A Lei do Amor
25 Capítulo 25
Notas iniciais

Ela atendeu ao chamado sem querer saber qualquer detalhe. E, nas atuais circunstâncias, era desnecessário. O que quer que acontecera, só podia ter algo a ver com Kiba.
—--
Daquela vez Shino recusou-se a acompanhar o desenrolar passivamente. Sem hesitar, correu atrás de Tsunade, ignorando com desenvoltura a tímida e inútil tentativa de pará-lo feita pelo funcionário.
Viu quando a médica virou a direita no corredor e acelerou o passo. Assim descobriu que ela tomava à esquerda em uma bifurcação, caminho que dava acesso a outro corredor amplo, com inúmeras portas de ambos os lados, provavelmente a ala de internação masculina.
Na terceira porta do lado esquerdo estava parado um pequeno grupo de enfermeiros, encarando a folha de madeira fechada. Eles abriram espaço para Tsunade que chegava, enquanto explicavam algo que Shino não conseguiu ouvir. Ele não pensou duas vezes: caminhou decidido até eles, que não deram importância a sua presença, ou talvez não notaram ainda, abstraídos pelo que acontecia.
—... e foi isso, Tsunade sama — dizia um rapaz — Pode comprovar por si mesma.
Ela o observou brevemente, refletindo sobre o que ouvira. Em seguida encarou a porta, respirou fundo e estendeu a mão, tocando a fechadura e puxando-a em sua direção. Conseguiu abrir um pequeno vão, então a maçaneta escapou de seus dedos e a porta se fechou com um leve “click”, como se uma força a chamasse de volta.
Surpresa, repetiu o gesto, obtendo igual resultado. Assim que abria alguns centímetros, a porta era fechada de volta, atraída para o batente como o polo oposto de um imã, deslizando suavemente.
— Viu? — o mesmo enfermeiro soou impressionado — Eu vim trazer lençóis limpos, mas estava com os braços ocupados e tive uma dificuldade para abrir a porta. Por isso percebi que ela se fechou sozinha. Fiquei em dúvida se deveria tentar entrar de qualquer jeito, e fui perguntar pro enfermeiro-chefe. Ele achou melhor chamar a senhora antes de mais nada.
— Muito bem — ela reconheceu a decisão como acertada — Fascinante...
Shino adiantou um passo, curioso sobre a cena.
— O que está acontecendo? — só então sua presença foi notada.
— Aburame kun, essa área é restrita. Preciso pedir que volte para a sala de espera — Tsunade não soou brava de verdade.
— Mas...
Tsunade sorriu para ele, de algum modo parecendo menos cansada do que até então.
— Sabe quando a gente controla o Chacra e o manipula como uma arma ou um acessório para nos ajudar?
Shino franziu as sobrancelhas ao responder:
— Tipo concentrá-lo nos pés para escalar arvores e paredes?
— Sim, algo como isso. Também é possível concentrá-lo e projetá-lo, e eu desconfio que é o que vemos aqui. De alguma forma Kiba está manipulando o Chacra e tentando mostrar algo. Talvez seja um pedido para não interferirmos.
— Por quê?! — Shino voltou os olhos para a porta.
— Não sei, Aburame kun.
— A gente emana energia sem querer — um outro enfermeiro, mais velho, resolveu opinar — Será que isso não tem atrapalhado? Apesar do isolamento, sempre que alguém entra ali, apesar do treinamento que temos, descompensa o ambiente.
Tsunade anuiu.
— Faz sentido. Toda criatura viva desprende ao menos um pouco de Chacra... pode ser uma tentativa de evitar contato externo — ela ofereceu um sorriso um pouco mais amplo — De qualquer jeito é uma excelente notícia, Aburame kun! Se Kiba consegue manipular seu Chacra assim, quer dizer que ele está se recuperando!
Shino sentiu o coração disparar. Por fim uma luz no fim do túnel!
— Que bom — ele sussurrou — Que bom.
— Por favor, volte para a sala de espera. Eu te atualizo sobre qualquer novidade.
O rapaz concordou com um aceno de cabeça e se foi, depois de dar uma espiadinha rápida na direção do quarto. Então Kiba estava ali! Tão pertinho! Se pudesse vê-lo ao menos por alguns segundos... mas logo desistiu. Era melhor seguir as ordens médicas, sem desobedecer pela segunda vez.
Tsunade mantinha a face tranquila, embora seu interior exultasse. Se perguntou desde quando Kiba estaria tentando comunicar aquilo, um ato tão sutil, que podia estar acontecendo antes e só fora percebido sem querer por um enfermeiro.
