Já sabe que contramedida usar, não sabe?
Tsunade levou a mão à nuca e massageou.
— Não é tão simples, Aburame kun. As contramedidas são usadas para lidar com medicamentos e produtos tóxicos. Camomila não é veneno. É até favorável para shifters, exceto nessa condição específica.
— Não entendo! — desesperado, começou a andar de um lado para o outro.
— Beber um chá natural benéfico é como beber água. Nosso organismo digere e distribui pela corrente sanguínea. Ele se espalha pelo corpo, porque não é visto como um agente prejudicial e isolado pelos anticorpos. Percebe? Os elementos da camomila tiveram tempo e vieram em quantidade o bastante para se espalhar e bloquear os pontos vitais de fluxo do Chacra para forçar o aborto. Mas não é algo que eu possa simplesmente aplicar uma técnica específica e resolver.
— E agora? — foi Tsume quem perguntou.
— Mandei que entrassem em contato com a aldeia da Areia. Eles atenderam nosso pedido e um especialista vem me ajudar. Tentei tudo o que eu sabia, mas... não há mais nada que eu possa fazer sozinha. Ao menos Kiba continua na mesma condição. Não houve melhora, mas também não tivemos piora em seu quadro.
Shino cerrou os punhos. Que tipo de consolo era aquele? A insegurança não diminuíra em nada! Se Tsunade, maior autoridade em jutsu medicinal, era incapaz de ajudar Inuzuka Kiba, então quem seria?
Pois Tsunade viu na tristeza de Shino, um motivo para renovar a motivação. Toda a situação era causada por uma lei imposta ao povo, e shiters jovens demais viam-se cara a cara com um problema de difícil solução. Ela era adulta, especializada e forte. Ela era responsável pela segurança e bem-estar daquele casal. Sua desesperança refletiria neles. Errara pela segunda vez com Aburame Shino em menos de vinte e quatro horas.
Ficando em pé, Tsunade disse com firmeza em sua voz:
— Já te disse antes, Aburame kun, seu companheiro está lutando para sobreviver. Kiba não desistiu. Nós não temos o direito de desistir. Não posso seguir cuidando dele sozinha, por isso pedi ajuda. Não quer dizer que vou abrir mão de continuar tentando. Nosso pequeno Ômega é forte e...
— TSUNADE SAMA! — o rapaz da recepção veio apressado pelo corredor, trazendo um copo em cada mão, pingando café no chão, com uma expressão que revelava preocupação — Os enfermeiros pediram para a senhora ir imediatamente!!
Ela atendeu ao chamado sem querer saber qualquer detalhe. E, nas atuais circunstâncias, era desnecessário. O que quer que acontecera, só podia ter algo a ver com Kiba.
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