Não podia negar uma coisa: Ômegas eram criaturas fascinantes. O jeito como aquele garoto se agarrava a vida, se protegendo com os meios que estavam ao seu alcance.
Bom, esse era o papel deles na sociedade, não?
Ou talvez a personalidade de Kiba lhe garantisse a vontade de continuar vivendo, indo as últimas consequências para proteger a própria vida.
— A própria vida... — a médica sussurrou, ganhando olhares dos enfermeiros — Não... não!
Ninguém entendeu a expressão que passou pela face dela. Uma mistura de apreensão e surpresa que os pôs em alerta.
— Tsunade sama...? — o enfermeiro mais velho perguntou.
— Pelos deuses, como fui tão cega?! Vou engolir meus diplomas depois que isso acabar! — ela encarou o homem que acabara de falar e ordenou em um tom de voz contundente — Não permita que ninguém acesse o quarto além de mim!
Sem esperar resposta; ela abriu a porta e, ignorando o sinal de Kiba, entrou no quarto.
Os enfermeiros assistiram a cena estarrecidos. Mas não tinham outra opção a não ser seguir a ordem.
—--
Shino voltou para a sala de espera e sentou-se ao lado de Tsume, ignorando o olhar irritado que o recepcionista lhe enviou. Em poucas palavras explicou a cena que presenciara, dividindo o alívio das boas notícias com a mãe de Kiba.
— Vá para casa, Shino kun — Tsume falou suave — Você precisa descansar...
— Não, prefiro ficar aqui.
— Você precisa descansar, comer alguma coisa, tomar um banho. Não seja arrogante. Eu sou a mãe de Kiba, se ele acordar enquanto você estiver fora, será muito bem acolhido — ela soou um tanto mais rude — Sei que gosta do meu filho. E sei que está quase tão preocupado quanto eu. Não tem que ficar aqui até desmaiar de exaustão pra provar isso.
— Não quero provar nada — ele rebateu. Pensou por alguns segundos e acabou se rendendo.
Aceitou ir embora sob a promessa de que seria imediatamente avisado sobre qualquer alteração no quadro de seu companheiro. Passaria essa noite em casa e voltaria pela manhã bem cedo.
No fim das contas, foi uma decisão acertada. Chegar na residência vazia lhe deu um duro golpe de realidade. Encontrou tudo aberto, pois no desespero de levar Kiba para o hospital nem se lembrara de fechar. Descobriu Akamaru deitado no sofá, sobre as almofadas coloridas que seu dono comprara.
O animal fez uma festa monumental! Ele saltou do sofá e correu em volta de Shino, latindo, chorando, ganindo, farejando-o inteiro. A recepção calorosa trouxe um pouco de culpa aos ombros de Shino. Esquecera completamente o cachorro!
Providenciou água fresca e ração. Com certeza Akamaru tinha se virado para sobreviver aqueles dois dias, mas a refeição fresca foi mais que bem-vinda. No quintal, Shino aproveitou para recolher as roupas dependuradas ali desde o dia da emergência, quando era a vez de Kiba realizar as tarefas.
Sorriu ao notar como as peças estavam mal lavadas. Aquele garoto era péssimo em qualquer serviço doméstico! E mesmo assim fazia questão de ajudar e cumprir com a parte dele.
Tomou um banho rápido de chuveiro, sem animo ou vontade de encher a banheira. Não sentia fome, sequer tinha apetite. Por isso fechou a casa e foi direto para a cama.
Mas, obviamente, não conseguiu dormir.
No outro dia, saltou cedíssimo da cama. Preparou uma refeição reforçada e montou um bento para levar para Tsume. Conseguiu comer um pouco, dando-se conta de que seu corpo sentira falta de uma refeição, mesmo sem sinalizar através da fome. A última providência foi deixar um tanto bom de ração para Akamaru, sem saber se voltaria ali tão cedo. A casa vazia parecia assombrada. O silêncio trazia consigo memórias dos meses passados, da tentativa de ambos de fazer o vínculo dar certo, da esperança por um futuro feliz.
Sim, a casa vazia era assombrada. E a vida sem Kiba tornava-se igualmente assombrada.
Quase levou roupas limpas para dar para Kiba, ideia descartada sem esforço. Ninguém podia entrar no quarto e, provavelmente, ele teria que usar os trajes de internação até receber permissão para o contrário. Sim, Shino só queria pensamentos positivos sobre o que viria dali pra frente.
Chegou no hospital e logo viu Tsume sentada entre algumas pessoas que esperavam atendimento médico. Ela agradeceu pela comida e foi para a praça de alimentação da cantina, deixando a tarefa de aguardar notícias por conta de Shino. Antes porém, ela esclareceu que continuava tudo sem alterações. Tsunade não aparecera mais, nem algum enfermeiro. Disso concluía que não houvera avanço. Ou retrocesso, o que já era um consolo.
Pelo meio da manhã, Hinata passou pelo hospital, para ter notícias de Kiba. Ela parecia consternada, mas evitou tocar em assuntos delicados, sobre tudo referentes a Ino.
Com aquele jeitinho tímido, Hinata revelou que trazia os desejos de que tudo corresse bem, não apenas seu e do marido, mas de Sakura, Naruto e outros colegas, que confiaram a ela a missão de levá-los ao Alpha. Junto com a garantia de que fariam uma visita assim que o Ômega vencesse o pior. Ninguém tinha dúvidas de que Kiba conseguiria. Já não era mais segredo que o jovem casal passava por dificuldades e de quem era a culpa pelo que enfrentavam.
Shino sentiu-se grato pelo gesto de amizade.
Hinata continuou mais pouco por ali, mesmo depois que a mãe de Kiba voltou, tentando dar algum tipo de apoio com sua presença silenciosa. Quando se despediu para ir embora, Tsume a acompanhou. Decidiu ir para casa tomar um banho, seguindo o conselho que dera a Shino.
Pois ela foi e voltou, encontrando tudo como antes, o mesmo cenário que os acompanhou na luta que travavam. Pessoas doentes procurando atendimento, seus acompanhantes... na recepção, a funcionária do primeiro dia voltara a cumprir sua escala. Incapaz de esconder a expressão apiedada.
Os dois se prepararam para passar a terceira noite insone, tensos de preocupação, quando Tsunade surgiu na ponta do corredor. Os olhos cansados se apoiavam em olheiras proeminentes. Estava meio despenteada, com as roupas desalinhadas, diferente da imagem rotineira. Aquela mulher estava a frente dos procedimentos quase sem os interromper, precisavam reconhecer seu esforço e dedicação.
Ela parou no meio do corredor e acenou. Tanto Shino quanto Tsume se adiantaram, pois o gesto parecia dirigido a ambos sem distinção.
— Vamos conversar — ela informou e os guiou até um dos consultórios vazios. Assim que sentou-se atrás da escrivaninha, retomou a palavra — Esse caso... esse caso foi o maior desafio da minha carreira médica. Duvido que um dia tenha que lidar com algo dessa proporção.
A frase introdutória ganhou a atenção de Shino e de Tsume, que sentaram-se nas cadeiras vazias. A voz de Tsunade revelava seu cansaço, combinando com a aparência no geral; mas, apesar disso, havia um brilho no olhar dela que reacendeu as esperanças de Aburame Shino.
— Eu disse mais de uma vez e vou morrer dizendo: Ômegas são criaturas fascinantes. E o modo como olhamos para eles tem que ser diferenciado. Mas é difícil para mim, como Beta, deixar de pensar de um jeito... estrito. Foram tantas coisas acontecendo, uma por cima da outra, sem dar tempo de juntar as peças, que limitou a análise do caso. Admito que depois de hoje vou questionar toda a minha competência profissional.
— Kiba está bem? — Shino não aguentou a curiosidade. Precisava saber.
— A maior dificuldade nesse caso foi o desequilíbrio do Chacra. Nada do que fizéssemos parecia dar conta de remediar a situação. E o jeito protetor... quando Kiba voltou a energia pra si mesmo e tentou de todo o jeito evitar interferência externa, pensei que se resumia a uma grande força de vontade de sobreviver. Vi isso como apego a própria vida. Mas eu estava completamente errada!
Shino engoliu em seco. Os pelinhos da nuca se arrepiaram ao ouvir a última parte.
— Como assim? — Tsume também não compreendia onde a médica queria chegar.
— Kiba é um Ômega! Fui tão cega! — Tsunade falou exasperada com sua falha de perspectiva — A influência de um Ômega não é consigo mesmo, é com os outros, para atingir e ajudar os demais. A camomila forçou o aborto, e isso é muito triste. Mas ele continuou protegendo o próprio corpo e eu só fui entender o porquê ontem ao fim do dia — ela respirou fundo, recostando-se na cadeira — A concepção foi dupla, Aburame kun, vocês seriam agraciados com gêmeos. Um dos fetos não resistiu, mas o corpo de Kiba estava fazendo de tudo para proteger o outro. E ele conseguiu salvá-lo.
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